Pedro Magalhães

Margens de Erro

Actualização

Posted September 23rd, 2015 at 12:28 am4 Comments

Mais duas sondagens divulgadas ontem à noite, dia 22: Intercampus e Católica. Tomamo-las em conta no Popstar, apesar de serem parte de tracking polls, porque:

1. A da Intercampus é um boost em relação à sondagem divulgada anteriormente. O que fizemos foi retirar a sondagem divulgada anteriormente e substituí-la pela divulgada ontem à noite.

2. A da Católica, se não erramos, completou agora um ciclo de renovação da amostra. Por outras palavras, a amostra na base de qual se apresentam os resultados divulgados ontem à noite é completamente diferente daquela que foi utilizada na 1º sondagem da tracking da Católica.

Estimativas actualizadas do POPSTAR:

PSD/CDS: 37,3%

PS: 35,6%

CDU: 9%

BE: 5,5%

Coligação sobe, PS desce, CDU com a mesma estimativa que tinha em Janeiro (mas abaixo dos resultados que teve durante quase dois anos, 2012 e 2013) e BE com 5,5% (contra os 3,5% que tinha em Janeiro). As sondagens mais recentes não têm apresentado estimativas para Livre ou PDR. A consequência é que a nossas estimativas se mantém intactas, mas não há nova informação a entrar.

Finalmente, as sondagens da Aximage divulgadas no Correio da Manhã são parte da tracking poll deles, em que se substituem 100 por dia de uma amostra de 700. A sondagem que for divulgada no dia 25, em princípio, terá uma amostra independente da anterior, e será adicionada nessa altura.

PS: Para quem está especialmente atento: por razões que têm a ver com o funcionamento dos gráficos e nada têm a ver com as estimativas apresentadas, há uma sondagem da Eurosondagem que está a aparecer duas vezes em dois dias diferentes nos gráficos, ao passo que as da Intercampus de que falava no ponto 1 aparecem ambas. Estamos a tentar resolver. Mas isto não tem impacto nos resultados.

by Pedro Magalhães

“Empates técnicos”

Posted September 21st, 2015 at 10:16 am4 Comments

Muita gente a dizer que as sondagens gregas anunciavam um empate técnico e que, afinal, o Syriza ganha com mais de 7 pontos de vantagem. Ui, as horríveis sondagens, e em Portugal vai ser o mesmo, e etc e tal.

Não faço ideia se "vai ser o mesmo", mas convém notar que, apesar da vantagem média do Syriza nas últimas 16 sondagens pré-eleitorais realizadas na Grécia - aquelas cujo trabalho de campo terminou, o mais tardar, dia 17 - ser de 1.1 pontos percentuais, nada menos que 12 delas estimavam as intenções de voto como sendo superiores para o Syriza, uma um empate, e 3 intenções de voto superiores para a ND. Naquelas cujo trabalho de campo terminou mais tarde (dia 18), a vantagem média foi de 2 pontos percentuais e o Syriza liderava em 6 dessas 7.

A partir do momento em que isto acontece, convém começar a pensar no seguinte: o facto de uma sondagem em particular produzir estimativas de intenções de voto onde, tendo em conta os resultados e a amostra utilizada, a vantagem estimada para um partido não é estatisticamente significativa, não significa que, no conjunto das sondagens, essa vantagem não o seja. Como obviamente não sei grego não consigo analisar os relatórios de cada sondagem e perceber qual a amostra de cada uma e, especialmente, qual a sub-amostra na base da qual se calculam as intenções de voto retirando declarados abstencionistas, indecisos e não respostas. Mas noto que aquelas das quais consigo pelo menos perceber a amostra total usada, as amostras são relativamente grandes (1200, 1083, 1003, etc). Seria preciso fazer cálculos para os quais não tenho elementos suficientes, mas não é de excluir que, agregadas estas sondagens e tomada em conta a base amostral de cada uma e a do conjunto das sondagens, esta sucessão de "empates técnicos" mas quase todos a favor do Syriza não seja "empate técnico" nenhum. Ou seja, que a vantagem do Syriza no conjunto das sondagens fosse estatisticamente significativa.

