Pedro Magalhães

Margens de Erro

TNSEuroteste

Posted February 21st, 2007 at 6:21 pm4 Comments

Dia de embirrar com jornalistas? Talvez, peço já desculpa. Mas dizer que a TNSEuroteste é uma "empresa que dá os primeiros passos no mercado português" é uma afirmação, no mínimo, extravagante. A Euroteste existe desde 1988. Quando dirigida por Vidal de Oliveira, fez muitas sondagens eleitorais para os meios de comunicação social. Fez os inquéritos por questionário para vários projectos académicos que eu conheço bem, incluindo um de 2004 que, na parte portuguesa, coordenei no ICS. Faz, de há uns anos para cá, a componente portuguesa do Eurobarómetro. Tem feito, segundo o próprio PSD, vários trabalhos para o partido (não sei se continua a fazer ou não). Talvez o pormenor esteja no facto de ser há menos tempo parte do império TNS. Mas mesmo assim já pertence ao grupo desde, que eu saiba, 2000. Primeiros passos? Que disparate.

by Pedro Magalhães

Religiosidade e voto

Posted February 21st, 2007 at 3:27 pm4 Comments

Sei, por experiência própria, que pôr académicos a falar com jornalistas é coisa que, por vezes, dá mau resultado. Nuns casos porque os primeiros procuram preservar a complexidade dos seus argumentos de uma forma que os jornalistas não conseguem (ou não podem mesmo) reconstituir nas suas peças. Noutros porque, antecipando esse desfecho, são os próprios académicos que simplificam os seus argumentos de forma a que, no final, o que é dito já não faz justiça àquilo que sabem e acaba depois numa versão "abastardada" que, de resto, é consumida acriticamente como sendo a "voz da verdade". Nada disto é fácil.

Mas às vezes os jornalistas não ajudam. Começo por dizer que gosto bastante do António Marujo como jornalista, mas como é possível fazer um título destes - "O voto católico não existiu no referendo sobre o aborto" - na edição do Público do dia 18? Uma coisa é dizer que o comportamento de voto no passado referendo não teve como causa única a religiosidade subjectiva dos inquiridos ou a sua prática religiosa, ou, por outras palavras, que "'é redutor' ler uma coincidência entre o catolicismo e a vitória do 'não' a norte do Mondego" (que é aquilo que Helena Vilaça, afinal, diz, antes de ser perder um pouco com alguns casos isolados que não aquecem nem arrefecem). Como alguém já escreveu, "o mundo é multivariado", e os comportamentos humanos não fogem à regra.

Mas dizer que não existiu "um voto católico" no referendo é esticar a corda para além daquilo que a corda aguenta. Qual é a hipótese que se está a tentar refutar com o título da peça? A de que todos os católicos teriam votado "Não" no referendo? A de que o único factor que explicou o voto foi a religião? Mas pela cabeça de quem passariam ideias dessas?

Na verdade, a religiosidade ou a prática religiosa são ainda, entre as variáveis estruturais ou socio-demográficas, e num país onde a ancoragem social do voto é muito ténue, dos poucos preditores do voto que nos ajudam a distinguir os eleitores entre si em eleições legislativas (em particular os do PCP e do BE dos do PS e os do PP dos do PSD). E como já referi aqui, nas sondagens sobre intenções de voto, a religiosidade era um dos principais preditores do voto "Não". E como não? E que mal tem assumi-lo? Porquê procurar contornar o incontornável? Não percebi.

by Pedro Magalhães

"Abstenção técnica"

Posted February 16th, 2007 at 3:12 pm4 Comments

O último número da revista "Eleições", editada pelo Stape (.pdf 3.65MB) tem vários artigos interessantes, entre eles um da autoria de Paulo Machado e Carla Gomes, intitulado "Mudança Social em Portugal: Contributos para uma Interpretação Sumária com Recurso à Base de dados do Recenseamento Eleitoral".

