Pedro Magalhães

Margens de Erro

Eu também

Posted June 1st, 2005 at 11:35 am4 Comments

O bombyx mori não está convencido que o facto dos eleitores franceses que votaram "Não" o terem feito - à parte de factores conjunturais - na base de uma assumida recusa de uma "Constituição demasiado liberal" (à esquerda) ou da sua oposição à entrada na Turquia na UE (à direita) tenha qualquer espécie de relevância. É possível que não ache que as élites políticas francesas e europeias tenham sequer consciência dessas motivações. E certamente não crê que essas motivações condicionem de alguma forma as decisões que vão ser tomadas no futuro sobre a Constituição Europeia, sobre futuros alargamentos ou sobre as políticas de coesão.

Contudo, pelos vistos, o bombyx mori também não está de acordo com Pacheco Pereira quando este diz que a vitória do Não abre caminho a "repensar-se a União de forma diferente da dos últimos anos, mais democrática, mais solidária, menos ambiciosa e mais prudente". Segundo o bombyx mori, o meu raciocínio "não é menos viciado (ou capcioso)" que o do Pacheco Pereira.

Então o que acha o bombyx mori? Que aquilo que eu escrevi "constitui uma manipulação (porventura inconsciente) travestida de rigor científico (e sobretudo dotada de aparato metodológico) dos dados do Referendo", e que este "abuso analítico" é especialmente grave tendo em conta que eu sou "uma autoridade na matéria, como frequentemente se ouve dizer aos políticos: uma opinião respeitada ou abalizada." Que o meu raciocício - "vamos chamar as coisas pelos nomes, se não se importam" é "viciado" e "capcioso" (malévolo, ardiloso, manhoso). E que "este é um assunto extremamente complexo, que me [lhe] levanta inúmeras questões, tanto de matriz analítica como de posicionamento pessoal. Lastimo não ter no presente tempo para de forma séria as pensar, escrever e verter para o bombyx mori."

Eu também.

by Pedro Magalhães

E na Alemanha…

Posted May 31st, 2005 at 2:42 pm4 Comments

FG Wahlen, 26 de Maio (telefónica, N=1162)

Quem preferiria como chanceler?
Angela Merkel (CDU): 50%
Gerhard Schroeder (SPD): 44%

CDU/CSU: 44%
SPD: 30%
Verdes: 8%
FDP:6%
PDS:5%
Outros:6%

Avaliação da actuação do governo:
Positiva:30%
Negativa:66%

E para terminar: a pertença à UE traz para a Alemanha:
Mais vantagens que desvantagens: 22%
Tantas vantagens como desvantagens: 45%
Mais desvantagens que vantagens: 29%

by Pedro Magalhães

For what it’s worth…

Posted May 31st, 2005 at 1:06 pm4 Comments

UK, ICM Research, 22 de Maio:
“If there were a referendum tomorrow, would you vote for Britain to sign up to the European Constitution or not?
Sim: 24%
Não: 57%
Não sabe: 19%

by Pedro Magalhães

Mais Holanda

Posted May 31st, 2005 at 11:40 am4 Comments

Polls point to a strong No

Infelizmente, não pertenço à classe, mas os leitores de neerlandês podem entreter-se aqui.

by Pedro Magalhães

Holanda, TNS Nipo, 27 Maio

Posted May 31st, 2005 at 9:51 am4 Comments

Sim: 41%
Não: 59%
Depois de redistribuídos os indecisos. O Sim está a subir, mas isto foi antes do resultado francês...

by Pedro Magalhães

Uma opinião

Posted May 30th, 2005 at 10:12 am4 Comments

O blogue não é exactamente para isto, mas não resisto a dizer o que penso sobre os resultados do referendo.

O que tenho a dizer já o tinha dito aqui, e ontem no Público (quando, noto, pensava que a coisa tanto podia pender para o "Não" como para o "Sim"): tenho muitas dúvidas sobre a bondade dos referendos como modo de tomar decisões sobre matérias como esta. Reconheço-lhes virtudes, como, por exemplo, aquela que aqui assinalei: o debate sobre os temas europeus em França foi mais vivo e generalizado do que nunca. E se puxarem muito por mim, até reconheço virtudes ao próprio desfecho substantivo: uma vitória do "Sim" teria sido, em parte, uma vitória de um discurso algo chantagista ("uma Constituição não renegociável", quando nada na política é "não renegociável") e de alguns medos que, eles sim, são o que me metem medo ("a perda de poder da França" e coisas semelhantes).

