Pedro Magalhães

Margens de Erro

Agradecimentos e mensagens de e-mail

Posted January 19th, 2005 at 3:57 pm4 Comments

Mais menções simpáticas e inclusões em listas de links que gostava de agradecer. Obrigado ao UniverCidade, a O Esquema, ao Any Given Night, à Grande Loja do Queijo Limiano, a O Bico de Gás, a O blogue do Koelhone, ao respublica, ao espiral virtual, ao A ilha do dia antes, ao Universos Críticos, ao A Esquina do Rio, ao Marasmo do Caos, ao portugalidades, ao Portugal dos Pequeninos e ao Quinto Império. Espero não me ter esquecido de ninguém.

Quanto às mensagens, fiz uma promessa que agora constato não poder cumprir (ou não estivéssemos em período eleitoral): a de dar respostas "lentas mas seguras". Lentas certamente, mas seguras...Tenho na caixa algumas dezenas de mensagens às quais, receio, não conseguirei responder individualmente. Mas leio-as todas. Muitas delas vão levantando questões e temas importantes que tentarei discutir aqui. Logo, se tiverem paciência, não desistam.


by Pedro Magalhães

Regra de três, simples (mas longo)

Posted January 19th, 2005 at 10:36 am4 Comments

Num post que coloquei aqui há algum tempo - "Exercício técnico-científico" - sugeri que a projecção de deputados publicada no Expresso no dia 8 de Janeiro não poderia, dada a dimensão da amostra e o seu método de selecção, estar baseada em sub-amostras representativas dos diversos círculos eleitorais. Mas faltou-me explicar como, afinal, a projecção terá sido feita. Na altura não tinha a certeza absoluta, e precisei de fazer umas experiências para confirmar. Mas posso agora dizer-vos com segurança em que consistiu o tal "exercício técnico-científico" do Expresso: numa regra de três simples.

Qualquer pessoa que tenha tempo, paciência e o Excel pode fazer a experiência:

1. Obtenham os resultados dos diversos partidos (pode ser em percentagem) nas eleições de 2002 a nível nacional.

2. Obtenham os resultados dos diversos partidos nas eleições de 2002 em cada um dos círculos eleitorais.

3. Usem os dados de uma sondagem com uma amostra representativa da população eleitora nacional.

4. E agora repitam comigo:
"O resultado do PSD nas eleições de 2002 a nível nacional está para o resultado do PSD nas eleições de 2002 no círculo x como o resultado do PSD na sondagem para as eleições de 2005 estará para o resultado do PSD nas eleições de 2005 no círculo x".

5. Desta forma, temos:

Resultado PSD no círculo x em 2005=Resultado PSD sondagem 2005*Resultado PSD no círculo x em 2002/Resultado PSD a nível nacional em 2002

6. Agora repitam para todos os partidos e para todos os círculos.

7. Na base dos resultados em cada círculo, apliquem o método de Hondt.

8. Somem os deputados.

E já está: uma projecção de deputados na base de uma sondagem sobre intenção de voto nas eleições de 2005 feita a uma amostra representativa do eleitorado nacional. Com a sondagem publicada no Expresso em 8 de Janeiro, a projecção que daqui resulta (sem contar com os círculos Europa e Fora da Europa) é o seguinte:

PS: 118 deputados
PSD: 84 deputados
CDU:12 deputados
CDS: 7 deputados
BE: 5 deputados

Se forem confrontar com o que apareceu no jornal, verificarão que estes resultados encaixam nos intervalos que foram apresentados. Essa apresentação em intervalos resulta, suponho, do facto de, nalguns casos, pequenas variações nas percentagens estimadas para cada círculo na base desta regra de três simples causarem imediatamente mudanças na distribuição dos deputados, especialmente nos círculos de maior dimensão (que distribuem mais deputados).

Este exercício parte de duas pressuposições. A primeira é a de que os resultados da sondagem de intenções de voto nas eleições de 2005 são um bom retrato das intenções de voto da população no momento em que a sondagem foi feita. Mas se isso é ou não verdade é um problema enfrentado por qualquer sondagem, e não é um problema da projecção propriamente dita. A segunda pressuposição - esta sim, crucial - é a de que as mudanças verificadas no comportamento de voto entre 2002 e 2005 a nível nacional serão proporcionais às mudanças verificadas entre 2002 e 2005 em cada um dos círculos. Por outras palavras: pressupõe-se que há diferenças estáveis, estruturais, entre os diversos círculos eleitorais no que respeita aos padrões de comportamento de voto, e que as mudanças ocorridas entre duas eleições são transversais a todos os círculos, repercutindo-se proporcionalmente em cada um deles.