É fácil de ver que em Portugal não temos isto (ainda?). Das últimas cinco sondagens divulgadas (as mais recentes), 3 colocam a coligação à frente mas 2 colocam o PS à frente. É certo que duas delas dão vantagens à coligação na ordem dos 6-7 pontos (Aximage no início de Setembro e Católica mais recentemente), e isso está a reflectir-se nas estimativas do Popstar (que passaram a colocar, precisamente, a coligação à frente). Mas já vimos que, por enquanto, as amostras usadas em várias destas sondagens são relativamente pequenas, especialmente na comparação com o que vimos na Grécia nas sondagens realizadas na recta final da campanha (e em Portugal veremos certamente algo semelhante). E por tudo isto, as estimativas do Popstar, que calculam o intervalo de confiança das estimativas, mostram que esses intervalos estão (ainda?) sobrepostos.

O Syriza acabou por ter uma vantagem maior do que o conjunto das sondagens realizadas até dia 18 lhe davam? Sim. Porque houve eleitores que se decidiram à última hora no seu sentido? Porque houve eleitores ND que declararam uma intenção mas tenderam a abster-se mais do que os outros? Porque houve eleitores que ocultaram o seu sentido de voto quando inquiridos? Porque houve um enviesamento comum na construção das amostras que levou a subestimar o eleitorado do Syriza e sobrestimar o eleitorado da ND? Tudo isso é possível, mas o que perturba nas eleições gregas não é tanto as sondagens pré-eleitorais: é a sondagem à boca das urnas, a exit poll. Porque aí podemos excluir as explicações ligadas a "intenções" e, mesmo assim, estas subestimação do Syriza e sobrestimação da ND verificaram-se na mesma: a vantagem estimada foi de 4.1 mas acabou por ser maior, e os resultados ficaram fora dos intervalos anunciados para cada um dos partidos.

Em suma: cuidado com o conceito de "empate técnico".

by Pedro Magalhães

A duas semanas

Posted September 19th, 2015 at 10:15 am4 Comments

1. PS e coligação PSD/CDS estão empatados nas sondagens. Já sei, já sei, a Católica dá 7 pontos de vantagem à coligação. Mas recordem-se que na semana passada a Aximage dava quase seis, ficou tudo doido, e depois na sondagem de ontem essa vantagem ficou reduzida a pouco mais de 1 ponto. Calma. Não vale a pena andarmos a discutir sondagem a sondagem, especialmente se tiverem amostras pequenas de inquiridos a dar a sua inclinação de voto, como algumas das mais recentes. O retrato de conjunto é que conta, e esse está num agregador como o Popstar: PSD/CDS, 36,2%; PS, 35,8%. A diferença, mesmo agregando várias sondagens (e assim aumentando a base amostral implícita), não é significativa.

Screen Shot 2015-09-19 at 09.42.53 2. A outra parte da história que estas estimativas do Popstar nos contam é que o PS tem estado a descer desde o início de Julho. Nessa altura, as intenções de voto no PS podiam ser estimadas em 37,5%. Foi o máximo histórico na legislatura. Nunca mais voltou a esse nível.

3. Que a coligação esteja a subir é menos evidente. Ao contrário do que sucede com o PS, os resultados da coligação estão muito dispersos, mais altos para a Aximage e a Católica, mais baixos para a Eurosondagem e para a Intercampus.

Screen Shot 2015-09-19 at 09.57.27 4. Se o PS está a descer e a coligação está estável, quem está a subir? Desde meados de Junho, é o Bloco de Esquerda, de mínimos históricos na legislatura de 4% para os actuais 5,4% na estimativa do Popstar. É verdade que isto é pouco mais do que os 5,2% que o BE teve em 2011, mas é sem dúvida um sinal positivo para o partido. A CDU está estável. Sobre PDR e Livre, começa a ser difícil falar, dado que não aparecem individualizados nas em duas das sondagens mais recentes. Não é bom sinal para eles.

