Pedro Magalhães

Margens de Erro

Antes da gritaria

Posted December 19th, 2005 at 4:34 pm4 Comments

O que fazer quando uma sondagem apresenta um resultado desviante em relação à maioria dos restantes estudos publicados? Em Portugal, grita-se muito. Noutros sítios, estuda-se e trabalha-se. Dois exemplos da segunda modalidade, aqui, no sítio cada vez mais do costume, e aqui, num que vai passar a ser. Vou ver se aprendo mais qualquer coisa.

by Pedro Magalhães

Ainda sobre a última sondagem

Posted December 19th, 2005 at 11:24 am4 Comments

Pergunta-se no Insurgente:

Será lícito dar conhecimento antecipado a terceiros de uma sondagem encomendada por entidades privadas (SIC, Expresso e Rádio Renascença)?

Não sendo jurista, a minha interpretação é esta:

1. Quando a sondagem eleitoral é realizada para "pessoas colectivas públicas ou sociedades de capitais exclusiva ou maioritariamente públicos", dar conhecimento dos resultados e de toda a ficha técnica a "terceiros" (os definidos na lei) é mais do que lícito: é um dever.

Lei 10/2000, Art. 12.º Comunicação da sondagem aos interessados. Sempre que a sondagem de opinião seja realizada para pessoas colectivas públicas ou sociedades de capitais exclusiva ou maioritariamente públicos, as informações constantes da ficha técnica prevista no artigo 6.º devem ser comunicadas aos órgãos, entidades ou candidaturas directamente envolvidos nos resultados apresentados.

2. A lei não contém nem um dever nem uma proibição de divulgação a terceiros de sondagens eleitorais realizadas para entidades privadas. O que terá certamente de suceder sempre é que:
- essa sondagem, se for publicamente divulgada, terá de ter sido previamente depositada na AACS;
- essa sondagem, se for publicamente divulgada, não o pode ser mais do que 15 dias depois da realização do respectivo trabalho de campo.

Lei 10/2000, Art. 5.º Depósito. A publicação ou difusão pública de qualquer sondagem de opinião apenas é permitida após o depósito desta, junto da Alta Autoridade para a Comunicação Social, acompanhada da ficha técnica a que se refere o artigo seguinte.

Lei 10/2000, Art. Artigo 10.º, nº 3: Nos dois meses que antecedem a realização de qualquer acto eleitoral relacionado com os órgãos abrangidos pelo disposto no n.º 1 do artigo 1.º e da votação para referendo nacional, regional ou local, a primeira publicação ou difusão pública de sondagens de opinião deve ocorrer até 15 dias a contar da data em que terminaram os trabalhos de recolha de informação.


3. No entanto, a lei menciona também que "as entidades credenciadas devem garantir que os técnicos que, sob a sua responsabilidade ou por sua conta, realizem sondagens de opinião ou inquéritos e interpretem tecnicamente os resultados obtidos observam os códigos de conduta da profissão internacionalmente reconhecidos," nomeadamente o código de conduta da ESOMAR (que pode ser descarregado aqui). Nesse código diz-se o seguinte:

"20. The following records remain the property of the client and must not be disclosed by the researcher to any third party without the client's permission:
(...)
b) the research data and findings from a marketing research project"

Pelo que se conclui que os resultados de uma sondagem não podem ser transmitidos a terceiros pela empresa/instituto que faz a sondagem sem o consentimento do cliente, mas que, obviamente, o podem ser desde que esse consentimento exista. E que, como é óbvio, podem ser transmitidos pelo cliente a terceiros se assim o entender.

Um elemento adicional: assim que os resultados de uma sondagem começam a circular por redacções de órgãos de comunicação, a probabilidade de que cheguem rapidamente às mãos de partidos ou candidatos é elevadíssima, mesmo que não haja uma decisão da direcção do órgão de comunicação social nesse sentido...

by Pedro Magalhães

Arrumar a casa

Posted December 19th, 2005 at 11:12 am4 Comments

by Pedro Magalhães

Eurosondagem, Presidenciais, 17 Dezembro

Posted December 17th, 2005 at 3:47 pm4 Comments

Cá está ela, fonte de controvérsia antecipada. Foi telefónica, realizada entre 11 e 14 de Dezembro, 2069 inquéritos, selecção aleatória estratificada por região de domicílios e aleatória de inquiridos em cada domicílio.

