Pedro Magalhães

Margens de Erro

França, a uma semana do referendo

Posted May 23rd, 2005 at 11:08 am4 Comments

1. Saiu mais uma sondagem, da Louis-Harris, com último dia de trabalho de campo a 21:
Sim: 48%
Não: 52%

Nada de novo em relação a todas as sondagens mais recentes dos restantes institutos: depois da recuperação do "Sim" na 1ª metade de Maio, o "Não" volta a ganhar ascendência.

2. Percentagens do "Não" nas sondagens mais recentes:

- Sofres, 12 de Maio (face-a-face, quotas, 1000 inquiridos): 53%
- IFOP, 13 de Maio (telefone, quotas, 1018 inquiridos): 54%
- Ipsos, 14 de Maio (telefone, quotas, 972 inquiridos): 51%
- CSA, 16 de Maio (telefone, quotas, 1002 inquiridos): 51%
- BVA, 20 de Maio (telefone, quotas, 963 inquiridos): 53%
- Louis-Harris, 21 de Maio (telefone, quotas, 1006 inquiridos): 52%

Perturba um pouco a unanimidade na utilização de quotas, podendo constituir fonte de enviesamento oculto. Mas não há diferença significativa entre uso de telefone e face-a-face.


3. Poll of polls (média móvel das 3 sondagens mais recentes):


4. Outros dados interessantes:

- Fica a impressão que o tipo de dramatização feita pelo lado do "Sim" ("não será possível rever esta Constituição") funciona ao contrário: a maioria dos eleitores "Sim" crê que a Constituição poderá ser revista num futuro próximo, enquanto que os do "Não" pensam o oposto (Louis-Harris);

- A evolução dos dados é diferente da de 1992: em 1992, o Sim estava à frente nas sondagens das últimas semanas, se bem que por margens reduzidas;

- Nunca se falou ou debateu tanto sobre temas europeus em França: ver aqui (pdf). Um ponto a favor dos defensores dos referendos.

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by Pedro Magalhães

Holanda

Posted May 22nd, 2005 at 10:54 pm4 Comments

Há quem não tenha dado por isso, mas dia 1 há outro referendo sobre a Constituição Europeia, na Holanda. Não falei nisso porque não tenho acesso directo aos dados de sondagens, mas...

Three days after French referendum, Dutch could also reject EU constitution
21/05/2005
The outcome of the Dutch referendum on the European Union constitution is just as uncertain as the outcome of the French vote three days earlier with voters using the referendum to show their discontent with their government, the euro and the EU's expansion.
Although initial polls showed the 'yes' in the lead since one month the different surveys have showed that the Netherlands, one of the founding members of the European Union, could vote against the EU constitution in the consultative referendum set for June 1.
This weekend, two new polls showed the 'no' campaign ahead. An Internet survey of 2,500 people by well known pollster Maurice the Hond found that among voters who had already made up their minds 60 percent planned to vote against the EU constitution, while 40 percent said they would vote in favor.
Another poll by the NSS-Interview institute released late Friday found 63 percent of those surveyed were against the treaty, while 37 percent were in the 'yes' camp.
After a slow and uninspired start of the campaign the Dutch government is now pulling out all the stops to try to reverse the negative trend.
Recalling the Holocaust and World War II Dutch Christian Democrat Prime Minister Jan Peter Balkenende told voters that the constitution was the way to peace and preserving civilisation.
Justice Minister Piet Hein Donner warned of "Balkanisation", referring to the bloody wars in the former Yugoslavia, if the Dutch said no while Foreign Affairs Minister Ben Bot warned that a 'no' vote would have disastrous results for the Dutch economy.
Dutch Deputy Minister for European Affairs Atzo Nicolai suddenly set aside an additional 3.5 million euros to send out government flyers and make television commercials encouraging people to vote yes.
"The government is very motivated, we are in the final phase and we will do what we can to get the 'yes'," Balkenende said Friday just ten days before the referendum.
It is unclear if this sudden surge in the government's yes campaign can reverse the tide in the Netherlands. The referendum is the first ever national referendum in Dutch modern history and many Dutch voters see it as an opportunity to show their discontent with the European Union in general, their worries about Islam and the accession of Turkey to the European Union and their opposition to the current centre-right government.
Approval for Balkenende's government is a dismal 19 percent. A survey published Wednesday showed that one in four people who planned to vote 'no' explained their decision as a general defiance against the government.
More than half, 52.3 percent, of the 'no' camp in the survey of 1,338 people commissioned by Dutch news agency GPD, said they wanted to block Turkey's EU bid. Also 55 percent questioned said they would vote no because they want to protest the introduction of the euro and the following widely perceived price hikes.
"The fear of the different and the unknown play an important role" in the Dutch 'no' camp, Johan Huizinga, a political analyst for Radio Netherlands, told AFP.
The Dutch fear that the text of the constitution could touch the Dutch so-called sacred cows such as same-sex marriages, legal euthanasia and the decriminalization of cannabis.
In an interview published Friday Balkenende tried to allay the fears of the voters.
"Subjects such as soft drugs, euthanasia and abortion will remain national issues, nothing is dictated by Brussels," he told De Volkskrant newspaper.
Despite the polls showing the 'no' voters in the lead Balkenende says he remains optimistic.
"I'm putting my money on the 'yes' vote," he said.
The Dutch referendum is non-binding but the main political parties have said they will take it into account when the text comes up for parliamentary approval if the turn-out is over 30 percent.

