Pedro Magalhães

Margens de Erro

A "raridade" dos governos minoritários e outras coisas

Posted October 20th, 2009 at 3:05 pm4 Comments

Anteontem, no Público, uma peça mencionava a raridade dos governos minoritários na Europa. Espanha e Portugal seriam as excepções.

Receio, contudo, que a amostra utilizada, quer em número de países considerados quer do ponto de vista do período analisado, esteja um pouco enviesada. Entre 1945 e 1999, se considerarmos 17 países da Europa Ocidental (Austria, Bélgica, Dinamarca, Finlândia, França, Alemanha, Grécia, Islândia, Irlanda, Itália, Luxemburgo, Holanda, Noruega, Portugal, Espanha, Suécia e Reino Unido), estiveram no poder 424 governos. 141 (33%) eram governos minoritários, e 93 (22%) eram governos minoritários de um só partido. Portugal e Espanha estão entre os casos em que estes governos foram mais frequentes, mas o mesmo sucede com a Dinamarca, França, Irlanda, Itália e Suécia. Estes dados podem ser encontrados neste livro de 2008.

Outra coisa que o livro mostra é que, obviamente, governos minoritários duram menos que governos maioritários: em média, menos um ano. E outra ainda é que, talvez menos obviamente, os partidos que lideram governos minoritários tendem a ser menos punidos em eleições subsequentes que outros tipos de governo.

Entretanto, a coisa mais conhecida sobre as consequências económicas dos governos minoritários é um antigo paper de duas pessoas hoje muito famosas, Nouriel Roubini e Jeffrey Sachs, que sugere que governos minoritários tendem a produzir défices orçamentais 1.5 pontos por ano acima do que sucede com governos maioritários. Já passou muita água debaixo da ponte depois deste artigo. Um livro de 2002 de Torsten Persson e Guido Tabellini confirma a mesma ideia (ver quadro 6.7), mas há muita discussão sobre o assunto.

by Pedro Magalhães

Aximage, 12-16 Outubro, N=600, Tel.

Posted October 19th, 2009 at 11:58 am4 Comments

São tratados temas como a actuação dos membros do governo e dos líderes político-partidários. A escala utilizada é de 0 a 20. Entre os membros do governo, a avaliação mais alta vai para Teixeira dos Santos (média de 13) e a mais baixa para Maria de Lurdes Rodrigues (7,2). Entre os líderes partidários, a média mais alta é a de Paulo Portas (12,3) e a mais baixa a de Manuela Ferreira Leite (6). O PM é avaliado com 12,1 e o PR com 9,8. Tudo aqui e aqui.

by Pedro Magalhães

Anos 70

Posted October 18th, 2009 at 8:02 pm4 Comments

Vale a pena ir ver a exposição no CAM, na Gulbenkian, intitulada "Anos 70: Atravessar Fronteiras". Há coisas muito boas que eu já conhecia:

Ana Hatherly

Outras que não conhecia:

Emília Nadal

E outras que só acredito que existem porque as vi com estes que a terra há-de comer:

by Pedro Magalhães

Rescaldo

Posted October 12th, 2009 at 2:05 am4 Comments

Bem, you know the drill. Dois critérios: erro 3 (a média dos desvios absolutos entre as estimativas da sondagem - intenções de voto em sondagens pré-eleitorais, simulações de voto em sondagens à boca das urnas - e os resultados eleitorais); e erro 5 (a diferença entre a margem de vitória estimada e a margem de vitória real).

O objectivo é sempre o mesmo: coligir informação que possa ser usada para aprender alguma coisa do ponto de vista das metodologias que melhor medem atitudes políticas. Para isso, considero apenas os concelhos em que houve mais do que uma sondagem (para poder fazer algum tipo de comparação) realizada na última semana (para manter constante um factor que se sabe ser vital, a distância em relação ao acto eleitoral). Mesmo assim, dentro da última semana, há variações de alguns dias no trabalho de campo que podem não ser inconsequentes, mas não vamos agora por aí. O único concelho que excluo é Braga, porque apesar das duas sondagens, há uma que não tem elementos suficientes para se poderem apresentar resultados comparáveis.

