Pedro Magalhães

Margens de Erro

Os ingleses e os cartoons

Posted February 10th, 2006 at 11:45 am4 Comments

Populus UK, 3-5 Fevereiro, N= 1508, Telefónica

Do you agree with the following statements? (saldo a favor da frase, ou seja, percentagem de respostas "sim" - respostas "não, por ordem decrescente)

Newspapers have the right in principle to publish the cartoons, but they should not do so out of respect for the Muslim community: +40%

Muslims should accept the principle of freedom of speech, which means that newspapers must be free to publish such cartoons if they choose: +38%

The cartoons should be banned from publication because they cause grave offence to Muslims: +13%

By not publishing the cartoons, in the face of protests and warnings about terrorist attacks, the British press is giving into terrorism: - 24%

Em resumo, as opiniões claramente maioritárias são:
- não os deviam ter publicado;
- mas devem poder fazê-lo se quiserem;
- e não, não estamos a ceder ao terrorismo pelo facto de não os publicarmos.

by Pedro Magalhães

Têm dias

Posted February 9th, 2006 at 2:41 pm4 Comments

Muito do que tenho lido na blogosfera e na imprensa sobre o caso dos cartoons - especialmente quando se colocam as coisas em termos como a "defesa dos valores ocidentais" - faz-me pensar naquilo que investigação empírica na área da opinião pública e da cultura política nos diz sobre o tema da "tolerância", ou seja, "a disponibilidade para permitir a expressão de ideias e interesses a que nos opomos".

Os clássicos são os livros de Herbert McClosky e John Sullivan, e as conclusões não são particularmente surpreendentes: quando as questões são colocadas em abstracto ("Acredita na liberdade de expressão para todos, sejam quais forem as opiniões expressas?", por exemplo), a maioria dos cidadãos tende a manifestar concordância. É por aqui, contudo, a defesa do "Ocidente" como bastião da tolerância e da liberdade começa a esboroar. Vale a pena (a propósito deste assunto e de muitos outros) ler isto (.pdf) com alguma atenção, onde se mostra que aquilo que realmente distingue as opiniões públicas dos países ocidentais e islâmicos não é a posição dos indivíduos sobre os ideais e valores da democracia política mas sim as suas posições sobre valores sociais, tais como a liberalização dos costumes ou a igualdade entre os sexos. Há um choque de civilizações sim, mas não onde normalmente se julga...

Mas a coisa complica-se ainda mais quando se aprecia até que ponto vai realmente a "tolerância" dos "ocidentais": uma coisa é a resposta "ideológica" e "normativa", outra coisa é a resposta concreta em relação aos direitos de grupos concretos. É sabido, inquérito após inquérito, que nos Estados Unidos, por exemplo, mais de dois terços dos cidadãos, após estimulados a seleccionar um grupo social cujas opiniões ou comportamentos mais deplore, responde depois sem hesitar que um membro desse grupo não deveria poder ensinar em escolas públicas, fazer manifestações, ou ter uma coluna de opinião no jornal. E as coisas pioram quanto mais próximo do inquirido se coloca a acção: a recusa de manifestações desse grupo na cidade onde se vive é ainda mais acentuada do que a recusa genérica.

E se pensam que isto é um fenómeno americano, think again: se se pode dizer alguma coisa é que na Europa os níveis de intolerância política tendem a ser mais elevados que nos Estados Unidos, desde que se coloquem os indivíduos perante grupos concretos (e não abstracções piedosas).* Isto apesar dos objectos concretos da intolerância variarem de sociedade para sociedade (sendo que na Europa um desses objectos tendem a ser as minorias étnicas, enquanto que nos Estados Unidos tendem a ser grupos políticos ou minorias sociais). A tolerância tem limites, que só são largos quando tudo se passa ao nível da mais pura abstracção. E é selectiva, sendo maior quando mais se aplica a um grupo ou interesse com o qual menos antipatizamos.

Não me surpreende, por isso, que alguns daqueles que (e bem, para o meu gosto) agora se colocam ao lado da liberdade de expressão sejam também aqueles que, há bem pouco tempo, acusavam os que criticavam as limitações aos direitos cívicos dos ingleses e dos americanos a propósito do Prevention of Terrorism Act ou do Patriot Act de "tibieza" em relação ao terrorismo e desígnios anti-ocidentais. De facto, como a pesquisa demonstra, a "tolerância" e a "liberdade" têm dias.

