Pedro Magalhães

Margens de Erro

Noite de eleições

Posted July 16th, 2007 at 4:16 pm4 Comments

Por vezes, é assim mesmo que tudo me parece (incluindo eu próprio).

Via Arte da Fuga.

by Pedro Magalhães

Rescaldo, 2

Posted July 16th, 2007 at 2:26 pm4 Comments

Não é preciso ciência para perceber que o PS teve menos votos do que que as sondagens mediram a uma semana ou menos das eleições, e que a tendência (não unânime, mas tendência) foi de subestimação do PSD, especial - e curiosamente - nas sempre mais precisas sondagens à boca das urnas. Há duas explicações normalmente avançadas para coisas como estas: "abstenção por certeza de vitória" e "espiral do silêncio". Na primeira, a história é simples: eleitores inicialmente dispostos a votar no PS desinteressam-se no final por verem como era grande o favoritismo de Costa. Na segunda, a percepção de uma situação de "crise" na candidatura do PSD leva os seus eleitores a ocultarem o seu sentido de voto. Nas sondagens à boca das urnas, por muito que se tente impedir que a "vontade de responder" enviese a amostra, há sempre o fenómeno das recusas, presumivelmente, neste caso, concentradas em votantes no PSD.

São só duas histórias possíveis, não testadas com dados sólidos. Mas são boas hipóteses de partida à luz do que se conhece quer do passado quer de outros contextos eleitorais.

by Pedro Magalhães

Rescaldo

Posted July 15th, 2007 at 10:08 pm4 Comments

Já é possível o rescaldo, com todas as freguesias contadas. Seria sempre possível esperar pelos oficiais mas é improvável que isso faça qualquer diferença. A metodologia é a habitual: o erro 3 de Mosteller, ou seja, a média, para cada sondagem, dos valores absolutos dos desvios entre as estimativas e os resultados finais.

(quadro revisto, com correcção da estimativa da Intercampus para o CDS-PP na sondagem à boca das urnas; o erro médio, contudo, permanece inalterado)

Parabéns à Aximage, que foi quem esteve mais próximo entre as sondagens pré-eleitorais. Seguem-se a Católica e a Eurosondagem, mas a diferença pode, de um certo ponto de vista, ser encarada como maior do que os 0,3 de diferença no erro médio, dado que quer a Católica quer a Eurosondagem colocaram Negrão à frente de Carmona, o que não sucedeu.

De um outro ponto de vista ainda, os resultados sugerem (sem provar) mais precisão para as amostras aleatórias (Aximage, Católica, Eurosondagem) e para sondagens realizadas mais perto do acto eleitoral (Aximage). Já no que respeita ao modo de inquirição, nada é evidente: a Aximage foi telefónica e a Católica e a Eurosondagem presenciais com boletim simulado em urna, ao passo que a Marktest foi telefónica e a Intercampus, de novo, com boletim. Não me parece que se tire grandes lições no que respeita ao modo de inquirição.

Na boca das urnas, como é normal, os resultados foram melhores para todos. As diferenças entre os diferentes institutos são muito reduzidas, mas foi a Intercampus, seguida da Católica e da Eurosondagem, quem mais se aproximou do que acabou por suceder.

by Pedro Magalhães

Para descontrair…

Posted July 13th, 2007 at 6:10 pm4 Comments

Uma resposta ao desafio. Foram estes (excluindo tudo o que tem a ver com "trabalho"):





by Pedro Magalhães

Sobre as sondagens

Posted July 13th, 2007 at 3:09 pm4 Comments

Se se esperava que estas últimas sondagens viessem, como sucede noutras ocasiões, "convergir" nesta última semana, e resolver assim algumas das incertezas que permaneciam, não foi isso que sucedeu.

* Onde a incerteza diminuiu um pouco foi em relação ao PS. Até este semana, tínhamos visto resultados entre os 31 e os 40 por cento, nove pontos de diferença. Mas nesta semana, o mínimo é 32 e o máximo 37.1. Se excluirmos a Intercampus, o mínimo é 32 e o máximo 34.2. Nada, absolutamente nada, sugere que o PS poderá não ganhar esta eleição. E nada sugere que a possa ganhar com maioria absoluta. Não há impossíveis, mas...