Quanto às sondagens pré-eleitorais, aqui vai. A verde, as sondagens com menores discrepâncias entre estimativas de intenções de voto válidas e aqueles que vieram a ser os resultados, dos pontos de vista dos erros 3 e 5 (espero não haver qualquer erro em tantos números, mas se repararem nalgum avisem que será rapidamente corrigido):











O erro 3 mais elevado nas legislativas para qualquer um dos institutos foi 2, e o erro 5 mais elevado foi 2,2. Estas marcas foram ultrapassadas muitas vezes nestas autárquicas, o que confirma o que já sabíamos de eleições anteriores. Mas por outro lado, estamos longe do que se passou nas Europeias mais recentes: houve sempre consenso sobre os vencedores, e os vencedores venceram realmente. E onde não houve consenso - em Faro - não podia haver.

Nas sondagens à boca das urnas, que eu saiba, houve apenas quatro concelhos onde foram feitas mais do que duas sondagens. Não apresento os valores dos intervalos porque, curiosamente, variaram imenso entre os diferentes institutos (maiores na Intercampus, menores na Eurosondagem) e são, assim, pouco informativos. Limito-me a apresentar os pontos centrais:



Há aqui, também, casos de erros - em Matosinhos e Lisboa - maiores que os das legislativas. Mas ao mesmo tempo, duas sondagens à boca das urnas cuja precisão, creio, não voltará a ser repetida tão cedo (duas das que foram feitas no Porto). Mas notem: há nesta "precisão" - e, quem sabe, também em várias "imprecisões" - muito de imponderável. E se olharmos para os quadros, vemos que os mesmos institutos, usando os mesmos métodos e, imagina-se, com várias outras coisas em comum em todas as sondagens que fazem (formação dos inquiridores, formulações de perguntas, ponderações pós-amostrais de resultados, etc, etc, etc) são capazes de ser, ao mesmo tempo, daqueles que apresentam estimativas que mais se aproximaram dos resultados finais nalguns concelhos e, noutros, dos que menos o fizeram. É por isso que nada do que diz respeito a estes assuntos tem uma explicação óbvia. E é por isso que tudo isto é interessante (para nerds como eu e vocês que chegaram até aqui na leitura do post, obviamente).

Interessante, claro, mas com limites. O que isto merecia agora era uma análise mais aprofundada do conjunto das sondagens das autárquicas de 2009 (apesar de serem em muito menor número dos que as de 2005, o que dificultará as coisas). Talvez um dia a faça de novo com o Diogo. Mas não vai ser nem hoje, nem amanhã, nem para a semana. De sondagens, e de eleições, é agora preciso descansar. Até mais logo.

P.S. - Já me esquecia. A Intercampus ontem fez sondagens em 16 (!) concelhos. Não tive tempo para ver em detalhe como lhes correram as coisas nos que não estão tratados neste post, mas espero que bem. Uma vez o CESOP fez 14 e jurámos para nunca mais: é um esforço incrível. Só por isso, os meus parabéns.

by Pedro Magalhães

And now, for something completely different…

Posted October 9th, 2009 at 10:23 pm4 Comments

Lisboa. Intercampus, 4-7 Out., N=800, Presencial.

PS: 40,5%
PSD/CDS-PP/MPT/PPM: 36,3%
CDU: 10,5%
BE: 6,0%
OBN: 6,6%

Aqui.

Porto. Intercampus, 4-7 Out., N=800, Presencial.

PSD/CDS-PP: 43,2%
PS: 39,5%
BE: 7,8%
CDU: 7,1%
OBN: 2,4%

Aqui.

Num certo sentido, isto não é completely different. Em 2005, a vantagem de Carmona sobre Carrilho nas sondagens oscilava entre os 11 e os -0,4 pontos. Desta vez, a margem de Costa sobre Santana oscila entre os 12 e os 4,2 pontos. Em 2005, no Porto, a margem de vitória de Rio nas sondagens oscilava entre os 19 pontos e os -1,8 pontos. Desta vez, oscila entre os 20 e os 3,7 pontos.

É muito? Obviamente que sim. Tem explicação metodológica óbvia? Não tem. Está correlacionado com a proximidade em relação ao acto eleitoral? Só em parte. O que vemos aqui nada tem a ver com o que se passa nas legislativas ou nas presidenciais. Já há uma história relativamente longa disto, e alguns padrões recorrentes. Era bom que houvesse em Portugal uma comunidade académica interessada nestas coisas, não ligada a este ou aquele instituto de sondagens, que pudesse estudar isto. Há muito aqui para tentar compreender.

by Pedro Magalhães

Matosinhos. Intercampus, 4-7 Out., N=600, Presencial.

