Pedro Magalhães

Margens de Erro

Os efeitos do "dossiê Serra" (1)

Posted September 25th, 2006 at 10:05 am4 Comments

Como podemos avaliar se a divulgação do escândalo ligado ao "dossiê Serra" afectou as intenções de voto para as presidênciais no Brasil. Não é fácil, mas vamos por partes.

Uma primeira aproximação à questão pode ser feita comparando os resultados das últimas sondagens realizadas antes da divulgação pública do caso com aqueles que foram realizadas a seguir:


Em três das quatro sondagens para as quais temos ponto de comparação, Lula desce. E note-se que a excepção é a Vox Populi, onde a comparação é feita com uma sondagem de finais de Agosto. Claro que, olhando para cada sondagem individualmente, a diferença pré-pós não é estatisticamente significativa, podendo estar recoberta pela margem de erro amostral. Mas quando três em cada quatro sondagens detectam uma mesma tendência, a incerteza diminui.

by Pedro Magalhães

Brasil pós-escândalo

Posted September 22nd, 2006 at 3:30 pm4 Comments

Nada como um escândalo de última hora para animar uma eleição. Agora é o "dossiê" Serra. Detalhes aqui.

Os números de sondagens realizadas após a denúncia do escândalo (a vermelho, no quadro seguinte) são algo contraditórios (adiciono as duas últimas sondagens Ipespe, um instituto que me tinha passado completamente ao lado; daqui a dias apresento as sondagens anteriores):



Na sondagem Datafolha, não há efeito visível. Nas sondagens IBOPE e Ibespe, há diminuição das intenções válidas de voto. E na sondagem Vox Populi, Lula sobe (em virtude da redistribuição de um comparativamente grande número de indecisos). 2ª feira prometo tentar desvendar o mistério...

by Pedro Magalhães

Brasil, a menos de duas semanas

Posted September 19th, 2006 at 10:01 am4 Comments

Com mais duas sondagens nos últimos dias (IBOPE e Datafolha), apresento a estimativa para a evolução das intenções válidas de voto nas duas candidaturas, limpas de "house effects". Da 2ª quinzena de Agosto para a 1ª de Setembro, a tendência é de ligeiras descidas de Lula e Helena, e subida de Alckmin.

by Pedro Magalhães

Transatlantic Trends 2006

Posted September 11th, 2006 at 2:34 pm4 Comments

Com impecável sentido de oportunidade, foi divulgado há dias mais um relatório da série Transatlantic Trends, um inquérito de opinião anual que examina as atitudes de Europeus e Norte-Americanos em relação à relação transatlântica.

Principais resultados:

1. Aumento da percepção do "fundamentalismo islâmico" como ameaça;

2. Apoio marginal, dos lados de cá e lá do Atlântico, a acção militar no Irão; mas apoio maioritário no caso de fracasso de opção diplomática;

3. Concordância geral dos dois lados do Atlântico sobre onde se devem (e onde não se devem) colocar limites às liberdades individuais na luta contra o terrorismo; mas polarização interna nos Estados Unidos, em linhas partidárias, sobre esta mesma questão;

4. Maioria, dos dois lados, crê que não há incompatibilidade entre os valores do Islão e os valores da democracia, e que o problema é com grupos islâmicos específicos e não com o Islão como um todo (e quem me tiver lido hoje no Público imaginará como me congratulo com estas opiniões...);

5. Declínio no apoio em relação ao papel da NATO na Europa;

De notar que Portugal faz parte dos países estudados, graças ao apoio da FLAD, a quem devemos dar os parabéns por continuar a apoiar a nossa integração neste Transatlantic Trends. Temos algumas especificidades, tais como vermos a imigração como ameaça importante ou darmos forte apoio à europeização da política externa, entre outras.

Mas o melhor é ler tudo. É o que farei nos próximos dias.

by Pedro Magalhães

Brasil: actualização

Posted September 6th, 2006 at 11:10 am4 Comments

Mais três sondagens na nossa lista: Vox Populi, IBOPE e Datafolha, esta última já em Setembro.


A menos de um mês das eleições, convergência em torno de 57-58% para Lula, mesmo por parte de institutos que, antes, tinham dado valores abaixo (Datafolha e Vox Populi) e acima (IBOPE) da tendência para Lula.

Com o endurecimento da campanha e o tempo de antena, Alckmin sobe. Também aqui institutos que antes tendiam a "beneficiar" (Vox Populi) ou "prejudicar" (IBOPE) Alckmin têm resultados recentes muito convergentes:


Mas se Lula mantém e Alckmin sobe, alguém tem de descer...


