Pedro Magalhães

Margens de Erro

De um e-mail

Posted October 11th, 2005 at 12:17 pm4 Comments

Há cerca de 15 anos tive como actividade profissional os estudos de mercado. Posso dizer com propriedade que conheci bastante bem a realidade do meio na componente da recolha de dados, em algumas das mais relevantes empresas da época. Fiz muitas entrevistas, muito trabalho de supervisão, algum de codificação e, acima de tudo, de coordenação do trabalho de campo, num período de cerca de 3 anos.

À época era para mim um mistério o simples facto de as sondagens políticas terem o mínimo de aderência à realidade. Posso afirmar, sem rodeios, que a maior parte do trabalho de campo não era, pura e simplesmente, credível. Divulgavam-se taxas de supervisão falsas ou empoladas e muitas vezes a própria supervisão era, também ela, fraudulenta. Esta foi a realidade que conheci. O valor comercial dos estudos apenas permitia suportar um trabalho de campo feito por pessoas não profissionais, e qualquer tentativa de elevar a fasquia da qualidade, por exemplo apostando numa supervisão efectiva e com consequências, traduzia-se na inviabilidade económica do trabalho. Esta realidade pode ter mudado, hoje em dia já não estou em contacto com esse meio, por isso as minhas reflexões devem ser entendidas à luz de uma experiência datada.

(...)
Quando se questiona um eleitor sobre o quais as suas expectativas em relação ao resultado de uma votação em que ele também participará, obtêm-se números que, não podendo ser usados como indicadores de voto, correspondem no entanto à percepção comum sobre o sentido de voto, e portanto é natural que não se afastem muito do voto real. As pessoas que respondem estão inseridas num contexto em que comunicam entre si e a comunicação social traduz e amplifica tendências. É com esta perspectiva que respondo à minha própria pergunta de há 15 anos: o universo dos entrevistadores é ele próprio uma amostra (involuntária e sem qualquer critério claro...) do universo em estudo. Se, por absurdo, todos os questionários de uma determinada sondagem fossem respondidos integralmente pelos entrevistadores, obteríamos mesmo assim resultados com alguma correspondência com a realidade. Algures entre este cenário absurdo e a utopia de um trabalho de campo impoluto está a realidade e portanto, hoje, não me surpreende rigorosamente nada o nível de adesão à realidade de alguns estudos com problemas gravíssimos na recolha de dados.
(...)
Ontem a quente, e hoje confirmado nos quadros resumo que publica, parece tudo ser ao contrário... De facto, à excepção da sondagem da Católica no Porto, das 15 pré-eleitorais analisadas nos seus quadros as telefónicas, pelo método 5, apresentam menores desvios face ao voto real. Com menor expressão, mas no mesmo sentido análise pelo método 3. Ora o que me ocorreu, ainda antes destes números, é que talvez possam existir de facto desvantagens nas telefónicas, e isso pode influenciar os resultados, mas será que as questões (e lembro-me da realidade negra que conheci...) de controle sobre o trabalho de campo, muito mais relevantes nas presenciais, não terão um efeito ainda mais nocivo.


Pois é. Só não sei se concordo com a ideia de que, em situações limite de "fraude" (que, garanto, tem sido raríssimas nos trabalhos em que me tenho envolvido, mas nunca se sabe...), os resultados das sondagens acabem por reflectir a realidade devido ao facto de reflectirem as preferências dos inquiridores ou a sua percepção da relação de forças no universo. Por um lado - e isso joga especialmente nas autárquicas - os inquiridores são frequentemente deslocados para contextos com os quais não têm mínima familiaridade política. Por outro lado, pressupô-los atentos ao que se vai passando nos variados contextos locais onde se deslocam é pressupor demais sobre o seu grau de atenção política.

Mas concordo com tudo o resto, especialmente no que respeita à potencial má qualidade no trabalho de campo. E isso é mais importante neste tipo de sondagens pré-eleitorais onde, ao contrário de outros trabalhos, a verificação e o controlo são inevitavelmente menos rigorosos, por força da urgência em pôr resultados cá fora. Sobre a sondagem à boca das urnas, para além das inestimáveis vantagens dos grandes números e de se medirem comportamentos declarados de votantes (em vez de intenções declaradas de eleitores), o leitor tem razão: o controlo é, de facto, muito mais apertado, até pelas circunstâncias concretas em que o trabalho tem lugar (contacto quase permanente com a coordenação central, localização estável ao longo do dia, etc.).

by Pedro Magalhães

Eleições de segunda ordem

Posted October 10th, 2005 at 4:06 pm4 Comments

Há na Ciência Política uma teoria que sugere que as eleições se distinguem pela sua importância/saliência. Eleições de primeira ordem são aquelas que servem para determinar quem governa, e as de segunda ordem são as outras, tais como as eleições europeias ou autárquicas.

