Pedro Magalhães

Margens de Erro

Teaser

Posted February 18th, 2013 at 11:35 pm4 Comments


by Pedro Magalhães

Eurosondagem, 30 jan- 5 fev, N=1011, Tel.

Posted February 8th, 2013 at 10:57 pm4 Comments

PS: 34.1% (-0.2)
PSD: 27.6% (+0.7)
CDU: 11.6% (+1.3)
CDS-PP: 9.5% (-0.1)
BE: 8.4% (-0.4)

Aqui. Já agora, a ERC finalmente começou a publicar os depósitos de 2013.

by Pedro Magalhães

Nós

Posted February 6th, 2013 at 4:45 pm4 Comments

Há muita gente chocada com as declarações de Fernando Ulrich. Aparentemente, é um problema de "falta de sensibilidade social" ou até de "mau gosto". Mas não me parece que essa seja a questão mais interessante. Afinal, se formos ler o que realmente disse, veremos como assinalou o sofrimento dos sem-abrigo, e nada me faz supor que semelhante sentimento - "sensibilidade", "compaixão", o que lhe quisermos chamar -  não seja genuíno. O que me chama a atenção é outra coisa.

É aquele "nós":

"Se andar aí na rua e infelizmente encontramos pessoas que são sem-abrigo, isso não lhe pode acontecer a si ou a mim, porquê? Isso também nos pode acontecer", disse na conferência de Imprensa. "Se as pessoas que vemos ali na rua, naquela situação a sofrer tanto aguentam, porque é que nós não aguentamos?"

Há pouco tempo, reli um artigo de Frederick Solt sobre desigualdade e nacionalismo. Solt começa por citar Hobsbawm, Tilly, Dahl e até Rosa Luxemburgo em favor de uma ideia simples: a de que "o conceito de 'nação' como uma entidade social e política homogénea" é em parte um "véu" que oculta a desigualdade de condições e os interesses antagónicos dos membros dessa entidade. Segue-se uma hipótese: a de que, quanto maiores forem os níveis de desigualdade de rendimentos numa sociedade, maior a propensão dos seus membros para se mostrarem "orgulhosos da sua nação" e "emocionalmente ligados" ao seu país. Solt confirma a hipótese recorrendo a dados do World Values Survey, e conclui que isto apoia uma "teoria diversionária" do nacionalismo:

"When economic inequality in a country is greater, the state will generate more nationalism in its citizens so as to divert their attention from their diverging conditions and forestall demands for redistributive policies."

Não sei se concordo com a ideia de que as elites políticas tenham sempre o poder suficiente e até partilhem os incentivos para promoverem essa unidade ilusória em contextos de elevada desigualdade, nem com a ideia de que essa unidade é meramente ilusória (afinal, os "países" e as comunidades políticas também têm interesses antagónicos em relação a outros países e outras comunidades). Mas é difícil não recordar que o elenco de argumentos políticos a favor das políticas de austeridade, aqui e noutros países, passa frequentemente pelo apelo ao "interesse nacional", à partilha de responsabilidades e "culpas", dos mesmos deveres de "aguentar" e dos benefícios que supostamente daí advêm para "todos". De resto, um dos argumentos - plausível - que venho ouvindo em conversas sobre a forma "ordeira" como os portugueses têm lidado com os sacrifícios da estabilização orçamental é precisamente a nossa forte unidade nacional e o sentimento de pertença a uma mesma comunidade.

Não sei bem por que razão os políticos conseguem recorrer a este tipo de discurso com relativa impunidade. Talvez por a sua legitimidade advir do "povo", porventura outra ficção, mas de alguma forma consubstanciada, em democracias, em eleições livres e regulares.  Mas essa é uma impunidade de que Ulrich não pôde beneficiar quando apelou a estas semelhanças entre "nós" em torno dos "sacrifícios". Talvez porque tenha inadvertidamente introduzido um "eles" (os sem-abrigo), ou mais provavelmente por ser um membro visível da nossa rarefeita elite social e económica, Ulrich acabou por chamar a atenção para o facto de que, pelo menos de um certo ponto de vista, não há qualquer espécie de "nós" ao qual ele, o seu motorista, um sem-abrigo, eu, e vocês que me estão a ler possamos todos simultaneamente pertencer. Como me recordava há dias um amigo, a esperança de vida dos sem-abrigo britânicos é de 47 anos, e nada faz supor que a dos portugueses seja superior. 72% dos portugueses afirmam ter dificuldades em pagar as contas ao fim do mês. Por detrás do "véu" da unidade nacional, aquilo que cada um tem de aguentar e como aguenta é, afinal, muito diferente. Ulrich ajudou assim a desfazer esta amável ilusão de unidade, relembrando-nos que a profunda desigualdade da nossa sociedade é também uma desigualdade perante os "necessários sacrifícios". Talvez lhe devêssemos agradecer o serviço prestado.

