Pedro Magalhães

Margens de Erro

Mais Brasil

Posted May 10th, 2006 at 1:14 am4 Comments

Mais uma sondagem sobre as presidenciais no Brasil, desta vez do Instituto Brasileiro de Pesquisa Social (relatório .pdf, aqui). Estabilidade quase total em relação ao estudo de final de Março: Lula à frente mas sem maioria absoluta, Alckmin perdeu o gás.

Os cenários possíveis estão ainda no ar: com ou sem Garotinho (ainda em greve de fome, à hora que escrevo, protestando contra a Globo e a campanha; how to starve your electoral chances to death, explica-se no brazilianpolitics.com), com ou sem Itamar, com ou sem Sarney, ou mesmo sem candidato do PMDB. Sábado é, creio, a convenção do partido. Seja como for, se Garotinho não for candidato, quem beneficia é Lula.


A propósito, mesmo sendo um bocado caseiro, não posso deixar de sugerir um seminário que vai ter lugar no ICS no dia 16, de manhã: A América Latina: Um Olhar Contemporâneo (programa em .pdf, aqui). Participam Andrés Malamud, do ISCTE, certamente o politólogo a trabalhar em Portugal que mais sabe sobre a América Latina; e Octávio Amorim Neto, da Fundação Getúlio Vargas, um dos melhores investigadores brasileiros nestas áreas (para além de um estudioso do nosso e outros semi-presidencialismos). No final, um debate entre Manuel Villaverde Cabral, Wilson Trajano e Bernardino Gomes. Entrada livre.

by Pedro Magalhães

Off topic: Tapada das Necessidades

Posted May 8th, 2006 at 1:53 pm4 Comments

Não sei se isto é uma micro-causa, mas o que lhe chamo interessa pouco. O Águas do Sul mostra algumas fotografias daquele que, se me perguntassem, facilmente responderia ser um dos meus locais favoritos na cidade de Lisboa: a Tapada das Necessidades. A primeira coisa que importa dizer é que a degradação que a Tapada hoje sofre - visível apenas quando nos aventuramos a caminhar acima do relvado principal a que se acede através da entrada sul - é muito maior do que aquilo que as fotografias podem transmitir. Edifícios e pavilhões abandonados e cobertos de grafittis, caminhos quase intransitáveis pela multiplicação de buracos e pedras, tanques vazios, cancelas fora dos gonzos, ervas que invadem caminhos e passeios, lixo abundante disperso pela vegetação, etc. Tudo isto se passa, note-se, nas traseiras do Ministério dos Negócios Estrangeiros e do Instituto de Defesa Nacional.

Mais: diz o Águas do Sul que o atelier de pintura do Rei D. Carlos I vai ser o gabinete do ex-presidente Jorge Sampaio. Tive a oportunidade de verificar ontem que este atelier está a sofrer obras de beneficiação: pintadinho, recuperado, impecável, e já com relva verdinha e aparada à entrada. Acho muito bem. Mas tenho alguma dificuldade em conceber que Jorge Sampaio se sinta confortável nas suas novas instalações ao mesmo tempo que sabe que a Tapada onde elas estão localizadas está entregue ao mais completo e deprimente abandono, visível, aliás, logo a poucos metros do atelier, num pavilhão cujo miradouro se encontra invadido pelas ervas daninhas e pelos ramos por podar das árvores que o envolvem.

Eu junto-me já ao "Grupo dos Amigos da Tapada das Necessidades" que o Águas do Sul sugere. E até digo mais: se o Ministério da Agricultura, dos Negócios Estrangeiros, e a Câmara e seja lá quem for que tem tutela sobre a Tapada não encontram maneira de se coordenarem para garantir um mínimo de manutenção para o espaço, ou se acham que têm outras coisas mais importantes onde gastar o dinheiro - escrevam no Google as expressões "patrocínio do Ministério dos Negócios Estrangeiros" ou "patrocínio da Câmara Municipal de Lisboa" e ficarão a saber alguns dos sítios onde o orçamento destas instituições vai parar - eu até estou disposto a fazer-lhes um donativo. E se outros se juntassem, poderíamos ter à entrada do parque e em cada zona recuperada da Tapada uma placa dizendo: "Pago com donativos adicionais dos já contribuintes lisboetas". É isso que é preciso? Dou já.

by Pedro Magalhães

Eurosondagem

Posted May 6th, 2006 at 3:44 pm4 Comments

Nova edição do Barómetro da Eurosondagem para o Expresso, SIC e Rádio Renascença.