*Ver, por exemplo, M. Peffley e R. Rohrschneider, "Democratization and Political Tolerance in 17 Countries", Political Research Quarterly, Vol. 56, 2003.

by Pedro Magalhães

Dinamarqueses divididos sobre cartoons (actualizado)

Posted February 8th, 2006 at 11:51 am4 Comments

Epinion, 3 de Fevereiro, N=509, Telefónica

Considering the events that have occurred in the past week, should Jyllands-Posten have published the cartoons featuring Mohammed?
Yes: 47%
No: 46%
Not sure: 7%

Should Prime Minister Anders Fogh Rasmussen apologize on Denmark's behalf?
No: 79%
Yes: 18%
Not sure:3%

E just in case you're wondering, a minha opinião sobre o assunto é, sem tirar nem pôr, exactamente, e muito melhor do que eu alguma vez poderia ter colocado, esta.

by Pedro Magalhães

Hibernação

Posted January 23rd, 2006 at 1:49 pm4 Comments

Este blogue vai entrar agora em hibernação. A procura, de resto, é sazonal, pelo que a oferta também o será. Se ocorrerem eventos tão interessantes como as eleições no Reino Unido ou na Alemanha ou o referendo francês, que foram aqui cobertos, voltarei com certeza com regularidade. E há um referendo à vista em Portugal. O regresso poderá ser lento, mas é seguro.

Obrigado pelos e-mails e comentários e ligações nos vossos blogues. E desculpem as irritações ocasionais, mas a blogosfera é como as famílias: we only hurt the ones we love. E eu gosto mesmo disto.

Mas para já, chega de sondagens.

by Pedro Magalhães

Rescaldo 2

Posted January 23rd, 2006 at 12:56 pm4 Comments

No quadro seguinte estão as projecções apresentadas às 20.00h e a comparação dos pontos médios dos intervalos com os resultados eleitorais. A vermelho sobre cada ponto médio, o desvio absoluto. O resto já sabem.



Muito próximo do que se passou em 2001 e em todas as sondagens à boca das urnas desde aí: grande precisão. Ao contrário do que se tem passado até agora, SIC e Eurosondagem muito próxima (para todos os efeitos, igual) dos restantes canais e institutos. Católica com ligeira vantagem na questão da margem de vitória.

by Pedro Magalhães

Rescaldo 1

Posted January 23rd, 2006 at 11:40 am4 Comments

O quadro seguinte compara os resultados eleitorais com as últimas sondagens pré-eleitorais conduzidas por cada instituto. Algumas notas:

1. As sondagens Intercampus e Pitagórica foram conduzidas antes das restantes, o que diminuiu à partida a sua capacidade para captar mudanças de preferências nos eleitores ocorridas mais perto do acto eleitoral;

2. Os resultados apresentados no quadro para a Pitagórica resultam de uma redistribuição proporcional de indecisos. O JN não apresentou esses resultados, e sim apenas resultados anteriores à redistribuição de indecisos. A redistribuição é feita apenas para o fim de tornar os resultados da sondagem comparáveis com resultados eleitorais, seguindo prática académica comum já aqui muitas vezes mencionada e fundamentada.

3. Calculam-se dois tipos de erro: Método 3 (a média dos desvios absolutos) e Método 5 (a diferença entre a margem de vitória prevista e a margem de vitória de real na base dos dados publicados de acordo com a opção dos institutos). Para mais informação sobre isto, ver estes posts e as referências lá citadas. A sua aplicação neste momento não vai ser na versão mais completa e "canónica" - que exige umas operações adicionais - mas isso, para o fundamental, não vai fazer diferença. Quando houver resultados eleitorais definitivos far-se-á a versão completa.



Compreensivelmente, as sondagens cujo trabalho de campo foi conduzido mais longe das eleições ficaram mais longe dos resultados, apesar de a Intercampus, apesar de tudo, ter ficado mais perto que a Eurosondagem. Quanto àquelas que são realmente comparáveis entre si e com os resultados eleitorais - as da última semana - a Católica ficou mais perto do ponto de vista do desvio absoluto médio e a Marktest do ponto de vista da margem de vitória. Mas as diferenças entre estas e a da Aximage carecem de qualquer espécie de significado. Para todos os efeitos, foram igualmente precisas. Curioso, assim, verificar que diferentes metodologias e dimensões amostrais podem gerar resultados igualmente fiáveis. E curioso também que, uma vez mais, a margem de vitória é sempre sobrestimada, tal como em 1996 e 2001.