Depois disto, espera-se também que os espíritos mais atentos detectem outras situações comparáveis. Como quando alguns sindicatos e até partidos invocam os interesses dos "trabalhadores", quando é patente que os interesses que defendem são os de uma parte, cada vez mais pequena, daqueles que trabalham, normalmente contra os interesses da outra parte. Ou quando muitos patrões que falam dos interesses das empresas, da "criação de emprego" ou - acaba quase sempre aí - dos "apoios do estado" estão, de facto, a representar os interesses de uma parte das empresas, normalmente as que vivem do mercado interno. Etc, etc, etc. Na verdade, o que há mais é disto.

by Pedro Magalhães

As elites económicas e as elites políticas

Posted February 5th, 2013 at 11:57 pm4 Comments

A coisa em que pensei quando ouvi Fernando Ulrich é que a probabilidade de ouvirmos um político dizer algo de semelhante e sobreviver no seu cargo é nula, o que talvez explique por que razão só ouvimos coisas destas de membros das elites económicas, e não de elites políticas.

by Pedro Magalhães

Marktest, 15-21 jan, N=803, Tel.

Posted February 5th, 2013 at 7:20 pm4 Comments

PS: 32.6%
PSD: 27.9%
BE: 13.3%
CDU: 12.4%
CDS-PP: 5.2%

Aqui.

by Pedro Magalhães

Panetta-Burns

Posted February 5th, 2013 at 1:36 pm4 Comments

A liderança bicéfala do Bloco de Esquerda complica a vida a quem faz sondagens. Quem é o "líder" do Bloco, aquele cuja popularidade ou actuação, tal como percepcionada pelos eleitores, as sondagens querem medir? Eis como a Eurosondagem lidou com o problema no Barómetro Político de Dezembro:


P.14: Acha que a actuação da liderança do BE, Cristina Martins e João Semedo, tem sido:

Positiva: 28,6%
Nem boa nem má: 28,4%
Negativa: 22,0%
Ns/Nr: 21,0%

Daqui podem decorrer várias conclusões. Uma é que há mais inquiridos que fazem uma avaliação positiva que negativa da liderança do Bloco de Esquerda. Outra é que mesmo um público informado, como aquele que é responsável por conduzir sondagens, pode ainda não saber que Catarina Martins não se chama Cristina Martins (eu, por exemplo, não reparei nisto quando olhei para o documento. Foi um colega que me alertou para a coisa). E a terceira é que há pessoas que têm opinião sobre tudo, mesmo aquilo que não existe. Por exemplo, há uns tempos ficámos a saber que 25% dos americanos tinham uma opinião sobre o plano Panetta-Burns de redução do défice, não muito menos que os 39% que tinham opinião sobre o plano Simpson-Bowles. O único detalhe, claro, é que o plano Panetta-Burns nunca existiu...

by Pedro Magalhães

Como será em Janeiro?

Posted January 23rd, 2013 at 11:26 am4 Comments

Sou eu que ando distraído ou ainda não houve sondagens este ano?

by Pedro Magalhães

Intenções de voto

Posted January 18th, 2013 at 5:07 pm4 Comments

Loooongo prazo:



















Desde as eleições:


















Smoother 25% bandwidth, cores explicam-se a si próprias, etc.

by Pedro Magalhães

O relatório do FMI, 2

Posted January 12th, 2013 at 7:20 pm4 Comments

Não tencionava escrever o que se segue porque me pareceu tão banal que achei que alguém me pouparia o esforço. Mas não dei por quem o tenha dito, por isso aqui vai. Para o governo, a discussão que este relatório está a gerar deverá ser, em saldo final, muito positiva. Porque:

1. Se o governo for comandado por agentes racionais e não puramente ideológicos, aquilo que haja de discussão séria sobre o relatório ajudará a expurgar os erros e as soluções tecnicamente inadequadas que uma coisa destas inevitalmente terá (e parece que tem alguns), permitindo que se tomem melhores decisões. Com isto não quero dizer que o governo seja comandado por pessoas racionais ou que a discussão possa ser séria, mas acho que não se deve excluir completamente a hipótese.

2. Independentemente do ponto 1, o FMI cumpre aqui a função de batedor. Faz barulho, levanta a caça, não paga preços eleitorais e ajuda a gerar informação preciosa para o governo sobre que medidas deverão ser, à partida, completamente inaceitáveis e inaplicáveis do ponto de vista político. Como o governo não está em rigor obrigado a tomar essas medidas e como quem fica com a responsabilidade das ideias mais politicamente mirabolantes é o FMI, esta é a maneira certa de levantar a caça. Murmurar frases mutuamente contraditórias sobre o financiamento do ensino obrigatório em entrevistas televisivas e nos dias seguintes é a maneira errada.

