Pedro Magalhães

Margens de Erro

Poll of polls

Posted January 8th, 2005 at 6:24 pm4 Comments

Coloquemos agora esta última sondagem no contexto das anteriormente publicadas. Foram quatro: duas também da Eurosondagem e duas da Aximage para o Correio da Manhã (uma delas sem ficha técnica, pelo menos na net). Digo "quatro" porque tudo o que se publicou antes do anúncio da dissolução da Assembleia (incluindo uma sondagem da Católica e outra da Marktest pouco tempo antes) não conta: perguntar aos portugueses em que partido votariam caso houvesse eleições quando não há eleições à vista é como perguntar-lhes o que fariam caso eclodisse a III Guerra Mundial. Não sabem, nem lhes interessa.

Vejamos então os resultados tal como destacados pelos órgãos de comunicação, da mais recente para a mais antiga:



Não sei se já perceberam a dificuldade: estes resultados não são comparáveis entre si, e nem todos são comparáveis com resultados eleitorais. Isto sucede porque a Aximage só divulga resultados com indecisos, abdicando sempre de apresentar resultados comparáveis com resultados eleitorais. Isto resulta de uma convicção dos seus responsáveis de que as sondagens são apenas "descrições" de intenções de voto num determinado momento e nunca devem ser vistas como previsões nem sequer comparadas com resultados eleitorais.

Voltaremos a este assunto, mas o certo que é, das duas, uma: ou ignoramos a Aximage (o que seria uma pena) ou fazemos aquilo que se faz em todo o lado há muitos e bons anos nestes casos*:a fim de tornar as sondagens comparáveis entre si e os seus resultados mais intuitivos para o público em geral (ou seja, comparáveis com resultados eleitorais), redistribuem-se os indecisos proporcionalmente quando os responsáveis das sondagens não tomam decisões sobre o que fazer com eles. Ficamos assim com as seguintes estimativas:



Como vêem, as sondagens são menos discrepantes entre si do que parecia no quadro anterior e as diferenças entre os partidos nas sondagens conduzidas em momentos próximos no tempo estão (ainda) dentro das margens de erro. A única tendência desde o início de Dezembro parece ser (surprise, surprise) a subida do CDS-PP (de 5,5 para 6,3 na Eurosondagem e de 4 para 7 na Aximage). Tudo o resto é, para já, trendless (se bem que cinco sondagens não cheguem para trend de espécie alguma) E tudo indica uma vitória confortável do PS, com percentagens que apontam para a maioria absoluta.

Na primeira linha está então a nossa poll of polls, a média das três sondagens mais recentes, que actualizarei regularmente. Tem um interesse, reconheço, limitado, pelo menos em comparação com o que sucede noutros países: em Portugal fazem-se muito poucas sondagens, e a vantagem das médias ("cancelar" o erro aleatório) não se realiza tão bem como desejaríamos. Mas fica a indicação.

Inquietações? As do costume. Primeiro, falta mais de um mês, e sabe-se bem como é volátil o eleitorado português, como são tardias as decisões de muitos eleitores e como são importantes os desempenhos dos líderes partidários nas campanhas, pelo menos para alguns partidos (especialmente à direita...). Segundo, a pressuposição de que os indecisos se vão "redistribuir" proporcionalmente pelas várias opções disponíveis (ou abster-se todos, o que vai dar ao mesmo) é questionável (para além de eu não acreditar que existam tão poucos indecisos...).

Finalmente, olhem para a coluna I. Viram? Tudo T's, ou seja, todas telefónicas. Os problemas são conhecidos: as telefónicas são baratas, mas não apanham quase 20% dos alojamentos que não têm telefone fixo e suscitam imensas recusas. E há outra coisa: ou muito me engano, ou vamos ter este ano alguns potenciais eleitores do PSD com grandes hesitações em reconhecer essa sua hoje tão vilipendiada condição quando questionados pelo telefone ou confrontados com um questionário à entrada da porta. Vamos aguardar pelas simulações de voto em urna - anónimas - para ver se o meu palpite tem pernas para andar...

*Desde, pelo menos, 1949: cf. Mosteller, Frederick et at. (1949). The Pre-election Polls of 1948, Nova Iorque, Social Science Research Council.


by Pedro Magalhães

Eurosondagem, 8 de Janeiro

Posted January 8th, 2005 at 3:43 pm4 Comments

Se é para falar de sondagens, é melhor começar já com a que saíu ontem, 8 de Janeiro, 2005: Eurosondagem, para o Expresso, SIC e Rádio Renascença. Resultados tal como destacados pelo jornal:

PS: 46%
PSD: 33%
CDU: 6,9%
CDS: 6,3%
BE: 4,5%

Algumas notas iniciais:

1. A soma disto dá 96,7%. Presume-se que os 3,3% que faltam correspondem apenas aos inquiridos que declaram tencionar votar nulo, branco ou noutros partidos. Não cabem aqui "indecisos" porque, como nos é indicado no texto, estes resultados resultam de "projecção dos resultados num exercício meramente matemático de distribuição dos 8,4% NS/NR". Em português corrente, isto deve querer dizer que esses 8,3% foram redistribuidos proporcionalmente pelas restantes opções. Assim temos:

PS: 42,2%
PSD: 30,3%
CDU: 6,3%
CDS:5,8%
BE:4,1%
OBN:3,0%
Não sabe/não responde:8,3%

Suponho isto porque é assim que a Eurosondagem costuma lidar com os indecisos, e não porque haja algo na notícia ou na ficha técnica que nos diga se assim foi. Não deveria haver?