Cavaco Silva: 55,5%
Mário Soares: 20,4%
Manuel Alegre: 12,5%
Jerónimo de Sousa: 5,7%
Francisco Louçã: 4,8%
Outros:1,1%

Ao que parece, a candidatura da Manuel Alegre decidiu fazer uma participação à Comissão Nacional de Eleições e à Alta Autoridade para a Comunicação Social devido ao facto de, na anterior sondagem, a Eurosondagem não ter contemplado o cenário de desistência dos restantes candidatos de esquerda para Manuel Alegre. O dono da Eurosondagem, Rui Oliveira e Costa, pondera um processo judicial. Mas claro que isto só vem agora ao de cima devido à divulgação desta sondagem, cujos resultados são assim indirectamente contestados por Manuel Alegre (que ontem afirmava à imprensa que a Eurosondagem se "especializa" em colocá-lo em 3ª lugar), numa controvérsia para a qual as declarações algo estranhas de Jorge Coelho (que há dias anunciava o 2º lugar de Mário Soares nas sondagens que seriam divulgadas "nas próximas semanas") terá dado inestimável contributo.

Enfim, a confusão do costume. O que posso dizer é o mesmo que qualquer observador exterior a isto tudo poderia: quando olhamos para os resultados desta sondagem e os confrontamos com as anteriores, não se detecta nada de estranho. Pelo contrário. O que ela faz é, aparentemente, adicionar uma observação confirmatória de uma tendência já anteriormente detectada: a diminuição das intenções válidas de voto em Manuel Alegre e correspondente aumento das intenções válidas de voto em Mário Soares. É isso que as últimas sondagens da Católica e da Intercampus já estavam a dizer (ao colocarem os dois candidatos praticamente empatados, em contraste com quase todas as sondagens anteriores) e que a última da Aximage confirmou (ao colocar já Soares à frente de Alegre). Tanto barulho por nada. Abaixo, podem examinar o gráfico com a média móvel dos resultados das últimas três sondagens para cada candidato:

by Pedro Magalhães

"Nas próximas semanas"…

Posted December 16th, 2005 at 10:42 am4 Comments

Não assisti à Quadratura do Círculo e não encontro transcrições, mas segundo a TSF Jorge Coelho terá invocado "as sondagens já publicadas ou a publicar 'nas próximas semanas' e que colocam o ex-Presidente em segundo lugar" como fundamento da desistência dos restantes candidatos de esquerda.

Confesso que acho censuráveis - e já o escrevi aqui - algumas das acusações de "manipulação" das sondagens que têm emanado da candidatura de Manuel Alegre. Mas quando se fala em "sondagens a publicar nas próximas semanas" como se já se conhecessem os seus resultados, então já não se pode estranhar que Manuel Alegre venha depois falar em "sondagens falsificadas", "jogo sujo" e "manipulação".

Para já não falar do facto de estas declarações serem em si mesmas um erro político, dado que, com elas, Jorge Coelho terá diminuído o potencial impacto favorável à candidatura de Soares da sondagem que deverá sair amanhã, e cujos resultados, na base destas conversas, já todos conseguiremos adivinhar.

Enfim, palavras para quê, são artistas portugueses.

by Pedro Magalhães

Debates e sondagens

Posted December 15th, 2005 at 4:30 pm4 Comments

Há dias, na RTP-N, Manuel Villaverde Cabral lamentava a falta de sondagens que nos pudessem ajudar a aferir o impacto dos debates. Tem toda a razão. E a verdade é que, em rigor, já existem sondagens sobre os debates. Duas, que eu saiba, até ao momento:

1. Eurosondagem, 5 Dezembro, N=769, Telefónica
Quem ganhou o debate Alegre-Cavaco?
Cavaco: 27,3%
Alegre: 15,7%
Não viu/não sabe/não responde: 57%

2. Eurosondagem, 14 Dezembro, N=757, Telefónica
Quem ganhou o debate Alegre-Soares?
Alegre: 20,7%
Soares: 19,3%
Não viu/não sabe/não responde: 60%

Agora não entendam mal o que vou escrever de seguida. Acho que o esforço financeiro feito pela SIC e o esforço técnico feito pela Eurosondagem para conseguirem conduzir trabalhos como estes em tão pouco espaço de tempo merecem elogios. Mas há alguns problemas.