* A incerteza também diminuiu em relação às restantes listas, mas muito menos. Na base destes resultados, é impossível saber quem tem mais intenções de voto: Carmona ou Negrão. Em duas sondagens (Intercampus e Aximage) estão, para todos os efeitos, empatados. Noutras duas (Católica e Eurosondagem), é Negrão quem leva vantagem. Para outra ainda (Marktest) é Carmona. Leio os comentaristas e vejo que está toda a gente muito certa de que Carmona ficará em segundo. Os dados não consentem essa ideia, mas quem sabe?

* Se esquecermos a Intercampus, Roseta, Ruben e Sá Fernandes são quem têm a vida mais certa: entre 9.5 e 12.1 para a primeira, entre 7 e 10.2 para o segundo, e entre 4.8 e 8 para o terceiro. O problema é que não há razão plausível para esquecer a Intercampus. É certo que, em 2005, as coisas lhes correram mal, mas as coisas já "correram mal" a quase toda a gente. A Intercampus está farta de fazer sondagens pré-eleitorais e à boca das urnas e, na base do único parâmetro que temos - a comparação com os resultados eleitorais - não há razão nenhuma (pelo contrário) para dizermos que não são capazes de descrever correctamente as intenções e comportamentos dos eleitores. Pelo que a incerteza permanece.

* Telmo Correia entre 2 e 4. Eu percebo, mas sinceramente não estou a ver. Cá estaremos para confirmar.

Até a detecção de tendências parece impossível. A ideia geral que fica é que Costa, Carmona, Negrão e Roseta podem todos ter descido, ao passo que Ruben, Sá e Telmo subido. Mas isso é só comparando as primeiras sondagens com estas últimas. Comparando instituto a instituto, há tendências para todos os gostos. E do ponto de vista metodológico, se alguém encontrar alguma relação entre método de amostragem ou de inquirição e os resultados, avise que eu gostava de saber qual é.

Esta eleição tem a receita ideal para gerar esta incerteza nas sondagens, assim como desfasamentos elevados entre estes resultados e o que venha a suceder no Domingo:
- candidatos independentes, que como já vimos, produzem volatilidade acima do normal;
- presumível elevada abstenção, sempre problemática para as sondagens;
- eleitores ausentes em férias que podem regressar entretanto e eleitores presentes que podem partir para férias entretanto;
- eleitores recenseados em Lisboa mas que não vivem em Lisboa e podem vir votar (não tendo sido captados pelas sondagens).

Sejam quais forem os resultados no Domingo, já se pode dizer que haverá institutos cujas estimativas se vão desviar bastante desses resultados. Continua a ser difícil fazer sondagens em Lisboa.

by Pedro Magalhães

As últimas sondagens

Posted July 12th, 2007 at 9:52 am4 Comments

Este post vai ser actualizado ao longo do próximo dia e meio. Vamos só recordar as regras básicas, para não haver confusões:

1. Os resultados são retirados da imprensa. Fazem-se hiperligações para as notícias sempre que disponíveis.

2. São apresentados dois tipos de resultados: intenções directas de voto/resultados brutos, ou seja, a distribuição das diversas opções de resposta pelo total da amostra; e estimativas de resultados eleitorais, a negrito, ou seja, a distribuição das opções válidas de voto.

3. Quando os institutos não divulgam uma estimativa de resultados eleitorais, isto significa que não querem fazer quaisquer pressuposições sobre a forma como os indivíduos que dizem não saber ou não querer dizer em quem vão votar se distribuem pelas restantes opções.

4. Contudo, nesses casos, calculamos as estimativas de resultados eleitorais presumindo que as opções "Ns/Nr" significam abstenção (casos assinalados com um asterisco). Porquê?

- as intenções directas de voto não são comparáveis entre si, devido a diferenças metodológicas que causam enormes variações nas percentagens de não respostas e de abstencionistas declarados que são captados pelas sondagens, e devido ao facto de que os abstencionistas declarados são incluídos nuns casos e não noutros.

- alguns institutos não divulgam intenções directas de voto, o que inviabiliza ainda mais quaisquer comparações;

- tornar os resultados comparáveis entre si e com resultados eleitorais presumindo abstenção de "Ns/Nr" é a boa prática internacional nesta área, sancionada e confirmada dezenas de vezes em muitos estudos académicos (como este ou este, ou ainda neste referência clássica).