José Sócrates (entre parêntesis, %'s do mês anterior):
Actuação positiva: 55,7% (57,9%)
Nem boa nem má: 17% (18,7%9
Actuação negativa: 20,5% (20,7%)
Ns/Nr: 6,8% (5,7%)

Cavaco Silva (entre parêntesis, %'s do mês anterior):
Actuação positiva: 58,7% (57,1%)
Nem boa nem má:14% (15,4%)
Actuação negativa: 19,8% (19,6%)
Ns/Nr: 7,5% (7,9%)

Marques Mendes (entre parêntesis, %'s do mês anterior):
Actuação positiva: 35% (38,7%)
Nem boa nem má: 24,5% (22,7%)
Actuação negativa: 29,6% (28,7%)
Ns/Nr: 10,9% (9,9%)

O nosso índice habitual de 0 a 100 (ver posts anteriores), aplicado apenas aos dados da Eurosondagem, revela a seguinte evolução para Sócrates e Mendes:


Em resumo: tal como sucedia na sondagem Markest do final de Abril, Sócrates vê travada uma tendência de subida que vinha desde as autárquicas. Mendes também desce. E Cavaco também sobe (não vale a pena fazer gráfico dado que temos apenas duas observações). As mudanças são mínimas, mas o seu sentido é o mesmo nos dois Barómetros.

by Pedro Magalhães

Consolações

Posted May 3rd, 2006 at 4:53 pm4 Comments


Steven Colbert, do Daily Show, diverte-se e diverte-nos à grande à custa do Presidente Bush (vídeo aqui, transcrição aqui). Uma citação que, compreenderão, achei particularmente bela:

Now, I know there are some polls out there saying this man has a 32% approval rating. But guys like us, we don't pay attention to the polls. We know that polls are just a collection of statistics that reflect what people are thinking in "reality." And reality has a well-known liberal bias.

Para os "liberais" que levam as estatísticas a sério, Charles Franklin tem as novidades:

E as novidades são simples: We have simply never seen a president this unpopular going into a midterm election.

Mas nem tudo é mau para o Presidente Bush. Afinal, há ainda alguém cuja popularidade (.pdf) é inferior à dele:

by Pedro Magalhães

Opinião publicada e opinião pública (2)

Posted April 28th, 2006 at 12:03 pm4 Comments

E eis que, nem de propósito, chegam os dados da Marktest para medir o "fim do estado de graça do governo". Os gráficos seguintes mostram a evolução da popularidade de Sócrates nas sondagens Marktest medida de três formas: as opiniões positivas; o saldo entre opiniões positivas e negativas; e um índice, que varia de 0 a 100, calculado da seguinte forma: (2*%opiniões positivas + %ns;nr;"assim-assim")/2





"Fim do estado de graça" parece exagerado. E é só uma sondagem, sujeita a múltiplas fontes de erro, e cujos resultados carecem de ser confirmados (ou não) por mais observações. Mas por outro lado, estes resultados levantam a hipótese de que, pelo menos, a subida que Sócrates vinha fazendo desde as eleições autárquicas possa ter chegado para já ao seu limite máximo: é a primeira sondagem Marktest desde Novembro em que o índice de popularidade de Sócrates não sobe. Veremos o que trazem as próximas sondagens.

Entretanto, com esta sondagem da Marktest, podemos actualizar o gráfico já apresentado aqui e assim "fechar" o mês de Abril, apreciando a evolução dos índices de popularidade do PM, do PR e do Líder da Oposição por mês, limpos de "house effects". Não há grandes diferenças em relação aos resultados anteriores quando englobamos na análise os resultados da Marktest e a Eurosondagem. Sócrates e Cavaco quase par a par (se bem que Sócrates tenha muito mais opiniões quer positivas quer negativas e Cavaco ainda muita indiferença), Mendes quase não mexe pouco acima do limiar positivo dos 50.

by Pedro Magalhães

Opinião publicada e opinião pública

Posted April 26th, 2006 at 11:58 am4 Comments

Na opinião publicada, o fim do estado de graça foi declarado. O "Simplex" terá levado a vertente propagandística deste governo longe demais, e os relatórios do BP, do FMI e da OCDE constituem o marco temporal mais visível desse eventual fim.

Mas o que me desperta mais curiosidade é saber com que décalage temporal isto se reflecte na opinião pública, em que conjunto ou tipo de eleitores ou, até, se se reflecte de todo. Paulo Gorjão acha que sim, e anuncia que "os próximos estudos sobre a popularidade do Governo já irão reflectir -- embora ainda de forma ténue - a dúvida que se instalou sobre a bondade das medidas do Governo". Aproxima-se o barómetro Marktest e cá estaremos para ver se há algum efeito visível.

Mas importa recordar o que se passou no final da governação Guterres. Entre os comentadores, o "pântano" começou logo após as eleições de 1999. Mas curioso é verificar que, em Outubro de 2001, as sondagens continuavam a colocar o PS em primeiro lugar das intenções de voto. "Guterres recupera e PS já sobe" e "Poder rosa em grande" eram os títulos do Expresso de... 5 de Outubro de 2001. Não se trata apenas de um qualquer factor "Eurosondagem", porque os resultados da Universidade Católica não eram diferentes.