Por aqui, aqui, aqui, aqui ou aqui discutem-se os resultados das sondagens no Brasil, com alguns detalhes adicionais sobre a desagregação dos resultados e pesquisas qualitativas.

by Pedro Magalhães

Sondagem Gallup International em 33 países: Israel e Líbano

Posted September 4th, 2006 at 4:38 pm4 Comments

A Gallup International, através das suas filiadas, conduziu uma sondagem em 33 países (incluindo Israel e Líbano) na 2ª e 3ª semanas de Agosto. O relatório é muito longo e pode ser lido aqui (.pdf).

Os resultados globais têm um interesse relativo (%'s da amostra geral acham isto ou aquilo), dado que dependem de algo que, de alguma forma, os predetermina: a escolha de países onde ocorreram sondagens. Foram estes:

Argentina, Austrália, Austria, Camarões, Canadá, Croácia, Finlândia, Alemanha, Geórgia, Grécia, Islândia, Índia, Indonésia, Irlanda, Israel, Coreia do Sul, Kosovo, Líbano, Luxemburgo, Moldova, Marrocos, Noruega, Paquistão, Portugal, Roménia, Rússia, Senegal, África do Sul, Suécia, Suíça, Reino Unido, Estados Unidos, Vietname.

E há ainda outro problema. As amostras variam muito de dimensão, entre 300 (na Grécia) e 1392 (na Rússia) - o que não me parece especialmente problemático - mas, nalguns casos, as amostras representam exclusivamente populações urbanas: Grécia (porquê?), Camarões, Geórgia, Indonésia, Líbano, Marrocos, Paquistão, Portugal (porquê?), Noruega (porquê?), Roménia, Senegal (Dakar), Suécia (porquê?) e Vietname. Nada disto invalida os resultados, mas faz com que tenhamos que os ver como são: em vários casos, não podem ser vistos como representativos da opinião da população nacional. Daí que fazer grandes agregações de resultados com todas as sondagens me pareça um exercício de interesse duvidoso.

Olhando para os resultados de outro ponto de vista, que dizer?

1. Who do you think initiated the war in Lebanon; Israel or Hezbollah?
Em geral, cerca de um terço dos inquiridos não respondeu. Na Alemanha, no Luxemburgo, no Reino Unido, no Canadá e Estados Unidos (e Israel, claro), maiorias defendem que foi o Hezbollah. Nos restantes casos, predomina a colocação da responsabilidade em Israel, de forma mais extrema nos países asiáticos e africanos incluídos no estudo do que nos países europeus (Grécia é excepção, mas eu não levaria os resultados gregos excessivamente a sério, pelas razões antes mencionadas).

2. Do you think Israel has gone too far, has taken about the right amount of military action or has not gone far enough?
A resposta simples e rápida é "too far", para maiorias em todos os países menos nos Estados Unidos e, claro, Israel.

3. Which side do you sympathize with more?
Aí está uma pergunta sem paninhos quentes. Mas portugueses, suíços, suecos, alemães, finlandeses e luxemburgueses repõem os paninhos: nem com uns nem com outros. Nos países asiáticos - incluindo, note-se, Coreia do Sul e Vietname - a resposta mais mencionada é "Hezbollah". O mesmo em África. Excepções: Índia e África do Sul, of course.

4. Há maiorias em todos os países apoiando a ideia de que a UN deve enviar uma força de manutenção de paz. Um consenso um bocado gasoso.

5. Um consenso porventura menos esperado e talvez menos gasoso. Cito: "In most participating countries, including the whole list of Western Europeans, the majority mentions Israel’s actions increase Hezbollah’s popularity, reaching a peak of agreement in Lebanon (79%; 65% fully agree) and Senegal (80%)." E até em Israel e nos Estados Unidos sucede isto: "in Israel, tough the majority believes support for Hezbollah will not increase (60%) a significant proportion of 36% differs. In the US although 43% states Israel’s action will spur support for Hezbollah, 26% disagrees. "

6. Uma profunda clivagem: "there appears to be consensus in considering Hezbollah as a terrorist organization in most of the countries that participated in the survey, reaching a peak of virtually all Israelis (97%). The exception [e que excepções] is countries with high proportion of Muslims such as Indonesia, Pakistan, Morocco and Senegal where more than half do not consider Hezbollah a terrorist organization. 87% of Lebanese are in this group".