3. Finalmente, este relatório e a discussão que está a ocorrer deixa o país a marinar num conjunto de hipóteses aterrorizadoras de corte de despesa que o governo se encarregará de rejeitar ou mitigar quando chegar a altura certa. "Afinal", dir-se-á, não foi tão mau como se pensava. As piores expectativas não serão cumpridas. Vai-se cortar, vai doer, mas claro que não se vai cortar 4.000 milhões. Mas como os credores já explicaram, o que conta não é tanto a meta mas sim a direcção da corrida, e os esforços do país serão elogiados, e Portugal não é a Grécia, e enfim, mais 1% menos 1%, estabilizadores e multiplicadores e tal.

Não faço ideia se isto é bom ou não para o país e para nós, mas é o que é, ou o que vai ser.

by Pedro Magalhães

O relatório do FMI

Posted January 11th, 2013 at 5:05 pm4 Comments

Não é boa maneira de começar um post com este título, mas a verdade é que não me sinto capaz de dar uma opinião fundamentada sequer sobre o sumário executivo. Nada do que se discute ali é a minha área. Mas a discussão que está a ocorrer leva-me a falar de um paper de Boeri e Tabellini com o título "Does information increase political support for pension reform?" Basicamente, eles partem de inquéritos feitos em Itália onde se medem junto dos inquiridos:

- se são a favor de aumentar a idade de reforma e/ou reduzir benefícios;
- o seu conhecimento sobre a situação financeira da segurança social, como são usadas as contribuições e a % do salário usada para pagar contribuições;
- o grau de atenção aos media sobre estes temas.

Isto é complementado com uma experiência onde, a uma parte aleatoriamente seleccionada de uma amostra num inquérito online,  é pedido que leiam um texto descritivo sobre o funcionamento do sistema italiano.

Resultados:

*65% dos italianos sabiam que o sistema estava em situação deficitária, só 50% percebiam que o sistema é "pay-as-you go", e só 10% (dos empregados, menos do total) acertavam na taxa dentro de um intervalo +/- 2.5% (e apenas um em cada quatro acertava num intervalo maior, 25%-40%).
* Quanto menos informação objectiva sobre o funcionamento do sistema, menor a propensão para aceitar reformas ao sistema no sentido de aumentar idade da reforma e/ou diminuir benefícios. Isto é estimado de uma data de maneiras diferentes, presumindo exogeneidade e endogeneidade das variáveis que medem informação, etc.
* Exposição ao debate nos media sobre a reforma do sistema tem efeito nulo sobre a real informação sobre o sistema. Vale a pena citar:

"Individuals who declare to be more exposed to media coverage do not appear to be more informed about basic features of the pension system. One interpretation of this result is that individuals read newspaper articles or watch TV programs on the issue just to confirm their priors, more than to collect new information."

* A experiência confirma o resultado anterior: quem lê o texto fica mais propenso a aceitar reformas. Sei no que vocês estão a pensar, e eles também:

"There is, however, an unavoidable issue of interpretation. Although the description is factual and unloaded with normative suggestions, we cannot rule out the possibility that exposure to treatment here conveys more than just factual information, but also forces the respondent to think more carefully about his answers, or provides additional information besides that captured by the variable info." 


Sobre saúde não conheço estudos assim, mas fiz, com Henrique Lopes, um estudo de apoio a um relatório de Jorge Simões, Pedro Pita Barros e João Pereira sobre a sustentabilidade do SNS, que consistiu num inquérito por questionário a uma amostra nacional sobre o tema (disponível aqui). O inquérito tratava muita coisa mas o aspecto relevante aqui é este: 

* 81% dos inquiridos consideravam-se mal informados sobre a forma como o SNS é financiado.
Só 11% tentaram responder à pergunta do valor da despesa do SNS por habitante por ano. Desses 11%, quase ninguém respondeu no intervalo 721-880 (o valor real de 2005 com uma flutuação de +/- 10%) e a maior parte achava que era menos.
* Só 7% tentaram responder à pergunta do valor da despesa agregada (8.000 milhões) e, desses, apenas 1 em 10 acertaram num intervalo generoso de 5.000/10.000 milhões. No total, em 1.173 pessoas inquiridas, só uma deu as duas respostas "certas".

Nos estudos eleitorais, tende a prevalecer uma visão benévola sobre a ignorância que as pessoas possam ter sobre os temas substantivos discutidos na vida política, alegando-se que com "atalhos informacionais" as pessoas acabam por chegar às "respostas certas", ou seja, àquelas que chegariam mesmo se tivessem mais informação. Mas estudos como este sugerem que a falta de conhecimento tem implicações maiores, pelo menos quando se trata de debates com este grau de tecnicidade. Outro ponto é que, pelos vistos, a exposição a estes debates junto dos meios de comunicação social muda pouco ou nada.

P.S.- De resto, uma das sugestões de Boeri e Tabellini é que se siga o exemplo da Suécia, onde "“orange envelopes” are mailed every year to all contributors, providing basic information on the functioning of the pension system, a glos- sary, a statement of past contributions and projections of the annual entitlements under three retirement ages and for two assumptions on economic growth." Isso, contudo, exige governos que confiam na inteligência dos seus cidadãos e cidadãos que confiam na honestidade dos seus governos...

by Pedro Magalhães