Pedro Magalhães

Margens de Erro

Previsões

Posted September 17th, 2008 at 11:28 am4 Comments

Tenho vindo aqui a defender a ideia de que, para quem quer ter uma boa ideia do que vai suceder nas eleições americanas em Novembro, as sondagens, nacionais ou estaduais, podem ser enganadoras. Na verdade, a experiência passada mostra que elas só começam a convergir nos resultados finais bastante tarde, certamente só após os debates e, por vezes, até mais tarde.

Quais as alternativas, então? Os mercados electrónicos, e o Iowa Market em especial, têm desempenhado bem como instrumentos de previsão. E o que dizem as cotações? Teimosamente, apesar das flutuações das sondagens e da vantagem que McCain adquiriu nas intenções de voto nacionais, a cotação de Obama no contrato vote share anda, desde Maio passado, acima dos 50%, ao passo que no contrato winner take all (no fundo, a probabilidade de vitória) acima dos 53% (apesar de ter levado um grande rombo desde Julho).

A outra alternativa são as estimativas econométricas. Já aqui reportei algumas das mais recentes, e todas davam uma percentagem de voto superior a Obama (nuns casos marginalmente) Mas..

O último número da PS, uma revista da American Political Science Association, vai ter, como de costume, as previsões. Aqui estão:

A primeira coisa que salta à vista é que a única previsão que não era conhecida até agora, a de James Campbell, dá a vitória a McCain. Há também duas que os dão empatados. A de Campbell é a mais recente, e distingue-se da maior parte das outras por combinar dados de intenção de voto com dados da economia (apesar de Wlezien e Erikson fazerem o mesmo).

O que significa que a incerteza continua. E falta tomar em conta choques como a falência do Lehmann Brothers e a crise na AIG (apenas e só a 18ª maior companhia do mundo), como vão correr os debates, até que ponto as próprias sondagens (usadas nalguns destes modelos) sofrem de um Bradley effect ou, no sentido inverso, de uma subestimação da mobilização eleitoral dos Democratas, etc, etc, etc. Os dias não estão fáceis para os prognosticators.

by Pedro Magalhães

Erro de análise e outras coisas

Posted September 16th, 2008 at 11:46 am4 Comments

Uma leitora chama-me a atenção para o facto de que a tendência apontada no post anterior não ser um "efeito Palin", porque já vinha de trás. É absolutamente verdade, e penalizo-me. O problema foi que, em vez de olhar para todas as observações, me limitei a comparar dois pontos no tempo. Mas olhando para a série é evidente que, se acontece alguma coisa (reforço das bases de McCain mas perdas entre os independentes) é num momento anterior à convenção Republicana. Sorry, my mistake.

Outras questões. Primeiro, a de saber se a atenção que é dada aos resultados nacionais em detrimento dos estaduais faz algum sentido:

Acho mesmo que o uso destes valores é negligente pois induz o eleitor a tomar comportamentos e formular conclusões que podem não ser os mais correctos. Muitos deles apontam para um empate técnico em que a vantagem de um ou outro situa-se dentro da margem de erro. Concluir progressões com valores destes é para mim um erro, que se potencia ao ser divulgado e comentado. A eleição de Bush parece não ter servido de Lição.

Eu não seria tão céptico. Por um lado, se é evidente que a eleição o Presidente americano não é nem directa nem feita através de um círculo eleitoral nacional, a verdade também é que só três vezes (1876, 1888 e 2000) o candidato que teve mais votos não foi o Presidente. Pelo que a intenção de voto nacional e saber quem tem mais intenções de voto a esse nível é um indicador muito razoável de quem poderá ser o vencedor. Por outro lado, a verdade é que se dá muita atenção ao que se passa nos estados, como se pode ver aqui. O problema, claro, é que em vários estados há poucas sondagens e as indicações do que se vai passar neles são pouco fiáveis, pelo que basearmo-nos exclusivamente nessas sondagens seria também perigoso. Pelo que o enfoque na intenção de voto nacional não me parece errado, desde que, claro, se perceba que uma coisa é tentar fazer inferências sobre o voto popular a nível nacional e outra é fazer inferências sobre quem terá mais membros no colégio eleitoral (sendo que ambas as coisas tendem a coincidir).

