Pedro Magalhães

Margens de Erro

O PSD e as sondagens (continuação)

Posted January 28th, 2005 at 9:59 am4 Comments

Poll of polls IV

Posted January 27th, 2005 at 11:43 pm4 Comments

Com a adição das sondagens da Euroteste e da Católica, o quadro geral é o seguinte:



Como de costume, para tornar os resultados comparáveis entre si e com resultados eleitorais, são redistribuídos os indecisos das sondagens que não o fazem por iniciativa própria (procedimento contestável, eu sei, mas a meu ver necessário). Por razões já explicadas, a última da Aximage não é considerada.



1. Resultados relativamente seguros (na medida em que são comuns a todos os estudos):

*Neste momento, PS como o partido com maiores intenções de voto. Olha a grande novidade.

*Neste momento, PS acima dos 40%. Mais interessante, se bem que desde 1983 que o PS não ganha com menos de 40% (44,6% em 1995; 45% em 1999);

* Impossível saber ordem de CDS-PP, CDU e BE: mudanças de sondagem para sondagem, discrepâncias entre sondagens dos mesmos institutos e diferenças entre os partidos, na maior parte dos casos, abaixo da margem de erro. Isto é muito mais interessante. Desde 1995 que as diferenças reais entre o voto no CDS-PP e no PCP são muito reduzidas, tão reduzidas que não se podia, em bom rigor, pedir às sondagens que respondam à pergunta sobre qual deles teria mais votos. Mas que o BE se junte a este campeonato é uma novidade.

2. Incertezas resultantes do confronto entre as sondagens:
*A margem do PS: entre 19 pontos (Aximage, 10 Janeiro) e 8 pontos (Euroteste, 27 de Janeiro). A diferença é demasiado grande para ser acomodada na margem de erro amostral, nem parece explicada pela passagem do tempo.

*A percentagem de indecisos: para quem os reporta, variou entre 8% e 22%. Creio que isto é fruto da dicotomia telefónica/presencial. Não acredito, pura e simplesmente, em 8%, por razões que já expliquei.

* Maioria absoluta: nem vale a pena falar do tema. Mas ponhamos a coisa assim, cheia de pontos de interrogação, aspas e sinais de luzes: se usarmos a experiência da Eurosondagem, já descrita aqui, e aplicarmos o resultado da poll of polls IV, o PS acaba (sem contar com Europa e Fora da Europa) com...115 deputados.

3. Dúvidas existenciais (ou seja, algumas fontes de erro que podem ser comuns a todas as sondagens):

*Ocultação diferencial da intenção de voto na direita. A do CDS já foi aqui especulada. A outra possível está no PSD. Sabe-se, desde aqui, que percepções vistas como dominantes (neste caso, a da má prestação do governo liderado por Santana Lopes) podem induzir segmentos do eleitorado a sentirem-se inibidos de revelar opções e atitudes vistas como minoritárias;

*"Sinceridade" vs. "Estratégia": o outro lado da ocultação diferencial de voto é dizer que votamos num partido, com o qual até se simpatiza e no qual sinceramente se votaria, mas que acaba por ser abandonado perto das eleições em favor de opções mais estratégicas. Três palavrinhas: Bloco de Esquerda.

*Abstenção diferencial: a grande némesis das sondagens. Nas sondagens, quase toda a gente vota. Chega o dia e, desses, só votam alguns. E esses alguns não são necessariamente iguais àqueles que declaram opções de voto que depois não se realizam. Quem são eles? Por enquanto, nem vale a pena pensar nisso. Mais sobre o assunto mais perto das eleições...