Screen Shot 2015-09-19 at 10.03.35 .

by Pedro Magalhães

Negatividade no Twitter sobre Costa, Passos e Catarina Martins

Posted September 17th, 2015 at 4:26 pm4 Comments

No gráfico abaixo, vemos a evolução (amaciada) do rácio entre o número de menções diárias no Twitter que o Popstar classificou como positivas feitas a Costa, Passos e Catarina Martins e aquelas que classificou como negativas. Convém notar que isto é o logaritmo do rácio, tendo em conta que as menções negativas são muito (mas mesmo muito) mais prevalecentes que as positivas. Mas digamos que valores superiores correspondem a "menos negatividade", valores inferiores a "mais negatividade".

Screen Shot 2015-09-17 at 16.24.29 Se olharmos para as últimas semanas, vemos que, até ao início de Agosto, Costa objecto de menor negatividade que Passos. Mas no início de Agosto, isso muda. Surpreendidos? E só muito recentemente a tendência se inverte. Entretanto, Catarina Martins em subida desde meados de Agosto. Infelizmente, não temos sondagens suficientes para medir a opinião pública com esta granularidade, e não convêm tirar excessivas conclusões. Mas parece-me pelo menos curiosa a coincidência entre estas tendências e, creio, o senso comum. Talvez o teste do algodão seja ver o que sucede depois do debate de hoje...

by Pedro Magalhães

Costa v. Jerónimo

Posted September 17th, 2015 at 12:28 pm4 Comments

António Costa e Jerónimo de Sousa debateram ontem. Em consequência, no Twitter, no dia de ontem, um pico para Jerónimo, identificado pelo Popstar como target de tweets 131 vezes. Costa 358 vezes. Recordo que estas são as menções durante todo o dia, nem todas terão a ver com o debate, mas mesmo assim notam-se as consequências para o "buzz" em torno do dirigente comunista.

Screen Shot 2015-09-17 at 12.19.31 96 menções classificadas como negativas para Jerónimo, 73% do total. 235 negativas para Costa, 65% do total. A minha hipótese é que os apoiantes dos partidos da coligação não terão prestado muita atenção a Costa ontem. Caso contrário, seria de esperar uma negatividade bem maior e próxima do habitual.

by Pedro Magalhães

Passos v. Costa no Twitter

Posted September 15th, 2015 at 6:15 pm4 Comments

O debate entre Passos Coelho e António Costa rebentou com o Twitter. No dia 9 de Setembro, o Popstar captou um total de 9821 menções a um ou a outro na twittosfera portuguesa. No dia seguinte, o número de menções foi muito inferior (1677 no total): Screen Shot 2015-09-15 at 17.20.56 Nas notícias online e nos blogues há picos semelhantes, se bem que com valores absolutos obviamente muito inferiores: Screen Shot 2015-09-15 at 17.24.22 Screen Shot 2015-09-15 at 17.25.17 Qual o sentimento expresso na twittosfera sobre os dois líderes políticos nesses dias? O Popstar treinou uma ferramenta de análise de sentimento no Twitter para medir a polaridade das menções no Twitter, distinguindo entre negativas, neutras e positivas. O gráfico seguinte mostra, para os dias 9 e 10, a proporção de menções codificadas como negativas para cada líder partidário: Tweets negativos Conclusões? A primeira é que a esmagadora maioria das menções são classificadas como negativas pela nossa ferramenta, seja porque as menções aos líderes nos tweets co-ocorrem com palavras (na base deste léxico), expressões, emoticons, ou linguagem informal com polaridade negativa, seja porque o vocabulário utilizado tem alta probabilidade de estar associado a mensagens que codificadores humanos anteriormente classificaram como negativas. A segunda é que, apesar disso, essa proporção diminuiu fora "do calor da batalha", com um aumento de menções neutras. A terceira é que as diferenças entre os dois líderes partidários são muito pequenas, com ligeira (des)vantagem para Passos Coelho em termos de proporção de menções negativas. Não me parece avisado retirar daqui qualquer conclusão para além desta pura descrição dos dados. São o que são, com as suas limitações. O retrato geral, contudo, é de uma twittosfera política usada predominante como arma de crítica política, especialmente em cima do acontecimento. Nada de muito surpreendente, mas é interessante vê-lo quantificado.