Agora, para quem faz campanhas, as sondagens a nível nacional têm pouca utilidade. Veja-se o que diz o campaign manager de Obama:

"All we care about is these 18 states," he said. He repeated, with emphasis, that the campaign does not care about national polling. Instead, the campaign's own identification, registration and canvassing efforts provide the data he uses to determine where to invest money and resources. Plouffe also emphasized that the internal polling the campaign does is focused on those same 18 states, and that their real concern is not the horse race results but the "data underneath." Later, he added, "the top-line [polling data] doesn't tell you anything." Rather, they focus on who the "true undecideds" are, "how they're likely to break," and what messages will best persuade them.

Outro ponto:

A sondagem da Gallup que linkou, foi realizada com base em ca. de 2700 inquéritos. E é assumido um erro de cerca de 2% associado à sondagem. Estatísticamente, parece-me certo. Mas de facto esta amostra só poderia ser considerada representativa no caso da eleição para a presidência dos EUA se basear contagem total dos vos e não na eleição de um colégio eleitoral em cada estado. Para o último caso, a amostra tem de ser ponderada estadualmente. Em anexo tenho os cálculos da ponderação dos 2700 inquéritos por estado. E surpreendi-me quando vi que um número significativo de estados não chegam sequer à dezena. Com isto estamos bem longe de um erro de 2%! É legítimo apresentar-se resultados com tão pouca consistência para justificar tendências de voto?

Isto está ligado ao ponto anterior. Uma sondagem como esta da Gallup está a tentar fazer uma inferência descritiva sobre o voto popular, não sobre quem tem mais eleitos no colégio. Para o primeiro fim, está muito bem. Da mesma maneira que uma sondagem feita em Portugal raramente está a tentar apurar - pelo menos directamente - quem vai ter mais deputados. Para fazer isso directamente seria necessário fazer sondagens com amostras representativas de cada distrito e estimar deputados por distrito. Mas, claro, ninguém faz isso, porque os benefícios não compensam os custos: saber quem tem mais votos a nível nacional costuma ser suficiente para saber quem terá mais deputados. O que já é mais perigoso é tentar fazer esses cálculos com alguma aparência de objectividade com base em sondagens que têm como único objectivo medir o voto a nível nacional. Dei aqui um exemplo disso há uns anos. Até pode correr bem, mas também pode correr muito mal.

by Pedro Magalhães

Voto por ideologia/identificação partidária- Gallup

Posted September 12th, 2008 at 3:20 pm4 Comments

Um dos resultados mais interessantes das sondagens sobre as eleições americanas não são tanto as intenções de voto gerais, mas a história que é contada pelos cruzamentos entre identificação partidária e voto.

Se olharem para esse cruzamento, a história das últimas semanas fica muito (demasiado?) simples:

1. Voto McCain entre Republicanos conservadores:
4-10 Agosto: 90%
1-7 Setembro: 94%

2. Voto McCain entre Republicanos moderados/liberais:
4-10 Agosto: 70%
1-7 Setembro: 78%

3. Voto McCain entre independentes:
4-10 Agosto: 33%
1-7 Setembro: 28%

3. Voto Obama entre independentes:
4-10 Agosto: 22%
1-7 Setembro: 29%

Não sei se perceberam a história: são os benefícios e os custos de Palin. McCain reforça a base, mas enfraquece junto aos independentes. O primeiro movimento foi o que lhe permitiu encostar a Obama. O segundo movimento é o de que Obama precisa que se consolide para ganhar em Novembro.

