Pedro Magalhães

Margens de Erro

O eleitorado BE e as presidenciais

Posted September 9th, 2005 at 4:35 pm4 Comments

Vocês lá saberão, mas a minha sugestão é que não se tirem excessivas conclusões desta ideia de que 57% dos eleitores do BE (Aximage) ou 45% dos eleitores Louçã na 1ª volta (Católica) tencionam votar Cavaco numa 2ª volta. Porque:

1. São percentagens calculadas em relação a sub-amostras, tendo por isso associadas margens de erro substancialmente superiores às da amostra total, tal como se avisa nos quadros publicados hoje no Público. A Católica, por exemplo, tem 51 inquiridos a dizer que vão votar Louçã na primeira volta. A Aximage, com uma amostra de 600 pessoas, há-de ter bastante menos eleitores declarados do BE. Só para vos dar uma exemplo, a uma amostra aleatória de 51 inquiridos está associada uma margem de erro máxima de...13,7%.

2. A segunda volta "não existe". É um cenário. Soares ainda não é o candidato da esquerda. BE ainda não deu recomendações de voto aos seus eleitores. Isto não quer dizer que as reacções actuais dos eleitores aos cenários sejam completamente irrelevantes. Mas é um salto muito grande aquele que vai de se dizer que o eleitorado BE não se encontra de momento predisposto a deslocar o seu voto para Soares para se dizer que metade do eleitorado BE vai votar em Cavaco. Os eleitores são as suas preferências e as suas circunstâncias, e as circunstâncias de hoje não são as circunstâncias de Janeiro.

Agora que a coincidência destas suas sondagens num resultado semelhante dá que pensar sobre o que será isto do "eleitorado do BE", lá isso dá. Prometo voltar ao assunto, e prometo também que não vou dar o exemplo que já ouvi mil vezes das "tias de Cascais" que acham que o Francisco Louçã "fala muito bem" e é uma pessoa "muito honesta" (mas que las hay, las hay).

by Pedro Magalhães

Katrina and the waves

Posted September 9th, 2005 at 11:27 am4 Comments

Evolução (negativa) da avaliação do trabalho de Bush no que respeita ao furacão. Isto, e muito mais, aqui. Excertos:

The American public is highly critical of President Bush's handling of Hurricane Katrina relief efforts. Two-in-three Americans (67%) believe he could have done more to speed up relief efforts, while just 28% think he did all he could to get them going quickly. At the same time, Bush's overall job approval rating has slipped to 40% and his disapproval rating has climbed to 52%, among the highest for his presidency. Uncharacteristically, the president's ratings have slipped the most among his core constituents ­ Republicans and conservatives.

(...)

In addition, blacks and whites draw very different lessons from the tragedy. Seven-in-ten blacks (71%) say the disaster shows that racial inequality remains a major problem in the country; a majority of whites (56%) say this was not a particularly important lesson of the disaster. More striking, there is widespread agreement among blacks that the government's response to the crisis would have been faster if most of the storm's victims had been white; fully two-thirds of African Americans express that view. Whites, by an even wider margin (77%-17%), feel this would not have made a difference in the government's response.

(...)

The deep and enduring differences over Bush's presidency are once again evident in attitudes toward government's response to the disaster. Fully 85% of Democrats and 71% of independents think the president could have done more to get aid to hurricane victims flowing more quickly. Republicans, on balance, feel the president did all he could to get relief efforts going, but even among his own partisans 40% say he could have done more.

by Pedro Magalhães

Alemanha: maioria CDU/FDP em risco

Posted September 9th, 2005 at 10:13 am4 Comments

Como já tinha aqui previsto (nem sempre acerto, mas aqui aconteceu), as sondagens realizadas após as férias de Agosto e pós-debate trazem novidades muito sérias (aqui):

1. SPD passa de 30-32% para 33-34%;

2. Mas mais importante, soma CDU/CSU+FDP passa de uns consistentes 50% para 48%.















Nos mercados electrónicos, a CDU/CSU já aparece com menos de 40% de votos, ao passo que a opção de "grande coligação" CDU-SPD como provável futuro governo já passou à frente da solução CDU-FDP.

by Pedro Magalhães

Sondagens presidenciais: comentários

Posted September 9th, 2005 at 9:41 am4 Comments

1. Importa começar por notar que as duas sondagens publicadas hoje são sobre coisas diferentes. A primeira apresenta um cenário de 1ª volta com 4 candidatos presidenciais, três certos e um provável. A segunda apresenta um cenário de 2ª volta, com Cavaco e Soares. As comparações possíveis são, portanto, altamente limitadas. Contudo, a sondagem da Católica colocou também os eleitores perante um possível cenário de 2ª volta, o que já permite comparação com a sondagem Aximage. Assim, temos:

Cavaco, 2ª volta, após redistribuição de indecisos
Católica: 64%
Aximage: 60%

Soares, 2ª volta, após redistribuição de indecisos
Católica: 36%
Aximage: 40%

As diferenças estão dentro da margem de erro. Há ainda várias coisas parecidas nas duas sondagens, em particular o facto (à primeira vista surpreendente) de a maior parte do eleitorado de Louçã (na Católica) e BE (Aximage) declarar tencionar votar Cavaco na 2ª volta, ao passo que a maior parte do eleitorado Jerónimo (Católica) e CDU (Aximage) afirma que tenciona abster-se.

2. Dito isto, os resultados de uma possível 2ª volta são o que menos interessa. Soares não é o candidato nem do BE nem do PCP, e uma 2ª volta não passa de um cenário hipotético. Só quando Soares se tornar o candidato desses dois partidos - quando e se houver uma segunda volta - é que se pode ter uma ideia mais clara do que esses eleitorados irão fazer. Para já, Soares surge, com toda a probabilidade, muito subestimado nestas sondagens no que respeita a uma 2ª volta.

3. Muito mais interessante é perceber o que se passa na 1ª volta. Tenho vindo a defender em vários posts que a natureza destas eleições - eleições que não servem para eleger um governo - favorece, por parte dos eleitorado do PS, a sua utilização para castigar o partido de governo, ao passo que desincentiva eleitores "sinceros" de outros partidos, que terão votado útil no PS nas legislativas, de repetir a façanha em eleições presidenciais. E assim parece acontecer: em ambas as sondagens, os eleitores do PS encontram-se menos motivados para votar Soares que os eleitores PSD para votar Cavaco, e os eleitores à esquerda do PS hesitantes em passar para Soares numa segunda volta (pelo menos para já).

4. Para mim, perturbante: que a maioria dos eleitores (quer os que tencionam votar Cavaco, quer Soares, quer todos os outros) achem que o Presidente deva ter mais poderes ou que deva intervir na vida política do dia-a-dia para "ajudar a resolver os problemas do país" (72%). Quando se acha que os problemas do país se resolvem de Belém, isso significa que se acha que as instituições que de facto deviam governar e legislar estão bloqueadas. A importância inusitada que a comunicação social e os comentadores têm vindo a dar as presidenciais de há dois anos para cá é sintoma disto. Mas que isto fosse assim durante o consulado de Santana Lopes, ou mesmo antes, não me surpreende muito. Agora que se continue a achar isso quando um governo dispõe de uma maioria absoluta só posso ver como mau sinal.

by Pedro Magalhães

Sondagens presidenciais: os resultados

Posted September 9th, 2005 at 9:16 am4 Comments

Católica, 6-7 Setembro, Telefónica, Aleatória, N=961.

Resultados brutos
Cavaco Silva: 27%
Mário Soares: 15%
Francisco Louçã: 5%
Jerónimo de Sousa: 5%
Outro: 3%
B/N:3%
Não vai votar: 16%
Não sabe: 19%
Não responde: 7%

Estimativa de resultados eleitorais*:
Cavaco Silva: 49%
Mário Soares:32%
Jerónimo de Sousa: 11%
Francisco Louçã: 7%

*Obtida calculando a percentagem das intenções directas de voto em cada partido em relação ao total de votos válidos (excluindo abstenção, não respostas, brancos e nulos) e redistribuindo indecisos com base numa segunda pergunta sobre intenção de voto, sendo contados apenas votos e inclinações de voto de quem diz “ter a certeza” que vai votar na 1ª volta das próximas presidenciais. Estas estimativas têm valor meramente indicativo, dado que diferentes métodos de estimação poderão gerar resultados diferentes (era bom que o Público, como é hábito, colocasse sempre esta nota quando publica as estimativas...)

Já agora, aproveito para corrigir um novo lapso nos resultados da sondagem da Católica apresentados pelo Público. Na estimativa de resultados, Jerónimo de Sousa (JS) e Francisco Louçã (FL) aparecem trocados nos gráficos do jornal. Na verdade, é JS que tem 11% e FL que tem 7%, tal como divulgado ontem pela RTP e RDP. Podem também perguntar-se porque aparecem JS e FL com 5% cada nos resultados brutos e depois com uma diferença de 4% na estimativa. É simples: na estimativa, os indecisos são redistribuídos de acordo com a sua inclinação de voto, e é tomada em conta a probabilidade de ir votar (contam-se apenas os votos daqueles que dizem ter a certeza que vão votar - cerca de 70% nesta sondagem). Por estas e por outras é que é bom as pessoas que lêem os jornais (e não apenas a meia dúzia de gatos pingados, sem ofensa, que vêm a este blog) disponham da informação completa sobre como se chega aos resultados apresentados.

