Pedro Magalhães

Margens de Erro

Depois (e antes) da tempestade, a bonança

Posted November 8th, 2006 at 10:48 pm4 Comments

Outra impressão que fica depois de ser ver, ouvir e ler o comentário político nos Estados Unidos no dia de hoje é a de que as eleições trouxeram uma enorme mudança qualitativa na forma como o tema do Iraque é tratado.

Já escrevi aqui hoje como me surpreendeu que vários comentadores e políticos tenham vindo assumir uma "derrota" no Iraque. Mas não é só isso: hoje, vendo a Fox - queria tomar o pulso à maneira como os Republicanos se sentem - a demissão de Rumsfeld foi, para todos os efeitos, celebrada. Cheney foi descrito como o "remaining hardliner", depois da substituição de Rummy por Robert Gates. Gates foi descrito como alinhado com Brent Scowcroft e um conservador "à moda antiga", pragmático e realista, "what we need right now". Dizia-se um pouco mais à frente como foram os "hardliners como Rumsfeld" que "nos colocaram nesta situação". E toda a gente, de repente, Republicanos incluídos, concorda com a necessidade de uma "mudança de direcção". Na semana passada a conversa era outra: "stay the course". Logo, independentemente daquilo que se venha a saber sobre o impacto da opinião dos eleitores sobre o Iraque nos resultados, é inequívoco que eles foram interpretados pela administração como sendo um julgamento (negativo) sobre a sua actuação no tema.

Mas a bonança pode durar pouco tempo. Este novo consenso impressiona também por ser absolutamente vazio de conteúdo. Mudar de direcção, mas como, e para onde? Ninguém sabe muito bem, e quem sabe não diz. Para os Republicanos, o melhor é transformar Rummy no bode expoiatório e co-responsabilizar agora os Democratas pela procura de uma solução, a ver se os custos desta coisa se diluem até 2008. E para os Democratas, o melhor prestar o necessário "lip service" à ideia que estão dispostos a "colaborar" com o Presidente, ao mesmo tempo que lhe deixam a tarefa de encontrar uma solução para o que não tem remédio evidente e vão propondo uma série de coisas (aumento do salário mínimo, reforma do sistema de saúde) que o Presidente não poderá senão vetar. A bonança não pode durar.

Até porque Robert Gates parece partilhar algumas das características políticas, pessoais e ideológicas do seu encantador antecessor:

He served Bush's father as deputy national security adviser and later as CIA director. He was a rare hardliner in the Bush 41 White House, famously suspicious of Mikhail Gorbachev and closer ideologically to then-Defense boss Dick Cheney than to Colin Powell and James Baker.

He was marked for higher office by Reagan CIA Director William Casey but was slowed in his rise by minor involvement in the Iran-Contra scandal in the late 1980s, when Gates was Casey's Deputy director at the agency.

During Gates' second CIA confirmation hearings he was charged with cooking intelligence by CIA insiders and making it more favorable to White House policy makers; Gates rebutted the charges sufficiently to get confirmed. Many Democrats voted against him nonetheless.

Gates is an affable, soft-spoken man who can tell a good story and has a generous sense of humor.

Um gajo porreiro.

by Pedro Magalhães

Eleições americanas 4 (aditado)

Posted November 8th, 2006 at 7:44 pm4 Comments

Estou em Notre Dame, Indiana, por razões que nada têm que ver com as eleições americanas. Mas sempre se pode aproveitar para ir tomando o pulso ao que se passa aqui de uma maneira diferente daquilo que se pode fazer à distância.

Primeiro, circulam nos media e entre as pessoas com quem falei muitas teorias explicativas dos resultados, mas a ideia de que a eleição foi um referendo à governação de Bush predomina e é relativamente pacífica. De resto, é tudo menos nova. Sabe-se há muito tempo que, se é verdade que o partido que governa tende sempre a ser punido nas eleições midterm, a dimensão dessa punição é explicada, em grande medida, pela avaliação que os eleitores fazem da actuação do Presidente. E essa é a segunda mais negativa no pós-guerra em eleições a meio do mandato. Que a punição não tenha sido maior talvez se explique pelo facto de que a maioria dos lugares do Senado em disputa desta vez eram lugares seguros para os Democratas.

Mais difícil é dizer que tema concreto mais terá pesado nessa avaliação negativa e, por sua vez, na punição do partido Republicano. O Iraque é um bom candidato, tendo em conta que é o problema que a maioria dos eleitores mais destacaram como sendo importante, seguido do terrorismo e, só depois, a economia.* Mas a corrupção é outro tema importante. Saber se a forma como os eleitores se comportaram coincide com aquilo que disserem ser importante é matéria para análise futura.