P.S- E antes que digam ou pensem:
1. Estas flutuações, apesar de não muito grandes e de se darem em sub-amostras, podem ser significativas porque não se referem a uma única sondagem, mas ao conjunto de todos os inquiridos na tracking poll durante uma semana.
2. Claro que a probabilidade dos independentes acabarem por votar é menor.
3. À luz disto, percebe-se melhor isto, não?: Barack Obama's campaign is seeking to retake the offensive in the contest against John McCain today with a renewed focus on the economy.

by Pedro Magalhães

Agora sim

Posted September 9th, 2008 at 2:44 pm4 Comments

Agora sim, McCain encosta a Obama. O saldo dos dois "bounces" das convenções ainda está por fazer (pode acontecer ao de McCain o mesmo que aconteceu ao de Obama, ou seja, dissipar-se um pouco) mas, para já, tudo indica que quem mais ficou a ganhar com as convenções foi o ticket republicano. Como é hábito, excelente tratamento do tema por Charles Franklin.

by Pedro Magalhães

Outlier: a caça à raposa.

Posted September 6th, 2008 at 4:02 pm4 Comments



Num padrão recorrente, através do qual países desenvolvidos exportam para o Terceiro Mundo a realização de actividades tornadas ilegais e vistas como inaceitáveis em casa - despejo de resíduos tóxicos, testes médicos em sujeitos humanos sem consentimento e coisas no género - a caça à raposa com matilhas em 2004 parece ter encontrado em Portugal um paraíso inigualável.




Aparentemente, esta actividade é organizada por uma coisa chamada Equipagem de Santo Huberto, uma associação dirigida por sete pessoas, sendo que cinco delas se apresentam com um "Dom" antes do nome próprio e quatro delas com a palavra "de" entre os seus apelidos. Na sua página na web, esta associação assegura-nos: "Não há animais feridos". Ou escapam, ou morrem. Mas para quem ficar com dúvidas, um argumento é inatacável: "De qualquer modo, a proibição desta actividade representaria, por si, uma discriminação dos que se dedicam a esta forma de caça." Somos contra toda e qualquer forma de descriminação.




Ao que parece, as caçadas tem lugar em várias herdades, entre as quais as pertencentes à Companhia das Lézírias. A Companhia é uma Sociedade Anónima de Capitais Públicos.

by Pedro Magalhães

Neste pato é que eu votava de caras em qualquer eleição

Posted September 5th, 2008 at 2:05 pm4 Comments

by Pedro Magalhães

Palin

Posted September 4th, 2008 at 12:26 pm4 Comments

Muito do que está aqui me parece bem observado sobre o discurso de ontem. A escolha de Palin teve uma dupla dimensão: o género e a ideologia. A primeira jogaria num sentido - por assim dizer, de atracção do eleitorado que votou em Hillary e de "retirar uma bandeira" aos Democratas, os únicos que tinham até agora tido uma mulher no ticket - e a segunda noutro - de consolidação do eleitorado Republicano mais conservador, permitindo a McCain uma certa despreocupação com essa base eleitoral. Ao contrário do que eu próprio julgava nos minutos seguintes depois de conhecer a nomeação de Palin, a dimensão mais importante parece ser a segunda. A primeira está lá, implícita, mas são os pergaminhos ultra-conservadores de Palin que mais contaram ontem.

Parece-me que os boatos iniciais sobre o filho de Palin, Trig, (que seria, segundo o boato, realmente o seu neto), difundidos inicialmente por um blog de simpatias democratas, só jogam contra os próprios Democratas, da mesma maneira que o artigo do NYT sobre a suposta amante de McCain. Não posso provar, mas de cada vez que qualquer coisa dessas aparecer e não se confirmar verdadeira, devem ser mais uns pontos percentuais de eleitores com simpatias republicanas que se consolidam como votantes de McCain. A percepção entre os Republicanos é a de que os media são todos visceralmente liberais, e coisas destas só o parecem confirmar. O grande problema de McCain - como atrair, com o seu perfil, o eleitorado Republicano mais conservador - parece, de resto, quase resolvido: 91% deles dizem que votarão nele na última tracking poll da Gallup.

