Pedro Magalhães

As últimas sondagens e as eleições

São as da Aximage (divulgada hoje), da Católica (divulgada ontem), da Intercampus (idem), da Eurosondagem (idem) e da Marktest (anteontem). Quadro:

Últimas sondagens

Apesar de não parecer (porque só se vê média aritmética e intervalo min-max), reduziu-se a dispersão. A Marktest é que está um pouco desalinhada (o que não é juízo nenhum da minha parte). Se retirarmos Marktest, temos 37-39 para coligação, 32-33 para o PS, 9 para CDU e 7-9 para BE.

A nossa estimação no POPSTAR já andava há uns tempos por estes números. Contudo, integradas todas as sondagens, a coincidência não é completa.

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Primeiro, como explicado ontem, a estimação tende a “resistir” às mudanças mais repentinas, integrando informação anterior. Logo, não coloca o PS tão baixo como na média aritmética das últimas sondagens, nem o BE tão alto. Segundo, as dimensões das amostras são tomadas em conta. Terceiro, importa não esquecer que há uma sondagem divulgada ontem cujo trabalho de campo terminou antes daquele que serviu para sondagens divulgadas dias antes, se me faço entender. Mas a maior parte das sondagens cabem nos nossos intervalos de confiança. Isso é também importante porque duas destas últimas sondagens foram conduzidas presencialmente e com simulação de voto em urna, o que mostra que os resultados são robustos a métodos diferentes. Globalmente,a mensagem é clara quanto aos maiores partidos: a coligação estará com mais intenções de voto do que o PS. No caso da CDU e do BE, enquanto a nossa estimação diz o mesmo para a sua diferença, as sondagens mais recentes não. Sobre PDR e Livre melhor não falar muito, porque temos muito menos informação.

Partindo do princípio que temos um bom retrato das intenções de voto (e enviesamentos amostrais e ocultação de intenções podem ter afectado isso, mas vamos suspender a questão), o que podemos dizer sobre o que será o comportamento de voto dia 4? Dizer que estas intenções se converterão em comportamentos e resultados é um pouco como estar numa 6ª feira de sol em Agosto e dizer que por isso Domingo irá fazer sol também: é bem provável que sim, mas… Há basicamente três coisas que podem acontecer que implicariam diferenças:

1. “Indecisos”: a Católica reporta 17% de pessoas que dizem ir votar mas não sabem em quem (15%) ou não dizem (2%); 11,3% na Intercampus; 18% na Eurosondagem. Se estas pessoas acabarem por ir votar e se distribuírem de forma significativamente diferente pelos partidos daquela que caracterizará aqueles que tinham um intenção de voto e a realizem, pode haver mudanças relevantes, nunca dramáticas tendo em conta estes números, mas politicamente relevantes. Pelo contrário, se se distribuírem mais ou menos da mesma forma ou se a maior parte desses indecisos se abstiver, muito pouco poderá mudar.

2. “Late swings”: as “intenções” declaradas podem ser substituídas por comportamentos distintos dessas intenções. Um conhecido artigo fala em “waking up in the poll booth“: há flutuações de intenções de voto na campanha mas, chegados ao dia da eleição, um percentagem não negligenciável dos eleitores acaba por retornar ao sentido de voto que tinha antes da campanha, esquecendo o ruído das últimas semanas e votando na base de uma reflexão mais geral sobre o que foi a governação e a legislatura. Outro tipo de mudança aponta para voto estratégico, ou seja, eleitores que, na base de informação de sondagens, trocam na recta final o seu partido preferido por outro, para promoverem ou evitarem um determinado desfecho em termos de formação de governo.

3. Abstenção diferencial: um dos grandes desafios das empresas de sondagens consiste em separar os inquiridos que quase certamente irão votar (e assim realizar as intenções declaradas – desde que não as mudem, ver ponto 2.) daqueles que dizem que irão votar mas afinal não acabam por não ir. Preferindo dizer que irão votar quando não sabem se o irão fazer, ou mesmo quando já decidiram abster-se, alguns inquiridos contribuem para inflacionar os valores da participação em sondagens. Isso pode acabar por não ter qualquer reflexo na comparação entre os resultados das sondagens e os resultados eleitorais, se as intenções de voto que essas pessoas declararam não se distribuíam de forma diferente das dos restantes. Mas nem sempre isso acontece. Por vezes há “abstenção diferencial”. Os primeiros resultados de um estudo recente sobre as últimas eleições britânicas sugerem precisamente que o problema terá estado aqui: “Labour lead among unlikely voters grew hugely between 2010 and 2015, suggesting that differential turnout is an important factor in explaining the polling miss: considerably fewer of those saying they were going to vote Labour are likely to have actually turned out to vote”.

Vamos ver o que acontece. Não me ocorre mais nada para dizer na base da informação que existe.

Tenho recebido referências muito amáveis em relação ao Popstar, que agradeço. Relembro que o Popstar foi um projecto apoiado pela FCT, e teve o trabalho, num momento ou noutro, do Mário Silva, do Sílvio Moreira, da Eduarda Rodrigues, do Pedro Saleiro, do Carlos Soares, da Paula Carvalho, da Nina Wiesehomeier, do João Filgueiras, do Manuel Távora (vê lá se arranjas um site, pá) e, mais intensamente no que tocou à componente sondagens, do Miguel Maria Pereira e do Luís Aguiar-Conraria (espero não me ter esquecido de ninguém). No que toca a estas eleições, o Popstar acaba aqui a sua função mais imediata, mas pode naturalmente ser fonte para trabalhos futuros. Os dados estão disponíveis.

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