Pedro Magalhães

Margens de Erro

Alemanha, update

Posted August 4th, 2005 at 10:10 am4 Comments
















A imagem está longe de ser perfeita, mas creio que dá para perceber. São todas as sondagens de intenção de voto realizadas desde Maio na Alemanha, disponíveis aqui. SPD tem vindo lentamente a descer, passando-se o mesmo (em menor grau) com CDU/CSU. Só a aliança de esquerda sobe, aparentemente ganhando votos ao SPD na Alemanha Ocidental e à CDU (!) no Leste.

No pós-guerra, só em 1957 ocorreu uma maioria absoluta monopartidária no parlamento (CDU/CSU). Com os 45% da última sondagem, é impossível que CDU/CSU chegue à maioria absoluta. E os 7% da FDP podem não chegar.

O Economist tem, claro, um bom artigo sobre o assunto, recordando experiências anteriores de "grandes coligações" e as dificuldades que daí poderiam surgir (aqui, para assinantes).

by Pedro Magalhães

Es wird interessanter

Posted August 2nd, 2005 at 4:02 pm4 Comments

O meu post de ontem sobre as sondagens eleitorais na Alemanha, se bem que servisse como comentário de "longo prazo" acerca das diferenças entre o Leste e o Oeste, tencionava também chamar a atenção para outra coisa, de que o Insurgente, entretanto, já se apercebeu. Para isto:

We've had a four-party system since the 1980's," Richard Hilmer, managing director of Infratest dimap, a leading polling organization, said in an interview. He meant that for a quarter-century, power has generally alternated between a stable two-party moderate-right coalition and a two-party moderate left one, the current one in power being what is called the Red-Green coalition, between Mr. Schröder's Social Democrats and the Greens."But a five-party system makes things much more complicated than they were before," Mr. Hilmer said. Indeed, without the Left Party, it has seemed almost a certainty that a right-of-center coalition between the Christian Democratic Union, or C.D.U., led by Angela Merkel, and the small Free Democratic Party would win the September elections and form a government with Mrs. Merkel as chancellor, which is still a strong possibility. Still, pollsters like Mr. Hilmer say there is a 50-50 chance that the center-right alliance will not get a majority. If that should happen, Mrs. Merkel could be forced to enter into what is being called a "grand coalition" with the very Social Democrats she has been battling for two years.

Ou isto:

Last week, the talk in Germany was of a grand coalition which would put the parties of Angela Merkel and Gerhard Schroeder into a single government, likely with Merkel as its chancellor and Schroeder's SPD as junior partner. But this week, the media and chattering classes are speculating about a possible "Red-Red-Green" coalition that would put the SPD, Left Party and Greens under a single roof. As improbable as the "Red-Red-Green" coalition may be, just the talk of it puts the fear of God in Social and Christian Democratic leaders.The speculation isn't entirely unfounded. As unpalatable as it may be, the latest public opinion polls suggest a scenario in which neither the Social Democrats and Greens nor the Christian Democrats and neoliberal Free Democratic Party (FDP) would garner enough votes to form majority coalitions.The largest single percentage of German voters, 42 percent, say they would prefer a grand coalition to a fraying patchwork quilt of pseudo socialist parties with a lot of historical baggage and diverging political interests.

Pois é. Numa sondagem do dia 18 de Junho (TNS Emnid), a coligação PDS/WASG tinha 9%. Na última sondagem do mesmo instituto (19 de Julho) já tem12%, tendo vindo a subir sistematicamente.

E como se isto não chegasse, temos também que:

by Pedro Magalhães

Alemanhas, Ano Quinze

Posted August 1st, 2005 at 2:57 pm4 Comments

Forschungsgruppe Wahle, 22 Julho 2005

Intenções de voto Alemanha:
CDU/CSU: 44%
SPD:24%
Linke (PDS/WASG): 12%
Grüne: 11%
FDP: 6%

Intenções de voto Alemanha de Leste:
Linke (PDS/WASG): 34%
CDU/CSU: 33%
SPD:21%
Grüne: 6%
FDP: 3%

by Pedro Magalhães

"No nation could preserve its freedom in the midst of continual warfare". James Madison, burocrata bruxelense*

Posted July 15th, 2005 at 4:50 pm4 Comments

É por isso que não basta bater no peito e dizer que “somos todos londrinos” e na volta da esquina já estar a discutir as tenebrosas propostas do Sr. Blair para limitar direitos de privacidade das mensagens porque isso facilita a vida aos terroristas. Na volta da memória, escarnecer o Patriot Act, essa “fascização da América” como já lhe ouvi falar, atacada por tudo que é burocracia bruxelense e suas extensões nacionais, como se, sobre a dupla pressão dos autocarros que explodem, e da insegurança popular, não se tenha também que ir por aí, com a prudência e as cautelas que as democracias tem que ter por tal caminho. Já o disse e repito, a separação cada vez maior entre elites europeias e americanas nesta questão do terrorismo, vem dos segundos se acharem em guerra e os primeiros não. Será apenas uma questão de tempo, até esta ser apenas uma questão de termos, não de substância, porque, falando como um sábio da Guerra das Estrelas, “em guerra estamos”.
(...)
Acima de tudo, não compreendo porque razão um terrorismo apocalíptico, que tenta por todos os meios ter as armas mais pesadas, nucleares, químicas e bacteriológicas, para garantir o seu Armagedão sacrificial, que tem como objectivo a guerra total, ou seja a aniquilação de milhões dos seus adversários, haja os meios para isso, não tem que ser combatido com tudo o que tenho á mão: tropas, polícias, agentes de informações, à dentada diria um velho inglês da Home Guard, daqueles que esperava a invasão da sua ilha e achava que sempre podia levar um “boche” consigo. E aí o “não se limpam armas”, é de um simplicidade brutal. Ou nós ou eles.