E amanhã há mais uma...

by Pedro Magalhães

Católica, 27 de Janeiro

Posted January 27th, 2005 at 11:09 pm4 Comments

Divulgados hoje na RDP e RTP e amanhã no Público, estes são os resultados que foram mais destacados da sondagem da Católica:

PS: 46%
PSD: 28%
CDU:8%
BE:8%
CDS-PP:6%
OBN: 4%

A forma como estes valores foram obtidos, de forma a serem directamente comparáveis a resultados eleitorais, foi a seguinte. Os resultados "brutos" (a distribuição das respostas directas das pessoas a quem foi perguntado se iriam votar e, se sim, em que partido votariam) foram estes:

PS:23%
PSD: 14%
CDU(PCP/PEV): 4%
BE: 4%
CDS/PP: 3%
Outros partidos: 1%
Brancos/nulos: 4%
Não tenciona votar: 15%
Não sabe/não decidiu: 22%
Recusa responder: 11%

A partir daqui, a pressuposição foi a de que os declarados indecisos se vão abster ou distribuir proporcionalmente pelas opções válidas de voto. Pressuposição razoável? Para já, confesso que não me interessa muito. Esta estimativa não visa prever resultados - proposta absurda a quase um mês das eleições e 20% de indecisos - mas é apenas uma maneira de descrever as intenções de voto tal como foram expressas pela amostra no passado fim de semana de uma forma comparável com resultados eleitorais. Quando estivermos mais perto das eleições, os objectivos serão diferentes, a análise dos resultados brutos terá também de mudar, e o tratamento de indecisos e votantes prováveis carecerá de afinação. Mas para já, ficamos assim. A única operação adicional foi a de tomar apenas como válidas as opções "branco/nulo" que tivessem sido reafirmadas numa questão posterior sobre "inclinação de voto", para evitar óbvias sobrestimações resultantes do recurso ao "branco/nulo" como opção de refúgio de indecisos ou abstencionistas.

Que mais posso dizer sobre a sondagem em si? Como as sondagens feitas até agora foram todas telefónicas, tenho enfatizado até agora os potenciais problemas do uso do telefone como modo de inquirição. Mas agora que sai esta - em que a inquirição foi presencial - importa ver os problemas do outro lado. É certo que dispensar o telefone faz com que o universo representado passe a ser composto por todos os eleitores, quer vivam em domicílios com telefone fixo ou não. Para além disso, a inquirição presencial gera menos recusas, recusas essas que são a primeira séria facada sofrida por qualquer tentativa de geração de uma amostra aleatória (dado que, com as recusas, o universo representado passa a ser não o dos eleitores, mas sim o dos eleitores "que não se importam de responder a sondagens", e que serão provavelmente diferentes dos outros). Creio, aliás, que esta é a chave para a diferença brutal entre a percentagem de "indecisos" captados por esta sondagem (22%) e as restantes (10%). For my money, 10% é uma grande subestimação daqueles que ainda não decidiram, especialmente quando sabemos, através da sondagem da boca das urnas de 2002, que 15% afirmou ter decidido a sua opção de voto na última semana...

Contudo, a inquirição presencial usada nesta sondagem da Católica também tem desvantagens muito importantes. Por um lado, ela impede o grau de monitorização do trabalho de campo que a telefónica permite. Numa sondagem telefónica, os inquiridores estão sentados em frente a um computador e usam um software que os "guia" de forma rigorosa na condução das entrevistas e no preenchimentos das respostas. Quando se envia inquiridores para o "campo", tudo se torna muito mais incerto, por muita que seja a formação que se dê. O cumprimento das regras de amostragem e a sujeição de todos os inquiridos a estímulos semelhantes está muito menos garantida numa sondagem presencial.

Para além disso, olhem bem, amanhã no Público, para a ficha técnica: os inquiridores da Católica foram a 19 freguesias do país. 19, em 4621. O objectivo de qualquer procedimento de amostragem descreve-se numa frase: não perder variância potencialmente relevante. Ora, com um telefone, a dispersão dos inquiridos pelo território é fácil, dentro dos limites da ligação dos domicílios a telefones fixos. Contudo, quando se levam inquiridores a localidades espalhadas pelo país, há um dilema: "dispersão" vs. "tempo/dinheiro". O dinheiro tem limites, e o tempo, nestas coisas, é sempre reduzido: ao contrário do que sucede num inquérito "académico", onde geralmente o que conta é medir dimensões mais ou menos estáveis dos valores e atitudes dos indivíduos, não faz sentido demorar duas semanas a fazer um inquérito cujo objectivo é descrever mutáveis intenções de voto. Mas há um preço a pagar por isto, que pode ser muito elevado: só se pode ir a poucos sítios, e em pouco tempo. Claro que se tenta mitigar o problema garantindo, através da estratificação, que localidades e inquiridos se encontram proporcionalmente dispersos por habitat e regiões da mesma forma que a população. Outra coisa que se faz, neste caso, é assegurar que, preservando a aleatoriedade, as freguesias escolhidas tendem a exibir, no seu conjunto, um comportamento eleitoral semelhante ao do país. Mas 19 em 4621? Vale a pena meditar no assunto.