Isto não significa que o autor deste blogue esteja convicto (ou deixe de o estar) de que esta pressuposição é a que permite melhores inferências descritivas sobre a população ou até melhores "previsões". E é perfeitamente respeitável que os responsáveis de institutos não tenham qualquer teoria sobre o que fazer aos "indecisos". Contudo, na ausência dessa teoria, convém evitar confusões desnecessárias na opinião pública causadas pela não-comparabilidade dos resultados (como neste caso) ou até, como infelizmente já sucedeu (mas felizmente cada vez menos), que a posteriori se possam fazer manipulações grosseiras , comparando resultados brutos de sondagens com resultados eleitorais sempre que isso ajude a dar uma imagem de "maior precisão".

5. Quando as estimativas são calculadas por mim, os resultados são apresentados sem casas decimais, apenas porque sou da opinião que não faz sentido apresentar casas decimais em sondagens. Aqui explica-se porquê. Contudo, isto não passa de uma opinião. Os resultados divulgados com casas decimais são apresentados tal como divulgados.

Então vamos lá (14.56h, dia 13):


-Grande estabilidade nos resultados da Marktest em relação à última sondagem. Aumento de OBN deve-se, em grande medida, ao aumento da declaração de "voto em branco";

- Na Católica, em comparação com o final de Maio, o mais assinalável é a subida de Ruben e Sá. Mas note-se nos resultados brutos: 32% de indecisos. Estes valores variam muito de instituto para instituto, porque são medidos de maneira diferente (nuns casos como opção dada pelo inquirido de forma espontânea, noutros como uma de várias opções previstas, noutros com uma pergunta específica). Mas nunca tinha visto, em sondagens da Católica, um valor tão alto.;

- A Intercampus mostra estimativas que prolongam tendências que vem detectando desde o início: Costa, Carmona e Ruben a subirem; Negrão e Roseta a descerem. É mais "excêntrica" sondagem das últimas quatro, nomeadamente no que diz respeito a Costa, Roseta e Ruben, mas isso nada diz sobre a precisão com que está a captar a realidade, que pode ser maior do que a de todas as restantes;

- Eurosondagem muito semelhante à sua sondagem anterior.

Amanhã falamos com mais calma.

Fontes para as últimas sondagens:
Marktest
Eurosondagem
Intercampus
Aximage



by Pedro Magalhães

Dismal science

Posted July 11th, 2007 at 1:52 pm4 Comments

Já que andamos a falar da "dismal science", um artigo interessante na última International Political Science Review, intitulado "Should Economists Rule the World? Trends and Implications of Leadership Patterns in the Developing World, 1960—2005". O artigo mostra o aumento do número de líderes políticos mundiais com formação em economia, e procura relacionar isso com o desempenho económico dos países. O resultado é desastroso. O artigo tem vários problemas teóricos e empíricos, nomeadamente o facto de não estimar os efeitos da "tecnocratização" das lideranças controlando o efeito de muitas outras coisas que podem afectar o desempenho económico. Mas mesmo assim, vale a pena ler.


by Pedro Magalhães

Mercados electrónicos

Posted July 11th, 2007 at 10:52 am4 Comments

Neste blogue, já fiz diversas menções aos mercados electrónicos de previsão de resultados eleitorais, tais como o Wahlstreet na Alemanha ou os Iowa Markets nos Estados Unidos. Há uma grande discussão, um bocado defensiva de parte a parte, sobre as virtudes e defeitos destas coisas. A bibliografia existente é enorme.

Agora há uma iniciativa portuguesa: Eu Voto. Que isto possa vir a ter algum interesse depende da taxa de participação, pelo que só posso apelar a que entrem em jogo.

Eu já participei, sob pseudónimo. Comprei umas acções baratíssimas. E ainda antes de ter inside information (só a deverei ter hoje ao fim da noite).

by Pedro Magalhães

Os pequenos partidos nas sondagens

Posted July 10th, 2007 at 5:55 pm4 Comments

aqui alguma discussão sobre a apresentação de estimativas sobre os pequenos partidos nas sondagens, em parte motivada pelo facto de, neste blogue, elas serem agregadas com as estimativas de votos brancos e nulos. Duas explicações:

1. Comparabilidade: nem todas as sondagens apresentaram resultados para partidos com intenções de voto inferiores às do CDS-PP.