O objectivo do artigo é outro. Mas de passagem, os autores comparam o apuramento do recenseamento eleitoral em 2001 (Abril) e 2005 (Dezembro) com o recenseamento populacional do INE de 2001 (Março) e as estimativas, também do INE, em 31/12/2005, respeitante à população residente com 18 ou mais anos. Para 2001, encontram uma diferença de 4,9%, a favor do RE, valor que eu tinha em mente quando escrevi isto. Contudo, para finais de 2005, esta diferença é estimada em 2,1%. Tudo isto tem de ser encarado com mil cuidados, vários deles explicados no artigo. Mas é possível, afinal, que o problema da abstenção técnica não seja tão grave como se menciona aqui (nem tão grave como eu próprio tenderia a pensar que era).

by Pedro Magalhães

Fadiga eleitoral, 2

Posted February 16th, 2007 at 1:35 pm4 Comments

Os meus apelos, pelos vistos, não produzem efeitos.

by Pedro Magalhães

Sobre a participação eleitoral em referendos

Posted February 16th, 2007 at 1:28 pm4 Comments

Depois de ler o que se foi escrevendo, cito, pela quarta ou quinta vez, este útil texto (.pdf):

One of the first issues that arises in comparing referendum and election campaigns is that of voter turnout. Evidence suggests that turnout can vary much more widely in referendums than it does in elections. In Switzerland, where referendums are commonplace events, turnout is generally well below 50%, and can sometimes be much lower (Kobach, 1993). It can however rise to considerably higher levels when a particular issue engages wide voter interest or when a more intense campaign is waged by interested groups. In U. S. state referendums, turnout is notoriously low, and can be subject to even more extreme fluctuations. Butler and Ranney (1994) found that turnout over a large number of referendum cases in various nations averaged fifteen percentage points lower than that found in general elections in the same countries. Cronin (1989) found a comparable rate of "drop-off" -- i.e. the difference between voting the candidate and propositions sections of the ballot -- in American state referendums.

However, there is no reason to believe that turnout in referendums is necessarily lower than that found in elections. The turnout in some of the more important European referendums has generally been comparable to that found in national elections (table 3), and turnout in the 1995 Quebec sovereignty referendum registered an astonishing 94%, higher than in any provincial or federal election. Other important referendums in which turnout registered higher than that of a comparable election (table 3) are the 1992 Canadian constitutional referendum (+5), the 1994 Norwegian EU membership referendum (+13), the 1993 Danish referendum on the Edinburgh agreement (+3), and the 1993 Russian referendums (+12, +5). But clearly, a referendum held separately on a less salient issue runs the risk of lower voter participation. The 1992 New Zealand referendum on electoral reform (-28), the Puerto Rico statehood plebiscites (-9, -12), the 1980 Swedish nuclear power referendum (-15), and the 1986 Spanish referendum on NATO (-11) are all cases in which turnout fell significantly below that of the most nearly comparable election."

Em resumo: pode ser alta, especialmente quando diz respeito a questões de "regime", mas é, em geral, mais baixa do que em eleições de "primeira ordem", como não podia deixar de ser.

by Pedro Magalhães

Ségo-Sarko (ultimamente mais Sarko que Ségo)

Posted February 15th, 2007 at 6:46 pm4 Comments


Agora com resultados da pergunta sobre 2ª volta, que é, afinal, o que realmente interessa...

by Pedro Magalhães

O mapa da "mudança" (será o termo?)

Posted February 14th, 2007 at 12:43 pm4 Comments


Elaborado pela Marktest, via Canhoto, subscrevendo o texto do post.

by Pedro Magalhães

Wishful thinking

Posted February 13th, 2007 at 3:37 pm4 Comments

De um amigo:

"Fiquei um pouco intrigado com o teu optimismo sobre as boas práticas relativamente aos eleitores potenciais. Vou ter que reler os jornais para ver o que me escapou. Explicação alternativa que me passou pela cabeça:

- os votantes efectivos foram um retrato do “sentimento” subjacente da população - o que seria óptimo para o SIM, porque reforçaria a legitimidade para continuar apesar de o referendo não ser vinculativo;

- ter havido, no caso presente, uma correlação mais forte do que é normal entre disposição a responder aos inquéritos e disposição a votar."