7. Cito: "In Western Europe half the countries surveyed have higher proportion of people stating troops should not be sent (Austria, Portugal, Germany, Greece, Switzerland and UK) while in the other half, the strongest opinion is supportive (Sweden, Norway, Luxembourg, Ireland, Iceland and Finland).". Este nosso governo, de facto, não brinca em serviço quando se trata de tomar a opinião pública em consideração.

Há outras perguntas, mas estas pareceram-me as mais interessantes. O link para o relatório completo está lá em cima.

O relatório é de dia 28. Será que algum jornal português já apresentou estes resultados? E especialmente os resultados em Portugal? Não reparei.

by Pedro Magalhães

Reader’s Guide to Polls

Posted September 4th, 2006 at 2:31 pm4 Comments

Já que estamos nisto, e via pollster.com, cheguei a um texto de Jack Rosenthal, publicado no New York Times. Tudo isto já foi escrito e repetido mil vezes, mas vale sempre a pena repetir. Transcrevo algumas passagens:

Precisely False vs. Approximately Right: A Reader’s Guide to Polls
By JACK ROSENTHAL
Published: August 27, 2006


"False Precision
Beware of decimal places. When a polling story presents data down to tenths of a percentage point, what the pollster almost always demonstrates is not precision but pretension."


"Sampling Error
For a typical election sample of 1,000, the error rate is plus or minus three percentage points for each candidate, meaning that a 50-50 race could actually differ by 53 to 47. But the three-point figure applies only to the entire sample. How many of those are likely voters? In the recent Connecticut primary, 40 percent of eligible Democrats voted. Even if a poll identified the likely voters perfectly, there still would be just 400 of them, and the error rate for that number would be plus or minus five points. This caution applies forcefully to conclusions about other subgroups. What could a typical survey tell about, say, college-age women? Out of a random sample of 1,000, a little more than half would be women and only about 70 would be of college age. That’s too small a subsample to support any but the most general findings."


"Questions
How questions are phrased can mean wide shifts, even with wholly neutral words. Men respond poorly, for instance, to questions asking if they are “worried” about something, so careful pollsters will ask if they are “concerned.”
(...) The order of questions is another source of potential error. That’s illustrated by questions asked by the Pew Research Center. Andrew Kohut, its president, says: 'If you first ask people what they think about gay marriage, they are opposed. They vent. And if you then ask what they think about civil unions, a majority support that.'"

"Answers
People never wish to look uninformed and will often answer questions despite ignorance of the subject. (...) Respondents also want to appear to be good citizens. When the Times/CBS News Poll asks voters if they voted in the 2004 presidential election, 73 percent say yes. Shortly after the election, however, the Census Bureau reported that only 64 percent of the eligible voters actually voted. Jon Krosnick, an authority on polling and politics at Stanford, uses the term “satisficing” to describe behavior when a pollster calls. If people find the subject compelling, they become engaged. If not, they answer impatiently. Either way, says Kathy Frankovich, director of surveys for CBS News, 'people grab the first thing that comes to mind.'"


"Intensity
How strongly people feel about an issue may be the most important source of poll misunderstanding. In survey after survey, half the respondents favor stronger gun controls — but don’t care nearly as much as the 10 percent who want them relaxed."


"Public opinion is not precise, and in any case it is constantly churning. Measuring it cannot hope to be precise. What readers can hope for, whether in an individual poll, a consensus from several polls or from the polling profession generally, is the truth — approximately right."

by Pedro Magalhães

Blumenthal + Franklin

Posted September 4th, 2006 at 2:20 pm4 Comments

Os dois blogues que me servem de referência para o que significa informar sobre e analisar sondagens - o Mystery Pollster e o Political Arithmetik - conduzidos por Mark Blumenthal e Charles Franklin, decidiram juntar forças aqui: pollster.com. O Political Arithmetik continua - ainda bem - a ter existência própria. A não perder, especialmente tendo em conta a aproximação das "midterm elections" no Estados Unidos.

by Pedro Magalhães

Ciência Política no Brasil

Posted August 31st, 2006 at 12:18 pm4 Comments

Através deste site, cheguei ao site da Associação Brasileira de Ciência Política, um lugar de visita indispensável a quem se interessa a sério pela política no Brasil. Especialmente interessante é a lista de papers apresentados no último encontro (o 5º; nós por cá na APCP ainda só tivemos três), que foi em Belo Horizonte. O site não é particularmente amigável, mas se clicarem em "Programação" e forem às sessões temáticas lá encontrarão os papers.

