Pedro Magalhães

Margens de Erro

Israel, véspera de eleições

Posted March 27th, 2006 at 5:49 pm4 Comments

A última actualização da análise das sondagens sobre as eleições israelitas no indispensável Political Arithmetik, mostra o Kadima a descer (tal como vem sucedendo desde as eleições na Palestina), mas ainda, e muito claramente, como vencedor. Trabalhistas e Likud parecem estáveis, mas o Yisrael Beiteinu, que tem forte implantação entre os judeus vindo da ex-União Soviética, prepara-se para se tornar o 4º partido (não sendo completamente de excluir que ultrapasse o Likud, o que seria um resultado espantoso).

Sobre o panorama de coligações pós-eleitorais, Matthew Shugart apontava há dias as várias possibilidades. Na base das estimativas mais recentes, os cenários de Shugart continuam a fazer sentido.

by Pedro Magalhães

Focus group

Posted March 24th, 2006 at 3:42 pm4 Comments



As coisas que se ficam a saber com um focus group...

Explicação aqui.

by Pedro Magalhães

Itália

Posted March 24th, 2006 at 11:09 am4 Comments

Segundo todas as sondagens e também por admissão própria e dos seus aliados, Berlusconi perdeu o debate com Prodi. Também perdeu a cabeça numa reunião da Confindustria, acusando os grandes empresários de terem "esqueletos no armário" e de terem sido perdoados por "juízes vermelhos". E pelos vistos, vai perder as eleições, se bem que importa ter cuidado com dois factores: a mudança do sistema eleitoral, concebida especificamente para favorecer a Cdl; e o facto de, devido à restritiva legislação italiana, estas serem as últimas sondagens a serem divulgadas antes das eleições. Em quinze dias pode mudar muita coisa. Seja como for, o pós-debate revela uma subida clara da Unione. Os dois "outliers" que vêm lá em baixo - duas sondagens da empresa Psb - são sondagens encomendadas pela...Forza Italia.

by Pedro Magalhães

Popularidades

Posted March 22nd, 2006 at 1:18 am4 Comments

Nos Estados Unidos e (em menor grau) no Reino Unido, a avaliação do desempenho do chefe do executivo é seguida com enorme atenção pelos órgãos de comunicação social, pelos agentes políticos e pelos estudiosos da opinião pública, suscitando, por parte destes últimos, o tipo de análises aprofundadas que se podem encontrar aqui ou aqui. Por um lado, isto deve-se ao grande desenvolvimento dos estudos de opinião pública e à enorme quantidade de recursos que nelas são dispendidos. E por outro lado, aos próprios sistemas políticos. Nos Estados Unidos, temos a concentração do poder executivo num cargo uninominal. No Reino Unido, apesar de se tratar de um sistema parlamentar, estamos também perante um dos casos onde a concentração de poder nas mãos do PM e líder do partido é maior entre as democracias ocidentais. Logo, a atenção tende também ela a concentrar-se na pessoa do líder, nas suas qualidades e na avaliação que delas fazem os eleitores.

Em Portugal, o que se sabe sobre o factores que mais afectam o comportamento eleitoral é que a avaliação que os eleitores fazem dos líderes tem enorme impacto na decisão do voto, acima do que seria de esperar com um sistema eleitoral proporcional. Logo, seria de esperar que fosse dada grande atenção aos dados disponíveis sobre essa avaliação. Mas assim não sucede. Os meios de comunicação social encomendam apenas as duas empresas de sondagens - Marktest e Eurosondagem - dados regulares sobre essa matéria, e são raros os estudos disponíveis utilizando esses dados (com a notável excepção do trabalho de dois investigadores da Universidade do Minho, Francisco José Veiga e Linda Veiga).

Quais os dados disponíveis desde a tomada de posse do actual governo. A Marktest, no seu barómetro mensal, coloca a seguinte questão sobre vários líderes políticos:

No caso de [líder]: Em sua opinião diria que a actuação de [líder]) tem sido POSITIVA ou NEGATIVA ?

A formulação concreta da pergunta colocada pela Eurosondagem deverá ser semelhante, ficando contudo a dúvida se é fornecida uma opção intermédia "Assim-assim". Nalguns casos, os quadros publicados no Expresso sugerem que assim é (afirmando-se que as percentagens apresentadas excluem respostas "não sabe/não responde" e "assim-assim"). Noutros casos, essa referência está ausente.