A implicação é que os eleitores tendem a comportar-se de forma diferentes nessas eleições. Independentemente de todos os outros factores que podem determinar o voto, os apoiantes do partido que está no governo tendem a sentir que, em eleições de segunda ordem, podem aproveitar a ocasião para enviar um sinal de descontentamento (caso o sintam), dado que isso não tem consequências para a composição do governo. E aqueles que simpatizam com pequenos partidos, mas que nas legislativas votam útil, sentem-se à vontade para votar "sinceramente" (em vez de "estrategicamente") nas eleições de segunda ordem.

Quais as implicações?

1. Pequenos partidos tendem a ser recompensados em eleições de segunda ordem (em comparação com eleições de primeira ordem);

2.Grandes partidos tendem a ser punidos em eleições de segunda ordem;

3. Partidos no governo tendem a ser mais punidos, especialmente se as eleições de segunda ordem se dão a meio do ciclo das eleições de primeira ordem.

São as eleições autárquicas em Portugal eleições de segunda ordem? O meu colega André Freire tentou responder à questão aqui (.pdf), e conclui que:

1. Os grandes partidos tendem a ter pior desempenho nas eleições autárquicas;
2. Os pequenos partidos tendem a ter melhor desempenho nas eleições autárquicas;
3. Os partidos no governo têm pior desempenho nas eleições autárquicas, mas apenas quando elas têm lugar a meio do ciclo, sendo as perdas tanto maiores quanto piores são as condições económicas. Pelo contrário, eleições autárquicas realizadas no período de "lua de mel" após as legislativas tendem a resultar em ganhos para os partidos de governo.

Giro, não? Por outras palavras, independentemente da miríade de factores locais que afectam o desempenho eleitoral, há padrões sistemáticos nos dados a nível agregado. Os resultados de eleições locais são afectados por factores nacionais (ciclo eleitoral, popularidade, economia). Outra implicação curiosa desta teoria é esta: ao coligar-se com o PSD em tantos concelhos, o CDS está potencialmente a desperdiçar votos que poderia captar na condição de "pequeno partido" e, logo, a fazer um inestimável favor ao PSD. Mas não se fazem favores sem contrapartidas: a estratégia do CDS-PP nestes eleições exemplifica assim os casos em que office se torna mais importante do que votes nos objectivos de um partido, if you catch my meaning.

E 2005? O PS teve 45% em Fevereiro e 36% nestas autárquicas, 8 meses depois. Por outras palavras, a fiar-me nos dados do André, estas eleições autárquicas são as primeiras em que um partido no governo perde pontos percentuais em relação às legislativas em eleições locais realizadas menos de um ano depois das legislativas, ou seja, ainda no suposto "honeymoon period". Com isto não quero dizer, longe disso, que estas eleições coloquem em causa a "legitimidade" do governo (que disparate), criem uma "nova e diferente maioria", signifiquem "a rejeição das políticas do governo", ou qualquer coisa nesse registo. Quero apenas dizer que, se queriam um dia oficial para o fim do "estado de graça" do governo PS, já o têm: marquem lá o dia 9 de Outubro de 2005 nas vossas agendas.


P.S. - Já agora: a questão "qual o partido que tem mais votos" nestas eleições é irrespondível, dado que o PSD concorreu coligado em muitos concelhos. Mas se repartirem os votos nas coligações à razão de 4 para 1 (a razão à qual os dois partidos repartiram o financiamento das campanhas), o PSD fica com 37,6%, acima dos 35,8% do PS.

by Pedro Magalhães

Síntese

Posted October 10th, 2005 at 2:15 pm4 Comments

Houve muito mais sondagens em mais concelhos, e espero poder analisá-las com mais tempo. Isto significa que tudo o que aqui disser carece de ser testado sistematicamente num maior número de casos, única forma de perceber se existem relações estatisticamente significativas entre opções técnicas e metodológicas ou atributos do contexto político e a precisão das sondagens. Tenciono, com tempo, pegar nestes 75 casos e ver o que aparece.

