Pedro Magalhães

Eleitores “brancos” e “negros”: muitas semelhanças, algumas diferenças*

Quando se discutiu a inclusão de perguntas no Censos 2021 sobre “origem e/ou pertença étnico-racial” (terminologia “oficial” do grupo de trabalho designado para o assunto, mas não adoptada na pergunta que o GT acabou por propor), chegou-se a esta formulação:

“Portugal é hoje uma sociedade com pessoas de diversas origens. Queremos melhorar a informação sobre essa diversidade para melhor conhecer a discriminação e desigualdades na sociedade portuguesa. Qual ou quais das seguintes opções considera que melhor descreve(m) a sua pertença e/ou origem?” 

Apesar desta proposta, a decisão final do INE sobre a sua inclusão no Censos foi negativa, por se entender que se trata de “um recenseamento da população e não uma ferramenta para a sua classificação”, mas apontando para a necessidade de realização de um inquérito sobre o tema.

Estudo Eleitoral Português 2019, realizado junto de uma amostra representativa dos eleitores do Continente, não é, nem pouco mais ou menos, esse inquérito. Contudo, decidiu-se colocar a questão proposta pelo GT, numa versão simplificada (eliminando a frase “queremos melhorar a informação sobre essa diversidade para melhor conhecer a discriminação e desigualdades na sociedade portuguesa”) e agregando as opções de resposta. Eram elas  “Branca/Branco”, “Negra/Negro”, “Cigana/Cigano”, “Asiática/Asiático”, “Outra/Outro” e “Não me revejo em nenhuma destas opções”. 

A resposta a esta pergunta, como a todas as outras — dado não se tratar de uma operação oficial — era facultativa. Dos 1500 inquiridos, 1429 escolheram “Branca”, 51 “Negra”, 4 “Cigana” e 10 “Não me revejo nestas opções”. Quatro disseram não saber e outros quatro optaram por não responder. É desde logo interessante que, mesmo nesta versão altamente simplificada, sejam tão poucos os inquiridos que não se reviam nas opções de resposta ou que optaram por não responder. Mas é também fundamental notar que todos os inquiridos, tendo em conta os objetivos do estudo, têm capacidade eleitoral ativa. Ou seja, não estamos a falar de uma amostra representativa de toda a população residente em Portugal, nem sequer de toda a população adulta, mas apenas de cidadãos portugueses com 18 ou mais anos.

Dito isto, em que medida se distinguem, do ponto de vista das suas atitudes e comportamentos políticos, os eleitores que definem a sua origem ou pertença como “negra” daqueles a definem como “branca”? Há opiniões ou comportamentos mais prevalecentes junto de uns que de outros? Responder a estas questões exige cuidados especiais, dado que os primeiros — os que se definiram, em termos de pertença ou origem, como “negros” — formam uma sub-amostra de dimensões reduzidas. Assim, em todas as análises que se seguem, testou-se se a diferença de proporções ou médias, ou se a relação entre variáveis, eram estatisticamente significativas. Em todos os gráficos, quando virem um *  (asterisco) isso significa que a diferença é estatisticamente significativa a 95%. O que encontramos, então?

  1. Atitudes políticas: muitas semelhanças

Numa escala de 0 a 10, em que 0 significa a posição mais à esquerda e 10 a posição mais à direita, a posição média dos eleitores “brancos” é 4,7. Entre os eleitores “negros” é 4,8. A diferença não é estatisticamente significativa.

A média pode ocultar alguns aspetos da distribuição, pelo que vale a pena observar o gráfico abaixo, que mostra como estes dois grupos se distribuem nas respostas a esta questão. Entre os “negros”, há menos posições extremas e mais posições no centro-esquerda que entre os brancos, mas as diferenças são pouco expressivas.

Passando para temas substantivos, a auto-definição dos eleitores como “brancos” ou “negros” também não ajuda a distingui-los do ponto de vista da sua posição sobre a desigualdade e a redistribuição de rendimentos: quase nove em cada dez “brancos” ou “negros” concordam com a ideia de que “o Governo devia tomar medidas para reduzir diferenças nos níveis de rendimento”.

E o mesmo sucede com o interesse pela política: aproximadamente um em cada três “brancos” ou “negros” dizem-se “muito” ou “razoavelmente” interessados na política. Também é semelhante a prevalência da percepção de que “compreendem os assuntos políticos mais importantes do país” (42% dos ”brancos” concordam, 47% dos “negros”). Da mesma forma, as ideias de que “certas práticas de corrupção se encontram difundidas entre os políticos portugueses”, de que “a maioria dos políticos não se interessa pelo povo”, de que “os políticos são o principal problema de Portugal” ou de que “a maioria dos políticos só se preocupa com os interesses dos ricos e dos poderosos” recebem a concordância de proporções elevadas dos membros dos dois grupos, sem que, uma vez mais, as diferenças tenham significância estatística.