Talvez as diferentes formulações ajudem a explicar as discrepâncias entre os resultados das duas empresas. Nos gráficos abaixo, apresenta-se a evolução ao longo do tempo das percentagens de indivíduos que fazem uma avaliação positiva do Primeiro-Ministro, do Presidente da República e do líder do principal partido da oposição nas duas sondagens desde a tomada de posse do actual governo (agradeço à Marktest o envio dos dados completos; os dados da Eurosondagem foram recolhidos do Expresso; datas correspondem ao último dia de trabalho de campo):



Apesar das discrepâncias nas avaliações de Sampaio serem mínimas, o mesmo não sucede para Sócrates ou Marques Mendes: as sondagens publicadas no Expresso tendem a obter maiores percentagens de aprovação para ambos em comparação com a Marktest.

Dito isto, é tranquilizador verificar que, apesar das discrepâncias absolutas, as tendências que detectam são semelhantes. Descida de Sócrates até às autárquicas, seguida de recuperação (claríssima na Marktest, sugerida na Eurosondagem); subida de Marques Mendes imediatamente após autárquicas, e posterior retorno aos níveis (baixos) de Abril de 2005. Em ambos os casos, e para as últimas sondagens, as taxas de aprovação de Sócrates estão cerca de 20 pontos percentuais acima das taxas de aprovação de Marques Mendes.

Os resultados de Sócrates não estão exactamente na linha do que anteriores estudos sobre as funções de popularidade poderiam sugerir. No passado, a popularidade do PM tendeu a diminuir com o aumento do desemprego, especialmente quando o seu governo dispunha de maioria absoluta. E diminuia também assim que se ultrapassava o período inicial de seis meses de "lua de mel". Mas não é bem isso que parece estar a ocorrer. Com o desemprego a aumentar de 7,5% para 8% do primeiro para o último trimestre de 2005 e ultrapassada a "lua de mel", Sócrates quase regressa aos níveis de popularidade de que gozava imediatamente no início do ciclo. Aumenta assim a curiosidade em relação ao que as próximas sondagens dirão: será a recuperação de popularidade dos últimos meses para durar, ou uma fugaz anomalia em relação à tendência de descida que se iniciou logo após a tomada de posse? Logo se verá.

by Pedro Magalhães

Abu Ghraib

Posted March 15th, 2006 at 4:11 pm4 Comments

A Salon publica finalmente o anunciado conjunto de 276 fotografias que obteve sobre tortura e abuso de prisioneiros em Abu Ghraib, relatando igualmente que nenhum soldado acima da patente de sargento foi levado a tribunal. Isto inclui o operacional da CIA que interrogou o prisioneiro Manadel al-Jamadi, que acabou por ser encontrado morto.

"The failure of a democratic society to investigate well-documented abuses by its soldiers". Indeed. Mas dir-se-ia mais: o falhanço de uma sociedade democrática em conseguir que aqueles em que delega poder governem de acordo com as suas preferências.

TNS/Washington Post/ABC News, 15-18 Dezembro 2005, N=1003, Telefónica

Would you regard the use of torture against people suspected of involvement in terrorism as an acceptable or unacceptable part of the U.S. campaign against terrorism?

Acceptable: 32%
Not acceptable: 64%
Depends on the torture: 3%
No opinion: 2%

by Pedro Magalhães

Aumenta a incerteza em Israel

Posted March 14th, 2006 at 10:45 am4 Comments

Ninguém duvida que os dias que correm podem ser cruciais para o futuro de Israel e da Palestina. Os seus destinos estão ligados até nisto: a partir da vitória do Hamas, começou a descida do Kadima nas sondagens em Israel, como relata o Political Arithmetik:

É natural que haja mais desgaste no Kadima: a maior parte dos israelitas opõe-se à retirada parcial de civis da Margem Ocidental (saem civis, a IDF fica) sugerida por Avi Dichter, possível futuro ministro da defesa.

Dialog, 8 de Março, N=600.
Do you support or oppose the plan of Kadima to evacuate settlements unilaterally as Avi Dichter proposed this week?
Support: 37%
Oppose: 49%
Other: 14%

No fim de semana, Olmert foi ainda mais categórico: retirada até 2010 e, pelo caminho, 80.000 evacuados dos territórios ocupados. Vamos ver os efeitos que isto produz até ao dia 28 de Março. Até que ponto anteriores votantes no Likud, entretanto atraídos pelo centro representado pelo Kadima, regressarão ao redil? A acompanhar com atenção, mas uma coligação Kadima/Trabalhistas continua a ser o mais provável.

by Pedro Magalhães

A popularidade de Cavaco

Posted March 11th, 2006 at 1:52 am4 Comments

O que se segue é muitíssimo estranho (fonte), e merece uma análise crítica.



















