Pedro Magalhães

Margens de Erro

Divulgações antecipadas

Posted January 7th, 2006 at 5:38 pm4 Comments

Não deve ser fácil para as redacções dos órgãos de comunicação manterem, sequer por poucas horas, confidencialidade sobre dados de sondagens que encomendaram. Um telefonema daqui e dali, a passagem de resultados antecipadamente a candidatos para "obter reacções", e a coisa está feita: dois minutos depois, metade do país já sabe. Poder-se-ia mesmo defender que, nalguns casos, a transmissão dessa informação aos candidatos é uma obrigação legal, se bem que nada seja dito sobre "comunicação prévia":

Lei 10/2000, Art. 12.º Comunicação da sondagem aos interessados. Sempre que a sondagem de opinião seja realizada para pessoas colectivas públicas ou sociedades de capitais exclusiva ou maioritariamente públicos, as informações constantes da ficha técnica prevista no artigo 6.º devem ser comunicadas aos órgãos, entidades ou candidaturas directamente envolvidos nos resultados apresentados.

Um pouco mais estranho é que, dois minutos depois da Antena 1 ter anunciado os resultados, o Diário Digital já tivesse alinhado uma notícia completa sobre o tema, com dados não ainda mencionados pela Antena 1, e cujo texto reproduz em vários pontos, ipsis verbis, o relatório de análise dos dados enviado pela Católica à RDP, RTP e Público. Isto significa que alguém do Diário Digital teve acesso a esse relatório. Como? Não faço ideia. Mas nada disto tem grande importância. Se os órgãos de comunicação que encomendam sondagens não conseguem mantê-las sob embargo, o problema é deles e nosso para resolver.

O problema é outro. Quem nos garante que os dados divulgados antecipadamente por outros órgãos de comunicação ou por blogues são os correctos? Quem nos garante que não são postos a circular dados falsos, como meros fins de desinformação? A mim, por exemplo, meia-hora antes do fecho das urnas nas autárquicas, juraram-me a pés juntos que a Eurosondagem ia dar o Carrilho à frente do Carmona na sondagem à boca das urnas da SIC. A coisa cheirava a esturro à distância, mas pode haver casos menos claros. Nos Estados Unidos, por exemplo, vários blogues colocaram durante a tarde do dia das eleições resultados brutos parciais das sondagens à boca das urnas que davam a vitória a Kerry, mesmo antes das necessárias análises e ponderações finais que sempre se têm de fazer. Estão a imaginar o que sucederia, no próximo dia 22, se blogues como o Mau Tempo no Canil começassem a dar resultados parciais de sondagens à boca das urnas porque alguém lhos transmitiu ao telefone, e blogues como o Acidental começassem a amplificar essa notícias porque "a informação já circulava" ou porque "não é só o Jorge Coelho que tem direito" ? Não me parece grande ideia.

Mas o Francisco Trigo de Abreu está mais do que perdoado. Primeiro, porque a quem ele tem de pedir desculpas é a quem lhe lê o blogue, e não a mim (se bem que eu também seja leitor). E segundo, porque quem tem um filho chamado Joaquim, como o meu, dispõe de indulgência automática aqui do Margens de Erro.

by Pedro Magalhães

Tendências, 2ª parte

Posted January 7th, 2006 at 4:41 pm4 Comments

Neste post, apresentei os resultados das sondagens conduzidas desde Outubro até ao Natal de forma a se poderem detectar tendências de mudança, caso existissem. Na altura, disse que havia duas maneiras de o fazer: presumindo uma relação linear entre a passagem do tempo e os resultados (o que poderia ocultar outro tipo de oscilações e tendências não lineares) e aplicando uma regressão polinomial ponderada (ou "regressão local") aos dados, sensível a evoluções não lineares. O que sucede quando se fazem as mesmas análises às sondagens, acrescentado agora os resultados das duas primeiras sondagens de 2006 (Católica e Aximage)?

Cavaco Silva:

Em 2006, subida, aferida pelas sondagens Católica e Aximage, compensando assim anterior descida mostrada pela Eurosondagem e pela Intercampus. O facto de estas diferentes tendências serem mostradas por sondagens de diferentes institutos sugere a possibilidade de que subidas e descidas sejam,na realidade, inexistentes , reflectindo apenas diferentes opções técnicas. Contudo, o facto da Católica colocar Cavaco nos 60% é intrigante, porque se é verdade que a Aximage tem dado valores acima da média a Cavaco, o mesmo não sucedeu, até agora, com a Católica.

Mário Soares:



Se fosse só a Aximage, poder-se-ia atribuir isto ao acaso. Se fosse só a Católica, idem. Mas ambas as sondagens mostram Soares a ver interrompida a sua constante ascensão até ao Natal. É preciso mais sondagens para validar esta nova tendência que, como se verifica, é invisível quando se pressupõe uma relação linear entre o tempo e os resultados. Mas será essa relação linear? É sempre arriscado avançar teorias após as observações, mas pensemos um pouco. Será que a imagem de Soares que ficou dos debates, assim que a poeira assentou, lhe foi favorável? Será que as altas expectativas depositadas pelos seus apoiantes nos debates foram satisfeitas? Terá sido o ataque aos meios de comunicação social logo no início do ano uma estratégia sensata?