Por estas e outras razões, esta sondagem não vos deve merecer, em abstracto ou à partida, nem maior nem menor credibilidade que qualquer outra. Deve merecer a credibilidade que resulta da relação entre os procedimentos que usa e a realidade que está a tentar captar. Se a segunda fosse estável, seria fácil descobrir quais os procedimentos "óptimos". Mas como não é, a incerteza permanece.

by Pedro Magalhães

Euroteste, 27 de Janeiro

Posted January 27th, 2005 at 3:18 pm4 Comments

Uma nova sondagem, desta vez da Euroteste e publicada pela Visão. Os resultados destacados pela revista são os seguintes:

PS:40%
PSD:32%
CDS-PP:6%
BE:5%
CDU:4%
Outros, brancos, nulos:3%
Indecisos:10%

Tudo explicadinho e completo, sem casas decimais. A sondagem foi feita pelo telefone, no Continente, com 800 entrevistas estratificada por idade, sexo, habitat, região, ocupação e voto em 2002 (ou seja, combinando estratificação com quotas).

A notícia, para além de fornecer outras informações interessantes sobre questões adicionais às da intenção de voto, insiste na ideia de que o PS está longe da maioria absoluta. Mas não me parece que seja bem assim. Ou melhor, se é assim ou não é coisa que a que a sondagem não responde cabalmente.

Porquê? Porque se fizermos com que estes resultados se tornem comparáveis a resultados eleitorais, ou seja, eliminando os indecisos da base de cálculo percentual, os resultados ficam assim:

PS:44%
PSD:36%
CDS-PP:7%
BE:6%
CDU:4%
OBN:3%

E se pegarmos nestes números e fizermos a brincadeira da Eurosondagem descrita aqui anteriormente (com todas as limitações que o exercício tem), o PS fica com...113 deputados. Não me parece muito longe. Ou seja:

- os 40% do PS na sondagem só seriam 40% de votos se todos os indecisos votassem em partidos que não o PS;

- logo, se eles exprimissem de facto intenções de voto firmes até ao dia das eleições, é provável que o PS tivesse algo mais do que 40%.

Assim, a ideia de que este resultado significa ver a maioria absoluta por um canudo é contestável, da mesma forma que a ideia contrária também o seria. Eu sei que as pessoas querem certezas e coisas definitivas, mas o método não as dá.

Quanto à poll of polls, esperem até mais logo. Porque logo sai outra sondagem, e assim vemos tudo de uma vez.

by Pedro Magalhães

Delgado e as sondagens

Posted January 26th, 2005 at 6:45 pm4 Comments

Descontando o facto de Campo de Ourique não ser uma freguesia ou de as últimas sondagens nas eleições americanas terem, em média, falhado as previsões da margem de vitória de Bush por apenas 0,7% (aquilo que de mais próximo temos de um "milagre" para quem faz sondagens eleitorais) o artigo levanta questões interessantes.

by Pedro Magalhães

Vamos lá ao assunto do CDS…

Posted January 25th, 2005 at 3:34 pm4 Comments

Por que razão tendem as estimativas de resultados publicadas antes das eleições pelas diferentes empresas de sondagens a subestimar aquela que acaba por ser a votação do CDS-PP? A primeira e única resposta categórica a esta pergunta é simples: não sei. Mas tenho alguns palpites.