Contudo, importa não ignorar algumas coisas sobre este resultado. Por um lado, ele é também, em parte, uma vitória de medos, que neste caso encontram a sua expressão no proteccionismo económico (uma Constituição demasiado "liberal"), na intolerância religiosa e no nacionalismo mais primitivo ("não à Turquia"). Lamento imenso, mas a ideia de que a informação que este resultado fornece às elites políticas europeias é a da necessidade de "repensar-se a União de forma diferente da dos últimos anos, mais democrática, mais solidária, menos ambiciosa e mais prudente" parece-me simplesmente cândida. Pacheco Pereira projecta no "Não" as suas próprias motivações, ignorando as motivações reais dos eleitores franceses. Mas as que realmente contam são as deles, e não as dele. A mensagem que o "Não" fornece aos políticos europeus é a de os medos dos franceses terão de ser acomodados de alguma forma no futuro da construção europeia. E eu preferia que (estes) não fossem.

Por outro lado, não se pode ignorar outro aspecto fundamental. O resto da explicação da vitória do "Não" encontra-se em factores como a situação económica e social em França e a percepção por parte de muitos eleitores de que deviam e podiam usar o referendo para sinalizar o seu descontentamento, especialmente quando um governo que defende o "Sim" se encontra na pior fase do ciclo político e quando tantos franceses acham que o resultado não terá grande importância. Sendo assim, percebem-se mal os "pudores democráticos" que fazem com se fique tão chocado quando alguém sugere fazer um novo referendo. Basta que um novo referendo tenha lugar sob um governo socialista no início do seu mandato para que a probabilidade de uma vitória do "Sim" aumente exponencialmente. E então? O que faz com que este "Sim" valha menos ou seja "menos democrático" que o anterior "Não"? Na verdade, ambos são os resultados de uma pura "lotaria eleitoral". É certo que é sempre preciso arranjar uma maneira qualquer de tomar decisões e de lhes dar um verniz de legitimidade democrática, e os referendos servem para o efeito (por enquanto). Mas será a melhor maneira? Duvido.

by Pedro Magalhães

Destaques das sondagens à bocas das urnas

Posted May 30th, 2005 at 12:40 am4 Comments

É de aproveitar este excelente trabalho da Ipsos. Destaques:

1. Confirma-se clivagem social já aqui assinalada, se bem que as suas razões continuem a não ser evidentes dos dados;

2. 56% dos eleitores próximos do PS votaram "Não". Foi principalmente isto que andou a mudar de sondagem para sondagem. Parte do "Não" decidiu-se aqui.

3. Motivações mais apresentada pelos eleitores para o "Sim": reforço do peso da Europa em relação aos Estados Unidos e à China (64%, atravessando simpatizantes de todos os partidos), funcionamento da Europa a 25 (44% - idem) e evitar enfraquecimento do peso da França na Europa (43% - especialmente entre eleitores UMP);

4. Motivação mais apresentada pelos eleitores para o "Não": "descontentamento com a actual situação económica e social em França"(52%), seguida de "constituição demasiado liberal no plano económico" (40%). Mas aqui, tudo varia de acordo com proximidade partidária. Se o "descontentamento" é forte entre todos (menos os eleitores UMP), o receio do "liberalismo" prevalece à esquerda. E entre os eleitores UMP e FN, a principal motivação de rejeição é "a ocasião de se opor à entrada da Turquia na UE";

5. Largas maiorias dos eleitorados (excepto FN) dizem-se "favoráveis à construção europeia". É bonito, and yet means nothing;

6. 42% dos eleitores UMP querem correr com Raffarin, contra 38% que o querem manter. Dos eleitores dos outros partidos não vale a pena falar. Os eleitores UMP querem...Sarkozy, bien sur.