Contudo, diria neste momento o seguinte:

1. Em face destes dados, ficaria muito surpreendido se encontrasse uma relação estatísticamente significativa entre a metodologia de inquirição e a precisão das sondagens. Nas legislativas, essa relação não existe, como se testou aqui. Confesso, contudo, que estava persuadido de que existiria nas autárquicas, mas isso é coisa que, em face destes resultados, se torna duvidosa. Na melhor das hipóteses, poderá haver um efeito de interacção entre a metodologia de inquirição e a dimensão do concelho, com as simulações de voto a produzirem, ceteris paribus, maior precisão em concelhos de mais reduzida dimensão. A ver.

2. Apesar de, neste conjunto de casos, não parecer existir uma relação entre a distância temporal entre o trabalho de campo e as eleições e a precisão das sondagens, ficaria surpreeendido se ela não existisse assim que incluamos as sondagens realizadas em Agosto e Julho. O que se passa nos posts anteriores é que me concentrei apenas nas últimas sondagens, pelo que são todas muito parecidas desse ponto de vista. Curioso, contudo, é que as diferenças de curto prazo (uma ou duas semanas) pareçam irrelevantes. Aparência ou realidade? Logo se verá.

3. Apesar de isso só ser parcialmente evidente dos quadros anteriores, é quase garantido que, ceteris paribus, amostras de maior dimensão hão-de gerar resultados mais precisos. E claro, quanto maior o número de pequenos partidos incluídos no cálculo do desvio absoluto médio, maior há-de ser a precisão, dado que as margens de erro associadas a essas estimativas são sempre menores, o que reduz o valor do desvio absoluto médio. Estas coisas nunca falham.

4. E será importante testar o efeito da abstenção na precisão das sondagens, na pressuposição de que maior abstenção resultará em menor precisão. Isso já é manifestamente verdade nas eleições legislativas e europeias, e quase certamente será verdade neste caso. Olhe-se para Sintra, por exemplo, onde a uma abstenção de quase 50% corresponde o mais impreciso conjunto de sondagens entre os sete analisadas anteriormente.

Dito isto, ficaram os eleitores bem servidos com este conjunto de sondagens para as eleições autárquicas? Ao contrário do que se passou nas legislativas de Fevereiro - onde a resposta é inequivocamente "sim" - a resposta aqui é "depende". Ficaram, certamente, com as sondagens à boca das urnas, especialmente tendo a falta de informação que resultou do colapso do STAPE (um caso a merecer, pelo menos, tanta atenção como o do famoso "concurso dos professores"). Ficaram, também, em Oeiras e Faro, e na maior parte das sondagens feitas em Lisboa e no Porto.

Mas não há dúvida que, apesar da melhoria em relação ao descalabro de 2001, as sondagens feitas nas eleições autárquicas estão muito longe de exibirem a fiabilidade das sondagens para as legislativas. Pode-se dizer que levantam dificuldades adicionais: são em maior número, a fidelidade partidária conta menos no comportamento de voto (o que torna as intenções de voto mais instáveis e afecta os processos com que se afere a representatividade da amostragem), têm taxas de abstenção mais elevadas, etc. Mas isso não é problema dos eleitores: é um problema daqueles que fazem sondagens e daqueles que as encomendam. Os primeiros têm de encontrar soluções técnicas que para esses problemas, e os segundos têm de dar os recursos necessários para essas soluções. E não deve ser impossível, se tivermos em conta as melhorias verificadas em eleições como as europeias, antes vistas como "intratáveis".

by Pedro Magalhães

Rescaldo Lisboa

Posted October 10th, 2005 at 2:06 pm4 Comments



Não há como escapar: as sondagens pré-eleitorais telefónicas foram mais precisas que as sondagens com simulação de voto. É certo que o caso do Porto desmente isto, mas os de Sintra e Faro recolocam o problema. Mais certo será dizer: não parece haver hoje quaisquer garantias de que, pelo menos nos grandes centros urbanos, a simulação de voto constitua uma vantagem metodológica. E isto, por si só, é muito interessante, chamando a atenção, por exemplo, para as grandes vantagens que as sondagens telefónicas trazem para uma melhor monitorização do trabalho de campo.