Vale muito a pena ler vários, entre os quais este (.pdf), de Yan de Souza Carreirão, sobre os efeitos do Mensalão nas preferências, atitudes políticas e intenções de voto dos brasileiros. Principais conclusões (ainda preliminares, note-se):

1. "Começando pelas preferências partidárias: foram afetadas pelo "mensalão", mas de forma não muito intensa, embora aparentemente mais duradoura, já que o PT, mesmo tendo se recuperado um pouco em relação ao período mais crítico, parece ter perdido algo em torno de 5% das preferências em âmbito nacional, comparando com o período "pré-mensalão". Nenhum partido conseguiu crescer significativamente com o declínio do PT; o efeito principal do "mensalão", parece ter sido o do aumento do descrédito dos eleitores nos partidos e nos políticos, em geral."

2. "Contrariamente ao que ocorreu nas três últimas eleições presidenciais, mas, de forma semelhante ao que ocorreu em 1989, as clivagens socioeconômicas (de renda, escolaridade e região do país) têm se mostrado relevantes para diferenciar os eleitores, segundo a avaliação que fazem do governo e segundo suas intenções de voto. São os mais pobres, menos educados e das regiões mais pobres que avaliam melhor o governo e votam mais em Lula."

3. "A avaliação moral tem um impacto relevante: isso fica claro com o declínio da aprovação ao governo, da preferência pelo PT e das intenções de voto em Lula, durante o auge da crise do "mensalão", bem como as variações nestas variáveis, segundo as opiniões dos eleitores sobre corrupção. Mas, a avaliação dos resultados das políticas econômica e social do governo também mostra sua força ao longo de todo o período. A manutenção da estabilidade econômica, com taxas de crescimento econômico um pouco maiores do que as ocorridas no governo anterior; o aumento do emprego com carteira assinada; um maior crescimento do poder de compra do salário mínimo; a ampliação da abrangência e do volume de recursos destinados aos programas sociais do governo que implicam em transferência de renda (especialmente o Bolsa Família), tudo isso parece ter neutralizado, em grande parte, os efeitos negativos das denúncias do "mensalão" e resultado numa avaliação mais positiva do governo Lula, comparado ao governo FHC, especialmente nos segmentos mais pobres e mais beneficiados pelo aumento do salário mínimo e pelos programas sociais."

E uma pergunta muito interessante:

"Central para ponderar a influência de cada um destes fatores é a interpretação sobre as causas da recuperação da avaliação do governo e das intenções de voto no presidente Lula, ao longo do presente ano. É possível pensar que essa recuperação se deva em parte a uma avaliação "final" (até o momento) de que o presidente Lula não estava envolvido nos fatos revelados pelas acusações. Outra possibilidade é a de que essa recuperação seja fruto de uma percepção mais "cínica": o que importaria seria a avaliação sobre os benefícios trazidos pelas políticas governamentais, independente da moralidade das suas ações. O fato de serem especialmente os mais pobres, menos escolarizados e da região Nordeste que avaliam melhor o governo e têm maiores intenções de voto no presidente, coloca como questão crucial a relação de causalidade: estes segmentos sustentam o presidente por terem menos informações e, portanto, por não conseguirem avaliar "corretamente" a gravidade das acusações e o grau de envolvimento do presidente, ou por se sentirem beneficiários dos resultados das políticas governamentais ?"

A história do próximo dia 1 de Outubro já começou a ser escrita. À atenção daqueles que se interessam por estas coisas.

by Pedro Magalhães

Vietname/Iraque

Posted August 30th, 2006 at 2:41 pm4 Comments

Um artigo interessante que explica por que razão o paralelismo entre a situação no Iraque e no Vietname tem limites, sugerindo que os desafios enfrentados no primeiro caso são muito menos complexos que no segundo. A contrapor com outro, também recente, igualmente apontando as diferenças entre os dois contextos, mais analítico e ligeiramente menos optimista.

Só lhes falta explicar por que razão essa diferença objectiva (a favor, apesar de tudo, das perspectivas no Iraque) tem como contraponto uma opinião pública que ficou muito mais pessimista muito mais depressa e com muito menos baixas. Mudança de valores sociais? Papel da comunicação social? Polarização de opiniões sobre presidência Bush? Rápida deslegitimação da intervenção por revelação do logro das WMD's?

by Pedro Magalhães