Pedro Magalhães

Margens de Erro

Crise e Castigo: o debate

Posted May 19th, 2016 at 2:59 pm4 Comments

Foi muito clarificador, apesar de não particularmente animador, o debate hoje em torno de Crise e Castigo, de Fernando Alexandre, Luís Aguiar-Conraria e Pedro Bação, na Ordem dos Economistas. Não só no que toca ao diagnóstico das causas da crise portuguesa - em que o grau de convergência dos participantes (Fernando, Francisco Louçã e Vítor Bento), não sendo total, foi suficientemente grande para porventura surpreender — mas especialmente sobre as opções daqui para frente. Se bem interpreto, Louçã considera os defeitos da arquitectura institucional e política do Euro tão profundos e o seu peso relativo nas causas da nossa crise tão grande que, sem uma mudança radical nessa arquitectura e na sua condução política, não é possível sairmos disto, partindo do princípio que queremos manter o fundamental do nosso estado social (que Louçã me pareceu equacionar com a própria noção de "democracia", o que é compreensível não apenas no seu quadrante ideológico mas até, de resto, no que sabemos ser o entendimento geral do eleitorado europeu - cf. isto. Para Bento, temos de tratar primeiro das causas domésticas da crise (captura do estado pelos interesses do sector dos não-transaccionáveis, estabelecer prioridades para os aspectos do estado social que importa privilegiar em face de constrangimentos e recursos escassos, etc), para ganhar na Europa a "credibilidade" suficiente para colocar em cima da mesa o facto de que as políticas dos últimos anos atacaram o problema errado (a dívida) e não o problema certo (os desequilíbrios simétricos de credores e devedores, deficitários e excedentários, e a necessidade de os ajustar simultaneamente). Por isso, perceberão também que, de um lado e de outro, o tom não podia ser optimista ("vamos bater com a cabeça na parede e parti-la muitas vezes", Bento; "se é para isso, não vai ser possível", Louçã). O Fernando no fim declarou-se optimista e tentou animar a coisa, dando exemplos de medidas concretas para resolver problemas concretos. Nice try, but... Em suma, foi muito bom, mesmo que não me ajude a dormir hoje. 13247967_10209271709492517_7826802561638719429_o

by Pedro Magalhães

Rescaldo das sondagens

Posted January 25th, 2016 at 6:44 pm4 Comments

As últimas sondagens publicadas antes das presidenciais estão aqui. Pegando apenas nos resultados dos cinco primeiros candidatos (para não baixar artificialmente a média na comparação com eleições anteriores), o maior desvio absoluto médio foi da Eurosondagem (4.8 pontos, muito por culpa dos 13.3% para Belém e os 5.3% para Marisa), e o menor foi o da Católica (1.6 pontos, um pouco pelas razões contrárias: foram os que mais captaram o colapso de Belém e a subida de Marisa).

Nas sondagens à boca das urnas, Eurosondagem (0.25) e Católica (0.31) com desvios absolutos médios ínfimos, e a Intercampus um pouco pior (0.81), sobrestimando um pouco Marcelo e subestimando Nóvoa). Mas deixem-me dizer isto, que me sinto mais à vontade agora por não ser parte interessada: eu gostava muito que os resultados das sondagens não andassem a circular por centenas de pessoas naquela meia-hora antes de serem anunciados. Até há que faça tweets antes das 20h com as projeções que alguém lhes mandou e dizem que são palpites próprios.E se é para andar a circular a informação antes das 20, então mandem fazer o trabalho a um consórcio de empresas que se pode fazer melhor e dividir o custo por todos. É assim que se faz nos Estados Unidos.