Aximage, 5-6 Setembro, Telefónica, Quotas, N=600.

Cavaco Silva: 53,4%
Mário Soares: 36,2%
Indecisos: 10,4%

by Pedro Magalhães

Presidenciais 3

Posted September 8th, 2005 at 3:20 pm4 Comments

Hoje, Pedro Adão e Silva escreve que, tal como eu teria assinalado aqui, "na primeira volta das presidenciais de 1986, Soares, Zenha e Pintasilgo tiveram menos votos do que PS, PRD e PCP nas legislativas de 1985". Ora a releitura do meu post mostrará que aquilo que eu escrevi foi que Soares e Zenha (não Pintassilgo) tiveram menos votos que PS, PRD e PCP. Dado que o objectivo do exercício era perceber até que ponto o apoio partidário se converte em votos presidenciais, Pintassilgo não poderia ser contabilizada, dado que não recebeu apoios partidários de partidos relevantes.

Contudo, isto, e um e-mail que recebi, faz-me pensar que o exercício poderá ter ainda mais problemas que aqueles que eu sugeri à partida que tinha. Na verdade, o facto de os candidatos de esquerda com apoios partidários não terem "realizado o seu potencial" em 1986 deveu-se, em parte, claro, à presença de uma candidatura de esquerda apartidária.Eis um excerto de um e-mail que recebi sobre isto, que adianta ainda outros aspectos interessantes dessas eleições:

Para assumir algum rigor, é preciso recordar que a "Esquerda" surgiu tripartida nas Presidenciais de '86, já que uma parte do PRD, porventura a mais "romântica" e "basista" convergiu na Candidatura da Eng.ª Pintassilgo com votantes da UDP e algumas votantes da então APU. É preciso não esquecer que a Candidatura de Zenha surgiu tardiamente, num momento no qual boa parte dos votantes do PRD haviam assumido que esta força apoiaria Pintassilgo, enquanto o "Pintassilguismo", com o MAD - Movimento para o Aprofundamento da Democracia, já estava no terreno antes das Legislativas de '85 e constituiu um parte substancial da estrutura territorial que permitiu a efectividade da primeira campanha eleitoral do PRD. Adicionalmente, este último partido não tinha, nem veio a ter..., um eleitorado consolidado e passível de ser condicionado nas suas opções por um "endorsement" do General Eanes, como ocorreu entre a 1.ª e a 2.ª voltas com o do PCP/APU. Em suma, creio ser demonstrável que os três candidatos, entre si, fixaram eleitoralmente o "Povo de Esquerda"...

Certo. Mas eu não duvido que três candidaturas "partidárias" de esquerda fixem melhor o "povo de esquerda" do que uma candidatura única soarista. O que eu duvido é que a fixação do "povo de esquerda" chegue para compensar a punição que Soares sofrerá por parte dos eleitores menos partidarizados do PS por ser nada mais do que o candidato do governo. Ou por outras palavras: em 1986, a "esquerda"era a "oposição", e isso simplica tudo numa campanha. Hoje, a "esquerda" é "oposição" e "governo". E isso complica tudo.

Mas para terminar esta série de posts, sejamos pragmáticos: esta discussão é meramente académica, porque a entrada de Francisco Louçã e Jerónimo de Sousa na corrida nada tem a ver com o que Mário Soares, Cavaco Silva, o PS, o governo, a "esquerda" (seja lá o que isso for) ou a "direita" (idem) queiram ou deixem de querer. Porque por muito que possa custar ao BE e ao PCP ver Cavaco Silva no governo (se é que custa alguma coisa, mas admitamos que sim), essa consideração é irrelevante comparada com a necessidade de marcar terreno político, fixar eleitorado, aproveitar exposição mediática e consolidar as lideranças (oficiosa uma, oficial outra) de cada partido.

P.S.- Informam-me que Francisco Louçã é o líder oficial (e não oficioso) do BE desde o último congresso. Ando um bocado desatento em relação à vida do BE...

by Pedro Magalhães

Katrina

Posted September 7th, 2005 at 11:19 am4 Comments

Do Polling Report:

ABC News/Washington Post Poll. Sept. 2, 2005. N=501 adults nationwide. MoE ± 4. Fieldwork by TNS Intersearch.