2. Outra coisa que convém assinalar - e confesso que nem sempre assim pensei ou agi - é que apresentar resultados de sondagens destas com casas decimais me parece um bocado absurdo.

Vejamos: esta sondagem tem uma amostra de 2010 inquiridos. Se a amostragem tivesse sido puramente aleatória (o que nunca sucede, e a isto voltaremos), isto significaria que está associada aos resultados da sondagem uma margem de erro máxima de 2,19% com um grau de probabilidade de 95%. O que isto significa é que há 95% de chances que, caso todos os eleitores tivessem tido igual probabilidade de serem seleccionados para responder a esta sondagem, o erro máximo cometido na estimação das intenções reais de voto dos eleitores não tenha ultrapassado os 2,19%.

Observemos agora os resultados apresentados para a CDU: 6,9%. Com uma amostra aleatória de 2010 inquiridos, a margem de erro associada a esta estimação concreta para a CDU é de 1,1% (e não 2,19%, que é a margem de erro máxima). Ou seja: esta sondagem diz-nos que há 95% de chances que o resultado da CDU esteja entre os 8% e os 5,8%. Se assim é, porquê o preciosismo de 6,9%. Arredondar para 7%, não chega? Colocar casas decimais nestas circunstâncias é dar uma ilusão de precisão que os dados não justificam.


by Pedro Magalhães

Retrato II

Posted January 6th, 2005 at 3:15 pm4 Comments

Avisam-me que o retrato do blogger não fica completo sem os seus blogues de referência. Mas o certo é que, de referência, ainda tenho só um: o Mistery Pollster. Sugerem-me então que, pelo menos, revele os blogues que leio regularmente. Cá vai, sem ordem especial: Aviz, O País Relativo, A Praia, Barnabé, Bloguítica, Causa Nossa, O Acidental, Fora do Mundo, Blasfémias, Indústrias Culturais, Cartas de Londres, Intermitente, Portugal dos Pequeninos e Homem a Dias. Há outros, mas são de leitura mais irregular.

Sei que o debate ideológico nos blogues é intenso, que é impossível escapar-lhe e que, desse ponto de vista, a lista anterior pode parecer absurdamente eclética. Mas suspeito que não estou sozinho, e a verdade é que os leio por razões completamente diferentes. Uns para meros fins informativos. Outros porque quero saber o que pensam os vários "lados". Outros porque são escritos por pessoas que conheço e de quem já gostava. E outros porque são escritos por pessoas que desconheço mas de quem passei a gostar, pelo menos através do que escrevem.

Contudo, novamente no interesse da full disclosure - porque não creio que haja maneira de falar de sondagens sem acabar por falar de política - vale a pena ser um pouco mais claro. Cá vai: o meu nível de desconforto ideológico com as direitas de O Acidental, o Blasfémias, o Intermitente ou o Homem a Dias tende a ser razoavelmente superior ao meu nível de desconforto ideológico (que também o sinto) com a(s) esquerda(s) do Barnabé, por exemplo. Mas é talvez por isso que procuro ler os primeiros com especial atenção. E mais adianto que as razões que me fazem ler A Praia, o Aviz ou o Fora do Mundo têm pouco ou nada a ver com a ideologia dos autores. Pronto. Está bem assim? Adiante.

by Pedro Magalhães

Retrato I

Posted January 6th, 2005 at 3:11 pm4 Comments

Chamo-me Pedro Magalhães e sou investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Sou "politólogo", na falta de termo menos insatisfatório. E full disclosure: sou responsável pelas sondagens eleitorais do Centro de Sondagens e Estudos de Opinião da Universidade Católica.

Este último aspecto terá, provavelmente, algumas consequências. Não é que me sinta incapaz de analisar as sondagens feitas por outros de uma forma, digamos, imparcial. O que se passa é que acho que há maneiras melhores e maneiras piores de fazer as coisas, e procuro adoptar as primeiras. Logo, é provável que, de vez em quando, venha a ser crítico daqueles que não fazem como eu. Como poderia ser de outra maneira?

by Pedro Magalhães

Princípio

Posted January 6th, 2005 at 3:09 pm4 Comments

Como se começa, depois de dois anos e tal a ler os blogues dos outros?

Assim: nos meses que precederam as últimas eleições americanas, os sites que mais visitei não foram de revistas, jornais, ou blogues de opinião política, mas sim - defeito profissional - o Real Clear Politics e o Mistery Pollster. O primeiro tinha a mais exaustiva de todas as base de dados de sondagens sobre as eleições americanas que encontrei. Já o Mistery Pollster foi o primeiro blogue onde vi questões técnicas ligadas às sondagens, seus resultados e suas implicações políticas discutidas de uma forma simultaneamente séria e (relativamente) acessível.

O objectivo deste blogue é simples. Achei que seria bom que existisse em Portugal uma fonte de informação sistemática sobre as sondagens que vão sendo publicadas. É também provável que, por obrigação profissional, tenha de recolher alguma dessa informação, especialmente durante os próximos treze meses onde haverá eleições legislativas, autárquicas e presidenciais. É possível que tenha algumas coisas para dizer sobre essas sondagens. E essas coisas raramente são ditas (ou podem ser ditas) noutras fontes de informação que não um blogue. Logo, serão ditas e escritas aqui. É só isto. É um princípio.

by Pedro Magalhães