Segundo, só uma grande distância dos Estados Unidos e algum desconhecimento sobre o funcionamento do seu sistema político permite dizer que estes resultados não têm grande importância para o futuro. Um Congresso Democrata é um Congresso cujas poderosíssimas comissões e subcomissões vão ser lideradas por Democratas, onde o Presidente vai ter muito mais dificuldades em fazer passar leis, onde o preenchimento dos lugares judiciais e de nomeação política conjunta vai ser feito por figuras mais moderadas (devido à necessidade de compromisso), onde a distribuição de benefícios particularistas a grupos de interesse vai mudar de destinatários (ou, provavelmente, devido à divisão de poderes, ser mitigada) e onde a actuação da administração vai ser muito mais vigiada. A cara de enterro dos pivots da Fox News não consente duas interpretações: a mudança de controlo partidário do Congresso é importantíssima. Ontem, James Carville lembrava a manhã seguinte, em 1994, na Casa Branca, quando a administração Clinton se deu conta que teria de lidar com uma maioria Republicana no Congresso: "um pesadelo. O nosso mundo tinha mudado".

Três observações mais impressionistas:

1. Pela primeira vez, vejo muitos comentadores e políticos articularem a frase "a guerra do Iraque está perdida", assim, sem tirar nem pôr. Ontem, William Kristol, um dos maiores defensores e ideológos da invasão, disse isto na Fox, assim mesmo. Ele, claro, põe as culpas em Rumsfeld. Zangam-se as comadres...

2. O tema da investigação em células estaminais parece ter tido grande importância. Ou pelo menos, assim o pensam os candidatos democratas: não ouvi um único discurso de vitória onde este tema não tenha sido mencionado até à exaustão. A razão está muito bem explicada aqui.

3. A outra impressão com que fico é que algo estranho parece ter acontecido ao Partido Democrata. Todos os candidatos que ouvi, nos seus discursos de vitória, martelaram exactamente os mesmos assuntos: Iraque e células estaminais, já mencionados, assim como ordenado mínimo e saúde. E vejo figuras como McAuliffe, Obama e Pelosi dizer que têm de "trabalhar com o Presidente". Até parece, por momentos, que o Partido Democrata se transformou num partido a sério: disciplinado, com um discurso coerente,e pragmático. Será? Os próximos dois anos vão dizer.

* Nas sondagens à boca das urnas, o tema mais mencionado não foi o Iraque, mas sim a corrupção. Mas estas sondagens, claro, têm como universo apenas os votantes, e não os eleitores, impedindo assim a análise das motivações de um acto altamente susceptível de ser usado para punição dos governantes e de produzir enormes efeitos a nível agregado: a abstenção.

by Pedro Magalhães

Eleições americanas 3

Posted November 8th, 2006 at 7:39 pm4 Comments

Confirma-se eleição de senador Democrata no Montana. Só falta confirmar Virginia.

Donald Rumsfeld sai. Lá se vai a teoria de que as eleições não têm impacto na administração.

by Pedro Magalhães

Eleições americanas 2

Posted November 8th, 2006 at 4:47 pm4 Comments

A Câmara dos Representantes, como previsto, passou para os Democratas. No Senado, tudo depende dos resultados em dois estados já mencionados aqui: Montana (1.700 votos de vantagem para o candidato democrata) e Virginia (8.ooo votos de vantagem para o candidato democrata).

by Pedro Magalhães

Eleições americanas

Posted November 6th, 2006 at 10:58 am4 Comments

O melhor sítio para ficar com uma ideia do que pode suceder amanhã é o indispensável pollster.com, dos nossos conhecidos Mark Blumenthal e Charles Franklin. Na base de centenas de sondagens divulgadas, tudo aponta para que os Democratas ganhem uma maioria da Câmara dos Representantes, mas no Senado as dúvidas são maiores. Tudo depende do que acontecer em quatro estados: Montana, Missouri, Viriginia e Maryland. Em todos eles, há um Democrata à frente nas sondagens, mas em todos eles a margem é muito curta. E vai ser preciso que os Democratas ganhem todos os quatro estados para de facto "controlarem" o Senado: se houver um empate 50/50, quem fica com poder de desempate é esta gentil criatura.

Se acontecer o que realmente se espera - Democratas com a Câmara, Republicanos com o Senado - isso significaria que os modelos de previsão dos resultados estão correctos. Podem encontrar três aqui, cada um dando importância a variáveis diferentes, mas todos eles convergindo na mesma previsão genérica.

by Pedro Magalhães

Correlação não é causalidade

Posted October 31st, 2006 at 1:00 pm4 Comments

Em resposta a este post. Para comentário mais desenvolvido, ver, por exemplo, isto.

by Pedro Magalhães

Referendo despenalização aborto. Sondagem Marktest.