by Pedro Magalhães

Fifty five

Posted May 30th, 2005 at 12:16 am4 Comments

Os resultados ainda não são os validados, mas não é de esperar que se desviem particularmente de 55% para o Não e 45% para o Sim. Assim sendo, temos:

1. A TNS Sofres e a CSA teriam feito melhor em não divulgar as sondagens que terminaram a 27, ficando-se pelas que concluiram, respectivamente, nos dias 24 e 26. Ceteris paribus, sondagens conduzidas mais próximo da data das eleições são sempre mais precisas. Mas os ceteris raramente são paribus no mundo real, e as duas sondagens divulgadas na noite de 6ª ficaram fora das margens de erro amostral. É provável apareça alguém a denunciar possíveis tentativas de manipulação do voto de última hora. Duvido muitíssimo, mas se assim foi, fico especialmente aborrecido: eu levei-as muito (demasiado?) a sério.

2. A sondagem Ipsos terminada a 25 de Maio parece ter sido a mais precisa. É certo que a diferença no sentido de maior precisão, quando comparada com a da Ifop, é tão diminuta que pode perfeitamente ser fruto do acaso. E ambas são telefónicas, ambas usaram quotas, ambas têm amostras de dimensão aproximada. O resto, especialmente no que respeita ao apuramento dos prováveis abstencionistas, é menos claro dos relatórios, mas a Ipsos explica que deu as intenções de voto usando o filtro mais exigente: "de certeza que vai votar". Um sinal importante. Mas fico contente se for a Ipsos, por uma razão muito simples: o site da Ipsos.fr deu uma cobertura excelente ao referendo. Bons textos analíticos, relatórios exaustivos e até as sondagens dos outros institutos (nem todas, mas quase...) E poucas horas depois do referendo, uma decomposição completa da sondagem à boca das urnas. Quando se fazem estas coisas tão bem, é natural que se faça bem o resto...

by Pedro Magalhães

Fifty fifty, finalmente

Posted May 28th, 2005 at 4:21 pm4 Comments

As sondagens divulgadas ontem, captando os presumíveis efeitos da dramatização final na campanha do referendo francês, relançam a incerteza. O Não vinha em (novo) crescendo desde a 2ª semana de Maio, e as sondagens dos dias 24 a 26 de Maio davam-lhe uma vantagem aparentemente confortável. Mas tudo se desvaneceu no último dia de campanha, com as sondagens TNS Sofres e CSA. Aliás, quem tivesse reparado nas notas de rodapé da última sondagem Ipsos de 25 de Maio não poderia senão ficar com dúvidas. Lá em baixo, em letras pequeninas bem escondidas, dizia-se:

(*) 23% des personnes interrogées, certaines d’aller voter, n’ont pas exprimé d’intention de vote

23% dos que disseram ter a certeza de ir votar não exprimiram intenção de voto. É muito.

É certo que há ainda a sondagem Ifop (56% para o Não) e que, apesar de tudo, o Não é maioritário nas duas restantes. Mas recordem-se de 1992. Na altura, o Sim aparecia com cerca de 53/54% das intenções de voto, e 70% dos eleitores prognosticavam uma vitória do Sim. Acabou o Sim com 51%. Agora, o Não aparece, em média, com 53%, enquanto que 50% dos eleitores prevêem uma vitória do Não (contra apenas 23% a preverem uma vitória do Sim), o que aponta para a possibilidade de uma desmobilização comparativa dos eleitores do Não.

Fifty- fifty. Mais que isto não é possível.

by Pedro Magalhães

Atenção!

Posted May 27th, 2005 at 11:47 pm4 Comments

TNS Sofres, 26 e 27 de Maio
Sim: 49%
Não:51%

CSA, 26 e 27 de Maio(pdf)
Sim: 48%
Não: 52%

Ifop, 26 e 27 de Maio
Sim: 44%
Não: 56%

São, que eu saiba, as únicas sondagens a poderem captar os efeitos do discurso ao país de Jacques Chirac. Duas mostram recuperação de última hora do "Sim", enquanto que outra mostra o "Não" a subir. Está mesmo tudo em aberto.

by Pedro Magalhães