1. Manipulação propositada? Não me parece. Tudo é possível, claro. Mas reparem no seguinte: 1999 foi o ano a partir do qual o CDS começou a ser sistematicamente subestimado nas sondagens. Teve 8,2% dos votos na Europeias, mas todas as sondagens lhe deram menos. A sondagem que lhe deu menos foi feita pelo IPAM (Instituto Português de Administração de Marketing, creio), que lhe deu 3,9%, numa sondagem publicada pelo Diário Económico. A que lhe deu mais foi a Eurosondagem (7,3%), numa sondagem publicada pelo Semanário. Nas legislativas de 1999, o CDS-PP voltou a ser subestimado por todos. Quem lhe deu mais foi (outra vez) a Eurosondagem (muito próximo da realidade, com 8,2%), outra vez para o Semanário. Mas quem mais "prejudicou" o CDS-PP nas legislativas de 1999 foi, desta vez, a Aximage, numa sondagem para a SIC/Visão. Nas legislativas de 2002, a Eurequipa, trabalhando para o Independente, deu-lhe 9,1%. Todos os outros subestimaram os votos do CDS-PP, especialmente a Intercampus, numa sondagem para o Jornal de Notícias.

Detectam algum padrão que sugira manipulação? A acreditar nisso - e eu, friso, não acredito - pode haver quem queira sugerir que ela está presente nos resultados menos desfavoráveis dados por jornais "de direita" (Semanário; Independente). Mas notem que, nas legislativas de 1999, o Independente publicou uma sondagem da Metris que também "prejudicava" o CDS-PP (7%, contra os 8,2% que realmente teve). Em resumo, não me parece que a teoria da manipulação tenha pernas para andar.

2. Amostragem. Como descrito em post anterior, há quem use amostragens aleatórias, há quem use quotas e há quem use combinações das duas. E o próprio modo de inquirição pode ter consequências indirectas na amostragem: sondagens telefónicas tendem a gerar amostras, obviamente, representativas da população residente em domicílios com telefone fixo, o que por sua vez tende a sub-representar populações rurais e mais isoladas (sendo por isso mesmo mais frequente encontrar a utilização de quotas nas telefónicas...).

E aqui as coisas começam a fazer algum sentido. (Quem não tiver paciência para a estatística pode agora saltar três linhas): corri uma regressão linear muito simples com a inquirição (telefónica vs. presencial) e a amostragem (aleatória vs. quotas) como variáveis independentes, e os desvios cometido pelas 34 sondagens pré-eleitorais feitas desde 1991 que apresentaram estimativas para o CDS (últimas sondagens publicadas antes das eleições) como variável dependente. Resultado: se é verdade que a amostragem não faz diferença, as telefónicas tendem a apresentar um desvio sistemático e estatisticamente significativo contra o CDS (nada disto sucede com as estimativas dos restantes partidos).

3. Mas porquê? A razão pode não ter a ver apenas com a redução da população representada àquela que reside em domicílios com telefone fixo. Uma das coisas que uma sondagem face-a-face permite fazer é uma simulação de voto em urna, através da qual o inquirido não tem de revelar a sua opção de voto ao inquiridor. Infelizmente, não é possível estimar por que razão as sondagens face-a-face são menos desfavoráveis ao CDS. E isto sucede porque quase todas as últimas sondagens publicadas antes das eleições e realizadas face-a-face são, também elas, simulações. Por outras palavras: não sabemos se as sondagens presenciais subestimam menos o CDS por não serem telefónicas ou por serem simulações.

4. Mas ambas as coisas podem contar. O meu palpite é que o eleitorado do CDS tende a ocultar o seu sentido de voto, mais do que o eleitorado dos restantes partidos. Reparem: nas eleições de 2002, o CDS foi subestimado pelas sondagens pré-eleitorais, em média, em 2,4%. Curiosamente, no inquérito pós-eleitoral realizado pelo ICS em 2002, a recordação de voto no CDS (2 semanas depois das eleições) foi subestimada em..2,1%. Eu sei que são muito poucas observações para podermos tirar grandes conclusões, e é por isso que comecei o post dizendo que, em rigor, "não sei" por que razão o CDS é subestimado. Mas um palpite plausível é que, antes ou depois das eleições, há uma parte do eleitorado do CDS-PP "que nem às paredes confessa"...