Posted October 31st, 2006 at 11:14 am4 Comments

Mais uma sondagem divulgada hoje, mas realizada antes da sondagem Intercampus/TVI.

by Pedro Magalhães

Brasil. Tudo normal

Posted October 30th, 2006 at 11:41 am4 Comments

by Pedro Magalhães

Queda de Sócrates 2

Posted October 27th, 2006 at 12:17 pm4 Comments

Como interpretar?

1. Em primeiro lugar, uma sondagem é uma sondagem. Há mil e uma razões para que esta sondagem em concreto possa não estar a captar mudanças reais.

2. Mesmo que estejamos perante uma mudança real (e saberemos melhor se assim é com futuros resultados), a verdade é que o que era anormal era a elevada popularidade de Sócrates desde as autárquicas. Os ciclos políticos não costumam ser assim.*

3. Dito isto, a confirmar-se, uma descida é uma descida, e parece grande. A que se deverá? Não há nenhuma mudança fundamental no "pano de fundo" de "médio-prazo" que costuma afectar estas coisas, ou seja, a situação económica. De resto, mesmo que houvesse, ela costuma ter um efeito diferido nas atitudes dos eleitores, que demoram algum tempo a interiorizar essas mudanças. E mesmo que tivesse efeito imediato, teria sido para cima, e não para baixo.

4. Pelo que a coisa deve estar ligada a factores de muito curto prazo. Não se pode ter a certeza, claro, mas parece-me que o "fim da crise" decretado pelo Ministro da Economia (e logo retirado) e a questão da electricidade não podem ser irrelevantes. Primeiro, tiveram muito maior amplificação mediática do que anteriores episódios que alguns anunciaram ditar o "fim do estado de graça" (o que nunca aconteceu, até agora). Segundo, porque aquilo que os torna importantes é o facto de eles entrarem em contradição directa com o princípio genérico que visa legitimar a actuação do governo desde o início: a "resolução" da crise pelo ataque aos "privilégios" e aos "privilegiados" e a noção de que os sacrifícios serão distribuídos de forma equitativa ou mesmo progressiva. Sem crise, então para que servem os sacrifícios? E são os consumidores (os eleitores em geral) que têm a culpa dos aumentos da electricidade? Não tenho informação nem competência para avaliar a actuação do Ministério da Economia e da Inovação em todas as suas dimensões. Mas do ponto de vista político e comunicacional, é um tumor maligno.

5. Gostava muito de saber em que estratos sociais é que a descida de Sócrates na sondagem da Markest foi mais acentuada. Era capaz de apostar que foi nos mais baixos.

6. Também me cheira (só isso) que os meios de comunicação social começam a ficar menos dóceis com o governo. Não faço ideia se os noticiários da RTP são "governamentalizados" - há anos não vejo televisão a essas horas - e não me parece sensato, com todo o respeito (a sério), usar o Abrupto como fonte de análise imparcial sobre o tema. Mas o que a multiplicação de críticas à RTP quer provavelmente dizer é que, pelo menos, o contraste entre a cobertura da RTP e dos restantes meios de comunicação começa a tornar-se evidente.

7. E atenção, que vem aí a saúde, tema "popular" por excelência. Se a coisa correr como no caso da electricidade - em que a explicação cabal do "porquê" dos aumentos chegou depois do anúncio dos próprios - é melhor Sócrates apertar o cinto de segurança. Correia de Campos é já, na sondagem da Marktest, o ministro cuja popularidade mais desceu em Outubro.


*A propósito disto, uma nota. Numa conferência recente em que apresentei um estudo sobre o comportamento eleitoral nas presidenciais, um dos membros do público chamou a atenção para um factor muito importante: as eleições locais. O PS foi severamente castigado nas autárquicas, o que pode ter "descomprimido o ambiente" para o período seguinte, levando à recuperação da popularidade de Sócrates (que temos mostrado neste blogue e é visível no post anterior) e, de resto, ao facto de, quando analisamos dados individuais sobre decisão de voto nas presidenciais, a avaliação do governo não ter tido qualquer impacto. A hipótese é muito interessante.

by Pedro Magalhães

Queda de Sócrates

Posted October 27th, 2006 at 10:23 am4 Comments

Tal como medida na última sondagem Marktest/DN/TSF (.pdf). Haveria várias maneiras de a mostrar, mas opto aqui por mostrar a evolução do saldo entre opiniões positivas e negativas. Marques Mendes também paga a factura do que parece ser um aumento geral da insatisfação política, mas menos.

by Pedro Magalhães