by Pedro Magalhães

Mais resultados, França

Posted May 22nd, 2005 at 10:46 pm4 Comments

BVA, 20 Maio
Sim: 47%
Não: 53%

Este era o instituto que faltava. Amanhã, análise mais detalhada.

by Pedro Magalhães

Oops

Posted May 17th, 2005 at 8:59 pm4 Comments

Parece que, ao contrário do que eu sugeria, o Sr. Giacometti tinha razão em dar importância às "pequenas flutuações" que encontrou na sondagem IPSOS. Isto porque:

IFOP, 13 Maio
Sim: 47%
Não: 53%

CSA, 16 Maio
Sim: 49%
Não: 51%

Há poucas dúvidas, depois destas últimas sondagens, que a balança se voltou a desequilibrar a favor do Não...

by Pedro Magalhães

Sampaio e o referendo à despenalização do aborto

Posted May 17th, 2005 at 12:29 pm4 Comments

Por distracção, não tinha dado por esta sondagem. Aqui está. "Vale o que vale" (só Lisboa e Porto), mas valerá certamente alguma coisa. E com alguns resultados curiosos na desagregação por classes sociais.


Lisboetas e portuenses concordam com Sampaio
12 Maio 2005
Marktest.com
A maioria dos lisboetas e portuenses, inquiridos pelo
Fonebus da Marktest em exclusivo para a Marktest.com Notícias, concordam com a decisão de Jorge Sampaio em não realizar em Julho o referendo sobre o aborto.
O
Fonebus da Marktest realizou para a Marktest.com Notícias uma sondagem de opinião acerca das decisões de Jorge Sampaio a propósito do referendo sobre o aborto. Sabendo que o Presidente da República tomou a decisão de não realizar o referendo sobre o aborto em Julho deste ano, em virtude de se tratar de um mês em que muitos portugueses já se encontram de férias, perguntou-se aos residentes nas regiões da Grande Lisboa e do Grande Porto, com mais de 18 anos, se concordavam ou não com essa decisão.
Dos inquiridos, 65.2% concordou com a decisão do Presidente da República, 21.1% discordou e 13.7% não expressou opinião.
Ainda que em todas as faixas etárias se tenha verificado concordância com a decisão de Jorge Sampaio, ela foi mais notória nos indivíduos entre os 55 e os 64 anos (81.1% concordou e 13.5% não concordou). A população mais jovem (entre os 18 e os 24 anos), foi aquela onde as opiniões se dividiram um pouco mais: 52.8% concordou e 33.3% discordou. Na faixa etária mais idosa (65 anos e mais) foi onde surgiu maior percentagem de dúvidas: 30% não soube responder à questão.
Por outro lado, a concordância com a decisão do Presidente da República diminui à medida em que se passa das classes alta e média alta (A/B) para as média baixa e baixa (C2/D), como se pode observar no gráfico abaixo. Efectivamente, nas classes mais elevadas, 75.8% concorda com a não realização do referendo sobre o aborto em Julho, enquanto que nas classes mais baixas apenas 55.8% concorda com esta decisão.

by Pedro Magalhães

França, referendo: início da campanha oficial (actualizado)

Posted May 17th, 2005 at 9:50 am4 Comments

Sofres, 12 de Maio:
Sim: 47%
Não: 53%

IPSOS, 14 de Maio:
Sim: 49%
Não: 51%

A ler com atenção: este texto de Pierre Giacometti, director da IPSOS, onde se desenvolve muito bem um argumento já adiantado aqui:

La victoire du Oui conserve en revanche très nettement la faveur du pronostic. Mais cette combinaison contradictoire du souhait et du pronostic constitue un sérieux handicap pour les partisans du Oui : elle présente le risque d'empêcher la construction d'une nouvelle et dernière dynamique de victoire dans les derniers jours de campagne.

Mas onde também, a meu ver, se retiram demasiadas interpretações daquilo que são pequenas flutuações percentuais:

C'est bien la troisième inversion de tendance qui se dessine dans cette dixième vague de l'Observatoire Ipsos. Initiée il y a une semaine lorsque le Non avait été crédité d'une poussée de trois points lui permettant de faire jeu égal avec le Oui, la progression se confirme aujourd'hui : à gauche comme à droite, le Non a encore gagné du terrain. Le gain est de deux points au sein de l'électorat socialiste, où le rapport de force apparaît, à quinze jours du scrutin, parfaitement équilibré. L'évolution est encore plus nette auprès des sympathisants UMP-UDF. En progressant de 4 points, le Non atteint 28% d'intentions de vote, contre 72% au Oui. A l'extrême gauche comme à l'extrême droite, le Non est massif et définitif.

by Pedro Magalhães

França, Sofres, 10 de Maio (último dia trabalho de campo)

Posted May 13th, 2005 at 10:10 am4 Comments

Sim: 52%
Não: 48%

Segundo os dados da Sofres, está criada em França uma clivagem social clara em torno da Europa:

Sociologiquement, le oui reste fort chez les cadres et professions libérales. Le non obtient 65% chez les ouvriers mais le oui est majoritaire chez les employés et les professions intermédiaires.