Problema das sondagens, ou problema das pressuposições sobre a forma como o discurso mediático penetra ou influencia a opinião pública? E se forem as segundas que estão erradas, que factores medeiam a relação entre um e outra que fazem com que a relação seja muito mais indirecta e cheia de nuances do que se poderia prever?

by Pedro Magalhães

Vietname/Iraque

Posted April 20th, 2006 at 5:11 pm4 Comments

A comparação das tendências da opinião pública americana verificadas durante as guerras do Vietname e do Iraque, já aqui feita de forma puramente descritiva, começa a merecer cada vez mais atenção nos Estados Unidos.

Ontem, baseando-se nos mesmos dados, Chris Cillizza, no blogue do Washington Post, concluía que:

1. O ponto aparentemente definitivo de viragem ocorreu em meados de 2005 - aproximadamente 800 dias depois da invasão no gráfico abaixo - momento a partir do qual passa a haver uma maioria dos americanos que pensam que a guerra no Iraque foi um erro. Isto coincide com o caso Cindy Sheehan, a mãe de um militar morto no Iraque que montou uma vigília junto ao rancho de George Bush, em Crawford.

2. Este ponto de viragem foi anterior ao da guerra do Vietname, que se deu por altura da ofensiva de Tet. Para ser mais preciso, o ponto a partir do qual a opinião pública american ficou maioritariamente persuadida de que a guerra do Vietname tinha sido um erro foi após a ofensiva de Tet de 1968 (mais de 1200 dias após Rolling Thunder), que revelou que, apesar da derrota militar dos norte-vietnamitas, não havia qualquer esperança de uma vitória rápida dos Estados Unidos. Desde esse momento, não voltou a haver uma maioria na opinião pública americana a favor da guerra.

3. Chillizza menciona um artigo de Novembro de 2005 na Foreign Affairs que, sem desculpa, me tinha passado ao lado: de John Mueller, ainda por cima um professor da minha alma mater. Algumas citações de um artigo que merece ser lido na íntegra:

Comparando a evolução ao longo de várias guerras:
The most striking thing about the comparison among the three wars is how much more quickly support has eroded in the case of Iraq. By early 2005, when combat deaths were around 1,500, the percentage of respondents who considered the Iraq war a mistake -- over half -- was about the same as the percentage who considered the war in Vietnam a mistake at the time of the 1968 Tet offensive, when nearly 20,000 soldiers had already died.

Especulando sobre implicações para as eleições para o Congresso:
"The impact of war discontent on congressional races is less clear. Democrats attempted to capitalize on the widespread outrage over Nixon's invasion of Cambodia in 1970 but were unable to change things much."

Sobre a improbabilidade de inversão da tendência:
"There never were periods of continuous good news in the wars in Korea or Vietnam, so there is no clear precedent here. But should good news start coming in from Iraq -- including, in particular, a decline in American casualty rates -- it would more likely cause the erosion in public support to slow or even cease rather than trigger a large upsurge in support. For support to rise notably, many of those now disaffected by the war would need to reverse their position, and that seems rather unlikely: polls that seek to tap intensity of feeling find that more than 80 percent of those opposed to the war "strongly" feel that way. If you purchase a car for twice what it is worth, you will still consider the deal to have been a mistake even if you come to like the car."

Sobre os limites da comparação entre o Vietname e o Iraque e por que razão isso pode fazer com que uma retirada seja menos dramática:
When the United States was preparing to withdraw from Vietnam, many Americans feared that there would be a bloodbath if the country fell to the North Vietnamese. And indeed, on taking control, the Communists executed tens of thousands of people, sent hundreds of thousands to "reeducation camps" for long periods, and so mismanaged the economy that hundreds of thousands fled the country out of desperation, often in barely floating boats. (What happened in neighboring Cambodia when the Khmer Rouge took over makes even the word "bloodbath" seem an understatement.) (...) Although the consequences of a U.S. withdrawal from Iraq are likely to be messy, they may be less dire. The insurgency in Iraq, albeit deadly and dedicated, represents a much smaller, less popular, and less organized force than the Vietcong did, and it does not have the same kind of international backing. Moreover, many of the insurgents are fighting simply to get U.S. troops out of the country and can be expected to stop when the Americans leave.

E sobre as consequências, essas sim potencialmente catastróficas, do fracasso no Iraque para toda a região:
In the meantime, any country that suspects it may be on the list has the strongest incentive to make the American experience in Iraq as miserable as possible. Some may also come to consider that deterring the world's last remaining superpower can be accomplished by preemptively and prominently recruiting and training a few thousand of their citizens to fight and die in dedicated irregular warfare against foreign occupiers. (....) Ultimately, the chief beneficiaries of the war in Iraq may be Iraq's fellow members of the "axis of evil."