Ficámos bem servidos? Os resultados da maior parte das sondagens pré-eleitorais não defraudaram, na minha opinião: claro que subestimaram Marisa e sobrestimaram Belém, mas é possível defender sem corar que seria difícil apanhar essa tendência em toda a sua força com o trabalho de campo a terminar, nalguns casos, a 17. De lembrar também que estamos a falar de eleições com mais de 50% de abstenção, o que como é sabido dificulta tudo isto. Eu acho que temos razões para acharmos que está a ser feito, em geral, bom trabalho. Em geral.

by Pedro Magalhães

As últimas sondagens presidenciais

Posted January 21st, 2016 at 11:13 pm4 Comments

A não ser que saia algo inesperado amanhã, são estas:

últimas Actualizo também o quadro da manhã:

Untitled 2 O que se vê?

1. Marcelo em perda. Dito isto, em 11 sondagens, apenas uma não lhe deu mais de 50%, e o conjunto das sondagens desta semana dá-lhe um intervalo de confiança que não cruza os 50%. Marcelo está basicamente com a mesma intenção de voto estimada que Cavaco estava em 2006. Mas por outro lado, alguém acredita que a abstenção seja 38% desta vez?

2. Nóvoa e Matias a subirem, Belém a descer, e os efeitos do caso das subvenções mal estarão captados aqui. Duvido que esteja uma quantidade maciça de gente a prestar atenção ao assunto, mas acho que percebemos que qualquer efeito, mesmo que pequeno, não será bom para Belém.

3. Morais e Neto começam a estar em campeonatos diferentes, com Morais a subir e Neto estagnado (a não ser na Intercampus).

4. Notem que Vitorino Silva aparece apenas com 0,2% na Eurosondagem, mas com 2,5 na Intercampus, 2 na Católica e 1,8 na Aximage.

Fontes (verifiquem que me posso sempre enganar): Eurosondagem, Católica, Intercampus e Aximage.

by Pedro Magalhães

Presidenciais: antes das últimas sondagens

Posted January 21st, 2016 at 11:07 am4 Comments

Antes das sondagens que serão conhecidas hoje e amanhã, uma vista de olhos rápida sobre o que aconteceu nas eleições mais recentes:

últimas sondagens Para as eleições de 2006 e 2011, uma média simples das sondagens cujo trabalho de campo decorreu na penúltima e última semana antes das eleições, e sua comparação com os resultados eleitorais. Para 2016, a média das sondagens cujo trabalho de campo decorreu na penúltima e antepenúltima semanas antes das eleições, porque se fosse a última haveria apenas uma única observação. Resultados das sondagens e das diferenças em relação às eleições apresentados com arredondamento às unidades (excepto quando diferenças inferiores a 1), mas cálculos de diferenças em relação aos resultados usam dados com casas decimais. Republicarei o quadro assim que conhecidas as sondagens de hoje e amanhã.

Padrões:

1. A descidas da penúltima para a última semanas seguem-se frequentemente descidas da última semana para o resultado da eleição. O inverso é igualmente verdadeiro.

2. Em 2006 e 2011, o favorito teve menos votos do que a sondagem lhe atribuía na última semana. De resto, em 2001 sucedeu o mesmo e, em menor grau, em 1996. Mas não em 1991 ou 1986.

3. Quer em 2006 quer em 2011, o candidato do PCP teve mais votos do que as sondagens lhe atribuíam.

Que mais conseguem detectar aqui?

by Pedro Magalhães

O problema do PS nas eleições de 2015

Posted January 19th, 2016 at 12:27 pm4 Comments

Há dois posts atrás, mostrei como, na base do inquérito pós-eleitoral de 2015, o PS parece ter conseguido buscar alguns eleitores à abstenção mas esses ganhos mal terão chegado para compensar as perdas. Queria deixar uma pista sobre a razão pela qual isso poderá ter sucedido, baseado nos dados do inquérito.