A evolução da poll of polls fica assim:

by Pedro Magalhães

Elogios involuntários

Posted May 12th, 2005 at 3:34 pm4 Comments

No in tenui labor:

Ah, que bom, férias... Tempo de descanso, paz, fruição do belo, do sublime, exploração dos sentidos, na primavera soalheira e morna, só perturbada pelo êxtase inebriante de milhares de animais, cheiros e sons. Como é bom ter férias, vacances e hollidays.
Mas não é assim. Ao contrário das férias idílicas num local paradiasíaco longe desta civilização que cheira a mofo, encontro-me justamente no local mais mofo da mofa cidade, com pessoas mofas que dizem coisas mofas. Ronald Inglehart, Robert Putnam, Pipa Norris, Hans-Dieter Klingemann, José Machado Pais, Alain Touraine, Gilles Lipovetsky, Dalton, Wattenberg, Jurgen Habermas, Boaventura Sousa Santos, André Freire , Pedro Magalhães, Manuel Castells, Bernard Manin, Anthony Giddens, entre outros.
Um desabafo...
à la prochaine!


Para o elogio ser perfeito, dispensava o Lipovetsky, só queria o Giddens e algum Boaventura anteriores aos anos 90, tirava para aí uma em cada duas páginas do Castells e punha outro "p" em Pippa. De resto, muitíssimo obrigado.

by Pedro Magalhães

Mais UK

Posted May 12th, 2005 at 10:40 am4 Comments

O americano Mystery Pollster escreve sobre as sondagens britânicas.

by Pedro Magalhães

Voodoo?

Posted May 11th, 2005 at 4:28 pm4 Comments

Neste post, apontei o facto de as sondagens anteriores às sondagens "do dia" no Reino Unido terem muito maiores discrepâncias entre si do que as seguintes. E sugeri que isso podia ter a ver com três coisas:

1. Acaso;
2. Mudança da própria realidade que estava a ser descrita, anulando efeitos da variação a nível metodológico;
3. Ajustamento "indutivo" de expectativas.

Agora, um novo elemento: segundo este site, os números brutos obtidos pelas sondagens ICM e Populus davam margens muito maiores aos Trabalhistas dos que aqueles que as sondagens acabaram por dar nas suas sondagens finais e do que aqueles que acabaram por ser os resultados reais.

Ora bem. Isto é um bocado perturbante. O que é perturbante não é o facto de os números brutos serem diferentes dos números "projectados". Todas as sondagens fazem escolhas quanto ao tratamento dos dados obtidos, escolhas que visam corrigir uma série de problemas conhecidos dos processos de amostragem e inquirição: distorções entre características da amostra e características conhecidas da população; efeitos de não-resposta e recusa; efeitos do inquérito; ocultação de real intenção de ir ou não votar ou de votar neste ou naquele partido, etc.

O que é perturbante é que os resultados obtidos de uma amostra sejam tão diferentes daqueles que depois resultam dos tratamentos. Se eles são assim tão diferentes, isto significa que as pressuposições acerca daquele que é e será o comportamento dos eleitores e a sua relação com características dos inquiridos pesam tanto ou mais nas inferências que se fazem acerca da população do que a própria amostra. E se isto é assim, para quê fazer sondagens de intenção de voto? Não será preferível fazer "forecasting" na base de resultados eleitorais anteriores e de factores de previsão (economia, popularidade de líderes)?

E se as pressuposições pesam assim tanto, não se levanta a suspeita de que a convergência entre resultados de sondagens nas últimas eleições inglesas (e já agora, as portuguesas) resulte muito menos de escolhas metodológicas do que de "um bom palpite" (mesmo que o palpite seja um palpite sobre que "contas" hei-de eu fazer para que os dados brutos se convertam "naquilo que eu espero que aconteça"?).

Não é, repito, uma questão de "honestidade", mas sim uma questão de sabermos para que servem as sondagens, o que elas realmente nos dizem e como são feitas. "Ciência" ou "voodoo"?

E notem: eu ficava muito menos preocupado se, com ou sem "voodoo", as sondagens das semanas anteriores tivessem dado coisas parecidas umas com as outras e com aqueles que vieram a ser os resultados finais. Isso passou-se, mais coisa menos coisa, em Portugal em 2005. Mas não foi assim em Inglaterra. Que espécie de informação está a ser dada aos eleitores? Como é ela obtida? Podemos confiar minimamente nela? Dúvidas.

by Pedro Magalhães