Novo "caso" com a Intercampus, mas tudo o que disse anteriormente sobre o Porto aplica-se aqui também.

Na boca da urnas, o padrão recorrente de menor precisão da Eurosondagem. Porquê? Não sei.

by Pedro Magalhães

Rescaldo Porto

Posted October 10th, 2005 at 12:47 pm4 Comments



Mais uma vez, olhando isoladamente para o caso do Porto, a proximidadade em relação ao acto eleitoral ou a metodologia de inquirição não parecem ser a explicação das diferenças. Mas pelo menos, desta vez, amostras maiores produzem melhores resultados. Aleluia.

Está aqui um dos "casos" das sondagens, a da Intercampus/TVI/TSF, que colocava Assis à frente com dois pontos de vantagem. É certo que algo terá corrido muito mal para aqueles lados. Mas notem como a questão do "quem vai à frente" é enganadora. Esta sondagem não foi mais imprecisa que as sondagens da Intercampus ou da Católica em Sintra (a única que me ficou "atravessada" nestas eleições, confesso), e sobre essas não houve nem haverá grande comentário. E há que reconhecer coragem à Intercampus: ninguém dá um resultado destes se não tiver confiança no seu trabalho e nos seus resultados. E a sugestão de que um instituto de sondagens manda um bicho destes cá para fora para satisfazer supostos objectivos políticos de directores de jornais só pode ser uma brincadeira.

by Pedro Magalhães

Rescaldo Oeiras

Posted October 10th, 2005 at 12:23 pm4 Comments



1. Mais uma vez - já são três seguidas - a sondagem pré-eleitoral conduzida mais perto das eleições não foi a mais precisa. Mas a relação entre precisão e dimensão da amostra confere.

2. Precisão das sondagens à boca das urnas inferior ao padrão habitual. Sobre isto, uma história curiosa: ontem, durante o dia, recebi relatos de locais de voto em Oeiras onde os inquiridores da Católica eram insistentemente assediados por indivíduos que se ofereciam para votar na sondagem, rondando as equipas durante toda a tarde. Eram, segundo os relatos, apoiantes de Isaltino Morais. Apesar dos cuidados em evitar "amostras voluntárias", a sobrestimação geral da margem de vitória em todas as sondagens pode ter a ver com este, chamemos-lhe assim, "excesso de entusiasmo".

by Pedro Magalhães

Rescaldo Sintra

Posted October 10th, 2005 at 12:17 pm4 Comments



1. Outra vez: sondagem feita com maior distância do dia das eleições e com menor amostra, a da Eurosondagem, é a mais precisa.
2. Mas como de costume, trabalho de boca das urnas sai sempre pior à Eurosondagem.

by Pedro Magalhães

Rescaldo sondagens Faro

Posted October 10th, 2005 at 11:46 am4 Comments

Ora cá vamos nós outra vez. Tal como fiz em relação às eleições legislativas, publico agora uma análise da precisão das principais sondagens pré-eleitorais e à boca das urnas sobre estas autárquicas. Retenho-me nos concelhos com maior cobertura e nas sondagens publicadas a partir de Setembro. E queria também dizer que, ao contrário do que por vezes se diz, estas análises não são parte de qualquer "concurso". Elas devem ser feitas por duas razões: primeiro, para saber se foi prestado um razoável serviço ao público consumidor deste tipo de informação; segundo, para tentar perceber quais são as fontes de erro e de precisão, para tentar melhorar. Só isso.

Recordo a metodologia. Por um lado, o chamado "Método 3": calcular a média dos desvios absolutos entre o resultado eleitoral de cada um os principais partidos e a estimativa fornecida pelas sondagens. Por outro, o chamado "Método 5": medir a precisão das sondagens apenas do ponto de vista da sua capacidade para estimarem a margem de vitória, e tomando com bons os resultados tal como apresentados pelas empresas de sondagens. Para a justificação destes métodos, ver aqui e aqui, e as fontes aí citadas. A única coisa que não faço, por falta de tempo, é o conjunto de operações adicionais normalmente usadas no "método 3" (recalcular percentagens excluido OBN's, etc.). Mas não fará certamente diferença de maior.