Em primeiro lugar, sabemos que a evolução da economia nacional, real ou apercebida, tem uma forte influência no comportamento de voto. O tópico genérico no qual se enquadram centenas de artigos sobre o assunto é o chamado "voto económico" (uma bibliografia comentada sobre o tema). Sabemos também que, apesar de modesta, houve uma recuperação real da economia na segunda parte do mandato do anterior governo PSD/CDS, e que essa recuperação está correlacionada com uma contenção das perdas da coligação nas sondagens e com um estancar da subida no PS nessas sondagens, por volta de 2013. Também já tínhamos visto que essa evolução na economia real parecia ter sido detectada por pelo menos uma parte do eleitorado. É território já coberto aqui. Isto sugere uma hipótese genérica para a capacidade da PaF mitigar perdas (que foram grandes mas seriam certamente maiores se a hipótese da "espiral recessiva" se tivesse confirmado) e para a incapacidade do PS para capitalizar com essas perdas.

Mas o inquérito de 2015 dá algumas pistas adicionais. Comecemos por comparar a distribuição dos eleitores em torno da pergunta "Na sua opinião, nos últimos doze meses a situação da economia em Portugal melhorou, ficou na mesma ou piorou?" (aos que respondiam "melhorou" ou "piorou" era depois perguntado se achavam que tinha melhorado ou piorado "muito" ou "um pouco") em 2011 e em 2015. Nitidamente, a opinião geral no pós-eleições em 2015 era pelo menos um pouco melhor do que em 2011:

Screen Shot 2016-01-19 at 11.20.13 Mesmo assim, note-se, quase 50% dos eleitores acham que a situação da economia portuguesa piorou. Contudo, houve algo que impediu o PS de penetrar neste segmento do eleitorado que teria razões para punir o governo. Outra questão no inquérito era "Até que ponto acha que as seguintes instituições e situações são responsáveis pela situação da economia nos últimos anos?" As opções de resposta para cada uma das instituições eram "extremamente responsáveis", "muito responsáveis", "algo responsáveis", "um pouco responsáveis" ou "nada responsáveis". O gráfico seguinte mostra a percentagem de pessoas que responderam "extremamente" ou "muito" responsáveis para "o actual governo", "o anterior governo do PS" ou "os partidos da oposição em geral" entre aqueles que achavam que a economia tinha piorado:

responsabilidade Está aqui o primeiro problema do PS. Entre os que acham que a economia piorou (metade dos eleitores), 3 em cada 4 achavam que o governo PaF tinha muita responsabilidade, mas 1 em cada 2 que o governo anterior do PS também tinha muita responsabilidade. Não é fácil subir à custa da economia com este peso às costas.

Coexiste com este um problema conexo. Perguntou-se aos inquiridos, sobre Passos Coelho e sobre António Costa, até que ponto concordavam com a seguinte afirmação: "É um líder que sabe como fortalecer a economia do país". O gráfico seguinte mostra a diferença entre os que concordaram com essa afirmação para Passos Coelho e os que concordaram para António Costa, primeiro entre o eleitorado em geral, depois entre aqueles que não declararam qualquer identificação com qualquer partido e ainda entre aqueles que não tinham votado em 2011: compet Passos Coelho tem sempre vantagem. Por outras palavras, há mais pessoas que associaram a liderança da PaF a competência económica do que a liderança do PS, e essa vantagem existe não apenas entre o eleitorado em geral mas também entre segmentos do eleitorado que o PS precisava captar para crescer mais em 2015.

Um último gráfico, para mostrar as consequências disto: gap PaF economia Entre os que achavam que a economia melhorou, a vantagem da PaF em votos válidos foi enorme (47 pontos). Mas há uma assimetria nos efeitos da percepção da economia: entre os que acham que a economia piorou, a vantagem do PS foi muito mais pequena (10 pontos). Aparentemente, porque muitos deles consideram o anterior governo do PS responsável (e entre esses a vantagem do PS é anulada) e muitos não reconheceram competência económica a Costa (e entre esses a PaF chega a ficar à frente).