Já agora, se formos ver o que se passou com Catarina Martins e os seus interlocutores nos dias em que debateu, vemos um fenómeno interessante. Catarina Martins é sempre "target" de menos tweets nesses dias do que aqueles com quem debateu (uma desproporção que se torna brutal no caso do debate com Portas, 290 v. 1229), mas também de menos tweets negativos e até de bastantes menções que a ferramenta classifica como positivas. catarina

by Pedro Magalhães

De Maio a Setembro

Posted September 9th, 2015 at 12:33 am4 Comments

Eurosondagem Aximage Maio Setembro Coisas muito simples e evidentes (bem, algumas talvez não tanto):

1. A direcção geral das coisas para o PS e para a coligação é semelhante para as duas empresas: PS a descer, coligação a subir.

2. Empates técnicos entre os dois primeiros nas duas empresas. "Como?", dirão. Na Eurosondagem, PS está à frente por um ponto, mas na Aximage a coligação lidera por 5.6 pontos. Vejamos: na Eurosondagem, a diferença entre PS e coligação não é, evidentemente, estatisticamente significativa. Na Aximage, apesar de ser uma vantagem de quase 6 pontos para a coligação PSD/CDS, a amostra tem 602, 36% aparentemente abstêm-se, a estimativa baseia-se portanto em 384 pessoas, pelo que consigo retirar daqui. Logo a margem de erro da diferença entre as proporções .389 e .333 é de .085 e a diferença (.056) está dentro dela. Em suma, na Aximage também temos um "empate técnico", embora não pareça, bem sei.

3. Livre, CDU, BE e PDR relativamente estáveis nas duas empresas. A subida de 0.8 pontos na CDU e a descida igual do PDR na Aximage podem excitar-vos, mas não devem, porque as amostras são pequenas e estas diferenças não são significativas.

A principal diferença entre Eurosondagem e Aximage é que a descida do PS e a subida da coligação são graduais na primeira desde Maio, enquanto que, na segunda, a maior parte da mudança, especialmente a descida do PS, dá-se de Julho para Setembro.

Em suma: pegando na informação em conjunto, hoje não é possível dizer que uma lista tem vantagem sobre outra. Já do ponto de vista das tendências, ambas as empresas indicam uma subida da coligação e uma descida do PS. Só os timings dessa mudança variam.

by Pedro Magalhães

The Portuguese missing link

Posted August 5th, 2015 at 11:12 am4 Comments

This piece about Portugal being the "missing link" in a wave of party system transformation in Southern Europe had me quickly thinking about another way of visualising Portugal's specificity, if any. So here it is. I show the electoral scores of the member parties of the European Popular Party and the Party of European Socialists in the three countries since their first democratic elections. For 2015, while Greece is measured using the 2015 election results, for Spain and Portugal I use the latest poll estimates (here and here).

seurope So you can see Spain moving towards a basic 2/2.5 party system with the demise of UCD and its successor CDS, Greece's consolidation of a pure two-party system with the collapse of EDIK, and Portugal's brief stint with fragmentation with PRD in the mid 1980s. By the late 2000s, they had basically converged. Then, well...

by Pedro Magalhães

“Indecisos” (2)

Posted July 27th, 2015 at 11:54 pm4 Comments

No post anterior falei um pouco dos ditos “indecisos” tal como captados pelas sondagens pré-eleitorais e das grandes discrepâncias entre centros de sondagens a esse respeito. Não foi a primeira vez que falei no assunto, e receio repetir-me. Por isso, de seguida, gostava de olhar para esta questão dos “indecisos” de outro ponto de vista.

Os inquéritos pós-eleitorais do ICS, realizados desde 2002, depois de colocarem aos inquiridos a questão sobre se votaram ou não na eleição, e de, aos que afirmam que sim, lhes perguntar em que partido votaram, colocam uma questão adicional:

“Quando decidiu em que partido votar nas legislativas de <mês> <ano> ?