Pode haver renitência em assumir que se é "de direita" num contexto ideológico e cultural no qual, devido ao passado autoritário, a direita saiu deslegitimada. E alguma razão haverá para que, antes dos anos 90 (antes de Manuel Monteiro e Paulo Portas), nunca tenha havido qualquer problema de "subestimação" do CDS . Se havia partido que era subestimado nos anos 80 e até meados dos dos anos 90, esse partido era o PCP (a "cultura da clandestinidade").

5. Há outra hipótese interessante, mencionada (indirectamente) aqui. Segundo este estudo, os eleitores do CDS são aqueles que mais afirmam "mudar de partido conforme a sua opinião em cada acto eleitoral". A Marktest sugere que "o CDS vai voltar a surpreender nas próximas eleições e, seguramente, pelas mesmas razões". Mas a minha sugestão é que, se é verdade que o CDS-PP pode surpreender, também é verdade que o pode fazer num ou noutro sentido. Sabe-se que a distância ideológica entre os eleitores do PSD e do CDS é reduzida, e que a sua decisão de voto tem muito a ver com a imagem dos líderes e outros factores conjunturais (em vários capítulos, aqui). Mas isso indica, então, que o destino do CDS como partido "subestimado" nas sondagens não está fechado. O CDS pode ter um late surge. Mas também pode ser especialmente vulnerável ao voto útil, ou seja, tendo um late decline. Tudo depende de como as coisas correrem no desfecho da campanha.

6. Não acredito muito que esta "volatilidade" de curto prazo no voto CDS seja a principal razão da sua subestimação nas sondagens. O ponto 4. anterior, se verdadeiro, ajuda a apoiar esta ideia. Não nego a hipótese de que, em 2002, tenha havido um late surge a favor do CDS-PP. Mas se ele fosse muito significativo para este efeito, não se perceberia por que razão uma sondagem pós-eleitoral tenderia a subestimar o CDS tanto como as sondagens pré-eleitorais. E certamente verificaríamos uma tendência para que sondagens feitas mais perto das eleições subestimassem menos o CDS, ou fossem, em absoluto, mais precisas na estimação do voto no partido. Essas tendências não existem.

E pronto, é tudo o que me ocorre. Em resumo, o meu palpite é que a subestimação do CDS se deve a:

- subrepresentação (ou deficiente representação) do eleitorado rural nas sondagens telefónicas;

- ocultação diferencial por parte dos inquiridos da sua intenção de voto no CDS-PP.

Agora façam o favor de não presumir que o voto no CDS-PP em 2005 será aquilo que as sondagens dizem "mais uns dois e tal por cento". Há duas razões para não cometer esse erro, entre muitas: os institutos de sondagens sabem onde erram, têm palpites sobre as fontes desses erros e tomam medidas correctivas; e se o ponto 5. servir para alguma coisa, ele sugere que o CDS pode rapidamente passar de "subestimado" a "sobrestimado". Estou só a avisar...

by Pedro Magalhães

O centro

Posted January 25th, 2005 at 8:49 am4 Comments

Isto parece muito interessante. Haverá algum jornal a pegar nisto?

by Pedro Magalhães

Uma boa/má notícia

Posted January 24th, 2005 at 7:05 pm4 Comments

Num post anterior, fiz referência a uma análise dos resultados das sondagens pré-eleitorais feitas em Portugal, disponível aqui. Contudo, acabo agora de saber que essa análise foi aceite para publicação aqui, e sou obrigado, por razões de copyright, a retirá-lo do site do ICS. Lamento, e peço muita desculpa a quem fez links para o estudo. Mas enfim, já tive notícias piores...

by Pedro Magalhães

Aleatoriedade e quotas, teoria e prática

Posted January 24th, 2005 at 11:05 am4 Comments

Num post anterior, sobre uma das sondagens realizadas nos últimos tempos, escrevi aqui que "se a amostra foi seleccionada de forma a que os indivíduos que a compõem se distribuam pelo território e em termos das suas características socio-demográficas e socio-políticas (sexo, idade, instrução, actividade e anterior comportamento eleitoral)" a amostra não pode ser aleatória, e terá sim de ser por quotas.