Em suma, não foi apenas o facto de ter havido indicações de que a economia estava a melhorar e pessoas que o detectaram que mitigou a queda da PaF e impediu uma maior subida do PS. Mesmo entre aqueles que não se aperceberam de qualquer melhoria, o crescimento do PS foi impedido pela percepção de que o seu anterior governo tinha responsabilidades na má situação económica e de que a Costa e faltava competência nesse domínio. Há uns meses, antes da eleição, especulei que aquilo que estava a impedir o PS de subir nas sondagens era algo semelhante ao que se tinha passado com os Trabalhistas em Inglaterra: a instalação de um "gap" na percepção de competência económica entre partidos, que remontava ao início da crise económica e que, apesar da passagem do tempo e das mudanças de líderes, não se dissolveria facilmente. Fui agora à procura de indícios que confirmassem essa especulação. Não sei se concordam, mas acho que eles existem.

by Pedro Magalhães

O (des)interesse por esta campanha

Posted January 18th, 2016 at 4:30 pm4 Comments

Google Trends, interesse relativo de pesquisa dos termos no Google, Portugal: 1. "cavaco silva" (vermelho) vs. "rebelo de sousa" (azul): Screen Shot 2016-01-18 at 16.25.26 2. "manuel alegre" (azul), "sampaio da póvoa nóvoa" (vermelho), "maria de belém" (laranja): Screen Shot 2016-01-18 at 16.28.13 P.S.-O "póvoa" não foi usado no Google Trends, mas foi apenas resultado do facto do auto-corrector do blogue teimar em recusar "nóvoa". Obrigado pela chamada de atenção.

by Pedro Magalhães

A “austeridade” nas eleições de 2015

Posted January 18th, 2016 at 12:33 pm4 Comments

A imprensa, especialmente a internacional, começou logo por comentar o resultado das eleições portuguesas pela lente da "austeridade". "Portugal government re-elected despite painful austerity". "Portugal’s austerity government wins". E há até quem tenha escrito que a austeridade tinha sido eleitoralmente vantajosa: "Austerity campaign pays off as Portugal’s centre-right edges into new term". Depois, quando se começou a perceber que um governo PSD/CDS não duraria, a interpretação balançou para o outro lado: afinal, "Portugal rejects austerity measures and ousts government". Austerity this, austerity that, a austeridade explica tudo, primeiro "vitórias", depois "derrotas".

Quem lesse estes títulos, imaginaria um eleitorado dividido em torno da "austeridade", os partidos da oposição recebendo os votos daqueles que se lhe opõem (pressuposição: muitos), os partidos de governo recebendo os votos daqueles que a defendem (pressuposição: menos mas alguns). Mas as coisas não se passaram exactamente assim. Desde logo, em Portugal, não há uma divisão entre eleitores que defendem "mais austeridade" e aqueles que querem "menos austeridade". O nosso inquérito pós-eleitoral tinha a seguinte pergunta:

"Pretendia agora saber se gostaria que o Estado fizesse mais ou menos gastos em várias áreas. Lembre-se que se disser “mais” isso pode implicar um aumento de impostos, e se disser “menos” isso pode implicar uma redução nos serviços públicos." As áreas em causa eram "saúde", "educação", "apoio aos desempregados", "defesa", "pensões de reforma", "apoio às empresas e indústria", "policiamento e segurança" e "benefícios sociais". As opções de resposta eram "muito mais", "mais", "o mesmo", "muito menos" e "menos.

O gráfico abaixo mostra um exemplo, a distribuição das respostas no que toca à saúde:

Saúde A grande maioria dos portugueses defende que se gaste "mais" ou "muito mais" na saúde, mesmo que isso implique um aumento de impostos. E o mesmo sucede, de resto, em todas as áreas sociais. Há uma minoria de pessoas que defendem que se gaste "o mesmo", mas o número dos que se atrevem a responder "menos" conta-se pelos dedos:

Slide09 Não devemos ficar demasiado surpreendidos. A distribuição de rendimento em Portugal é a que é — "a considerable wealthy elite and a mass of people with either an average or a low income", segundo a OCDE — e as atitudes em relação ao papel redistributivo do Estado são influenciadas por isso. E o discurso dos partidos políticos, previsivelmente, não se pode alhear a esta realidade. O PS de Seguro era contra a austeridade, o de Costa quis virar a página da austeridade, Catarina Martins defendeu que a austeridade era um roubo e Jerónimo de Sousa que a austeridade era para encher os bolsos à finança. Mas Passos Coelho também veio explicar que um seu governo não iria aplicar medidas de austeridade e que de resto nunca quis a austeridade (aliás, já em Março de 2011 Passos Coelho era contra a austeridade), enquanto Paulo Portas é "contra a divisão entre os que são pela austeridade e os que são contra a austeridade”.