2. Erro amostral:
- 16% dos inquiridos da última sondagem da Intercampus afirmaram que não iriam votar. Logo, com uma amostra de 800, as estimativas foram calculadas na base das intenções de voto manifestadas por 672 votantes.
- Não sei quantos disseram que não sabem em quem votariam. Mas imaginemos que foram 9% como na sondagem anterior da Intercampus. Logo, teríamos intenções de votos válidas dadas por 612 pessoas.
- A notícia relata que, entre esses, 1% disseram que votariam em Garcia Pereira. 1% de 612 são...6 pessoas. Para uma amostra aleatória de 612, a margem de erro associada a uma estimativa de 1%, com 95% de confiança, é 0,79% Isto quer dizer que Garcia Pereira pode ter, com 95% de confiança e se a amostra fosse aleatória (que não é), qualquer coisa entre 0,21% e oito vezes mais do que isso, ou seja, 1,79%. Dizer isto sobre o PCTP/MRPP ou não dizer nada é a mesma coisa. É por isto que prefiro não dar os resultados dos pequenos partidos, achando preferível agregá-los.

Dito isto, o CDS-PP está incluído no quadro, mesmo tendo intenções de voto, nalguns casos, de 1%. Mas como noutras sondagens tem estimativas bastante superiores, achei que fazia sentido incluir Telmo Correia.

by Pedro Magalhães

Outlier: É preciso azar

Posted July 10th, 2007 at 8:31 am4 Comments

Nuno Teles, do Ladrão de Bicicletas, dá-me um arraial de porrada a propósito deste artigo ontem no Público: chama-lhe um "arrazoado de dados e comparações entre a Europa e os E.U.A. feitas à medida do argumento" e uma coisa pouco séria (e é pequeno consolo que diga que o meu trabalho "normalmente prima pela seriedade").

Se eu me tivesse conseguido explicar melhor, Nuno Teles teria conseguido detectar que:

1. Começo por apresentar dois ângulos possíveis de análise ao facto de, nos países europeus da OCDE, se trabalhar menos (e cada vez menos) que nos Estados Unidos. Ambos resultam, em grande medida, deste trabalho de Alberto Alesina (e mais indirectamente, disto ou disto). O primeiro consiste em lamentar o facto e as suas causas (impostos e sindicatos), dado que ele favorece que, em contextos de aumento da produtividade nos EUA a ritmo superior ao que se passa na Europa (a não ser que Nuno Teles deseje contestar isso também), o declínio do trabalho leva ao declínio económico da Europa. O segundo consiste em assinalar, como Alesina também o faz, que nos países europeus onde se trabalha menos as pessoas parecem estar mais satisfeitas com a vida, sugerindo que escolher a solução que produz mais "bem estar" deste ponto de vista depende, em grande medida, do que queiramos definir como "bem estar". Afinal, os europeus estão "bem" assim, independentemente de acharmos que são parvos ou não.

2. Contudo, uma das coisas que me intriga no artigo de Alesina é que a hipótese de que "menos trabalho" produz "mais satisfação" é testada apenas, a nível micro ou macro, em contextos europeus. O que me fez pensar que a ideia de que há um "trade-off" entre "trabalho" e "felicidade" pode não ser verdadeira, ou verdadeira apenas para alguns contextos. Foi essa ideia que tentei explorar.

3. Mas claro que o Nuno nunca poderia ter percebido que era essa a minha intenção. Ainda se eu tivesse escrito qualquer coisa assim como:

"Há, por isso, um terceiro ângulo possível para o assunto, que não se concentra nem nos efeitos perversos do "estatismo" ou do "sindicalismo" europeus nem nas tradicionais descrições dos americanos como "bárbaros" fanatizados pelo trabalho e pelo consumismo."

o Nuno teria podido perceber que aquilo o que o meu artigo procurava fazer era explorar um ângulo alternativo aos dois anteriores, e escusava de ter andado a gastar o teclado a atacar-me por ter defendido coisas que não defendi. Mas espera: e não é que eu escrevi mesmo aquilo? Deve ter sido o Público do Nuno que ia com essa parte cortada. É preciso azar.

4. O terceiro ângulo é, afinal, o da "job satisfaction", que está em declínio na Europa e, após um declínio nos anos 70/80, estabilizou nos Estados Unidos. Procurei sugerir que a noção de que há um trade-off entre trabalho e satisfação é uma coisa muito europeia, e dar algumas indicações de que, nos Estados Unidos, a preocupação dos gestores com as condições físicas e psicológicas de trabalho, com a autonomia e a participação, tendem a ser maiores do que na Europa. Baseei-me nos trabalhos de Francis Green e, sem o nomear, num artigo que li há uns tempos no NYT do Alan Kruger.

Mas claro que o Nuno não podia saber isto. Não estava lá escrito. Ou estava? Uma pessoa, às tantas, já nem sabe.

by Pedro Magalhães