Como se compara isto com o passado? Uma visita aqui revelará que as sondagens pré-eleitorais nas presidenciais de 2006 foram substancialmente mais precisas do que as realizadas em 1996 ou 2001. Isso sucede mesmo quando tomamos em conta o facto de o desvio absoluto médio ser sensível ao número de estimativas feitas (quantas mais, menor o erro médio). Assim, por exemplo, com cinco candidatos em 2001, a média dos "desvios absolutos médios" para a várias sondagens foi de 3,9%, enquanto que em 2006, para os cinco primeiros candidatos, foi de 1,6%. (para as sondagens da última semana). Em 1996, com dois candidatos, a média dos desvios absolutos médios foi de 3,2%. Em 2006, apenas para os dois primeiros candidatos, foi de 2%. Mas nas legislativas de 2005 as sondagens ainda foram mais precisas...

Em resumo, resultados muito apresentáveis quer em comparação com o passado quer em comparação internacional.

by Pedro Magalhães

Afinal volto…

Posted January 20th, 2006 at 7:19 pm4 Comments

Porque entretanto dei com um mais um post do Doc Log sobre estes assuntos.

Primeiro, se não for grande incómodo, gostava de ser citado correctamente. O "tema que se encontra resolvido" noutros países é o da adopção de standards sobre como se apresentam resultados de sondagens, e não o da "suspeição sistemática sobre as intenções por detrás da apresentação deste ou daquele resultado". Sendo também certo que as confusões evitáveis no primeiro domínio contribuem bastante para a suspeição. E se se quer saber como se evitam, pode-se consultar isto e isto.

Segundo, a ideia de que "a opção dos media em divulgar resultados que não consideram a fatia de indecisos, nem os votos em branco, parecendo ser uma opção técnica, é principalmente uma opção ética – de má ética jornalística" é errada. Os media divulgam (ou devem divulgar, e na sua maioria fazem-no) ambos os resultados, os brutos e aqueles que são comparáveis com resultados eleitorais. Não divulgar os segundos seria, isso sim, uma enorme irresponsabilidade. Não sei como fazer isto sem me repetir, mas as percentagens de "indecisos" e "abstencionistas" são altamente sensíveis a variações nos formatos dos questionários e em metodologias de inquirição, o que significa que nem eles são directamente comparáveis entre si nem os restantes resultados brutos, por arrastamento, o são.

Isto não quer dizer que os resultados brutos sejam irrelevantes. Por isso mesmo podem e devem ser publicados (e, com raras excepções, são-no).

Ok? Podemos partir para outra?

by Pedro Magalhães

O futuro

Posted January 20th, 2006 at 4:10 pm4 Comments

Uma coisa é dizer que a nossa incerteza sobre a forma como as preferências dos eleitores evoluiram até agora diminuiu. Outra ainda é dizer que estamos igualmente menos incertos sobre quais seriam elas à volta dos dias 15-18 de Janeiro. Contudo, outra muito diferente é a nossa incerteza sobre o futuro. Estas sondagens são o passado. O futuro é Domingo.

O que pode trazer o futuro? Antes de mais, convém dizer que, como é óbvio, não faço ideia. Ou melhor, faço pelo menos duas. O problema é que são contraditórias em termos do desfecho que podem gerar:

1. O primeiro cenário é aquele onde Cavaco Silva vem em perda de intenções válidas de voto não só porque os indecisos da área socialista se começam a decidir (e presumivelmente não por ele) mas também porque começa a perder votos de eleitores que antes tencionavam nele votar. Na primeira sondagem da tracking poll Marktest, divulgada dia 9, Cavaco recolhia o voto de 17% de eleitores socialistas. Na sondagem Marktest dos dias 11-14 de Janeiro, 15% dos socialistas tencionavam votar Cavaco. Na sondagem dos dias 15-18, essa percentagem é 9%. Um erosão comparável, se bem que muito menos significativa em termos absolutos, ocorre com os exóticos comunistas que, nas sondagens anteriores, tencionavam votar Cavaco. Agora, pelos vistos, não há nenhum. Cavaco necessitava destes votos - assim como daqueles que não são próximos de qualquer partido político - para a maioria absoluta. Agora, não é seguro que os tenha, seja porque se estão a desmobilizar à última hora seja porque decidiram "voltar ao redil" de um voto orientado pela identificação partidária e ideológica.

É certo que estas sondagens e o ambiente geral do comentário político vêm minimizando os riscos ligados a uma outra possibilidade que já discuti aqui, o de "abstenção por certeza de vitória", que afectaria de forma diferencial o eleitorado potencial de Cavaco Silva. Não me parece que isso continue a ser um factor de peso: certezas sobre o resultado já ninguém com dois dedos de testa consegue ter. Mas se Cavaco vem perdendo o eleitorado socialista e apartidário de que dispunha até agora - seja porque ele se assustou com a prometida vigilância às actividades do Governo, seja porque a identificação partidária e ideológica fala mais forte, seja ainda por desinteresse em torno de uma opção que, para eles, nunca terá sido particularmente entusiasmante e inequívoca - então a segunda volta está aí ao virar da esquina.