1. Ironia : a sondagem realizada mais tempo antes das eleições e com amostra de menores dimensões é a mais precisa. Mas de forma duplamente irónica, a sondagem mais precisa foi também a única que se "enganou" no vencedor...
2: O óbvio costumeiro: sondagens à boca das urnas muito mais precisas que sondagens pré-eleitorais;
3. Em geral, desvios médios dentro da margens de erro amostrais médias.

Mais reflexões adiante.



by Pedro Magalhães

Um e-mail

Posted October 7th, 2005 at 10:22 pm4 Comments

"Estas sondagens demonstram que algo está errado com as sondagens.As descrepancias são enormes, e não é só de agora.Há sondagens a nível nacional, em que os resultados são de PS 42 PSD 30 e outras com PSD 39 e PS 33! Será necessário passar para outros métodos de medição?Como está o descrédito é geral."

Acho que este sentimento é perfeitamente natural e legítimo. Quando sucede, como no Porto, que sondagens cujo trabalho de campo foi realizado no espaço de uma semana e apresentam discrepâncias que vão desde a vitória de um candidato por 19 pontos até à vitória do seu principal opositor, reacções como esta serão as mais normais.

O post anterior, contudo, tinha um objectivo: o de sugerir que estas diferenças poderão ter explicações lógicas na base daquilo que sabemos serem as fontes de erro amostral e não amostral, assim como os efeitos que diferentes métodos produzem na capacidade de obter boas inferências acerca de uma população.

Pode-se - e deve-se - inclusivamente, fazer algo mais do que sugerir: pode-se testar. Depois das eleições, será possível tentar perceber se as discrepâncias entre as sondagens, e entre elas e os resultados eleitorais, se devem a causas previsíveis e conhecidas. Foi o que fiz aqui em relação às sondagens para as legislativas e para o Parlamento Europeu, foi aquilo que dezenas de investigadores já fizeram noutros países nas suas eleições, e é o que tenciono fazer em relação a estas autárquicas, tarefa para a qual este site será de grande utilidade. Creio que antes de falarmos de "falta de credibilidade", "descrédito", ou mesmo, como se faz frequentemente, de "manipulação", devemos esgotar as hipóteses explicativas que decorrem daquilo que sabemos serem as virtualidades e limites das sondagens. Só assim aliás, será possível determinar que opções técnicas produzem resultados mais próximos da realidade e, logo, mais capazes de fornecer informação correcta ao público e de se tornarem mais "credíveis".

Dito isto, também não queria ser excessivamente defensivo. Parece-me que há institutos que, porventura, se terão "esticado" na realização de sondagens num excessivo número de concelhos. Já se tinha passado o mesmo em 2001, com os resultados conhecidos de todos. Os institutos de sondagens em Portugal são, em geral, de pequena dimensão, e os recursos que os media lhes fornecem são extremamente escassos em comparação com o que sucede noutros países. Isso tem como resultado, por exemplo, aquilo que creio ser um excessivo número de sondagens telefónicas com amostras extremamente reduzidas, que produzem resultados que só por mero acaso podem ser boas inferências das intenções de voto das populações. Dêem um passeio por aqui e verão. Nesses casos, pergunto-me o que de facto fica a opinião pública a ganhar com esta informação.

Para além disso, a tarefa de compreender as causas das diferenças entre sondagens e entre elas e os resultados só é possível se se dispuser de toda a informação acerca das metodologias utilizadas. E aqui, como de costume, as fichas técnicas divulgadas continuam a ser vagas, ambíguas e obscuras em muitos aspectos. Assim não vamos lá.

Mas repito: antes de levantar o dedinho acusador, convém testar se as diferenças entre os resultados das sondagens e as suas diferenças em relação aos resultados eleitorais têm explicações metodológicas previsíveis. Se não for esse o caso, então sim, fiquemos preocupados...

by Pedro Magalhães

Síntese

Posted October 7th, 2005 at 11:10 am4 Comments

Antes de mais, convém dizer que os quadros nos posts anteriores estão longe de esgotar o que foi feito nas últimas semanas em sondagens autárquicas. Mas a verdade é que Lisboa, Porto, Oeiras, Sintra e Faro são os casos que concentraram as atenções dos principais órgãos de comunicação social e nos quais, por isso mesmo, tendemos a encontrar mais sondagens (que, no entanto, são muito poucas em comparação com o que sucede noutros países). Já agora, importa também dizer que o facto de muitas destas sondagens indicarem "empates" resulta do facto de se ter decidido fazer mais sondagens, precisamente. nos concelhos onde se supunha maior indefinição. Ninguém fez sondagens em Gaia, apesar de ser um dos maiores concelhos do país...