A ser verdade, seria chocante. Como se verifica no gráfico seguinte, elaborado por Francisco José Veiga e Linda Veiga, da Universidade do Minho, com base em dados Expresso/Euroexpansão (neste paper, .pdf, mais tarde revisto e publicado na Economics & Politics), Sampaio começou em alta em 1996, para logo descer e só depois recuperar lentamente. Não que chegue a haver um efeito "lua-de-mel" para o Presidente, como o próprio estudo dos Veigas revela. Mas que Cavaco, após a eleição, só tenha pouco mais de 10% de opiniões positivas em relação às opiniões negativas, seria muito estranho.



É possível, contudo, que tudo isto se deva ao facto da sondagem sobre Cavaco pedir aos inquiridos uma avaliação da sua "actuação", o que pode ter sido interpretado como a sua actuação "enquanto Presidente". Para muitos, como não tinha tomado posse, a pergunta pode não ter feito sentido. E o que sucede? Nesta sondagem, 35% de não sabe/não responde. Em Novembro, por exemplo, só 16% não tinham opinião. É preciso cuidado com a leitura dos números.

O estudo dos Veigas merece ser lido por muitas razões. Mostra, por exemplo, que apesar do PM ser o mais responsabilizado pela economia (nomeadamente, o desemprego), o Presidente também o é, independentemente de situações de coabitação ou não. E que Sampaio foi, em geral, menos popular que Soares (mas o estudo vai só até 2000).

by Pedro Magalhães

Itália, a pouco mais de um mês

Posted March 8th, 2006 at 3:12 pm4 Comments

Prodi recusou hoje um frente-a-frente com Berlusconi, alegando a recusa deste último em aceitar uma série de regras sobre posições das câmaras, proibição de focar um candidato enquanto o outro fala, tempos de pergunta e resposta, a escolha do entrevistador, etc.. Mais importante ainda é a indisponibilidade de Prodi em aceitar que Berlusconi conduza, imediatamente após o debate, nada menos que... uma conferência de imprensa enquanto PM. Berlusconi responde:

"Prodi is acting irresponsibly. He should show up and debate in a polite and civilised manner, as I do.(...) If he won't show up, I'll still demand the time on TV that is owed to me, to show what the government has done. I'll be there on Monday, I hope he will be there too, but I cannot make predictions."

Certo. Entretanto, as sondagens dizem (quase) todas o mesmo, ou seja, vitória para a Unione de Prodi, com tendência progressiva de descida dos indecisos (acima dos 20% em Janeiro, entre 14 e 18% em finais de Fevereiro):



É quase impossível encontrar tendências de mudança nos últimos dois meses. Mapeando os resultados ao longo do tempo e aplicando uma regressão local, a Unione encontra-se estável, ao passo que a ligeira subida da Casa até meados de Fevereiro, à custa dos poucos e pequenos partidos fora das coligações, deixou de ter para onde ir.





























A coisa começa a parecer muito fechada, e é possível que se repita o padrão recorrente da vida política italiana: o mais interessante não são as eleições, mas sim o que acontece entre elas. Contudo, neste menu de sondagens disponíveis, há algumas coisas intrigantes: a enorme homogeneidade de métodos utilizados e a quase incrível semelhança de resultados no interior dos institutos, aparentemente insensíveis ao erro aleatório. Haverá por aqui muita ponderação, especialmente na base de anteriores resultados eleitorais? Vamos tentar perceber.

Fonte das sondagens: aqui.

by Pedro Magalhães

Off topic

Posted March 7th, 2006 at 6:21 pm4 Comments















Foto da livraria propriedade do Larry McMurtry, em Archer City, Texas, pop. 1848. Tem site e tudo.

Vai com dedicatória ao outro Pedro Magalhães.

by Pedro Magalhães

Prognósticos só nunca

Posted March 7th, 2006 at 3:11 pm4 Comments

Aqui há uns meses, os jornais e a blogosfera estavam repletos de previsões sombrias sobre o "impasse" na Alemanha e a improvável sobrevivência política de Angela Merkel. Várias sondagens recentes revelam até que ponto estes prognósticos foram certeiros:

Infratest-Dimap:

*52% dos alemães acham que a coligação está a fazer um bom trabalho;
* 66% afirmam não detectar divergências de fundo entre os parceiros de coligação;
*Angela Merkel é a figura política mais popular na Alemanha, com 74% de opiniões positivas;
*Se pudessem escolher directamente um chanceler, 56% escolheriam Merkel;

Em retrospectiva, a coisa ainda fica mais cómica do que já era na altura.

by Pedro Magalhães