Pedro Magalhães

Margens de Erro

Pontos centrais em escalas

Posted November 2nd, 2010 at 12:44 am4 Comments

No Cachimbo de Magritte, Tiago Mendes escreve:

"Outro ponto, técnico, e que seria importante esclarecer, é saber porque é que a sondagem da Católica, ao que tudo indica, não inclui uma opção entre "Bom" e "Mau" - razoável, médio, satisfatório, indiferente, o que seja."

Duas coisas:

1. Este post tinha uma ligação para aqui, para o Margens de Erro. Mas a verdade é que desde Janeiro que trabalho em exclusividade no ICS-UL, tendo deixado a colaboração com o CESOP e a Católica. Se escrevo isto de novo é porque pensava que era um facto conhecido mas, nos últimos dias, por e-mails recebidos e comentários vários, notei que não.

2. Dito isto, a ausência de um ponto central na escala de avaliação de governo foi uma decisão minha, e posso responder por ela. Quando esse ponto central está presente ("nem bom nem mau", etc) ele tende a ser usado para mero fim de redução de esforço por parte do inquirido ou para evitar declarar posição perante o inquiridor. A investigação que conheço sobre o assunto mostra que os dados obtidos com escalas que usam este tipo de pontos centrais são menos válidos e menos fiáveis. Sobre o assunto, ver isto ou isto. Tendo a encarar tudo aquilo que Willem Saris escreve sobre questionários com alguma reverência. Logo, sempre que posso - e especialmente quando isso não prejudica gravemente comparações com inquéritos anteriores - proponho a eliminação destes pontos centrais. Acho até que isso é especialmente importante num país com as características do nosso (por razões educacionais e culturais várias).

by Pedro Magalhães

Marktest,19-24 Outubro, N=807, Tel.

Posted October 29th, 2010 at 3:22 pm4 Comments

Agora as presidenciais:

Cavaco Silva: 71,3%
Manuel Alegre: 20,2%
Fernando Nobre: 5%
Francisco Lopes: 1,1%
Defensor de Moura: 0,9%

Fonte.

by Pedro Magalhães

CESOP, 23-25 Outubro, N=1140, Presencial

Posted October 28th, 2010 at 11:34 pm4 Comments

Intenções de voto após redistribuição de indecisos (e apenas entre quem tem a certeza que votaria em legislativas):

PSD: 40%
PS: 26%
BE: 12%
CDU: 8%
CDS-PP: 7%
OBN: 7%

Em relação ao total da amostra, a distribuição é a seguinte:
PSD: 17%
PS:13%
BE: 5%
CDU:4%
CDS-PP: 3%
OBN:7%
Não votava:22%
Não sabe: 24%
Recusa responder: 6%

Para que a vantagem do PSD seja tão expressiva nas estimativas de resultados eleitorais em comparação com os resultados brutos, isso quer dizer que há um "enthusiasm gap" à portuguesa: quando restringimos aos eleitores que dizem que "têm a certeza que vão votar", o PS afunda.

Também se obtiveram intenções de voto para as presidenciais:
Cavaco Silva: 63%
Manuel Alegre: 20%
Fernando Nobre: 7%
Francisco Lopes: 3%
Defensor de Moura: 1%

Aqui.

by Pedro Magalhães

Marktest, 19-24 Out., N=807, Tel.

Posted October 28th, 2010 at 9:39 am4 Comments

Após redistribuição proporcional de indecisos:

PSD: 42%
PS: 25%
BE: 10%
CDU: 8,3%
CDS-PP: 8%

Fonte aqui. Comparar com sondagem anterior: PSD sobe quatro pontos, PS desce quase 11, vantagem de PSD sobre PS passa de pouco mais de 2 pontos para 17.

Sobre isto, acho que vale a pena fazer um comentário. É certo que Portugal é um país onde há muita volatilidade de eleição para eleição, onde o voto se encontra pouco ancorado socialmente, e onde
muitos eleitores declaram não se sentirem próximos de qualquer partido e respondem "5"  ("centro") quando convidados a posicionarem-se ideologicamente numa escala de 0 (esquerda) a 10 (direita). Logo, flutuações importantes de sondagem para sondagem não são coisa que nos deva espantar demasiado, porque o voto se encontra comparativamente pouco ancorado em factores sociais, psicológicos ou ideológicos que que lhe dêem estabilidade. Dito isto, a diferença entre esta sondagem e a anterior é muito grande. Uma ideia, nada original, seria fazer nessas sondagens algumas perguntas que nos permitissem algum controlo sobre a "representatividade política" da amostra.