1. No própria dia das eleições.

2. Na véspera.

3. Na última semana.

4. No mês antes da eleição.

5. Mais de um mês antes da eleição."

Se separarmos aqueles que afirmam que já tinham decidido em quem votar mais de um mês antes da eleição dos que dizem ter decidido apenas no último mês e compararmos o seu comportamento de voto, ficamos com uma ideia de como a fase final da campanha influenciou os resultados, assim como da forma como se "arrumaram" pelas opções disponíveis os eleitores que só se decidiram nessa fase. É evidente que, em rigor, aqueles que dizem que decidiram a menos de um mês da eleição não se confundem com os “indecisos” das sondagens realizadas a menos de um mês da eleição, seja qual for a maneira como os tentemos medir: na verdade, é possível que muitos daqueles que se dizem indecisos nas sondagens acabem por não votar, e no inquérito concentramo-nos apenas naqueles que de facto votaram. E recorde-se que tudo isto se baseia em relatos das pessoas sobre os seus comportamentos num passado recente, matéria passível de muita racionalização. Contudo, na ausência de estudos de painel (que acompanhassem uma mesma amostra de eleitores ao longo do tempo), esta é, mesmo assim, a melhor aproximação ao potencial impacto na eleição dos "indecisos" (ou dos que dizem ter decidido mais tarde).

Os gráficos seguintes mostram a distribuição dos resultados eleitorais para os cinco principais partidos em cada eleição (Total), assim como as das recordações de voto daqueles que dizem ter decidido a mais de um mês e as dos que decidiram a menos de um mês de cada eleição, usando os inquéritos do ICS:

2002 2005 2009 2011 Há algumas conclusões possíveis:

1. Os que dizem ter decidido no último mês não se comportam de forma dramaticamente diferente dos que dizem ter decidido antes. Se o resultado final das eleições fosse determinado apenas pelos primeiros, os mesmos partidos teriam ganho as eleições em cada caso, e haveria apenas algumas mudanças nas posições relativas dos partidos mais pequenos. Isto é verdade até em 2002, a eleição mais renhida de sempre em Portugal: o PSD ganhou entre os que decidiram cedo, mas também entre os que decidiram mais tarde. Os ditos “indecisos” de final da campanha, em todas as eleições, não foram radicalmente diferentes no seu comportamento eleitoral.

2. Dito isto, há um padrão invariável. O PS, PSD e a CDU são mais fortes entre os que dizem ter decidido mais cedo do que entre os que dizem ter decidido no último mês. Isto é o mesmo que dizer que os eleitores que decidem mais tarde tenderam a apoiar desproporcionalmente o CDS-PP e o BE em todas as eleições sob consideração: 2002, 2005, 2009 e 2011. Uma das ideias mais difundidas sobre os "later deciders" é que são mais jovens e mais instruídos e com identificações partidárias mais débeis, e isto confere com o que sabemos sobre os eleitorados do CDS e do BE.

O que dizer então da teoria de que a coligação tem um potencial eleitoral ainda por realizar junto dos indecisos? Quatro eleições são só quatro eleições, e nada nos garante que a história se repita uma quinta vez. Mas nas eleições anteriores, ao passo que o CDS parece ter-se dado sempre melhor entre os eleitores que dizem ter decidido no final da campanha, o PSD deu-se sempre pior. Entre ganhos e perdas, a coisa deverá ter sido ela por ela para os dois partidos vistos como um conjunto. As diferenças entre os "early deciders" e os "late deciders" nunca foram dramáticas, e nem sequer em 2002 serviram para mudar o desfecho principal. Em suma, está por provar que os tais "indecisos" sejam tão decisivos como muita gente parece pensar.

by Pedro Magalhães

“Indecisos” (1)

Posted July 27th, 2015 at 10:34 am4 Comments

Numa entrevista concedida ao último Expresso, Luís Montenegro, líder parlamentar do PSD, explicava que, apesar de PS e coligação estarem “mais ou menos empatados” nas sondagens, a coligação tinha mais potencial de crescimento entre aqueles que ainda não decidiram em quem votar. Quer o PSD quer o CDS teriam perdido eleitores ao longo dos últimos anos que seriam da “área política” dos dois partidos, “que dificilmente votariam noutra opção” e seriam por isso recuperáveis para a coligação. Já o PS, na opinião de Montenegro, daria sinais de não ter margem de crescimento eleitoral.