Em primeiro lugar, quando se fazem inferências para a população, estes resultados sugerem que, por exemplo na sondagem do dia 5, pelo menos cerca de 40% dos portugueses com 18 ou mais anos assitiram ao debate Cavaco-Alegre. Isto não é, nem pouco mais ou menos, credível. Segundo os dados da telemetria - extrapolados para o universo - o debate Alegre-Cavaco teve 1,5 milhões de espectadores. Mesmo que todos eles tivessem mais de 18 anos, isto representa menos de 20% do universo relevante. Estas amostras sub-representam os eleitores que não assitistiram aos debates ou (pior) estão a recolher opiniões de pessoas que, de facto, não lhes assistiram.

Partamos do princípio, no entanto, que essa distorção da amostra não representa um enviesamento da distribuição de opiniões válidas. Mas permanece um problema: que conclusões tirar de semelhante informação? Certamente por razões de tempo, a sondagem nada nos diz sobre a composição política, ideológica ou a mera intenção de voto pré-e pós-debate daqueles que nos deram opiniões sobre "quem ganhou". E isto seria crucial para apreciar quaisquer efeitos do debate.

Com medição "pré/pós-debate" poder-se-ia aferir em que medida os inquiridos relatam uma mudança na sua intenção de voto após o debate. E mesmo sem este design mais complicado - que exigiria uma vaga de inquéritos antes do debate e outra depois dele e, provavelmente, não detectaria muitas mudanças declaradas - poder-se-ia pelo menos determinar qual a correlação entre preferências políticas e opiniões sobre o debate.

Por exemplo: se aqueles que declararam ter assistido ao debate Cavaco/Alegre correspondessem ao eleitorado de ambos os candidatos estimado pelas mais recentes sondagens (onde Cavaco tem mais eleitores que Alegre à razão de 3 para 1), um score 27/16 a favor de Cavaco teria sido nada menos que desastroso para o primeiro, dado significar que uma parte significativa daqueles que tenciona(va)m votar Cavaco acharam que Alegre ganhou o debate. Contudo, nada sabemos sobre quem deu opiniões sobre quem ganhou o debate a não ser...quem acham que ganhou o debate.

Por muito que se desejem sondagens, estudos como estes dão uma quantidade de informação insignificante em relação ao custo e esforço que certamente implicam. É certo que produzem um item noticioso, e é provavelmente por isso que são feitas. Mas pouco mais são do que isso. Fazer mais e melhor sai muito mais caro e não creio que os meios de comunicação social portugueses disponham de recursos para tal...

by Pedro Magalhães

Balão de oxigénio para Bush

Posted December 9th, 2005 at 12:20 pm4 Comments

Os números de popularidade de George W. Bush mostram sinais de recuperação ou, pelo menos, sugerem que a sangria dos últimos meses se encontra estancada. Para uma análise sistemática dos últimos resultados vale a pena ir aos sítios do costume: aqui e aqui.

P.S.- Só uma pequena correcção ao Acidental, já que este post foi lá citado. Escreve-se ali que "George Bush está em fase de recuperação de popularidade, nomeadamente no que diz respeito à intervenção no Iraque". A primeira parte é correcta, a segunda não sabemos. Enquanto que a primeira resulta da análise de oito sondagens e mostra uma tendência estatisticamente significativa, a segunda resulta apenas da sondagem CBS, onde, de resto, a taxa de "desaprovação" baixou apenas 3 pontos (dentro, por isso, da margem de erro amostral). Desculpem a minudência mas é só porque tem implicações substantivas: na verdade, um factor muito mais plausível para a inversão na tendência de declínio da popularidade de Bush é, tão só, a baixa no preço dos combustíveis...

by Pedro Magalhães

Um desastre

Posted December 7th, 2005 at 12:05 pm4 Comments

Para ler e meditar, os resultados de seis sondagens conduzidas na Jordânia, Líbano, Marrocos, Arábia Saudita, Egipto e Emiratos Árabes Unidos, sobre a percepção dos cidadãos acerca das motivações da política externa norte-americana em relação ao Médio Oriente, os planos nucleares do Irão, as perspectivas de democratização na região e outros temas relacionados.

Note-se como é praticamente nulo o capital político de que os Estados Unidos dispõem neste momento para aparecerem, aos olhos dos cidadãos no Médio Oriente, como uma potência benigna capaz de promover a democracia e o bem-estar. Alternativa: a França. Em resumo: um desastre.