2. Há, contudo, pelo menos uma outra possibilidade. A de que, curiosamente, a abstenção diferencial afecte mais os candidatos de esquerda do que Cavaco, especialmente, diria, Alegre e Louçã. Sabemos que a abstenção declarada em sondagens é sempre inferior à abstenção real. E a verdade é que, em todas as sondagens cujos dados publicados permitem esta análise, o eleitorado de Cavaco foi-se sempre mostrando mais convicto da sua decisão de votar e da sua decisão de em quem votar. Na medida em que não haja uma desmobilização "táctica" por certeza de vitória - possibilidade que, como disse, me parece diminuída pelos eventos desta última semana - eles estão lá, seguros da sua decisão, prontos para ir votar.

E os outros, estão? É certo que há o famoso "povo de esquerda" que se foi escondendo das sondagens até agora, como Medeiros Ferreira sugeria desde o início. Tal como os últimos resultados mostram, tinha, num certo sentido, razão, como aliás lhe dei na altura:

Diria que é altamente presumível que, neste momento e para estas eleições concretas, muitos eleitores de "esquerda" não tenham ainda, pura e simplesmente, decidido o que vão fazer, em face da multiplicação de candidatos, dos sinais confusos e contraditórios emanados inicialmente pelo Partido Socialista, da insatisfação de algum eleitorado PS com a actuação do governo, etc. É possível, e provável, que muitos desses indecisos se venham a abster, mas certamente muitos deles irão também acabar por votar num dos candidatos de esquerda (não excluindo, claro, que alguns venham a votar em Cavaco Silva).

Esse "povo" apareceu finalmente, abandonando progressivamente a sua indecisão e declarando nas sondagens as suas intenções (se bem que talvez não no sentido que Medeiros Ferreira desejaria). Mas a pergunta que fica é esta: vão mesmo votar? Vão votar tanto como os agora declarados eleitores de Cavaco Silva? A abstenção, quem dela vem e quem para ela passa, é, como sempre, a chave dos resultados eleitorais, muito mais do que as transferências de voto deste para aquele partido ou candidato. Não é um acaso, portanto, que todos os candidatos apelem de forma dramática e quase desesperada à participação eleitoral. Da resposta diferencial a esses apelos depende o resultado de Domingo. A ver vamos.

A não ser que a sondagem Intercampus diga qualquer coisa de extraordinariamente surpreendente, só cá volto 2ª feira.

P.S.- Ontem na SIC, Rui Oliveira e Costa falava da especial dificuldade que estas eleições trazem para as sondagens à boca das urnas, devido ao facto de existir um candidato independente cujo peso presumível na amostra selecccionada não poder se apreciado à luz de resultados eleitorais passados. É por isso que as sondagens à boca das urnas são importantes e interessantes. Livres do problema das pré-eleitorais - a medição de intenções em vez de comportamentos - elas são o teste último aos procedimentos de amostragem adoptados por cada instituto, e são de facto a única altura em que a bondade desses procedimentos pode ser testada e melhorada em face de circunstâncias novas, como a candidatura de Alegre.

by Pedro Magalhães

Tendência

Posted January 20th, 2006 at 3:04 pm4 Comments

Qual o caminho percorrido para chegarmos aos resultados conhecidos hoje? É duvidoso que as diferenças entre as sondagens feitas ao longo do tempo resultem exclusivamente de mudanças nas preferências nos eleitores. Várias das hipóteses avançadas nos posts anteriores para a "convergência" nos últimos dias são, aliás, contrárias a essa ideia, e o céptico que aqui escreveu juntou razões adicionais.

Contudo, suspendam por momentos a descrença. Como apreciar a plausibilidade a ideia de que as preferências dos eleitores mudaram ao longo da campanha e pré-campanha? Três maneiras, por ordem crescente de sofisticação:

1. Comparar sondagens entre si mantendo constante o instituto que as produziu. Se nos concentrarmos nos institutos com mais observações ao longo do tempo - Aximage e Marktest - rapidamente verificamos que em ambas:

- Cavaco mantém-se estável até pelo menos até à primeira semana de 2006, descendo a partir daí;
- Alegre desce até à primeira semana de 2006, começando a subir a partir daí;
- Soares sobe até fim de Dezembro/início de 2006, descendo de seguida e estabilizando no final.