Uma nota pessoal e, eventualmente, pouco imparcial: a exibição do filho de Palin, de quatro meses de idade, a passar de colo em colo de cada membro da família e até pelo colo da mulher de McCain, à noite, no meio de um barulho ensurdecedor, parecendo mais inconsciente - quase inerte - do que adormecido, constantemente focado pelas câmaras de televisão, especialmente quando Palin promete ser na Casa Branca uma "defensora" de quem filhos deficientes, foi para mim, que tenho um filho com oito meses de idade, uma das coisas mais obscenas que vi num ecrã de televisão em toda a minha vida. Mas não sou imparcial quando se trata de eleições americanas, repito. Depois do que se passou nos últimos oito anos, se em vez Obama o candidato Democrata fosse o Pato Donald, eu, se pudesse, votava no pato. É para verem o grave da coisa.

by Pedro Magalhães

Previsões de modelos econométricos

Posted September 2nd, 2008 at 1:35 pm4 Comments

Já aqui mencionei o último número do International Journal of Forecasting, sobre previsões das eleições americanas. No máximo, os artigos apresentavam modelos e previsões condicionais. Mas com as eleições a aproximarem-se e com dados da economia e de popularidade com um lag relativamente pequeno a ficarem disponíveis, aparecem as primeiras previsões concretas. Alguns dos papers foram apresentados na semana passada na reunião da American Political Science Association:

1. Lewis-Back e Tien. Paper e previsão para McCain: 43.2% do voto popular bipartidário.
2. Sidman e Mak.
Paper e previsão para McCain: 243 votos no colégio eleitoral (derrota).
3. Cuzan e Bundrik.
Paper e previsão para McCain: 48% do voto popular bipartidário.
4. Abramovitz.
Paper e previsão para McCain: 44.9% do voto popular bipartidário.
5. Erikson e Wlezien.
Paper e previsão para McCain: 47% do voto popular bipartidário.
6. Klarner.
Paper e previsão para McCain: 47% do voto popular bipartidário.
7. Hibbs.
Paper e previsão para McCain: 48.2% do voto popular bipartidário.
8. Fair.
Previsão para McCain: 48.5% do voto popular bipartidário.

Obama, supostamente, ganha em todos os modelos.

by Pedro Magalhães

Efeitos da Convenção?

Posted September 1st, 2008 at 12:40 pm4 Comments

Um dos efeitos de curto-prazo sempre mais comentados é o "convention bounce", a ideia de que, após a convenção, o candidato tem um ganho em termos de intenções de voto. Este artigo de 1999, usando dados entre 1952 e 1992, sugere que o ganho médio anda pelos 7 pontos.

Um post no Pollster começa a abordar este assunto com os dados disponíveis. Na tracking poll da Gallup, de uma empate 45-45, passou-se para uma vantagem de 8 pontos para Obama. Na tracking poll da Rasmussen, um efeito muito menor.

O post lista várias razões para sermos cépticos em relação à capacidade para medir rigorosamente esse "bounce". E um artigo de John Zaller, de 2002, é mais céptico ainda:

"detection of exposure effects is likely to be unreliable unless the effects are both large and captured in a large survey. Surveys, or subsets of surveys, having fewer than about 2000 cases may be unreliable for detecting almost any sort of likely exposure effect; even surveys of 3000 could easily fail to detect politically important effects."

Alguma coisa deve ter beneficiado. Mas quanto, e por quanto tempo?

by Pedro Magalhães

Parece que Hillary vai ter de continuar a dar uma ajudinha.

Posted August 29th, 2008 at 3:57 pm4 Comments

McCain Picks Palin. O primeiro passo para mostrar que não é igual a Bush.

by Pedro Magalhães