Pedro Magalhães

Margens de Erro

Sobre sondagens

Posted November 21st, 2005 at 3:06 pm4 Comments

A ler, um artigo de Tiago Mendes no Diário Económico.

Sobre a interdependência entre as sondagens e os resultados eleitorais, só me resta remeter para este post.

E se o autor me permite uma correcção, importa notar que uma sondagem à boca das urnas não é uma previsão. Uma sondagem à boca das urnas mede comportamentos já ocorridos (questionando eleitores à saída das urnas, após o voto), permitindo que se faça, na base da amostra, uma inferência acerca daquilo que ocorreu (pretérito) no universo dos eleitores.

Pode-se dizer, sim, que precisamente por não ser (nem poder ser encarada como) uma previsão, uma sondagem à boca das urnas elimina algumas das fontes de incerteza associadas a qualquer estimativa pré-eleitoral de resultados eleitorais (tais como a instabilidade nas intenções de voto, a abstenção diferencial, etc.), seja ela baseada numa sondagem pré-eleitoral propriamente dita ou em outros preditores para além das intenções de voto (estado da economia, popularidade dos líderes, etc.), para além de ter a vantagem de contar, geralmente, com amostras de maior dimensão do que as usadas em sondagens pré-eleitorais.

by Pedro Magalhães

A exposição dos candidatos nos media

Posted November 21st, 2005 at 11:33 am4 Comments

As observações de Jorge Candeias fazem sentido. Por um lado, a questão de medição. O que significa "notícias protagonizadas por cada personalidade"? Suponho que uma notícia é contada como tal quando os candidatos são explicitamente objecto de notícia, mas não posso estar seguro. Não descobri no site da Marktest a definição operacional desta variável.

Por outro lado, o período coberto. Observa-se na Lâmpada Mágica:

E também pergunto a mim próprio por que motivo foi escolhido o período de tempo que foi. É que desde 22 de Agosto até hoje houve as eleições autárquicas e uma campanha eleitoral (e uma longa pré-campanha) em que os líderes dos partidos se fartaram de aparecer, por inerência de cargo. E adivinhem quem são os líderes partidários que se candidataram a Belém? Nem mais: Louçã e Jerónimo, os dois mais "protagonistas" entre os "protagonistas". Dá-me a sensação de que aqui estamos a comparar coisas que não são comparáveis, o que é capaz de criar enviezamentos no método e, portanto, nos resultados.

A data de início deve-se, creio, ao lançamento das primeiras candidaturas, mas o problema mantém-se. Mas resolve-se. Basta ir aqui e tomar como âmbito temporal um período mais curto. Olhemos, por exemplo, para o que se passou desde a semana 42 (uma semana depois das autárquicas) até à semana 45 (que terminou no dia 13 de Novembro):

Mário Soares: 79 notícias, 215 minutos;
Cavaco Silva: 54 notícias, 163 minutos;
Manuel Alegre: 55 notícias, 147 minutos;
Jerónimo de Sousa: 52 notícias, 139 minutos;
Francisco Louçã: 51 notícias, 139 minutos.

De facto, faz diferença a exclusão do período das autárquicas. Após este período, Mário Soares conseguiu aparecer nas televisões com uma frequência e duração superior à dos restantes candidatos. Cavaco Silva surge em segundo lugar, mas muito por força daquele dia em que as televisões acompanharam o lançamento da sua candidatura, o que levou a notícias com muito longa duração.

Isto mede aquilo que mede. Não mede conteúdo/enviesamento da notícia, não mede o seu posicionamento na hierarquia do alinhamento noticioso, nem deve contar com notícias indirectamente relacionadas com os candidatos. Vale o que vale, como se diz das sondagens...

by Pedro Magalhães

Tudo o que precisa de saber…

Posted November 18th, 2005 at 1:37 pm4 Comments

Plus ça change…

Posted November 16th, 2005 at 1:25 pm4 Comments

1. Entre 53% e 63% dos franceses (dependendo da formulação da pergunta) aprovam a actuação de (ou têm confiança em) Sarkozy em face da violência urbana (BVA, 10 Novemebro, em .pdf; IFOP, 13 de Novembro, aqui e aqui; IPSOS, 16 de Novembro, aqui);

2. 61% dos franceses declaram que, caso Sarkozy se apresente às eleições presidenciais, votarão certamente (19%) ou possivelmente (42%) nele, mantendo-o acima de qualquer outro candidato potencial (IPSOS, aqui);

3. As soluções mais apontadas pelos franceses para resolver a "crise dos banlieus" a médio prazo consistem em "dar mais meios para a educação" (47%), "assegurar uma melhor mixité social(como traduzir?) (45%) e "desenvolver policiamento de proximidade" (40%) - CSA, 8 Novembro, aqui.