2. Comportamento eleitoral

Questionados sobre se votaram e, em caso afirmativo, em que partido, há uma proporção muito semelhante de “brancos” e “negros” que dizem ter votado em partidos aqui definidos como de “esquerda” (PS, BE, CDU, PAN ou Livre). Mas algo diferente se passa no que toca à opção por um partido de “direita” (PSD, CDS, Chega, IL ou  Aliança). Entre os eleitores “negros”, a opção de voto por um partido de direita é residual, muito inferior ao que se encontra entre os “brancos”. Como podem as proporções de “brancos” e “negros” que votam à esquerda serem tão semelhantes e as proporções de “brancos” e “negros” que votam à direita tão diferentes? Isso sucede porque uma terceira opção, a abstenção, se manifesta também de forma diferente:

Um teste de χ2 revela que a relação entre a pertença ou origem e o comportamento de voto é estatisticamente significativa: eleitores “negros” e “brancos” não votam da mesma forma.

É intrigante a diferença no que toca à abstenção. Como vimos antes, eleitores “negros” e “brancos” exibem níveis semelhantes de interesse pela política e de concordância com a ideia de que “compreendem os assuntos políticos”. Se uns votam mais do que os outros, a explicação não deverá estar no nível de envolvimento político “subjetivo”. Será preciso analisar estes dados com outras ferramentas para determinar se as diferenças de participação eleitoral que aqui aparecem ligadas a “pertença ou origem” não se deverão a níveis diferentes de recursos educacionais ou outros, a diferentes incentivos para o voto ligados ao círculo eleitoral onde votam ou a outro factor qualquer. Nos Estados Unidos, por exemplo, sabe-se que, para além de problemas relacionados com os obstáculos ao recenseamento, os eleitores “negros”, especialmente os menos interessados pela política, tendem a votar mais quando lhes são dirigidos maiores esforços de mobilização eleitoral ou quanto maior for o número de candidatos que identifiquem como tendo a mesma pertença ou origem. Outra hipótese é que talvez os temas que mais interessam a “brancos” e “negros” não sejam iguais e que a menor relevância dos segundos no discurso partidário e no debate político torne a oferta política menos atraente para os eleitores “negros”. Mas tudo isto está por estudar em Portugal. 

3. “Minorias” e imigração

Uma possível surpresa: questionados sobre se a vontade da maioria deve prevalecer sobre os direitos das minorias, ou se as minorias se devem “adaptar aos costumes e tradições de Portugal”, não há diferenças significativas na prevalência destas opiniões entre “brancos” e “negros”: 

Por outras palavras, a utilização de termos como “minorias” ou “direitos das minorias,” pelo menos nestas formulações, não suscita reacções significativamente diferentes entre “brancos” e “negros”.

Onde as diferenças já aparecem de forma mais marcada é nas atitudes em relação à imigração. É certo que são poucos os “brancos” ou os “negros” que acham que “a cultura portuguesa é prejudicada pelos imigrantes”:

Mas a minoria daqueles que relacionam a imigração com a criminalidade é ainda mais minoritária entre os “negros” que entre os “brancos”:

E ao passo que a concordância com a ideia de que “os imigrantes são bons para a economia portuguesa” é quase unânime entre os “negros”, o mesmo não sucede entre os “brancos”:

Finalmente, os eleitores portugueses “brancos” e “negros” tendem a partilhar ideias diferentes sobre o que é “importante para ser verdadeiramente português”. “Ter nascido em Portugal”, “ter antepassados portugueses” ou mesmo “seguir os costumes e as tradições portuguesas” são significativamente mais mencionados como “muito importantes” por “brancos” do que por “negros”. Onde a diferença entre uns e outros desaparece é na importância atribuída ao domínio da língua.

Falta saber muita coisa, não apenas sobre estes grupos — os eleitores que definem a sua pertença ou origem desta forma — mas também sobre o resto da população residente em Portugal, “branca” ou “negra”, que não tem direito de voto, e que pode ser muito diferente de muitos pontos de vista da população que é representada aqui.

Contudo, o retrato que fica desta breve análise resume-se rapidamente: irrelevância desta categorização para explicar um grande número de atitudes em relação à política, incluindo posicionamento ideológico, interesse e eficácia políticas e atitudes em relação à classe política; mas alguma relevância para explicar seja o comportamento eleitoral sejam atitudes em relação à imigração e à concepção do que é “ser-se português”. Tudo isto, claro, está pendente de análises mais aprofundadas, que a partir de agora serão possíveis com os dados ao nosso dispor.

*Agradeço os comentários de Ana Filipa Madeira, Jorge Vala, Mariana Miranda e Rui Costa Lopes. Análises, interpretações e possíveis erros são da minha inteira responsabilidade.

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