Posted October 9th, 2009 at 10:20 pm4 Comments

PS: 38,6%
Narciso: 29,6%
PSD/CDS-PP: 21,1%
CDU: 4,7%
BE: 3,2%
OBN: 2,8%

Aqui.

by Pedro Magalhães

Oeiras. Intercampus, 4-7 Out., N=600, Presencial.

Posted October 9th, 2009 at 10:16 pm4 Comments

Isaltino: 42,0%
PS: 25,0%
PSD/CDS-PP: 19,5%
CDU: 6,8%
BE: 3,6%
OBN: 3,1%

Aqui.

by Pedro Magalhães

Já agora, o que diz o Trocas?

Posted October 9th, 2009 at 4:34 pm4 Comments

O Trocas de Opinião tem tido, nos contratos sobre as autárquicas, algumas crenças relativamente sólidas e quase inabaláveis e algumas dúvidas. Neste momento, contudo, parece ter menos dúvidas do que já teve:

1. Até agora, sempre acreditou que PSL não ganhará Lisboa. Mas a média móvel das últimas 20 cotações tem atingido valores mais altos nos últimos dias, se bem que nunca acima dos 13.

2. Também sempre acreditou que Paulo Pedroso não ganhará Almada. Só uma única transacção foi feita acima de 50. Neste momento, a cotação é 0,85.

3. Desde o início de Outubro (mais exactamente desde que saiu a primeira sondagem sobre Oeiras), o Trocas acredita que Isaltino Morais vai ganhar Oeiras. A cotação neste momento está nuns claros 93.2.

4. A probabilidade de Rui Rio ter maioria no Porto esteve, na esmagadora maioria das transacções, acima dos 60.

5. A probabilidade de Narciso Miranda ganhar Matosinhos nunca esteva acima de 50. Está neste momento a 4.

6. A probabilidade de o PSD ganhar mais de 160 câmaras nunca esteve acima dos 50. Está neste momento a 10.

Em geral, menos volatilidade que nas legislativas, devido a menos transacções (mas não muito menos, curiosamente) e também (ou especialmente) a limites impostos no volume de ordens pendentes, incluindo vendas a descoberto.

by Pedro Magalhães

Retrospectiva e balanço

Posted October 9th, 2009 at 2:37 pm4 Comments

Há uns anos, eu e o Diogo Moreira, também aqui do ICS, escrevemos um artigo sobre as sondagens pré-eleitorais para as autárquicas de 2005, recorrendo ao óptimo dossier da Marktest sobre o assunto. O artigo saiu na revista Comunicação e Cultura em 2007. Em resumo, eis o que concluímos:

1. Muita concentração das sondagens publicadas nos concelhos com mais população residente (apenas 41 concelhos, mas representando 35% da população).

2. Muitos problemas na divulgação dos resultados pela imprensa (não analisámos TV ou rádio), com divulgação errática das características técnicas básicas dos estudos.

3. A média dos desvios absolutos médios entre as 86 sondagens consideradas e os resultados eleitorais foi de 4,6. Alto, tendo em conta que o erro amostral máximo que decorria da dimensão média das amostras era 4,2.

4. Os factores que mais explicaram discrepâncias entre os resultados das sondagens e o resultados das eleições (discrepâncias medidas em termos de erro absoluto médio):

- Primeiro, o básico: quanto maior o nº de partidos/listas cujas intenções de voto eram estimadas, menor o erro. Mas isto não passa de uma variável de controlo que tem a ver com a medida utilizada: ceteris paribus, o desvio absoluto médio entre sondagens e resultados há-de ser sempre maior quando esse cálculo se faz em relação a poucos partidos do que a vários (incluindo pequenos) partidos.

- Quanto maior o erro amostral máximo associado a cada sondagem (tendo em conta a dimensão da amostra), maior o desvio médio.*

- Quando teve lugar a sondagem foi importante: naturalmente, os resultados de sondagens feitas mais próximo das eleições estiveram mais próximo dos resultados destas.

- Amostragem: amostras aleatórias produziram maiores desvios que amostras por quotas (1,7 pontos acima). Isto é um bocado simplista e não sei se resistiria a uma análise mais fina e discriminada dos processos de amostragem, nem se é decorrente de um qualquer house effect ou da amostragem propriamente dita.

