Pedro Magalhães

Margens de Erro

Presidenciais 2

Posted September 5th, 2005 at 11:10 am4 Comments

Para Vital Moreira, a vantagem da separação da esquerda em três candidaturas presidenciais consiste em permitir que Soares fique livre para disputar o eleitorado do "centro" ao passo que PCP (Jerónimo de Sousa) e BE (Francisco Louçã) consolidam posições "à esquerda". Assim, os dois "eleitorados" ("de centro" e "de esquerda") são mobilizados para impedir a vitória de Cavaco à 1ª volta, para logo depois tudo convergir em Soares na 2ª volta.

Eu acho que isto tem a sua lógica. Mas também acho que essa lógica depende da validade das nossas pressuposições sobre o que causa o comportamento de voto em eleições presidenciais. VM acha que, fundamentalmente, os eleitores em eleições presidenciais votam por candidatos que melhor representam as suas "posições ideológicas". Pode ser que assim seja.

Mas o que sucede se as presidenciais não forem sobre exactamente (ou apenas) sobre isso? O que sucede se as presidenciais tiverem a tendência para se transformarem num referendo à actuação do governo, à situação do país, ou até numa mera decisão sobre a conveniência de colocar em Belém alguém de um partido diferente do governo?

Se assim for, Soares pode perder ao apresentar-se como mero candidato "do PS" ou "do governo", ónus que diluiria claramente ao apresentar-se como o candidato de todo o centro-esquerda alternativo a Cavaco (condição na qual, aliás, já se apresenta, mas que é dificilmente sustentável ao longo dos próximos meses, supondo eu que era isto que Ricardo Costa queria dizer aqui). Se assim for, nada garante que, no cômputo geral da esquerda (e da possibilidade de evitar o 50%+1 de Cavaco), as perdas do "candidato do governo" sejam compensadas pelos ganhos que podem advir de ter o BE e o PCP envolvidos na corrida presidencial.

Claro que o que eu acabo de escrever também só tem lógica na medida em que se pressuponha que a votação de Soares será directamente afectada pela popularidade do governo, que essa popularidade está em queda, e que os governos tendem a ser penalizados neste tipo de eleições (especialmente quando elas têm lugar fora dos períodos de "lua de mel"). Pressuposições, é o que temos... Logo se verá.

by Pedro Magalhães

Antes do debate

Posted September 5th, 2005 at 9:35 am4 Comments

O debate Schröder-Merkel foi ontem. Ao que parece, segundo as sondagens realizadas após o debate, Schröder ganhou-o, sem surpresa, mas Merkel não cometeu erros catastróficos.

Seja como for, a sondagem de intenções de voto mais recente foi publicada anteontem, pelo que não reflecte o debate. E continua a ser uma sondagem cujo trabalho de campo foi feito em Agosto. E o que mostra, tal como todas as sondagens da última semana, é o mesmo que as anteriores de Agosto já mostravam: CDU estável nos 42-43%, SPD a subir, Linke a descer.

by Pedro Magalhães

Alemanha: ponto da situação

Posted August 26th, 2005 at 2:16 pm4 Comments

Arrumo a casa, antes de uma pausa de uma semana.

Poll of polls, média móvel dos resultados das últimas 3 sondagens, com 51 sondagens desde 14 de Junho, sendo a última sondagem a do Forschungsgruppe Wahle, divulgada hoje pela ZDF:


CDU/CSU estável, SPD em (lentíssima) subida desde início de Agosto, subida concomitante com igualmente lenta descida Linke. Resto estável desde o início.








Para confirmar essas tendências detectadas desde o início de Agosto, isolo os resultados dos institutos que têm publicado mais sondagens e analiso as tendências de cada um:



Forsa é o único que identifica descida da CDU em Agosto, mas era também, desde o início, o "outlier" em termos da (alta) intenção de voto para a CDU. Infratest e Enmid mostram estabilidade. Ao mesmo tempo, todos mostram SPD a subir.





Mas tenho algumas desconfianças sobre sondagens conduzidas em meses de férias escolares... Voltamos a falar na primeira semana de Setembro.

by Pedro Magalhães

Presidenciais

Posted August 26th, 2005 at 11:15 am4 Comments

Mais algumas curiosidades para adicionar a esta, e já passo à análise:

Presidenciais 1986
Soma dos votos de candidatos apoiados por partidos de esquerda, 1ª volta (Soares-PS, Zenha-PRD, PCP): 45,8%
Soma dos votos desses partidos nas eleições de 1985: 52,2%
Saldo a favor do candidato: -6,4%

Soma dos votos de candidatos apoiados por partidos de direita, 1ª volta (Freitas-PSD, CDS): 45,8%
Soma dos votos desses partidos nas eleições de 1985: 39,9%
Saldo a favor do candidato: +5,9%


Presidenciais 1996
Soma dos votos de candidatos apoiados por partidos de esquerda (Sampaio-PS,PCP): 52,7%
Soma dos votos desses partidos nas eleições de 1995: 52,4%
Saldo a favor do candidato: +0,3%