O que temos, então?

1. Faro: apesar de haver uma sondagem que coloca PSD e PS par a par, essa sondagem foi conduzida há mais tempo que duas outras que convergem completamente numa vitória folgada do PS (Católica, primeiro, e Intercampus, uma semana depois). A não ser que a metodologia de inquirição usada por ambas esteja a produzir enviesamento (sendo que, para mim, o inverso é muito mais provável), Vitorino está de saída.

2. Sintra: aqui também se verifica um fenómeno semelhante a Faro. Fica a ideia de que, independentemente da data do trabalho de campo, os "incumbents" se saem pior em sondagens que utilizam simulação de voto em urna. Quanto ao que poderá vir a ser o resultado final, quem sabe? Por um lado, apesar de Seara e Soares estarem praticamente empatados em cada sondagem tomada individualmente, é improvável que a liderança de Seara nas três sondagens se possa dever a mera coincidência. Por outro lado, todas as sondagens terminaram o seu trabalho de campo pelo menos quatro (quando não quase 20) dias antes das eleições.

3. Oeiras: aqui as coisas complicam-se. A distinção telefónica/presencial não serve para nada, dado que a maior e menor vantagens de Isaltino são obtidas com sondagens muito semelhantes do ponto de vista da sua metodologia. O tempo? Talvez: mas o que terá feito com que, em pouco mais de uma semana, a vantagem de Isaltino se dilatasse em relação à sondagem feita pela Católica nos dias 24 e 25? Certo, certo é que, em rigor, a diferença entre 34 e 37% ou a diferença entre 33 e 26,5% se podem sempre dever a erro amostral. Aqui não tenho teorias nenhumas. Paciência.

4. Porto: em 2001, o Porto foi a némesis dos institutos de sondagens. Ninguém colocou Rui Rio à frente das intenções de voto. Desta vez, isso não vai acontecer, porque alguém se aproximará dos resultados. Mas quem? Há de tudo para quase todos os gostos: vitórias arrasadoras para Rui Rio (Marktest), vitórias modestas (Católica), empates com tendência Rio (Eurosondagem) e empates com tendência Assis (Intercampus). Precisamos só de uma sondagem que dê Assis a ganhar com 20 pontos de avanço para o menu ficar completo. À partida, diria que as diferenças parecem ser explicadas por dois factores (sem contar com o puro acaso):

- Mantendo constante o tempo, simulações de voto dão, tal como em Faro ou Sintra, piores resultados a quem está no poder. Por outras palavras, a coligação tem piores resultados na Católica do que na Marktest (dias 1 e 2), e piores resultados na Intercampus do que na Eurosondagem (dia 5).

- Mantendo constante o método de inquirição, quanto mais perto das eleições foi conduzido o trabalho de campo menor a vantagem de Rui Rio. O score da coligação é pior na Eurosondagem (dia 5) do que na Marktest (dia 1), e é também pior na Intercampus (dia 5) do que na Católica (dia 2).

5. Lisboa: lá aparece, novamente, o possível efeito do método de inquirição. Nas sondagens Católica e Marktest, quase contemporâneas, há piores resultados para o "incumbent" no caso em que se usaram simulações de voto. Nas sondagens Aximage, Intercampus e Eurosondagem, realizadas até mais tarde, a mesma coisa: telefónicas (Aximage e Eurosondagem) dão vantagem maior a Carmona.

Não quero fazer disto qualquer teoria geral, até porque a detecção de quaisquer efeitos da inquirição exigem que se utilizem outros controlos para além do tempo (dimensão da amostra, método de amostragem, etc.). Mas que parece haver aqui qualquer coisa, sistematicamente repetida em todos os concelhos (menos Oeiras), lá isso parece. Quanto ao tempo, a coisa é mais complicada, porque as sondagens de Lisboa estão a contar histórias diferentes: as que usam simulação de voto contam uma história em que Carrilho se aproxima de Carmona nos últimos dias; as que usam inquirição telefónica contam uma história em que nada muda ao longo dos últimos dias. Qual a história verdadeira? Domingo veremos.

Agora, votem bem.

by Pedro Magalhães