Com esta distribuição de atitudes e com este discurso político, seria difícil esperar que estas preferências manifestas sobre os gastos do Estado se reflectissem no comportamento de voto. E assim foi. No gráfico abaixo, vemos como o votante médio de cada partido em 2015 (assim como o abstencionista médio) se posiciona nesta escala de 1 a 5, entre "gastar muito mais" e "gastar muito menos", no que toca à saúde (com os intervalos de confiança a 95%):

saúde partidos Sim, o eleitor médio da PaF esteve ligeiramente à direita dos restantes, mas muito ligeiramente. Entre os outros todos, nem há diferenças estatisticamente significativas. E a história é igual para todas as áreas: os eleitorados dos diferentes partidos (e os não-votantes) mal se distinguem entre si do ponto de vista da suas preferências em relação aos gastos do Estado nas áreas sociais:

Slide10 Ainda me passou pela cabeça ver se haveria diferenças entre os eleitores do PSD e do CDS em 2011 que votaram PaF em 2015 e aqueles que desertaram os partidos do governo, mas nem isso acontece: quem ficou na PaF e quem abandonou a PaF não o fez por achar que o Estado devia gastar mais ou menos nesta ou naquela área.

Fim da história? Não exactamente. O que é certo é que os partidos que estiveram no governo e que aplicaram políticas de austeridade durante pelo menos parte do mandato perderam votos (mais de 700 mil, quase 12 pontos percentuais), e os partidos da oposição ganharam votos. Isso acontece quase sempre em qualquer eleição: governar tem quase sempre custos. Mas onde é que os partidos de governo perderam mais votos? O gráfico seguinte compara a percentagem de pessoas que votaram PSD ou CDS em 2011 (recorro aqui ao nosso estudo pós-eleitoral de 2011) com a mesma percentagem dos que votaram na PaF em 2015, mas dentro de determinados segmentos do eleitorado. O gráfico mostra os ganhos/perdas (quase sempre as segundas) de 2011 para 2015 para os partidos da PaF em cada um desses segmentos:

Perdas PaF As perdas da PaF não estiveram distribuídas aleatoriamente. Entre aqueles que diziam ter um "baixo" ou "muito baixo" nível de vida em 2011, 49% votaram no PSD ou no CDS. Em 2015, entre os que se classificam dessa forma, foram 19% a votar na PaF, uma perda de 30 pontos. Perdas elevadas também entre os desempregados, entre os que perderam o emprego desde 2011 (ou que tiveram familiares a quem isso sucedeu), entre os pensionistas, entre os que se descrevem como pertencendo a uma classe "baixa" e entre os que pertencem a agregados familiares com rendimento líquido inferior a 750 euros por mês. Perdas mais baixas ou nulas entre os que pertecem a agregados familiares com os mais altos rendimentos, entre os que trabalham no sector privado e entre os que têm acções, obrigações ou fundos. Curiosamente, as perdas junto dos que trabalham no sector público ou dos que são donos de um negócio são semelhantes, relevantes mas não das mais altas ou das mais baixas, o que sugere que são categorias bastante heterogéneas que terão de ter uma análise mais fina.

