Pedro Magalhães

Crise e Castigo: o debate

Foi muito clarificador, apesar de não particularmente animador, o debate hoje em torno de Crise e Castigo, de Fernando Alexandre, Luís Aguiar-Conraria e Pedro Bação, na Ordem dos Economistas. Não só no que toca ao diagnóstico das causas da crise portuguesa – em que o grau de convergência dos participantes (Fernando, Francisco Louçã e Vítor Bento), não sendo total, foi suficientemente grande para porventura surpreender — mas especialmente sobre as opções daqui para frente.

Se bem interpreto, Louçã considera os defeitos da arquitectura institucional e política do Euro tão profundos e o seu peso relativo nas causas da nossa crise tão grande que, sem uma mudança radical nessa arquitectura e na sua condução política, não é possível sairmos disto, partindo do princípio que queremos manter o fundamental do nosso estado social (que Louçã me pareceu equacionar com a própria noção de “democracia”, o que é compreensível não apenas no seu quadrante ideológico mas até, de resto, no que sabemos ser o entendimento geral do eleitorado europeu – cf. isto.

Para Bento, temos de tratar primeiro das causas domésticas da crise (captura do estado pelos interesses do sector dos não-transaccionáveis, estabelecer prioridades para os aspectos do estado social que importa privilegiar em face de constrangimentos e recursos escassos, etc), para ganhar na Europa a “credibilidade” suficiente para colocar em cima da mesa o facto de que as políticas dos últimos anos atacaram o problema errado (a dívida) e não o problema certo (os desequilíbrios simétricos de credores e devedores, deficitários e excedentários, e a necessidade de os ajustar simultaneamente).

Por isso, perceberão também que, de um lado e de outro, o tom não podia ser optimista (“vamos bater com a cabeça na parede e parti-la muitas vezes”, Bento; “se é para isso, não vai ser possível”, Louçã). O Fernando no fim declarou-se optimista e tentou animar a coisa, dando exemplos de medidas concretas para resolver problemas concretos. Nice try, but… Em suma, foi muito bom, mesmo que não me ajude a dormir hoje.

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