Tenho imensa curiosidade de saber se isto é verdade. De resto, imagina-se facilmente o que se poderia fazer num inquérito:

a. Questionar os eleitores sobre se tencionam votar na próxima eleição e acerca de outros “marcadores” habituais de propensão para votar, detectando os abstencionistas quase certos ou convictos.

b. Entre os restantes, indagar sobre o partido em que tencionam votar. Em princípio, entre os que já têm uma preferência e a revelam, deveríamos ter o tal “empate” entre coligação ou PS, ou algo próximo disso.

c. Mas depois há aqueles que deverão ou poderão votar mas não sabem ainda em quem. A esses, perguntaria:

- Se tendem a simpatizar com algum partido.

- Onde se posicionam ideologicamente.

- Pedir-lhes que digam, para cada partido, por exemplo numa escala de 0 a 10, se alguma vez contemplariam votar nele.

Se Montenegro tiver razão, entre esses ditos “indecisos”, deveríamos encontrar desproporcionalmente simpatizantes dos partidos da coligação, pessoas que se situam no centro-direita e pessoas que contemplariam mais facilmente votar num dos partidos da coligação do que nos outros. Isso seria indicação de um potencial eleitoral ainda por realizar. Infelizmente, não tenho esses dados, mas imagino que os partidos e as empresas de sondagens os tenham.

Mas por outro lado, pensando melhor, a tarefa pode não ser tão simples. O gráfico abaixo mostra a evolução da percentagem dos ditos “indecisos” (em relação ao total daqueles que tencionam votar e excluindo as não respostas) nos inquéritos do CESOP da Católica ao longo das sondagens realizados nos 180 dias antes das eleições de 2009 e 2011, assim como os das sondagens realizadas até agora nos 180 dias antes de 4 de Outubro de 2015 (os dados são retirados dos depósitos na ERC).

CESOP indecisos A primeira coisa que se vê é que são muitos. Estes “indecisos” chegaram a ser mais de 40% dos eleitores que afirmavam tencionar votar, a menos de dois meses da eleição de 2011. A segunda coisa que se vê é que há diferenças de eleição para eleição. Foram sempre mais nos seis meses antes da eleição em 2011 do que no mesmo período antes da eleição de 2009. Não surpreende, tendo em conta que foram eleições antecipadas e realizadas num contexto de maior incerteza, ligada ao resgate e ao apuramento de responsabilidades pela situação económica. Até agora, 2015 tem estado a meio caminho deste ponto de vista. E a terceira coisa que se nota é que o seu número só começou a diminuir a cerca um mês (ou menos) antes do dia da eleição em 2009 e 2011.

Mas vejamos agora o que se passa com a Eurosondagem. A Eurosondagem reporta percentagens para o agregado “Não sabe/Não responde”, o que faz supor que teríamos números maiores que na Católica. Mas não é isso que sucede, pelo contrário: os valores quase são sempre parecidos com os valores de 2009 para a Católica. Mais: não há diferenças entre eleições. E a única semelhança com a Católica é uma diminuição da percentagem de “Ns/Nr” no final, mas neste caso apenas nas últimas duas semanas.

Eurosondagem indecisos E vejamos agora a Aximage:

Aximage indecisos Os valores da Aximage são muito menores que os das outras duas empresas, 8% dos que tencionam votar, no máximo. Mais: os indecisos, em vez de diminuírem ao longo da campanha ou no seu final, pelo contrário, aumentam ligeiramente. E se há algo que distingue 2015 das restantes é que, na Aximage, os valores dos “Indecisos” têm sido ligeiramente inferiores aos das outras duas eleições.

Em suma, o único ponto de contacto é a diminuição destes indecisos nas derradeiras sondagens no CESOP e na Eurosondagem. No resto, os dados das diferentes empresas não têm quase nada a ver uns com os outros. O que poderá estar por detrás destas discrepâncias? O facto da Aximage recorrer a uma "pool"de 22.000 pessoas da qual extrai a sua amostra para cada estudo? A diferença entre inquirição telefónica e presencial? Diferentes definições e maneiras de medir o conceito de "indecisos" e de filtrar votantes prováveis? Sinceramente, não consigo responder. Mas parece evidente que a detecção destes eleitores indecisos é muito mais complicada do que parece à primeira vista. No post seguinte vou abordar esta questão de uma maneira completamente diferente, recorrendo a estudos pós-eleitorais em vez de recorrer a sondagens pré-eleitorais.

by Pedro Magalhães