*in "Political Observations," 20 de Abril de 1795, in Letters and Other Writings of James Madison, Volume IV, Lippincott: 1867, p. 491.

Agora é que é: até Agosto.

by Pedro Magalhães

Férias

Posted July 14th, 2005 at 6:12 pm4 Comments

Até Agosto.

by Pedro Magalhães

A opinião pública é uma coisa complicada II

Posted July 14th, 2005 at 3:14 pm4 Comments

Tenho de me dedicar mais ao Brasil para além da praia ( desta e desta). O Ivan - da outra - tenta ajudar-me a perceber algo de que nada sei:

As minhas apreciações sobre a política brasileira são puramente impressionistas. No entanto, quem lê os opinion-makers (de direita) daqui é levado a crer que o Lula era encarado, em finais de 2002, quando foi eleito, como uma espécie de salvador. A minha percepção, quando estive no Brasil nessa altura, foi precisamente a contrária. É certo que toda a gente falava de política, incluindo as empregadas da lanchonete, de uma maneira que não é comum cá. Mas as apreciações sobre o Lula não tinham messianismo nenhum, eram uma coisa contida, do género «vamos fazer a experiência», «já é hora de dar uma oportunidade», etc. A impressão com que fiquei - pode ser errada, evidentemente - é que o Brasil já tinha tido o Collor uma vez, e que tinha aprendido com a experiência. Se isto for verdade, pode talvez ser em parte creditado ao FHC. E o Lula pode perder a próxima eleição, mas não vai passar abruptamente de anjo a demónio. Talvez as pessoas compreendam que o poder dele não é absoluto.

Sobre o Lula, as ilusões de óptica no "primeiro mundo" parecem ser, de facto, comuns. Ver aqui e aqui, mas principalmente, e se puderem, aqui.

by Pedro Magalhães

A opinião pública é uma coisa complicada

Posted July 14th, 2005 at 12:35 pm4 Comments

No Brasil, depois disto, isto.
























Vá-se lá perceber. Talvez a percentagem de "ficou como sempre esteve" ajude a compreender o que se passa.
Mais informação aqui.

by Pedro Magalhães

O insucesso escolar de Valadares Tavares

Posted July 14th, 2005 at 10:48 am4 Comments

Recomendo vivamente a leitura deste post no Canhoto. À excepção de um artigo do Nuno Crato no Público que, infelizmente, já não consigo localizar, é a primeira vez que vejo expostas com clareza as gravíssimas debilidades metodológicas do estudo de LVT. E só queria dizer que, como os meus alunos de métodos e técnicas de investigação do ICS e da Católica bem sabem, tenho usado este estudo como exemplo da chamada falácia ecológica.

by Pedro Magalhães

Autárquicas, Lisboa

Posted July 14th, 2005 at 9:48 am4 Comments

Católica, 7-11 Julho, N=989, Aleatória (com ponderação sexo, idade e instrução pós-amostragem), Telefónica.

Intenção directa de voto:
Carmona Rodrigues (PSD): 24%
Manuel Maria Carrilho (PS): 22%
José Sá Fernandes (BE): 5%
Ruben de Carvalho (CDU): 4%
Maria José Nogueira Pinto (CDS): 2%
Outro: 2%
Em branco/nulo: 4%
Não vai votar: 11%
Não sabe : 18%
Não responde: 9%

Estimativa de resultados eleitorais:
Manuel Maria Carrilho (PS): 41%
Carmona Rodrigues (PSD): 36%
José Sá Fernandes (BE): 8%
Ruben de Carvalho (CDU): 6%
Maria José Nogueira Pinto (CDS): 3%
Outro: 3%
Em branco/nulo: 2%

Gera-se sempre alguma perplexidade quando os "resultados brutos" parecem dizer uma coisa e as "estimativas" (os resultados apresentados de forma comparável aos resultados de eleições) parecem dizer outra. Quando, para fins de tornar os resultados de sondagens comparáveis com os de eleições, se tratam os indecisos como abstencionistas, essa aparente contradição nunca surge. Os indecisos são proporcionalmente redistribuídos pelas opções válidas de voto e, claro, as ordens mantêm-se.

Contudo, nem sempre é essa a opção utilizada. A Marktest, por exemplo, utilizada um modelo de redistribuição de indecisos baseado em anteriores resultados eleitorais e/ou anteriores resultados de sondagens e/ou no anterior comportamento de voto dos inquiridos (confesso que nunca percebi bem, apesar das várias explicações dos responsáveis no DN). Seja como for, sucede por vezes (e sucedeu várias vezes em 2001 e 2002, gerando alguma controvérsia) que o partido mais votado nos "resultados brutos" não era o mesmo.