Soma dos votos de candidatos apoiados por partidos de direita (Cavaco: PSD, CDS): 45%
Soma dos votos desses partidos nas eleições de 1995: 43,2%
Saldo a favor do candidato: +1,8%


Ora bem. Espero não me ter enganado nas contas, que isto foi feito um bocado à pressa. E não quero levar isto demasiado longe. Dois casos são só dois casos. São os únicos comparáveis às eleições de 2006 (sem o incumbent a concorrer e com esquerda e direita divididas) e não há teorias que que possam ser testadas com tão poucas observações. Mas permito-me assinalar três coisas :

1. Quer Freitas quer Cavaco adicionaram, como candidatos presidenciais, mais à sua "base partidária de apoio" do que os candidatos de esquerda.
2. Cavaco adicionou algo ao resultado dos partidos que o apoiaram em 1996 mesmo em período de "lua de mel" do governo PS e em circunstâncias políticas gerais que lhe eram altamente desfavoráveis. Pelo contrário, Sampaio quase não somou nada ao voto PS+PCP, nas mesmas circunstâncias, mesmo tendo que conta que, presumivelmente, deveria ter recolhido apoio do eleitorado marginal dos restantes pequenos partidos. E convém lembrar que, para Cavaco, ou melhor, para a imagem que dele faz o eleitorado, 2006 não é 1996.
3. Em 1986, diferentes candidatos para diferentes partidos de esquerda significaram menos votos para a soma desses candidatos do que para a soma dos partidos que os apoiaram. Logo, não sei se aquilo que Vital Moreira presume aqui - que "as três candidaturas à esquerda somarão, em conjunto, mais votos concorrendo separadas do que concentradas em Mário Soares logo à primeira volta" - é de todo previsível.
Mas não há certezas. Por um lado, há isto, e isto é muito forte:
Soma dos votos PS, PCP e BE nas eleições de 2005: 58,9%
Soma dos votos PSD e CDS nas eleições de 2005: 36.2%


Mas por outro lado, não se pode ignorar que o PS começa a sofrer o desgaste previsível da governação, sendo presumível que um seu candidato, seja ele quem for, não consiga reter todo o eleitorado de Fevereiro. Isso é facilitado pelo facto de as eleições presidenciais não terem para os eleitores a mesma importância do que as legislativas. Isto leva a que eleitores que votaram "útil" no PS tenham menos incentivos para voltar a fazer o mesmo num seu candidato, ao passo que eleitores "sinceros" do PS agora descontentes tenham maiores incentivos para usar as presidenciais para expressar o seu descontentamento. E a mobilização diferencial da direita será certamente maior que a mobilização da esquerda, ou pelo menos que a do eleitorado PS: está muito mais em jogo para a direita do que para a esquerda nestas eleições (ou pelo menos assim se julga).

Logo, não estou nada seguro que a vitória de Soares seja melhor assegurada por uma 1ª volta onde se apresentem 3 candidatos. Unir a esquerda num único candidato significa ajudar o eleitorado a "esquecer" que Soares é "apenas" o candidato do PS, coisa que de todo não lhe convém ser. E seria um passo para a necessária "dramatização" das eleições, sem a qual não há hipóteses de concorrer com a "dramatização" à direita ("o Estado nas mãos nas mãos do socialismo", "salvação nacional", etc.).

Voltarei, claro, ao assunto, quando houver sondagens.

by Pedro Magalhães

Uma curiosidade (prólogo a futuras conversas)

Posted August 25th, 2005 at 11:49 am4 Comments

Universidade Católica, Janeiro de 2004, Aleatória estratificada, N=1206, face-a-face

Se pudesse decidir por si, quem gostaria que fosse o próximo Presidente da República? (pergunta aberta, resposta espontânea, codificada à posteriori)
Cavaco Silva: 19%
Jorge Sampaio:18%
Santana Lopes:7%
António Guterres:6%
Marcelo Rebelo de Sousa:2%
Mário Soares: 1%
21 outras personalidades, incluindo esta, todos com menos de 1% cada um:7%

Não sabe:20%
Não responde:20%

Se numa 2ª volta das eleições presidenciais concorressem Cavaco Silva e Mário Soares, em qual deles votaria?
Cavaco Silva: 44%
Mário Soares: 32%
Votava branco/nulo:5%
Não votava: 8%
Ns/Nr:11%

Isto foi, repito, em Janeiro de 2004. Volto em breve a este assunto...

by Pedro Magalhães

Não mata mas mói

Posted August 24th, 2005 at 12:12 pm4 Comments

Brasil, Ibope, 13-17 Agosto 2005, N=2002, Face-a-face

Na sua avaliação, o Governo do Presidente Lula está sendo:

Bom/Ótimo: 29% (-7%)
Regular: 38% (-2%)
Ruim/Péssimo:31% (+7%)
Ns/Nr: 2%

by Pedro Magalhães

Dos arquivos do genial Professor Pollkatz

Posted August 23rd, 2005 at 5:39 pm4 Comments

Wishfull thinking? Nixon vs. Bush.
