Passos Coelho descreveu há uns anos o PSD como um partido "reformista, personalista e interclassista". "Interclassista" é, de facto, um termo muito usado acerca do PSD, desde os tempos do próprio Francisco Sá Carneiro. E não há dúvida que os principais marcadores de classe e de situação sócio-económica dos eleitores nunca ajudaram muito a explicar o comportamento de voto, nem no PS nem no PSD. Contudo, as perdas dos partidos da PaF nestas eleições estão bem localizadas socialmente. Parte dessas perdas deve-se certamente à insatisfação que qualquer pessoa que tenha problemas económicos sente em relação a governos que não resolveram esses problemas (os que estavam desempregados em 2011 não foram a correr votar no PS, por exemplo). Contudo, as perdas da Paf junto dos desempregados, dos inactivos e especialmente dos eleitores com mais baixos níveis de vida são evidentes e, a par das reduzidas perdas no outro extremo da distribuição, falam-nos de uma direita que ficou com um eleitorado mais socialmente rarefeito.

Estas análises são descritivas, meros cruzamentos de variáveis, e carecem de confirmação com análises mais sofisticadas. Mas elas sugerem que, a ter havido um efeito da "austeridade", terá sido por aqui: não tanto em termos das políticas que os eleitores acham que devem ser adoptadas em abstracto (o Estado "gastar mais" ou "gastar menos"), mas sim a nível da percepção de como governou e, muito especialmente, para quem governou o anterior governo. Os que aspiram a um PSD interclassista têm razões para alguma preocupação.

by Pedro Magalhães

Presidenciais: sondagens divulgadas até 16 de Janeiro

Posted January 16th, 2016 at 12:26 pm4 Comments

Presidenciais 16 jan 16 Inclui a sondagem da Eurosondagem divulgada ontem.

by Pedro Magalhães

As transferências de voto de 2011 para 2015

Posted January 15th, 2016 at 9:36 am4 Comments

No âmbito da Infraestrutura das Atitudes Sociais e Políticas dos Portugueses (IASPP) financiada pela FCT (RECI/IVC-SOC//0476/2012), resultado de uma colaboração institucional entre o ICS, o ISCTE, e o ISCSP, foi realizado um inquérito pós-eleitoral a uma amostra representativa da população residente no Continente. O inquérito foi feito pela GfK Portugal, tem uma amostra de 1499 inquiridos, escolhidos aleatoriamente em 105 pontos de amostragem no país, eles próprios aleatoriamente seleccionados com estratificação por NUT II e habitat. Foi aplicado entre 17 de Outubro e 7 de Dezembro. Teve uma taxa de resposta de 45%. Nesta pasta, encontram o questionário, um relatório metodológico e a própria base de dados. Fica aqui enquanto não terminamos as mudanças no nosso site que permitirá o alojamento desta informação. O questionário acolhe a totalidade do módulo 4 do Comparative Study of Electoral Systems, parte do questionário do Comparative National Elections Project, e um conjunto adicional de perguntas específicas a Portugal, para permitir comparabilidade com inquéritos anteriores (este é o quinto, depois de 2002, 2005, 2009 e 2011) e medir aspectos específicos às eleições portuguesas. Trabalhei neste projecto com a Marina Costa Lobo, a Edalina Sanches e o João Tiago Gaspar.

A distribuição da pergunta sobre recordação de voto/abstenção no inquérito foi a seguinte (entre parêntesis, desvio em relação aos resultados eleitorais no Continente): PaF 26.4% (+4.3), PS 25% (+6.3), BE 7.1% (+1.2), CDU 7.9% (+3.0), Outros 1.9% (-2), BeN 3% (+.9), Abstenção 29.2% (-13.2). Nota-se portanto uma subestimação da abstenção, habitual nestes inquéritos, mas cuja magnitude real não conhecemos, dado que os resultados oficiais não são eles próprios fiáveis, devido à abstenção técnica. A distribuição de votos foi a seguinte: PaF 37.3% (-1.0), PS 34.6% (+2.1), BE 10.1% (-0.2), CDU 11.1% (+2.8), Outros 2.7% (-4.0) e BeN 4.3% (+0.6). Por outras palavras, PS e CDU sobrestimados, PaF e BE subestimados, Destes desvios, apenas os que existem em relação à captação dos "Outros" e da CDU estão acima do que seria "autorizado" estritamente do ponto de vista do erro amostral. Seja como for, para lidar este problema, construí um ponderador que, aplicado a todas a análises, corrige estes desvios.