Recebi um comentário onde se aponta uma incorrecção a esta afirmação. Segundo esse comentário, eu estaria a confundir o conceito de "estratificação" com o conceito de "quotas". Estratificar significa dividir a população em sub-grupos na base de uma variável cuja distribuição "real" (na população) se julga conhecer. Mas isso, claro, não impede a selecção aleatória. Significa apenas que, por exemplo, se eu souber que 52% da população é composta por mulheres, eu tenho de me assegurar que 52% da minha amostra é seleccionada aleatoriamente entre as mulheres dessa população, e que 48% será seleccionada aleatoriamente entre os homens dessa população. Isto não é uma amostragem por quotas, mas sim uma amostragem estratificada aleatória.


Pois é, é verdade. Mas gostava de recordar outras coisas que também são verdade. Se eu souber à partida como se distribui territorialmente a população eleitora, eu posso de facto assegurar-me que os inquiridos na minha amostra estão distribuídos de forma proporcional à distribuição da população pelo território, quer faça sondagens telefónicas quer as faça face-a-face. Mas o que sucede quando se trata se seleccionar inquiridos em cada domicílio e garantir ao mesmo tempo que a sua selecção acaba por cumprir critérios socio-demográficos ou socio-políticos de estratificação? Tenho duas hipóteses:

1. Usar um critério aleatório de selecção do inquirido em cada domicílio (o último aniversariante, o próximo aniversariante, ou outro critério qualquer). Se eu fizer isto, mesmo que volte a bater à porta dessa casa ou a telefonar várias vezes para esse número para tentar encontrar o indivíduo aleatoriamente seleccionado sem o substituir por outro, é óbvio que, a certa altura, vou ter de desistir de encontrar todos os aleatoriamente seleccionados. E quando isso acontecer, é altamente improvável que a distribuição da minha amostra por sexo, idade, instrução ou anterior comportamento de voto reflecta a distribuição real da população. Para ser mais concreto, é muito provável que, por exemplo, vá ter menos indivíduos dos 18 aos 34 anos e com mais de 65 anos, assim como menos homens, do que deveria em face da população. Se se considerar que isto é um problema (e pode não ser, depende daquilo que se quer descrever e explicar), é possível "ponderar" os resultados. Ou seja, podem dar-se pesos diferentes a indivíduos com características diferentes de modo a que, na base daquilo que se sabe acerca da população, se possa aumentar aritmeticamente o peso dos grupos sub-representados na amostra e diminuir o peso dos grupos sub-representados.

2. Contudo, pode-se fazer outra coisa. Não sei quais as características de cada pessoa que vive em cada domicílio, nem tenho uma lista de todos os eleitores de acordo com o seu sexo, instrução, idade ou comportamento de voto em eleições anteriores. Mas como sei quais são as características da população a nível agregado (INE, resultados eleitorais), posso estabelecer objectivos, um número de inquiridos que quero ter em cada subcategoria. Posso mesmo começar por usar um critério aleatório de selecção dos inquiridos em cada domicílio. Mas vai chegar uma altura em que já tenho, por exemplo, todos os "homens", com "idades entre os 35 e os 44 anos", com "instrução primária" e que tenham "votado no PS nas eleições anteriores" de que necessito para que a minha amostra represente esse grupo em proporção ao que se conhece da população. E agora: o que sucede quando, aleatoriamente, se volta a encontrar uma pessoa com as mesmas características? Se o incluir na amostra, estou de facto a fazer selecção aleatória, mas vai-me acontecer novamente o que descrevi no ponto anterior. Contudo, posso seguir outro caminho: não o entrevistar, substituindo-o por outro inquirido que tenha as características que me faltam representar na amostra.