Pois é. Só me baseio no facto de, conhecendo algums inquéritos feitos, ter notado a existência de baterias de perguntas destinadas a modelar a probabilidade do voto, coisa que sempre achei ter merecido pouca atenção no passado. E de nas eleições de grande abstenção - europeias e referendos - a precisão das sondagens ter vindo a aumentar e o grau de dispersão entre resultados ter vindo a diminuir. Mas a verdade é que este último aspecto se correlaciona também com o facto do trabalho de campo, a partir de 2000, poder ser conduzido até mais tarde. Logo, a verdade é que não tenho realmente elementos que me permitam dizer que, se os resultados da maior parte das sondagens foram o que foram, foi porque quem fez os inquéritos conseguiu distinguir bem entre os votantes prováveis e os outros. Wishful thinking, reconheço.

by Pedro Magalhães

A vinculatividade dos referendos

Posted February 13th, 2007 at 1:58 pm4 Comments

Anda por aqui uma discussão que me interessa muito, até porque já escrevinhei umas coisas sobre o tema: se deve ou não haver um quórum mínimo para a vinculatividade dos referendos.

Um dos argumentos que já apareceu nessa discussão - e que já tinha aparecido aqui - é o de que a própria pergunta, colocada nestes termos, é meramente formalista, dado que, como temos visto, a vontade maioritária é politicamente interpretada como vinculativa independemente de o ser ou não do ponto de vista formal.

Bem, estou a pensar e a escrever um pouco à pressa, mas acho que temos de ter cuidado aqui. Isso foi verdade nestes três referendos que tivemos. Mas noutros, o problema pode ser politicamente colocado de outra forma. Se até neste referendo da despenalização do aborto, com uma participação que, descontada a abstenção técnica, não deverá ter andado longe dos 50%, há gente (vagamente lunática, admito) capaz de levantar a questão, noutros temas - Constituição Europeia, por exemplo, pelos efeitos vastíssimos que produz a sua aprovação ou reprovação - a questão pode ser colocada de forma muito mais premente, se se entender ser politicamente vantajoso fazê-lo.

Mas agora, note-se: há um detalhe que eu terei ignorado e que pode fazer a diferença. Deixei-me influenciar muito pelo caso italiano nesta reflexão, onde de facto tem havido, por parte dos partidos e da Igreja, uma recorrente actuação estratégica quer no sentido de "ausência de mobilização" quer de verdadeiros apelos à abstenção, em ambos os casos procurando garantir que o resultado não fosse vinculativo.

Esqueci-me, contudo, que o caso italiano é diferente do português num aspecto possivelmente fulcral. Em Portugal, o que é referendado é uma medida susceptível de ser objecto de legislação por parte da AR. Já em Itália, a regra do quórum aplica-se aos referendos do art. 75. E os referendos do art. 75 são os referendos abrogativos, ou seja, aqueles através dos quais os eleitores se pronunciam sobre se uma lei já aprovada deve ser revogada ou alterada ("Sim") ou preservada ("Não"). Logo, a vinculatividade ou a falta dela têm efeitos automáticos independentemente da "intepretação política" que dela se faça: se for Sim vinculativo, a lei é alterada ou revogada; se for Não, vinculativo ou não, ou mesmo um Sim não vinculativo - e é aqui que o jogo da desmobilização tem sido feito - a lei mantém-se em vigor.

Logo, um "Sim" ser ou não vinculativo tem sempre consequências importantes em Itália. Em Portugal, creio, dependerá do tema. Estarei a ver bem a coisa?

by Pedro Magalhães

Fadiga eleitoral

Posted February 12th, 2007 at 4:00 pm4 Comments

Há muita coisa escrita por (.pdf) sobre o papel da "fadiga eleitoral" na abstenção. Mas "fadiga eleitoral", para mim, é ter seis eleições (Europeias 2004, Regionais 2004, Legislativas 2005, Autárquicas 2005, Presidenciais 2006, Referendo 2007) e treze sondagens à boca das urnas (contando duas nas regionais e sete nas autárquicas) em menos de três anos. Um apelo sentido, então, à contenção no uso futuro do referendo e à solidariedade com o Professor Carmona.

by Pedro Magalhães