Actualizo os dados sobre a opinião pública americana acerca de uma e outra guerras, aproximadamente no mesmo período de tempo, nos gráficos abaixo:

by Pedro Magalhães

Mais Brasil

Posted April 17th, 2006 at 12:32 pm4 Comments

Uma nova sondagem, da Sensus. Realizada ao mesmo tempo que a sondagem Datafolha, confirma os seus resultados: Lula abaixo da maioria absoluta, Alckmin parou de subir, Garotinho sobe.

by Pedro Magalhães

Lei eleitoral italiana: correcção

Posted April 17th, 2006 at 10:44 am4 Comments

O Sniper fez pontaria e acertou. Ao contrário do que eu tinha dito aqui, o "prémio de maioria", se necessário, atribui-se à coligação mais votada e não à coligação com mais assentos após a exclusão dos partidos que não ultrapassam a cláusula-barreira. O site da Câmara dos Deputados italiana explica (clicar em "Norme", "Legge Elettorale" e "Scheda illustrativa") e espero, desta vez, ter entendido correctamente (partes relevantes em negrito):

I seggi sono ripartiti proporzionalmente in ambito nazionale tra le coalizioni di liste e le liste che abbiano superato le soglie di sbarramento previste dalla legge. Sono ammesse alle ripartizione dei seggi soltanto le coalizioni che abbiano raggiunto almeno il 10% del totale dei voti validi e, al loro interno, le liste che abbiano ottenuto il 2% dei voti, le liste rappresentative di minoranze linguistiche con almeno il 20% dei voti della circoscrizione e la lista che abbia conquistato più voti tra quelle che non hanno conseguito il 2% dei voti.

Partecipano inoltre alla ripartizione dei seggi le liste che non fanno parte di alcuna coalizione, a condizione che abbiano avuto almeno il 4% dei voti a livello nazionale. Alla coalizione di liste (o alla lista non coalizzata) più votata, qualora non abbia già conseguito almeno 340 seggi, è attribuito un premio di maggioranza tale da farle raggiungere il numero di seggi in questione. Le varie fasi della distribuzione dei seggi proporzionali sono le seguenti:

1. Si accerta, nelle circoscrizioni e in ambito nazionale, il totale dei voti conseguiti da ciascuna coalizione o singola lista non collegata e si individua quale di esse ha ottenuto a livello nazionale il maggior numero di voti ai fini dell’attribuzione dell’eventuale premio di maggioranza;

2. Si individuano le coalizioni di liste e le liste non collegate che, superando le soglie di sbarramento, sono ammesse all’assegnazione dei seggi;

3. Si determina su base nazionale il numero di seggi spettanti a ciascuna coalizione di liste o lista non collegata che ha superato la soglia di sbarramento. La ripartizione è effettuata in proporzione ai voti ottenuti con il metodo dei quozienti interi e dei più alti resti;

4. Si verifica se la coalizione di liste o la lista non collegata che ha ottenuto il più alto numero di voti ha cnseguito 340 seggi;

5. In caso positivo, il premio di maggioranza non trova applicazione. I seggi spettanti a ciascuna coalizione sono assegnati alle liste ammesse al riparto che le compongono. Si procede quindi a distribuire in ogni circoscrizione i seggi assegnati in sede nazionale a ciascuna lista ammessa;

6. Se nessuna coalizione di liste o lista non collegata ha ottenuto almeno 340 seggi, si attribuisce a quella di esse più votata il premio di maggioranza, consistente in un numero di seggi pari alla differenza tra 340 e il numero di seggi ad essa assegnati sulla base della ripartizione proporzionale. I 277 seggi rimanenti sono distribuiti tra le altre coalizioni o liste non collegate secondo il metodo dei quozienti interi e dei più alti resti;

7. Si proclamano, nelle diverse circoscrizioni, i candidati eletti secondo l'ordine di successione fissato in ciascuna lista. Se la lista dei candidati è esaurita, si attinge, nell’ordine, alla medesima lista in un’altra circoscrizione, ad un’altra lista della stessa coalizione presentata nella circoscrizione originaria, ovvero in un’altra circoscrizione.

by Pedro Magalhães

Da Itália para o Brasil

Posted April 11th, 2006 at 3:40 pm4 Comments

E porque não convém perder embalagem, nova sondagem sobre as presidenciais brasileiras, da Datafolha. As discrepâncias entre os diferentes institutos são demasiado grandes (e o número de observações demasiado pequeno) para tirar grandes conclusões. Mas não deixa de ser curioso verificar que, em relação à anterior sondagem Datafolha, quem parece ter perdido alguma embalagem é Alckmin (o mesmo sucedendo, aliás, no cenário hipotético de "2º turno" contra Lula). Mas é cedo, muito cedo...

by Pedro Magalhães