P.S. - Os resultados descritos nos pontos 1 e 2 ganham novo sentido se lidos à luz de uma crónica, onde (para variar em relação a um seu recente registo jornalístico mais, digamos, engagé) Rui Ramos faz uma interessante análise da "alta política" por detrás da violência urbana em França.

by Pedro Magalhães

Off topic: está-se sempre a aprender

Posted November 15th, 2005 at 3:37 pm4 Comments

A ler em conjunto:

1: Becker
2. Posner
3. Canhoto

Os dois primeiros via o (cada vez mais indispensável) Pura Economia.

O único comentário (banalíssimo) que me ocorre é que, quando se vê alguém como Posner defender o valor social da discriminação positiva (apesar de lamentar a sua contradição com os valores meritocráticos) e o Canhoto defender a flexibilização das leis laborais (é certo que em troca de maior protecção social da empregabilidade e dos rendimentos dos desempregados involuntários), isto deverá querer dizer que as soluções reais para os problemas reais já não andarão certamente pelos sítios habituais.

(Não sou especialista, longe disso, mas sobre os argumentos defendidos pelo Canhoto, vale a pena ler isto, especialmente o capítulo "Recasting Welfare Regimes for a Postindustrial Era").

by Pedro Magalhães

Quem são os indecisos?

Posted November 15th, 2005 at 10:17 am4 Comments

De um e-mail de um leitor:

Penso que neste caso específico a redistribuição proporcional dos indecisos não será uma boa opção. Parece-me que o facto de a candidatura de Cavaco ser bastante consensual à direita (ninguém de direita manifesta qualquer intenção de se candidatar para além de Cavaco) reduz muito a indecisão nesse eleitorado. Já no caso da esquerda, a existência de tantos candidatos é geradora de uma maior indecisão. As candidaturas de Alegre e Soares são importantes fontes de indefinição no eleitorado de esquerda.

Esta situação leva-me a pensar que a esmagadora maioria dos ainda indecisos se irá distribuir pelos candidatos da esquerda (e eventualmente pela abstenção) e muito spoucos por Cavaco. Esperar, como se deduz pela redistribuição dos indecisos na sondagem da Euroexpansão, que cerca de 8% dos 15% de indecisos vão optar por votar Cavaco parece-me francamente exagerado. Os indecisos estão à esquerda e se esta os souber conquistar, Cavaco não ganha as eleições. Ou seja, Cavaco não vai ganhar as eleições, a esquerda é que as poderá perder.

Parece-me plausível a ideia de que a indecisão é maior entre o eleitorado potencial dos candidatos de esquerda, especialmente o eleitorado do PS, como sugeri aqui. Mas para apreciar a validade da ideia, seria importante ver quais as identificações partidárias ou posicionamentos ideológicos (aqueles que os têm e declaram) dos que agora se dizem "indecisos", e apurar se a sua distribuição está significativamente mais "à esquerda" do que a da restante população que indica uma intenção válida de voto. A ficha técnica da Eurosondagem dá ideia que esse tipo de questões não foi colocada. No caso da Aximage, fica claro que essas questões são colocadas, mas não me recordo de alguma vez ver essa análise. Outro ponto importante, claro, é que estas percentagens de "indecisos" muito provavelmente subestimam a percentagem real de eleitores que não têm uma decisão tomada acerca de em quem irão votar. Isso sucede porque há uma parte "submersa" do eleitorado que não surge nas sondagens: as recusas, ou seja, aqueles que recusam fazer parte da amostra.

Mas por outro lado, nada garante que a "indecisão", seja a medida nas sondagens seja a "real", se converta em "voto" à última da hora. Muita dessa "indecisão" acaba por desembocar em abstenção. Assim foi, por exemplo, nas legislativas de 2005: um estudo de painel feito pela Católica para o Público, a RTP, a RDP e o ICS mostra que mais de um terço das respostas "não sabe/não responde" à pergunta sobre intenção de voto em Janeiro de 2005 acabaram por redundar, em Fevereiro (e na base das declarações dos próprios) em abstenção.

by Pedro Magalhães

Eurosondagem, Presidenciais, 12 Novembro (continuação)

Posted November 14th, 2005 at 11:12 am4 Comments

Primeiro os dados:



Algumas notas:

1. A sondagem divulgada há menos tempo (a do Expresso/RR/SIC) não é a última da lista porque as sondagens estão colocadas por ordem crescente da data de trabalho de campo, e não de divulgação.

2. Há discrepâncias de não mais de 0,1% entre os resultados apresentados pela Eurosondagem após a redistribuição de indecisos e aqueles que eu apresento. A razão é simples: respeitando a decisão da empresa de apresentar esses dados com uma casa decimal, fiz o cálculo da redistribuição dos indecisos (15%) pelas restantes opções válidas. Os meus resultados não coincidem com os da Eurosondagem. Nada disto, contudo, tem qualquer importância, como se verá no ponto seguinte.