Uma maneira simples de avaliar a bondade destas pressuposições consiste em fazer um pequeno teste. Imaginem que não sabiam os resultados eleitorais em cada círculo em 2002 mas conheciam:

1. Os resultados nacionais de 1999;
2. Os resultados nacionais em 2002;
3. Os resultados por círculo em 1999.

Agora, podem "prever" os resultados por círculo em 2002 com base na regra de três simples e comparar os resultados desta previsão com aquilo que realmente sucedeu. A "previsão" seria a seguinte:

PSD: 101 deputados
PS: 100 deputados
CDS:15 deputados
CDU:11 deputados
BE: 3 deputados

O que aconteceu na realidade foi isto:

PSD: 105 deputados
PS:96 deputados
CDS:14 deputados
CDU: 12 deputados
BE:3 deputados

O que falhou na "previsão"? Em Viana, o CDS perdeu o deputado que tinha em 1999, ao contrário do que seria previsível. Em Lisboa, o PS foi menos punido (e a CDU mais) do que se poderia esperar na base dos resultados a nível nacional. Em Santarém foi o inverso. Em Setúbal, o PSD foi mais longe do que esperaria, em detrimento do PS. Em Évora, a CDU preservou um deputado, que se esperaria perdido na base dos resultados nacionais. E nos Açores, na Madeira, e no círculo fora da Europa, o PS foi desproporcionalmente castigado.

Há várias conclusões que se podem tirar daqui. A primeira é: nada mau. É claro que as pressuposições do modelo são irrealistas, e que há factores e dinâmicas locais que fazem com que as mudanças de uma eleição para a outra não se repercutam da mesma forma em todo o lado. Mas esse irrealismo, que faz com que as estimativas percentuais "previstas" se desviem daquelas que acabam por acontecer, pode não afectar a projecção de deputados de forma muito grave. Especialmente nos círculos mais pequenos, desvios percentuais que podem parecer importantes acabam por ser irrelevantes do que respeita à distribuição de deputados pelo método de Hondt. E como vimos anteriormente, erros verificados nuns círculos acabam por ser compensados por erros na direcção oposta noutros círculos.

É claro que esta interessante e inocente brincadeira, quando usada, talvez devesse ser explicada com algum detalhe, em vez de apresentada de forma um bocadinho pomposa como sendo um "exercício técnico-científico". E espero que seja também evidente que tudo isto depende crucialmente de uma coisa: as estimativas feitas para a intenção de voto em 2005. Tirem uns pontinhos ali e ponham outros acolá, mesmo que sejam só aqueles que decorrem da margem de erro amostral, e vão ver como a projecção muda completamente. E quando a principal questão consiste em saber se um determinado partido vai ou não ter uma maioria absoluta...

by Pedro Magalhães

Mais agradecimentos

Posted January 17th, 2005 at 12:27 pm4 Comments

O CDS e as sondagens: another teaser

Posted January 17th, 2005 at 12:10 pm4 Comments

Entretanto, quer através de mensagens de e-mail recebidas, quer aqui (e aqui), há um tema cuja discussão se começa a impôr: a sistemática desvalorização do CDS nas sondagens pré-eleitorais. O tema é complicado e ando a adiar a coisa, mas prometo que lá irei.

by Pedro Magalhães

O PSD e as sondagens

Posted January 17th, 2005 at 11:19 am4 Comments

Sábado passado, dia de divulgação de uma sondagem pelo Expresso (já aqui tratada), o Secretário-Geral do PSD desafiou todos os partidos a divulgarem o nome das empresas que para eles realizam sondagens, "a bem do rigor, seriedade e credibilidade" e para que, "de uma vez por todas se perceba quais as empresas que um dia trabalham para os jornais e, no outro, trabalham para os partidos" (a notícia do Público assinala que Miguel Relvas se escusou a divulgar no nome das empresas que trabalham para o PSD, mas a verdade é que o fez em frente às câmaras da SIC Notícias: são, segundo o Secretário-Geral do PSD, a Euroteste e a Eurequipa).