Uma opinião pública movida a gasolina:

















Isto e muito mais aqui.

by Pedro Magalhães

Eleições e mercados electrónicos

Posted August 23rd, 2005 at 12:16 pm4 Comments

(à atenção da Lei da Espada)

Há uma tendência para que os mercados electrónicos, como o IEM, consigam prever os resultados de eleições tão bem como algumas sondagens, e quase sempre melhor que a média das sondagens. Na verdade, as sondagens visam descrever o estado da opinião, não prever, mas o certo é que muita gente as procura como modo de previsão, pelo que vale a pena comparar o que se passa nos mercados com o que se passa nas sondagens.

Por estes dias, a poll of polls das sondagens alemãs dá o seguinte:
CDU/CSU: 43%
SPD: 29%
Linke: 9%
Verdes:8%
FDP: 8%

Mas no Wahlstreet, a história é ligeiramente diferente:
CDU/CSU: 40%
SPD: 31%
Linke: 10%
Verdes:8%
FDP: 7%

O "mercado" aposta que a CDU vai ter menos do que na sondagens e o SPD algo mais. E é plausível, especialmente tendo em conta a impopularidade de Merkel e a "espiral do silêncio" que deve estar a funcionar contra o SPD. Importa também dizer, contudo, que o mercado é, ele, próprio, muito sensível às sondagens: comparem a evolução das sondagens aqui com a evolução do mercado aqui e verão, especialmente no que respeita ao "arrefecimento" das expectativas em relação à coligação PDS-WASG...

by Pedro Magalhães

Diminui apoio à retirada dos colonatos

Posted August 23rd, 2005 at 10:38 am4 Comments

Israel, Maagar Mochot, 18 Agosto, N=511, Telefónica.

Do you support or oppose the disengagement plan?
Support: 46% (-7%)
Oppose: 42% (+12%)
Outros:12% (-5%)

by Pedro Magalhães

CDU/CSU + FDP

Posted August 22nd, 2005 at 11:20 am4 Comments

Apesar de sondagens em Agosto me levantarem algumas dúvidas - num recente Eurobarómetro, 80% dos alemães declararam passar pelo menos duas semanas fora de casa durante as férias, com as consequências para a amostragem durante o mês de Agosto que se imaginam - não parece haver grandes dúvidas sobre qual vai ser o partido mais votado nas eleições na Alemanha. A dúvida é se CDU/CSU e FDP conseguem, em conjunto, chegar à maioria absoluta.

Na base dos dados das sondagens feitas até agora, creio que as coisas se inclinam para que sim. Vejamos: o valor mínimo da soma das intenções de voto obtidas pelos dois partidos até agora foi 48%. Em 1994, CDU/CSU e FDP obtiveram em conjunto 48,4% dos votos e, em conjunto, 341 deputados, 4 mais do que aqueles que necessitavam para a maioria absoluta. E há outros exemplos de situações em que menos de 50% de votos para as somas CDU/CSU+FDP ou SPD+FDP seriam suficientes para mais de 50% dos assentos parlamentares. Assim foi em 1961, 1965, 1969 e 1998, por exemplo. E importa recordar que 48% foi o mínimo que CDU/CSU e FDP obtiveram em conjunto nas últimas sondagens, já que, na poll of polls, têm andado sempre pelos 49-50%. Em resumo, apesar do sistema eleitoral alemão ser bastante proporcional na conversão de votos em mandatos - mais do que o nosso, por exemplo - continua a ser possível ter maiorias absolutas de deputados com maiorias relativas de votos.

Contudo, isto é um pouco mais complicado do que parece. Por exemplo, o sistema alemão tem uma cláusula barreira que exclui da representação parlamentar todos os partidos que tenham menos de 5% de voto a nível nacional ou não consigam ganhar pelo menos três assentos nos círculos uninominais, sendo os assentos que teoricamente caberiam a esses partidos redistribuidos pelos restantes. Logo, esta exclusão (ou falta dela) pode ser crucial para determinar o que se passa com os partidos não excluídos. E desta vez, os maiores partidos não vão ter a vida facilitada, dado que a coligação PDS/WASG foi feita precisamente para garantir a ultrapassagem da cláusula-barreira por parte destes partidos.

Mas talvez se possa dizer que tudo o que seja abaixo dos 48% em votos para CDU/CSU+FDP significa elevado risco de não dispor de uma maioria absoluta. Tendo em conta a enorme vantagem da CDU/CSU sobre o SPD, o vencedor não está em dúvida. A dúvida é, precisamente, quanto somam, em votos e assentos, CDU/CSU e FDP. Por enquanto, as coisas inclinam-se para que haja maioria centro-direita. Mas estou curioso para ver as primeiras sondagens de Setembro...

by Pedro Magalhães