Do you approve or disapprove of the way George W. Bush is handling the situation caused by Hurricane Katrina?
Approve: 46%
Disapprove: 47%
Unsure:8%

Do you think the federal government should have been better prepared to deal with a storm of this size, or do you think it was as prepared as it reasonably could have been?
Should Have Been Better Prepared:67%
Prepared As Could Have Been:31%
Unsure: 2%

How about the state and local governments in the affected areas? Do you think they should have been better prepared to deal with a storm of this size, or do you think they were as prepared as they reasonably could have been?
Should Have Been Better Prepared:75%
Prepared As Could Have Been:24%
Unsure:1%

by Pedro Magalhães

Alemanha, a 12 dias

Posted September 6th, 2005 at 1:57 pm4 Comments

Poll of polls (últimas 3 sondagens):
CDU/CSU: 42,7%
SPD: 31,7%
Linke: 8,3%
Grüne:7,3%
FDP:7,0%

CDU/CSU+FDP:49,7% (maioria absoluta)
SPD+Grüne:39%

Mercados electrónicos (aqui):
CDU/CSU: 40,2%
SPD: 32,5%
Linke: 8,4%
Grüne:8,3%
FDP:7,6%

CDU/CSU+FDP:47,8% (sem maioria absoluta)
SPD+Grüne:40,8%

Prognóstico Norpoth/Gschwend de votação nos partidos de governo (com base num modelo incluindo popularidade do chanceler e apoio partidário de longo-prazo, explicado aqui .pdf, e que se revelou um excelente preditor do voto nos últimos anos):
SPD+Grüne:42%

Dúvidas quase nulas sobre vitória CDU/CSU. Incógnita total sobre se coligação maioritária poderá sair de CDU/FDP ou se terá de sair de CDU/SPD...

by Pedro Magalhães

Presidenciais 2

Posted September 5th, 2005 at 11:10 am4 Comments

Para Vital Moreira, a vantagem da separação da esquerda em três candidaturas presidenciais consiste em permitir que Soares fique livre para disputar o eleitorado do "centro" ao passo que PCP (Jerónimo de Sousa) e BE (Francisco Louçã) consolidam posições "à esquerda". Assim, os dois "eleitorados" ("de centro" e "de esquerda") são mobilizados para impedir a vitória de Cavaco à 1ª volta, para logo depois tudo convergir em Soares na 2ª volta.

Eu acho que isto tem a sua lógica. Mas também acho que essa lógica depende da validade das nossas pressuposições sobre o que causa o comportamento de voto em eleições presidenciais. VM acha que, fundamentalmente, os eleitores em eleições presidenciais votam por candidatos que melhor representam as suas "posições ideológicas". Pode ser que assim seja.

Mas o que sucede se as presidenciais não forem sobre exactamente (ou apenas) sobre isso? O que sucede se as presidenciais tiverem a tendência para se transformarem num referendo à actuação do governo, à situação do país, ou até numa mera decisão sobre a conveniência de colocar em Belém alguém de um partido diferente do governo?

Se assim for, Soares pode perder ao apresentar-se como mero candidato "do PS" ou "do governo", ónus que diluiria claramente ao apresentar-se como o candidato de todo o centro-esquerda alternativo a Cavaco (condição na qual, aliás, já se apresenta, mas que é dificilmente sustentável ao longo dos próximos meses, supondo eu que era isto que Ricardo Costa queria dizer aqui). Se assim for, nada garante que, no cômputo geral da esquerda (e da possibilidade de evitar o 50%+1 de Cavaco), as perdas do "candidato do governo" sejam compensadas pelos ganhos que podem advir de ter o BE e o PCP envolvidos na corrida presidencial.

Claro que o que eu acabo de escrever também só tem lógica na medida em que se pressuponha que a votação de Soares será directamente afectada pela popularidade do governo, que essa popularidade está em queda, e que os governos tendem a ser penalizados neste tipo de eleições (especialmente quando elas têm lugar fora dos períodos de "lua de mel"). Pressuposições, é o que temos... Logo se verá.

by Pedro Magalhães

Antes do debate

Posted September 5th, 2005 at 9:35 am4 Comments

O debate Schröder-Merkel foi ontem. Ao que parece, segundo as sondagens realizadas após o debate, Schröder ganhou-o, sem surpresa, mas Merkel não cometeu erros catastróficos.

Seja como for, a sondagem de intenções de voto mais recente foi publicada anteontem, pelo que não reflecte o debate. E continua a ser uma sondagem cujo trabalho de campo foi feito em Agosto. E o que mostra, tal como todas as sondagens da última semana, é o mesmo que as anteriores de Agosto já mostravam: CDU estável nos 42-43%, SPD a subir, Linke a descer.

by Pedro Magalhães