Estas declarações vêem no seguimento de muitos outros posicionamentos do PSD sobre este tema, tais como:

- a proposta de proibição de realização de sondagens ou inquéritos de opinião sobre matérias eleitorais a entidades cujos detentores do capital social, membros dos órgãos sociais ou directores ou responsáveis técnicos sejam ou tenham sido membros de partidos políticos nos últimos três anos;

- a preocupação do actual Primeiro-Ministro, quando era ainda candidato à Câmara de Lisboa, com a divulgação de sondagens pela Eurosondagem "em resposta" a uma sondagem da Euroteste (ver aqui);

- a intenção manifestada pelo PSD em 2002 de publicar um "Livro Negro das Sondagens em Portugal", revelando a forma como, "desde 1991, o PSD tem sido invariavelmente prejudicado" nos resultados.

Como não sou jurista, vou deixar de lado a possibilidade da proposta do PSD, prevendo a incompatibilidade entre a militância partidária e a realização de sondagens, ser inconstitucional, quer pelo lado da limitação de direitos políticos quer pelo lado de limitação da liberdade de escolha de profissão. Também não creio que valha a pena perder muito tempo com o argumento de o PSD ter sido invariavelmente prejudicado pelas sondagens. Se quiserem confirmar a invalidade da acusação, olhem para aqui (.pdf). E de resto, o prometido "Livro Negro" acabou por nunca ser publicado, o que por si só já quer dizer alguma coisa.

O que me intriga é outra coisa: o que faz o PSD supor que o consumo de energias e tempo de antena com esta monomania é eleitoralmente compensador? Num estudo de 2002, realizado pelo ICS, 73% dos inquiridos afirmavam ter "pouca" ou "nenhuma" confiança nos partidos, enquanto que apenas "44% deles afirmavam ter "pouca" ou "nenhuma" confiança nos institutos de sondagens. Bem ou mal, justas ou injustas, as percepções são estas. E posto isto, o que pensa o PSD poder ganhar ao chamar ainda mais a atenção para resultados que lhe são manifestamente desfavoráveis, e nos quais os eleitores parecem confiar mais do que nos próprios partidos? Mistério.

E há outro mistério que gostava de decifrar. Ontem, depois de atravessar o viaduto Duarte Pacheco na direcção de Lisboa, julguei vislumbrar um novo outdoor do PSD onde se mostrava um gráfico com os resultados de várias sondagens, indicando uma linha ascendente do PSD (repetindo, aliás, outdoor semelhante já usado nas autárquicas por Santana Lopes). Pareceu-me que uma das sondagens cujos resultados visavam validar esta curva ascendente era uma sondagem do Expresso. Da Eurosondagem. Não pode ser. De certeza que vi mal. Ou não?

by Pedro Magalhães

Teaserzinho II

Posted January 17th, 2005 at 10:48 am4 Comments

Como podem ver no Público, os resultados da sondagem de que falei há dias não são muito surpreendentes, especialmente se tivermos em conta os resultados de estudos anteriores. Contudo, os números, se não surpreendem, continuam a impressionar:

- só 16% dos inquiridos afirmam ter alguma vez contactado directamente com um deputado do seu círculo eleitoral;

-mais de metade dos inquiridos afirma não saber o nome de algum deputado ou deputada que tenha sido cabeça de lista por algum partido no seu círculo eleitoral;

- cerca de 75% dos inquiridos afirmam “concordar” ou “concordar completamente” com as afirmações de que “os políticos só estão interessados nos votos das pessoas e não nas opiniões delas” ou que “os partidos criticam-se muito uns aos outros, mas no fundo são todos iguais”;

- 55% dos inquiridos concordam com a ideia de que “sejam quais forem os resultados das eleições, isso acaba por não fazer grande diferença no curso dos acontecimentos”.

A falta de conhecimento de (e contacto com) os deputados por parte dos eleitores leva-nos para uma discussão complicada sobre o sistema eleitoral, para a qual houve mais mais um contributo interessante ontem [se bem que a diferença entre o que sucede em Portugal e o que sucede em sistemas eleitorais onde os deputados são total ou parcialmente eleitos em círculos uninominais seja muito menos dramática do que possa parecer à primeira vista. Ver aqui (.pdf)].