Em tempos, a Marktest (e outras empresas) perguntavam aos inquiridos como tinham votado na eleição anterior e usavam esses resultados para ponderar as intenções de voto. Por exemplo, se na amostra a percentagem daqueles que dizem ter votado em 2009, digamos, na CDU, fossem metade daqueles que realmente votaram, o resultado ponderado duplicaria as intenções de voto nesse partido para a sondagem em concreto. Sempre me pareceu má ideia fazer isso, pela simples razão de que a memória da pessoas é muito selectiva. Uma alternativa preferível seria perguntar às pessoas de que partido se sentem mais próximas ou o seu posicionamento ideológico. Há inquéritos - como o European Social Survey, realizado de 2 em 2 anos - onde essas questões são colocadas a amostras de qualidade necessariamente muito superior às de uma qualquer sondagem eleitoral e onde a distribuição obtida poderia servir de "gold standard" para uma comparação. É evidente que identificação partidária ou posicionamento ideológico não são imutáveis, mas são bastante mais estáveis e fiáveis que a recordação de voto numa eleição ocorrida há meses ou anos. Conhecendo esses resultados para a sondagem eleitoral, ficaríamos com uma ideia sobre o que poderia estar por detrás de mudanças tão grandes como as detectadas nas duas últimas sondagens da Marktest, e se essas mudanças reflectem - como até é plausível que tenha sucedido - reais mudanças nas preferências das pessoas.

Nada disto é novo, e encontramos este tipo de discussão com muita frequência sobre as sondagens feitas nos Estados Unidos. Um exemplo.

by Pedro Magalhães

Eurosondagem, 6-12 Out., N=1021, Tel.

Posted October 15th, 2010 at 1:36 am4 Comments

PS: 35,3%
PSD: 35,3%
CDU: 8,4%
CDS: 8%
BE: 7,8%


Aqui.

by Pedro Magalhães

Atrasada: Eurosondagem, 30 Set., N=620, Tel.

Posted October 13th, 2010 at 10:19 am4 Comments

PSD: 35%
PS: 33%
CDU: 9,7%
BE: 9,3%
CDS: 7%

A dimensão da amostra utilizada é bastante inferior ao habitual na Eurosondagem.

by Pedro Magalhães

Aximage, 6-9 Outubro, N=600, Tel.

Posted October 13th, 2010 at 10:07 am4 Comments

Há uma sondagem recente da Aximage, cujos dados estão muito incompletos na notícia online. Quando o depósito na ERC estiver visível actualizo tudo isto. Contudo, é curioso que dê o mesmo sinal que a sondagem Intercampus: PS e PSD a descerem.

Nas presidenciais, a mesma coisa: Cavaco Silva a descer, Manuel Alegre a subir. Mais exactamente:

Cavaco Silva: 55,1%
Manuel Alegre: 35,7%
Fernando Nobre: 7,1%
Francisco Lopes: 1,9%
Defensor de Moura: 0,2%

by Pedro Magalhães

Entretanto, no Brasil…

Posted October 12th, 2010 at 12:56 pm4 Comments

Que eu saiba, há apenas uma sondagem realizada para o 2º turno: Datafolha (8 Out., N=3.265): após redistribuição de indecisos (7%), Dilma 54%, Serra 46%.

Uma análise muito interessante sobre o peso do Bolsa Família nas eleições, aqui. Como é óbvio, não se deve inferir causalidade, porque os dados são agregados (em vez de individuais) e a relação pode ser espúria (as razões que fazem com que indivíduos recebam Bolsa Família já os predisporia seja como fosse a votar Dilma). Mas é sugestivo.

by Pedro Magalhães

Intercampus, 4-6 Out, N=609, Tel.