2. Smoothing:






As tendências são confirmadas quando ajustamos uma regressão local aos dados: Cavaco oscilante, com tendência final de descida; Alegre a descer até ao princípio de Janeiro, crescendo no final; Soares sobe até final de Dezembro, iniciando depois declínio e com estabilização final; Jerónimo e Louçã com tendência de lenta mas consistente subida ao longo do tempo.


3. Controlar "house effects":

O problema das abordagens anteriores é o facto de estarem ainda, porventura, excessivamente dependentes de quem faz as sondagens. Notem: se partirmos do princípio de que existem "house effects" - um enviesamento sistemático resultante do facto de um determinado instituto fazer um conjunto estável de opções metodológicas - então não devemos ficar surpreendidos com o facto da abordagem 2. repetir as conclusões da abordagem 1.: afinal, a Aximage e a Marktest foram que mais com sondagens para o bolo total.

Uma maneira de tentar chegar a um resultado "livre" de house effects é a avançada por Erikson e Wlezien, num artigo intitulado "Presidential Polls as a Time Series", no volume 63 da Public Opinion Quarterly (1999). Os que não gostam de estatística saltam para o parágrafo seguinte. Se regredirmos os resultados das sondagens em relação a variáveis dicotómicas (com valores 0 e 1) representando os institutos de sondagens que as fizeram (todos menos um) e as datas das sondagens, os coeficientes associados às variáveis temporais vão, se a constante for excluída da equação, representar as estimativas para cada candidato "livres" de house effects (ou seja, mantendo esses efeitos constantes).

Devido ao escasso número de sondagens, tive de definir as variáveis temporais como representando períodos e não datas singulares. Os resultados da análise são os seguintes:

Não tem os valores concretos porque, para o que conta (e por razões técnicas que não vale a pena explicar aqui), esses valores não são muito importantes e variam de acordo com algumas opções que se tomem na análise. O que importa, e é indiferente a essas opções, é a tendência. E essa é clara: independentemente dos efeitos que cada instituto de sondagens impõe - pelas opções técnicas que metodológicas que toma - nos resultados, Cavaco desce na última semana, Alegre sobe na última semana, Soares desde a partir de Dezembro e Jerónimo e Louça sobem com ultra-lentidão.

Era o que toda a gente já sabia? Pois. Mas assim a incerteza diminui.

by Pedro Magalhães

Convergência

Posted January 20th, 2006 at 11:56 am4 Comments

Aqui há uns tempos, chamei a atenção neste blogue para duas coisas:

1. O facto de os resultados das sondagens até então parecerem ser afectados por algumas (poucas) mas aparentemente cruciais variações metodológicas.

2. E a hipótese de que as sondagens conduzidas mais perto das eleições acabassem por obter, por um lado, resultados substancialmente diferentes das precedentes, e por outro, mais convergentes entre si do que as anteriores.

Não é preciso grandes cálculos matemáticos para observar que a hipótese se confirmou, com excepção (no que respeita à dispersão) dos resultados de Manuel Alegre. O quadro seguinte, rudimentar mas suficiente, mostra a média e o desvio padrão associado aos resultados estimados para os diferentes candidatos em três períodos de realização do trabalho de campo:



Por que acontece este fenómeno? Várias hipóteses:

1. Mero acaso;

2. À medida que intenções de voto vão cristalizando e diminuindo o nº de indecisos sobre se irão votar e/ou em quem, as diferentes opções tomadas para os medir e redistribuir perdem impacto nos resultados;

3. À medida que nos aproximamos do dia das eleições, investimento em recursos por parte dos órgãos de comunicação social e dos institutos de sondagem aumenta;

Há ainda uma hipótese adicional, levantada aqui e aqui há uns meses a propósito das eleições no Reino Unido, que não pode ser completamente excluída.

Seja como for, há uma preocupação que é mitigada com estas últimas sondagens: temos de tudo. Telefónicas e presenciais. Escolha aleatória de inquiridos (Católica e Eurosondagem) e amostragem por quotas (Aximage e Marktest). Redistribuição proporcional de indecisos (Marktest, Eurosondagem), redistribuição por "inclinação de voto" (Católica) e redistribuição "mistério" (Aximage). Questionário sem (Marktest) e com (Católica) filtros para determinar prováveis abstencionistas. Os resultados convergem.

O facto de convergirem não quer dizer que estão a medir correctamente as intenções de voto no momento em que foram feitas (podem estar a ser afectadas por um enviesamento comum e indiferente às variações metodológicas) e muito menos que servem para prever seja o que for. Mas diminui a incerteza, o que já não é mau.

by Pedro Magalhães