Mas 55% dos eleitores a pensarem que os resultados das eleições não fazem grande diferença no cursos dos acontecimentos... O que impressiona não é tanto a possibilidade dos eleitores estarem enganados. É a possibilidade de que tenham razão.

by Pedro Magalhães

Flickr

Posted January 17th, 2005 at 12:54 am4 Comments

Já deu para perceber que o Flickr, onde tenho até agora alojado os quadros com os resultados das sondagens, nem sempre se porta bem...Peço desculpa a quem tem sucedido esperar em vão pelo aparecimento dos quadros. Vou ver se arranjo outra solução.

by Pedro Magalhães

Poll of polls III

Posted January 16th, 2005 at 12:05 am4 Comments

A série de sondagens divulgadas nos media desde o anúncio da dissolução da Assembleia resulta no seguinte quadro, que apresenta os resultados tal como destacados pelos órgãos de comunicação social, ordenando as sondagens da mais recente para a mais antiga:




Redistribuidos os indecisos, pressupondo a sua abstenção (ou a sua redistribuição proporcional pelas restantes opções) e feita a média das três sondagens mais recentes ficamos com o seguinte quadro.




Nada de novo. Nem sequer em relação ao Bloco de Esquerda, cuja alegada "subida" alimentou algum debate no Expresso da Meia-Noite ontem na SIC Notícias. Mas reparem no seguinte:

1. Na anterior sondagem da Eurosondagem, o BE teve 4,5% de intenções de voto. Desta vez, teve 5,7%.

2. Contudo, a anterior estimativa do BE tem associada uma margem de erro de 0,9%. Isto significa que, se a anterior sondagem tivesse sido feita na base de uma amostra puramente aleatória, haveria 95% de chances de que as intenções de voto reais no BE na população estivessem entre 3,6% e 5,4%. E nem estamos a contar com erro não amostral.

3. Nesta última sondagem, a estimativa do BE tem associada uma margem de erro de 1,4%. Há assim 95% de chances de que as intenções de voto reais na população estejam entre 4,3% e 7,1%.

4. Assim, o BE passa de 3,6-5,4% para 4,3-7,1%. Isto é uma subida? Não faço a mínima ideia.

É claro que, se a estimativa pontual do BE aparecer de novo a subir para a casa dos 5-6% numa próxima sondagem (da mesma forma como o CDS passou da casa dos 4-5% para a casa dos 6-7%desde as primeiras sondagens da Aximage ou da Eurosondagem), a probabilidade de termos assistido a algo casual diminui um pouco. Mas por enquanto, a afirmação de que a intenção de voto no BE aumentou tem tão pouca sustentação empírica que seria melhor não a fazer.

by Pedro Magalhães

Eurosondagem, 15 de Janeiro

Posted January 15th, 2005 at 11:30 pm4 Comments

Mais uma: Eurosondagem, publicada no Expresso de 15 de Janeiro, realizada também para a SIC e a Rádio Renascença. Resultados tal como destacados no jornal:

PS: 45,7%
PSD: 32,5%
CDU: 6,5%
CDS:6,5%
BE: 5,4%

A soma dá 96,6%. Os restantes 3,4% deverão corresponder aos outros partidos, brancos e nulos. Os indecisos já estão fora disto, dado que se assinala no jornal que estes resultados decorrem de "um exercício meramente matemático, presumindo que os 7,9% que responderam 'Não sabe/Não responde' se abstêm".

Não me vou repetir sobre as malditas casas decimais...

by Pedro Magalhães

Teaserzinho

Posted January 14th, 2005 at 3:29 pm4 Comments

Eu também tenho o meu teaser: fizemos ontem na Católica uma sondagem para a última edição do Prós e Contras na RTP e para o Público. É sobre as eleições, é telefónica e tem uma amostra de dimensão modestinha (655). Mas as perguntas não são sobre intenção de voto nem sobre nada que exija uma precisão acima do convencional. São sobre:

- o grau de interesse dos portugueses pela política;

- se alguma vez tiveram um contacto directo com algum deputado do seu círculo eleitoral (a coisa está formulada de forma a não perder um único contacto seja com quem tenha sido);

- se sabem o nome de algum cabeça de lista de algum partido que alguma vez tenha concorrido em eleições passadas no seu círculo eleitoral;

- e se concordam ou discordam com uma série de items normalmente usados em estudos de cultura política, sobre, por exemplo, se os políticos se interessam pelas opiniões das pessoas, se os partidos são todos iguais ou sobre até que ponto as eleições são importantes para mudar os curso dos acontecimentos.

Tenho os resultados à minha frente, mas não os posso dar aqui antes de o Público o fazer, o que acontecerá na próxima 2ª feira. Contudo, o teaser é este: a eminente previsibilidade dos resultados obtidos (estão alinhados com os resultados de anteriores inquéritos) não chega para mitigar o enorme choque que eles produzem.

by Pedro Magalhães