A primeira coisa para onde fui olhar foi para as transferências de voto de 2011 para 2015. O inquérito tem uma pergunta sobre comportamento de voto em 2011, e cruzando-a com o comportamento de voto em 2015 é possível fazer uma matriz de transferências. Há riscos neste exercício. Por um lado, a memória é falível e selectiva, especialmente em relação a um evento ocorrido há mais de quatro anos. Por outro lado, com percentagens consideráveis de pessoas que recusam responder quer à questão do comportamento de voto em 2011 quer à de 2015 (277 em 1499 não nos quiseram dizer se votaram e em quem votaram em 2015, por exemplo), estes fluxos têm margens de erro importantes associadas e, nalguns casos, há células com muito poucas observações. Mas assumindo o risco, aqui vai (ignorei todos os fluxos menores ou iguais a 0.5% da amostra):

Unknown Este diagrama (já agora, chama-se "diagrama de Sankey", e fi-lo usando as funcionalidades deste SankeyMatic) mostra várias coisas:

1. A maior parte das perdas dos partidos da PaF em relação a 2011 foram para a abstenção, detectando-se também perdas (bastante menores) para o PS e para o BE.

2. O PS vai buscar votos a anteriores abstencionistas e, em muito menor grau, ao PSD e ao CDS em 2011, mas esses ganhos mal compensam as saídas de seus anteriores votantes para a abstenção e, em menor grau, para o BE e para a PaF.

3. O eleitorado da CDU mantém-se em grande medida estável: perde um pequeno contigente para a abstenção, vai buscar o equivalente a não-votantes de 2011.

4. O Bloco tem uma ligeira perda para a abstenção, largamente compensada pela capacidade de manter a maior parte dos seus eleitores de 2011 e por ganhos junto de não-votantes de 2011, antigos votantes dos partidos da PaF e, especialmente, votantes no PS em 2011.

Onde é que os partidos da PaF perderam eleitorado? O que impediu o PS de crescer, nomeadamente indo buscar mais anteriores abstencionistas e anteriores votantes no PSD ou no CDS? De que é feito este crescimento do BE, e que tipo de eleitores foi buscar aos outros partidos e anteriores abstencionistas? Vou tratar estes temas em três posts futuros.

by Pedro Magalhães

“As sondagens têm-se enganado cada vez mais em Portugal”

Posted January 14th, 2016 at 2:06 pm4 Comments

Mais um caso de alguém que não se sabe se acredita ou se apenas diz que acredita. Francisco Louçã afirma que "as sondagens têm-se enganado cada vez mais em Portugal", e comprova (ou ilustra) dizendo que "a sondagem que é publicada mais regularmente afirmava, uma semana antes das eleições legislativas, que o PS estava à frente e que o Bloco ia baixar". Mas isto não cola. Por um lado, não há qualquer sinal de que "as sondagens se enganem cada vez mais em Portugal". A haver sinais, são os opostos: o número de anos passados desde 1991 até 2009 têm um coeficiente negativo na sua relação com o desvio absoluto médio entre os resultados das sondagens e os resultados das eleições:

Screen Shot 2016-01-14 at 13.47.18 Por outro lado, mesmo que se presuma que Louçã se refere a uma tendência recente, também não se consegue discernir uma "tendência" nas legislativas ou nas presidenciais. E comprovar essa tendência recorrendo a uma sondagem de 21 de Setembro (a duas e não uma semana das eleições), a última sondagem publicada que colocou o PS à frente da PaF, e da única empresa que o fez desde pelo menos Agosto, também não me parece certo. Em suma, mais "wishful thinking".

Já as observações sobre as dificuldades especiais nas presidenciais talvez se apliquem (mas no argumento usado apenas nas eleições onde o presidente é candidato), mas isso é outra questão.

by Pedro Magalhães