Nesta sondagem da Católica, isso acontece por razões mais fáceis de explicar. As sondagens da Católica que não sáo feitas em urna usam uma "squeeze question", onde àqueles que dizem "não saber" em quem votariam é pedida uma "inclinação" de voto. Porquê? Passo a palavra a outro:

"The reason for the inclusion of this second question is purely pragmatic - history has shown, and the present has continued to show, that pollsters get better results by having it than by not having it".*

Eu até acho que é algo mais do que isso: a "squeeze question" permite-nos ir um pouco mais longe na recolha de intenções de voto que os inquiridos preferem ocultar ("espiral do silêncio") ou, pelo menos, permite-nos basear a redistribuição dos indecisos não em pressuposições abstractas mas sim em algo que os próprios inquiridos indecisos nos dizem: em que partido ou candidato se sentem inclinados a votar. E o que sucedeu aqui foi que, quando se foi saber o que os indecisos tencionavam, apesar de tudo, fazer, houve uma concentração desproporcional em Manuel Maria Carrilho. Quando se juntaram as inclinações às intenções, MMC passou à frente de Carmona. Questionável, controverso, não necessariamente a melhor opção? Claro, tudo isso pode ser, já foi, e continuará a ser debatido. Mas o que me interessa é que se perceba.

Interpretações? Haveria duas principais:
1. MMC está a conseguir trazer para o seu campo eleitores não habituais do PS, que hesitam em assumir (perante si próprios e os outros) uma real intenção em votar em Carrilho.
2. MMC está a conseguir repelir para fora do seu campo eleitores habituais do PS, que adiam a decisão devido à contradição entre a sua fidelidade partidária e a opinião menos positiva que têm de Carrilho.

Há algo que torna a segunda mais plausível: para os eleitores que já formaram opinião dos candidatos, Carrilho é pior do que Carmona Rodrigues em tudo. Ainda por cima, Carmona tem a(o) suprema(o) sorte/mérito de ter estado no poder o tempo suficiente para criar uma imagem positiva e tempo insuficiente para ser responsabilizado seja pelo que for, como a comparação entre a avaliação da sua actuação e da de Santana Lopes revelam. Logo, a avaliação do trabalho da CML vai ter pouca importância nestas eleições, em desfavor de factores mais tradicionais: simpatia partidária/ideológica e imagem dos candidatos. E neste último domínio, MMC parece muito chamuscado. Isto é confirmado por uma coisa que, apesar de não vir no Público, creio poder dizer-vos sem problemas: quando se cruza a intenção de voto com a opinião sobre os candidatos, os eleitores de Carmona estão sistematicamente mais unidos em torno das maiores qualidades do seu candidato do que os eleitores de Carrilho.

Chamo ainda a atenção para três coisas:

1. Atenção que Ruben de Carvalho passa para a frente de Sá Fernandes quando se consideram apenas aqueles que dizem "ter a certeza que vão votar";
2. As mulheres, os menos instruídos e os mais jovens dizem-se mais indecisos;
3. Maria José Nogueira Pinto falava ontem da exclusão dos "idosos isolados" do "universo" da sondagem (suponho que queria dizer "amostra"). Queria só dizer que o que se passa, na realidade, é o contrário. Os eleitores a que uma sondagem com amostragem aleatória e feita por telefone tem mais dificuldade em chegar são, precisamente, os mais jovens. Por isso é que há quem use quotas (procurando assegurar à partida que a amostra não fica povoada desproporcionalmente por idosos, que estão mais tempo em casa e tendem a não substituir o telefone fixo por telemóvel) e há (como a Católica) quem pondere os resultados a que chegou de acordo com os dados do recenseamento.


* Nick Moon (1999), Opinion Polls: History, Theory, and Practice. Manchester: Manchester University Press, p. 73.

by Pedro Magalhães

Sem limites

Posted July 13th, 2005 at 12:04 pm4 Comments

Quando se pensa que nada podia ser pior, o horror recorda-nos que não tem limites.

24 CHILDREN DEAD IN IRAQ BOMB13.7.2005. 19:18:39
A car bomb in south-eastern Baghdad has killed 24 Iraqi schoolchildren and a US soldier. Hospital and US military sources said another 20 children were wounded, along with at least one US soldier. "A driver approached one of the US Humvees and then detonated his car," said Sergeant David Abrams, according to AFP. A witness said children had gathered around the Americans who were handing out sweets when the bomber drove towards them and blew himself up. A parent of one of the slain children said he heard the explosion and rushed out of his house to find his son. "I only found his bicycle," said Abu Hamed, speaking at Kindi hospital where hundreds of distraught parents were gathered. He said he had found his son in the hospital morgue. "I recognized him from his head. The rest of the body was completely burnt," he said. The blast is said to have taken place as the US patrol was passing through Baghdad's al-Jedidah district. Another witness said nearby homes were demolished in the explosion.

by Pedro Magalhães