Sondagens realizadas pela Universidade de Maryland e a Zogby International, aqui (pdf).

by Pedro Magalhães

Os efeitos dos debates

Posted December 6th, 2005 at 12:49 pm4 Comments

Nos últimos dias, há que diga que não têm, há quem diga que têm, tudo na base de dados recolhidos com um instrumento de medida habitualmente usado nestes coisas: o "palpitómetro". O "palpitómetro" tem vantagens e desvantagens. Por um lado, é de utilização fácil e e produz resultados imediatos. Por outro lado, esses resultados tendem misteriosamente a coincidir com as preferências políticas e interesses pessoais do utilizador. Mas não se pode ter tudo.

Longe de mim querer desincentivar as práticas tradicionais da cultura opinativa indígena. Contudo, caso haja alguém que tenha a intenção de saber alguma coisa sobre o assunto antes ou depois (de preferência, antes) de usar o "palpitómetro", deixaria aqui uma única sugestão de leitura, relativamente recente e que sintetiza quarenta anos de investigação sobre o tema nos Estados Unidos:

A meta-analysis of the effects of viewing U.S. presidential debates.

Algumas conclusões:

- os efeitos dos debates na percepção das qualidades pessoais dos candidatos são grandes, mas os efeitos na percepção da competência dos candidatos é reduzida. Há quem chame a isto efeitos na percepção dos atributos estilísticos em vez dos atributos políticos*;

- através dos mecanismos anteriores, os debates influenciam o comportamento de voto, especialmente quando as diferenças entre os candidatos do ponto de vista político e ideológico são reduzidas;

- efeitos maiores quando nenhum dos candidatos é o "incumbent" (já que, para este, os eleitores já tiveram tempo para formar uma imagem mais cristalizada).

Pode sempre dizer-se que isto é nos Estados Unidos e não aqui. Mas entre isto e o "palpitómetro", eu arriscava-me a dizer (usando, reconheço, o meu próprio "palpitómetro") que as condições são de molde a que os debates possam ter um efeito não irrelevante nas decisões de voto dos eleitores, tendo em conta:

- as pequenas diferenças ideológicas visíveis entre Jerónimo de Sousa e Francisco Louçã, por um lado, e Cavaco Silva,Mário Soares e Manuel Alegre, por outro;

- o facto de um dos factores que mais determina a exposição e percepção selectivas - a identificação partidária - ser, apesar de tudo, menos relevante nestas eleições do que nas legislativas;

- o facto de não estar a concorrer um Presidente para reeleição.

P.S. - Para uma bibliografia assustadoramente exaustiva sobre o tema nos Estados Unidos (não conheço nem um vigésimo das referências), ver aqui.

* Nimmo, D. & Savage, R. L. (1976). Candidates and their images: Concepts, methods, and findings. Santa Monica, CA: Goodyear.

by Pedro Magalhães

Aximage, Presidenciais, 6 de Dezembro

Posted December 6th, 2005 at 11:09 am4 Comments

Com a sondagem Aximage/Correio da Manhã divulgada hoje, ficamos com o seguinte quadro:



Nada de novo com as intenções de voto válidas em Cavaco, que exibem uma estabilidade crescente. Cada vez mais estáveis e convergentes são também os resultados de Jerónimo de Sousa (6-5%) e Francisco Louçã (5-4%).

O mesmo não sucede, contudo, com Alegre e Soares. São, como sempre, sondagens em número inferior ao que seria necessário para detectar tendências claras, mas a luta pelo segundo lugar parece estar a ficar cada vez mais renhida, como se verifica no gráfico seguinte onde se apresentam as médias móveis das últimas três sondagens:



Seja como for, análises como esta ou esta, perfeitamente compreensíveis no plano político, parecem contudo não fazer muito sentido em face dos dados disponíveis. Se é verdade que, das oito sondagens divulgadas na comunicação social após a confirmação de todas as principais candidaturas, Alegre aparece à frente de Soares em seis delas, dois desses casos, precisamente os mais recentes, consistem em margens insignificantes (Católica e Intercampus). Mais preocupante ainda para as expectativas dos apoiantes de Manuel Alegre é o facto de, quando olhamos para as sondagens da Aximage ao longo do tempo (mantendo constantes as opções técnicas e metodológicas adoptadas), Alegre passar de uma vantagem de 6 pontos sobre Soares para uma desvantagem de 3.

Em rigor, acho que ninguém pode dizer com segurança quem recolhe, neste momento, mais intenções válidas de voto, Alegre ou Soares. O resto é política. Seria preferível, contudo, que as acusações feitas a responsáveis de institutos de sondagens passassem da insinuação à fundamentação. Ou que, no mínimo, tivessem alguma espécie de congruência com os próprios resultados das diferentes sondagens.

by Pedro Magalhães