Manuel Alegre:

O facto de Alegre surgir à frente de Soares na sondagem Católica pode trazer alguma satisfação aos seus apoiantes, mesmo sabendo que a diferença entre um e outro nessa sondagem é inferior à margem de erro amostral. O que já não pode trazer satisfação é que nem esse resultado serve para inverter a tendência desde Outubro, que continua a ser de descida. A não se que a sondagem Aximage tenha estado muito ao lado, a sondagem da Católica não chega para validar uma forte convicção de que essa tendência foi estancada.


Jerónimo de Sousa:

Com uns resultados melhores e outros piores, Jerónimo de Sousa é, no entanto, o candidato cujas intenções válidas de voto têm permanecido mais estáveis.

Francisco Louçã:

Quase indistinguível de Jerónimo de Sousa, se bem que com maior instabilidade. Nada de novo.


Temos assim duas novas hipóteses levantadas pelas duas sondagens mais recentes: a de que Cavaco subiu na passagem de 2005 para 2006, e a de que Soares perdeu o gás na mesma altura. Aguardemos por mais sondagens para vermos se estas hipóteses se confirmam.

by Pedro Magalhães

Católica, Presidenciais, 7 de Janeiro

Posted January 7th, 2006 at 4:27 pm4 Comments

Com a sondagem da Catolica divulgada ontem na Antena 1 e na RTP e hoje no Público, o quadro geral fica assim:



Outros aspectos possivelmente interessantes da sondagem:

- a sobrerepresentação dos simpatizantes do PS no conjunto dos que se dizem "indecisos" sobre em quem votar;

- a convicção maioritária - mesmo entre os simpatizantes do PS (dois em cada três) - de que Cavaco Silva será o próximo PR;

- a convicção minoritária -mesmo entre os simpatizantes do PS (um em cada cinco) - de que Cavaco Silva na Presidência irá "dificultar a acção do governo" ou fazer com que o governo fique com "menos hipóteses" de sobreviver até ao fim da legislatura.

by Pedro Magalhães

Divulgação antecipada

Posted January 6th, 2006 at 6:07 pm4 Comments

Pelos vistos, os resultados das sondagens da Católica já têm direito a divulgação antecipada nos blogues, mesmo dizendo-se que não se sabe se são verdadeiros. E as que vamos fazer para a semana, já alguém tem resultados? Poupava-nos imenso trabalho.

by Pedro Magalhães

Novidades?

Posted January 6th, 2006 at 3:13 pm4 Comments

Sondagem Aximage/CM, divulgada hoje, adicionada à lista:



Note-se, por um lado, a subida tremenda de Francisco Louçã, se bem que, como já vimos, as suas estimativas vêm exibindo grande instabilidade ao longo do tempo, sem tendência discernível.

Já sabemos que instabilidade também há nas estimativas do voto em Mário Soares, mas sabíamos também que havia uma tendência (de subida). Mantém-se? A julgar por esta sondagem, pelo menos em termos das estimativas de resultados eleitorais, a resposta é não. Pode ser um mero acaso ditado pelo erro amostral. Mas é a primeira vez que Soares desce numa sondagem da Aximage (começou com 11% em Outubro e terminou com 17% no final de Dezembro), e a descida contraria a tendência geral que já tínhamos visto que vinha, em geral, sucedendo desde Outubro ao Natal, no conjunto das sondagens.

by Pedro Magalhães

Um ano

Posted January 6th, 2006 at 2:07 pm4 Comments

O primeiro post deste blogue foi escrito no dia 6 de Janeiro de 2005. Escrevi nessa altura:

Achei que seria bom que existisse em Portugal uma fonte de informação sistemática sobre as sondagens que vão sendo publicadas. É também provável que, por obrigação profissional, tenha de recolher alguma dessa informação, especialmente durante os próximos treze meses onde haverá eleições legislativas, autárquicas e presidenciais. É possível que tenha algumas coisas para dizer sobre essas sondagens. E essas coisas raramente são ditas (ou podem ser ditas) noutras fontes de informação que não um blogue. Logo, serão ditas e escritas aqui.

Nem tudo correu como eu gostaria. Suspeito que não terei resolvido sempre da melhor maneira o dilema entre, por um lado, a vontade de debater estes temas e, por outro, a necessidade de fugir ao papel de "polícia" de quem faz ou divulga as sondagens, papel para o qual não sou talhado, especialmente tendo em conta que, para além de "consumidor" de sondagens, sou também "produtor" e parte interessada.

Sei também que perdi demasiado tempo com questões eleitorais, ficando-me pouco tempo para pensar, escrever e debater outros temas que, de resto, me interessam bastante mais. O que é e como se mede isto da "opinião pública"? Qual é (e qual deveria ser) o seu papel no funcionamento da nossa democracia? Sondagens em geral, e sondagens eleitorais em especial, contribuem uma pequeníssima parte para a resposta às perguntas anteriores.