Sucede que, esta segunda hipótese - lamento informar- não é amostragem aleatória. É amostragem por quotas. A combinação entre estratificação e aleatoriedade exige que se conheça à partida o estatuto de todos os membros da população nas variáveis de estratificação. Para uma sondagem nacional, isto é (relativamente) fácil de fazer quando se trata de localização territorial, segundo regiões ou dimensão das localidades, por exemplo. Contudo, é impossível de fazer quando se usa, por exemplo, o comportamento de voto anterior como variável de estratificação: não existem listas separadas das pessoas que votaram neste ou naquele partido em 2002, que contenham informação sobre a sua segregação residencial por comportamento de voto, e de onde se possa extrair aleatoriamente os inquiridos em proporção ao seu peso na população. A não ser, claro, que a amostra seja extraída de um painel previamente construído, composto por indivíduos cujas características são conhecidas à partida e na base das quais se possam ir extraindo sub-amostras "aleatórias". Mas se assim fosse, ficaria muito surpreendido (para não dizer chocado) se a ficha técnica da sondagem omitisse essa crucial informação.

Para terminar: não é drama nenhum usar quotas. Há vantagens e desvantagens. E a verdade é que as sondagens tendem a exibir uma combinação de métodos distintos. Mesmo as que usam amostragem por quotas quando se trata de seleccionar inquiridos não deixam de seleccionar domicílios ou localidades aleatoriamente. Os americanos têm enormes preconceito contra as quotas, especialmente desde as catastróficas sondagens que previram a vitória de Dewey sobre Truman em 1948. Mas como assinala um pollster..

"Virtually all public opinion surveys conducted in the United States since then [1948]– whether conducted face-to–face or by telephone – have used some modified version of probability (or random) sampling. Indeed, for American researchers quota sampling is almost a dirty phrase. The situation in Europe has been quite different. The great majority of face-to-face opinion surveys, including election surveys, conducted in France, Germany, Italy, the United Kingdom and other European countries have used some form of quota sampling, with the interviewers given considerable latitude to find and select respondents who fit the quota cells (usually based on sex, age, one or two socio-economic factors and other variables). Giving the interviewers this freedom to select whom to survey is unacceptable in the United States, but the European quota method has worked reasonably well over many years and has been widely accepted, not only by practitioners and their clients but also by many European academic researchers – something which Americans find very puzzling."(1)

O que convém é chamar as coisas pelos nomes que elas têm.


(1)Taylor, H. (1998). "Opinion Polling", in C. McDonald e P. Vangelder (eds.) ESOMAR Handbook of Marketing and Opinion Research, Amsterdam.

by Pedro Magalhães

A "descida" do PS

Posted January 22nd, 2005 at 2:12 pm4 Comments

Com a adição da sondagem da Aximage, a nossa lista de sondagens publicadas fica assim:



Desta vez, não há poll of polls IV. A razão é simples. Da última vez que uma sondagem da Aximage foi divulgada sem ser apresentada a percentagem de indecisos, presumi aqui, para efeitos de comparabilidade com outras sondagens e com os resultados eleitorais, que essa percentagem de indecisos era igual à da sondagem anterior. Contudo, desta vez, o texto diz explicitamente que a percentagem de indecisos diminuiu, mas não sabemos para quanto. Logo, é impossível apresentar os resultados com os indecisos redistribuidos.

Isto implica também que algumas frases no artigo que acompanha a sondagem têm de ser vistas como incorrectas ou, pelo menos, como potencialmente induzindo os leitores em erro. Isso sucede quando se diz, sobre os 7,1% obtidos pelo CDS nesta sondagem, que se trata de "um resultado que coloca o CDS-PP muito próximo dos oito por cento obtidos nas eleições legislativas de 2002"; ou quando, sobre o resultado da CDU (6,2%), se diz ser "um resultado muito semelhante ao obtido nas eleições legislativas de 2002". Quando se escreve assim, está-se a presumir que os resultados da sondagem são comparáveis como resultados eleitorais. Não são. Ao valor de 7,1% do CDS na sondagem corresponde um valor superior em termos de estimativa de intenção de voto. Só não sabemos quão superior, porque a Aximage e o Correio da Manhã não fornecem a informação necessária sobre a percentagem de indecisos.