Posted October 9th, 2010 at 11:06 pm4 Comments

A notícia no site da TVI24 não menciona nem data de realização do estudo, nem dimensão da amostra, nem modo de inquirição. Teremos de concluir que a TVI supõe que a Lei 10/2000 não se aplica a sites da internet e que a ERC não tem jurisdição sobre nada disto. Contudo, aqui vai:

Legislativas:
PSD: 35,2%
PS: 32%
PCP: 11,1%
BE: 10,6%
CDS-PP: 9,1%

Presidenciais:
Cavaco Silva: 55,5%
Manuel Alegre: 30,7%
Francisco Lopes: 5,6%
Fernando Nobre: 4,9%
Defensor de Moura: 1,2%

Em comparação com a última sondagem da Intercampus que conheço, de Julho passado, o PSD desce 4 pontos, o PS desce 2,4 pontos, CDU, BE e CDS-PP sobem (mas diferenças não são estatisticamente significativas). Cavaco Silva desce quase 4 pontos e Alegre sobe quase 4 pontos. Claro que, ao passo que comparar sondagens dentro do mesmo instituto é sempre uma boa ideia ("house effects"), comparar Julho com Outubro pode não ser.

P.S. - A ficha técnica está no Público. Obrigado a Luciano Alvarez pela chamada de atenção.

by Pedro Magalhães

Uma previsão dos resultados das presidenciais (1)

Posted October 7th, 2010 at 5:02 pm4 Comments

Em Julho de 2008, eu e o Luís Aguiar-Conraria escrevemos um paper onde fazíamos uma previsão dos resultados eleitorais das legislativas de 2009, que viriam a ocorrer a 27 de Setembro, mais de um ano depois. Essa previsão, apontava para que o PS tivesse 38,4%, e uma vantagem de 11,3 pontos sobre o PSD, ou seja, 27,1%. Num artigo posterior, escrito poucos meses depois mas publicado em Junho de 2009, afinávamos a nossa previsão para o PS: 37,1%. Em Setembro de 2009, o PS obtinha 36,7% dos votos e o PSD 29,1%.

Como já aqui explicámos, esta previsão deixou-nos ao mesmo tempo entusiasmados e perplexos. Entusiasmados pela enorme precisão. Perplexos porque o cenário macroeconómico no qual baseámos as nossas previsões - e que era o adiantado pelas organizações internacionais à época - não se veio a concretizar. Pelo contrário, o que sucedeu, a partir de finais de 2008, foi uma recessão internacional sem precedentes desde os anos 30. Assim, a nossa questão tornou-se outra: por que razão a previsão baseada em "previsões de crescimento económico" (e não nos dados reais da economia) esteve tão próxima dos resultados finais? Pode ter sido mero acaso. Mas pode ser que isto nos diga algo sobre como a realidade económica é percebida pelos eleitores (abrindo parêntesis, é curioso verificar, no recente inquérito dos Transatlantic Trends,  como os portugueses foram, de todos os países inquiridos, aqueles onde a percepção de consequências concretas da crise era mais baixa em 2009 e onde mais subiu de 2009 para 2010). Vamos trabalhar nisto.

Entretanto, obedecendo a um poderoso impulso suicidário, tivemos entretanto outra ideia: e qual uma previsão dos resultados das presidenciais? Péssima ideia. Vamos a isso.

Péssima ideia porquê? Várias razões:

1. Na democracia portuguesa, tivemos 7 (sete) eleições presidenciais. Se quisermos prever o futuro na base do passado, podemos usar não mais de 7 (sete) observações. É muito, muito pouco.

2. A maior parte dos modelos deste género procura prever a percentagem de votos do partido ou partidos no governo, ou seja, o desempenho do incumbent (há tradução?), no pressuposto de que a função de voto do governo é explicada por aspectos do seu desempenho (popularidade, crescimento económico, etc.). Mas o que fazer ao conceito de incumbent no caso do presidente?
2.1 Primeiro, o Presidente não governa (há certamente quem gostaria, mas lamentamos informar que não).
2.2 Segundo, quem é o incumbent em 1976? Não há. E em 1980: Eanes, claro. E em 1986, que votação de que incumbent estamos a prever? Bem, tendo em conta que Eanes foi apoiado pelo PS e pelo PCP, talvez nos arrisquemos a colocar a soma dos votos em Soares, Zenha e Pintassilgo no lado esquerdo da equação. E em 1991: a votação em Soares? Mas Soares foi apoiado pelo PS e pelo PSD. E por aí fora: por outras palavras, como não há uma identidade um a um entre partidos e candidatos, e como os candidatos representam coligações diferentes de eleição para eleição, o conceito de incumbent ainda faz menos sentido.

Como lidar, então, com o problema? O que podemos tentar prever? Nos próximos dias, explicamos o quê, como e o que daí resulta.

by Pedro Magalhães