E lamento que, de todos os e-mails e comentários que li, sejam raríssimos aqueles que contestaram as minhas opções e interpretações técnicas. Eu conheço várias objecções a essas opções e interpretações, suspeito que outras existam, e sei que há pessoas que sabem muito mais de vários assuntos aqui debatidos do que eu. Portanto, de futuro, não se acanhem.

Apesar disto, o ano não foi mau de todo. Nunca imaginei que, num ano, este blogue pudesse ser visitado mais de 120.000 vezes, ou que lhe fizessem mais de 400 ligações noutros blogues. Não supunha que, entre sugestões e comentários de leitores e investigação que tive de fazer para comentar temas que foram surgindo, acabaria por aprender tantas coisas e descobrir tantas novas fontes de informação sobre estas questões. E creio - mas talvez isto não passe de wishful thinking e grave imodéstia - que o panorama geral da divulgação das (e dos comentários sobre) as sondagens terá mudado, de forma quase imperceptível mas real, desde que isto existe.

Agradeço a todos os aqui vieram, mas especialmente aos que divulgaram e comentaram o que aqui se escrevia nos seus próprios blogues, nos jornais, ou de outra maneira qualquer.

by Pedro Magalhães

Homossexualidade em Portugal: sondagens

Posted January 2nd, 2006 at 3:40 pm4 Comments

Não leio regularmente o Expresso e não vi a ficha técnica, mas registo o resumo do Ponto Media (já agora, parabéns pelos cinco anos) que mostra uma - previsível - taxa de recusas de mais de 60%!

Seja como for, vale a pena lembrar que os estudos do famoso Kinsey também apontavam para cerca de 10% dos homens com comportamentos exclusivamente homossexuais (notem a ênfase no "comportamento" em vez da "identidade") durante pelo menos três anos consecutivos entre as idades de 16 e 55 anos (enquanto que, nas mulheres, as percentagens são mais baixas).

Contudo, este "número mágico" de 10% tem sido muito criticado, devido ao facto da amostra de Kinsey não ser aleatória, e sim uma "amostra de conveniência". Nas minhas aulas, aliás, uso sempre o exemplo do relatório Kinsey para falar do enviesamento amostral: afinal, quem está interessado em falar do seu comportamento sexual a não ser aqueles que têm uma moral sexual mais liberal?

Uma série de estudos posteriores, com amostras propriamente representativas, têm obtido valores mais baixos. Mas depois aqui joga outro factor óbvio: relutância em assumir comportamentos socialmente censurados, que pode levar a subestimação do valor real. Pelo que esta "percentagem" é notoriamente difícil de obter. Um excerto de um artigo muito recente:

"Much attention has been given to estimating the rate of "homosexuality" among men and women. The commonly cited figure of 10 percent can be traced to Alfred Kinsey and his colleagues, who concluded that in the United States, "10 percent of the [white] males are more or less exclusively homosexual for at least three years between the ages of 16 and 53" (Kinsey et al. 1948:651). Kinsey et al. (1953) estimated that the rate for women was a third to half as large as that for men. A study based on national probability samples of American adults from 1988 to 1993 found that women were about half as likely as men to report having had a same-sex sex partner in the previous year (1.4 percent of women vs. 2.7 percent of men) (Laumann et al. 1994)" in Amy C. Butler, "Gender Differences in the Prevalence of Same-Sex Sexual Partnering, 1988-2002", in Social Forces, vol. 84, Setembro de 2005.

Este artigo em particular revela um aumento muito acentuado desde 1988 nos Estados Unidos da percentagem de homens e (especialmente) mulheres que declaram ter tido um parceiro sexual do mesmo sexo no ano anterior. Mas assume a dificuldade em explicar o fenómeno: aumento de comportamentos homossexuais ou aumento das pessoas que assumem esses comportamentos perante um inquiridor, em face de mudanças sociais, políticas, culturais e legais favoráveis?

Given the sensitive nature of the topic being studied, it will always be difficult to distinguish between changes in reporting bias and changes in actual behavior. The same arguments that normative, economic, and legal factors affect sexual behavior can be used to argue that they affect honesty of reporting that on a questionnaire.

O tema é muito interessante mas muito complexo, e merecia mais do que o espírito habitual no Expresso: o frissonzinho da primeira página, desta vez com tons de rosa...

by Pedro Magalhães

Obrigado

Posted December 29th, 2005 at 6:20 pm4 Comments

In the future, everybody will be a polling expert for fifteen minutes

Posted December 27th, 2005 at 12:10 pm4 Comments

De Mark Blumenthal, o Mystery Pollster cuja existência inspirou a criação desta modesta casa, um artigo (de acesso livre) na Public Opinion Quarterly, sobre o papel da internet em geral e da blogosfera em particular na difusão, discussão e melhoria dos métodos das sondagens, num número todo ele dedicado ao tema. Sinto-me como um filho orgulhoso dos feitos do pai.

Congratulations!

by Pedro Magalhães

Mourinho na London Review of Books

Posted December 27th, 2005 at 10:48 am4 Comments

Através do Bem Haja, chego a uma recensão de um livro sobre José Mourinho, escrita por David Runciman, professor de teoria política em Cambridge. Muito boa.

by Pedro Magalhães