3. Há por aí alguma discussão sobre o que estes resultados estão a dizer assim que se considera a margem de erro amostral. O que eles estão a dizer é o seguinte:

"Se a amostra obtida da população eleitora residente em domicílios com telefone no Continente tivesse sido aleatória, haveria 95% de probabilidades que as intenções de voto em cada um dos candidatos - redistribuindo proporcionalmente os indecisos - se situassem entre os valores máximos e mínimos do seguinte quadro:



Logo, na base destes resultados, não podemos dizer, nem só com 95% de confiança, se, entre a população eleitora residente em domicílios com telefone fixo no Continente:

a. As intenções de voto em Cavaco Silva são neste momento superiores a 50%;
b. Soares tem mais intenções de voto que Alegre ou vice-versa;
c. Louçã tem mais intenções de voto que Jerónimo ou vice-versa.

Acresce a isto que a amostra da Eurosondagem - tal como todas as feitas por qualquer sondagem em qualquer sítio no Mundo - pode ter sido seleccionada com procedimentos aleatórios, mas não é nunca uma sondagem cujos membros da amostra tenham sido seleccionados com probabibilidade igual a todos os outros (devido à incapacidade de contactar membros do universo seleccionados aleatoriamente, recusas em pertencer à amostra, etc.). É por tudo isto que a afirmação "Cavaco deve ganhar à primeira volta" não faz sentido (para já não falar do facto de usar intenções de voto recolhidas a três meses das eleições como elemento que permite prever o que vai suceder no dia das eleições).

4. A diferença entre os resultados da última (Aximage) e da penúltima (Eurosondagem) sondagens dificilmente terão a ver com mudanças nas intenções de voto dos eleitores ao longo do tempo, dado que os trabalhos de campo foram conduzidos quase simultaneamente. Restam as opções metodológicas e o erro amostral como explicação das diferenças. O segundo, por enquanto, ainda as justifica. Mas se começarmos a detectar de forma sistemática que as amostras por quotas produzem melhores resultados para Cavaco e Alegre do que as amostras aleatórias, importa começar a considerar as opções metodológicas como fonte destas discrepâncias. Por enquanto é cedo.

5. A vantagem de Cavaco Silva sobre os restantes candidatos está a diminuir? Para percebermos se a passagem do tempo está a produzir efeitos nesse sentido, a melhor maneira é manter constantes as opções metodológicas e esperar que a confirmação de tendências dentro de cada instituto diminua a probabilidade das discrepâncias serem mero ruído aleatório. Logo, só com mais sondagens de cada instituto haverá respostas mais credíveis. É preciso esperar para ver.

by Pedro Magalhães

Eurosondagem, Presidenciais, 12 de Novembro

Posted November 12th, 2005 at 9:09 am4 Comments

Por enquanto a, notícia. Análise mais desenvolvida 2ª feira.

Contudo, para já, importa só assinalar que, com estes resultados, a afirmação do Expresso de que "Cavaco deve ganhar à 1ª volta" é absurda a pelo menos dois níveis. Quando será que deixaremos de falar sobre sondagens como se fossem o horóscopo da Maya? E quando será que os jornalistas começarão a interiorizar o conceito de margem de erro amostral (que, para uma sondagem aleatória como a dimensão desta, tem um valor máximo de 2,5%)? Enfim, o costume.

Resultados:
Cavaco Silva: 52,5%
Mário Soares: 18%
Manuel Alegre:16,9%
Francisco Louçã: 6,3%
Jerónimo de Sousa: 5,7%

by Pedro Magalhães

Aximage, Presidenciais, 11 Novembro

Posted November 11th, 2005 at 10:56 am4 Comments

Mais uma sondagem, a terceira em geral e a segunda da Aximage desde que se confirmaram todas as principais candidaturas. Olhando para as distribuições nas amostras, há uma tendência de descida de Cavaco e subida dos restantes candidatos, mas na inferência para o universo, estas diferenças podem não passar de "ruído aleatório". Só com mais sondagens poderemos apreciar se a tendência tem maior probabilidade de estar a descrever algo real.

Do ponto de vista metodológico, quanto mais depressa tivermos sondagens que usem amostragem aleatória e/ou inquirição face-a-face melhor, para apreciarmos em que medida os resultados existentes até agora podem ou não estar a ser afectados pelas opções técnicas tomadas (amostragem por quotas e inquirição telefónica).

Segundo notícia em "caixa" no jornal, o eleitorado do PS continua, como anteriormente, dividido entre Cavaco, Soares e Alegre.

by Pedro Magalhães

"George W. Bush? Não conheço."*

Posted November 10th, 2005 at 2:29 pm4 Comments



Neste artigo do L.A. Times, uma análise preliminar dos possíveis efeitos da impopularidade do Presidente nas eleições e referendos da passada terça-feira e nas próximas eleições de 2006.

*Frase recomendada para candidatos Republicanos às eleições para o Congresso no próximo ano.

by Pedro Magalhães