Dito isto, um dos temas que começa a emergir é o da "descida" do PS. "PS mais longe da maioria", era o destaque de ontem no Correio da Manhã. Na SIC Notícias, Mário Bettencourt Resendes glosava o mesmo tema, falando de "uma descida nas últimas sondagens" para depois parafrasear Mark Twain dizendo que "as notícias da morte política de Santana Lopes são exageradas". E até aqui se sugere a mesma ideia.

Isto é curioso, por diversas razões. Até pode ser verdade que a intenção de voto no PS esteja a diminuir, seja por desmobilização de anteriores apoiantes, seja pela mobilização de anteriores indecisos ou abstencionistas a favor de outros partidos, ou até (menos provável) por transferências do PS para outros partidos. Contudo, a sondagem da Aximage, apesar das aparências, não autoriza essa interpretação. Como se vê no gráfico seguinte, onde as linhas intermitentes marcam as fronteiras superior e inferior das intenções de voto no PS na última sondagem quando se toma em conta a margem de erro amostral com um grau de confiança de 95% (pressupondo que a amostra foi puramente aleatória, o que, ainda por cima, não foi verdade), estes 42,8% podem mesmo significar, na realidade, um aumento em relação as sondagens anteriores (tal como podem significar estabilidade ou até uma descida mais abrupta do que aquela que é directamente visível). A verdade é que, com apenas uma sondagem a indicar uma descida (a não ser que me tenha passado alguma ao lado), a ideia que há uma "descida" do PS carece de qualquer sustentação empírica.



Isto leva-nos para aspectos e discussões mais interessantes do que as ligadas às características técnicas das sondagens ou à sua capacidade para fazer boas inferências descritivas. Esta prevalecente interpretação da sondagem da Aximage como indicando uma descida do PS (tal como a interpretação da anterior sondagem da Eurosondagem sobre a "subida" do BE) corresponde não àquilo que ela diz mas àquilo que os comentadores e analistas acham que está de facto a acontecer (e, nalguns casos, àquilo que desejam que aconteça). Não posso ter a certeza, mas palpita-me que, se a sondagem dissesse o contrário, seria provavelmente desvalorizada, porque não estaria a confirmar aquilo que os observadores da vida política captam com as suas "antenas". E o mais curioso é que, mesmo que acabe por se verificar uma descida do PS, nunca saberemos se ela foi real ou se os votos do PS estavam sobreestimados nas sondagens feitas até agora, ou mesmo se o facto de essa descida ser assim anunciada contribuiu para mudar as expectativas dos eleitores e, logo, as suas intenções de voto (uma self-fulfilling prophecy)

Logo, há muito para discutir sobre as sondagens para além dos seus aspectos técnicos. Mais do que um instrumento de medida da opinião pública, elas devem ser vistas como um fenómeno comunicacional, cujos "números" - seja porque contêm grandes margens de incerteza, seja porque podem ser interpretados de várias formas (algumas erróneas), seja ainda porque diferem de sondagem para sondagem - carecem frequentemente de um sentido objectivo. Elas têm apenas o sentido subjectivo que o discurso dos media lhes quiser dar. E é muito provável que isto tenha consequências reais nos comportamentos.

Mas não me interpretem mal: por acaso, eu também acho que o PS está a descer. Em parte, porque os valores que lhe têm sido atribuídos desde Dezembro têm estado, provavelmente, sobreestimados. E também porque, confesso, Sócrates me faz lembrar Durão Barroso em 2002: "sabe" que vai ganhar, mas desconhece "quanto" poder vai ter, não sabe bem o que vai fazer com ele e aquilo que sabe julga não poder contar a ninguém. E todos nos lembramos como foi a campanha de 2002: uma sondagem da Aximage em Dezembro de 2001 dava nada mais nada menos que 16% de vantagem do PSD sobre o PS...

by Pedro Magalhães