- Candidatos independentes: concelhos onde concorriam candidatos independentes foram concelhos onde, ceteris paribus, o desvio absoluto médio entre sondagens e resultados foram maiores (entre 2,4 e 2,5 pontos percentuais sempre que havia independentes, o que é muito).

-Telefónica vs. Presencial não fez diferença. Nem a abstenção, se bem que aqui a variância era pouca.

Enfim, uma coisa relativamente simples, pouco menos que o possível, creio, tendo em conta o reduzido número de casos, a falta de informação sobre muitas sondagens e, claro, aquilo que sabíamos fazer na altura.

Isto tudo para dizer que as sondagens que têm sido divulgadas nos últimos tempos sobre as autárquicas devem provavelmente ser vistas, do ponto de vista da sua capacidade de antecipar o que venha a acontecer no Domingo, a esta luz. Em geral, parece evidente que são bastante menos úteis para esse fim preditivo do que têm sido as sondagens sobre as legislativas, especialmente tendo em conta a tendência para usar amostras de dimensões menores e a presença aparentemente "perturbadora" das candidaturas independentes. É certo que há vários "consensos" entre as sondagens divulgadas nos últimos tempos. Mas por tudo o que está dito antes, resta saber se resistem ao que venha a suceder até Domingo.

Dito isto, quais são os "consensos" sobre as intenções de voto medidas nas últimas duas semanas?

- PS lidera intenções de voto em Lisboa. Valores de intenções de voto válidas entre 41,9 e 45%. Se recuarmos ao final de Setembro, encontramos um valor ligeiramente mais baixo, de 41,4%.

- PSD/CDS-PP lidera intenções de voto no Porto. Valores entre 46,4 e 51%. Se recuarmos a finais de Setembro, temos uma sondagem com 44,4% para Rui Rio.

- Isaltino lidera nas duas sondagens de Oeiras, com intenções de voto válidas muito semelhantes.

- Matosinhos: PS lidera, mas grande variação nas intenções de voto válidas (entre 35,2 e 43%).

- Faro: claro "empate técnico" nas três sondagens que conheço.

Sem "consenso":

- Braga: vantagem para PS numa, empate noutra.

Isto é nos concelhos onde, que eu saiba (e pode-me perfeitamente ter escapado algo) há mais do que uma sondagem, e falando apenas de quem liderava ou não nas intenções de voto. Há outros assuntos (maiorias absolutas, diferenças entre CDU e BE, etc.) sobre os quais a maioria das sondagens nem conseguia dar uma indicação estatisticamente significativa. Para o resto, o que temos - que eu conheça- está aqui no dossier da Marktest para 2009, um verdadeiro serviço público.

Outras coisas:

- Não sei se o dossier Marktest é exaustivo. Mas se for, houve muito menos sondagens do que em 2005. Possivelmente por pressão económica de um ano anormalmente pesado em eleições e sondagens.
- Terei de ver isto com mais calma, mas à primeira vista parece-me que os padrões de divulgação de informação técnica continuam a melhorar.
- Cautelas extra a ter com a utilização destas sondagens para prever o que se passará no Domingo. Por um lado, recordem que muitas destas sondagens mais recentes foram conduzidas em parte ou na totalidade em cima do "fim de semana alargado" de 3-5 Outubro. Que implicações para a representatividade das amostras? Não sabemos, mas podem ser importantes. Por outro lado, não sei se as taxas de resposta estão a ser calculadas de forma consistente por todas as empresas. Mas as indicações que tenho é que, em vários concelhos, foram baixas. Fadiga eleitoral e das sondagens? Tendência "secular" de redução de taxas de resposta? Reacção a controvérsias recentes sobre as sondagens? Tudo com consequências potencialmente sérias, mas difíceis de apreciar neste momento.

E acho que falta a Intercampus para alguns concelhos. Confirmaremos logo à noite na TVI.

E é tudo. Agora sugiro que esqueçam as sondagens e vão votar. Mas já agora, uma nota pessoal: para mim, que nasci em Lisboa e que quase sempre aqui vivi, confesso que nunca me foi tão difícil fazer uma escolha eleitoral. Continuo a achar que é uma boa cidade para viver e aqui tenciono ficar, por essa e outras razões. Mas nada do que vi me retira a sensação de que, com sorte, hei-de chegar aos 70 e, para nosso azar, esta cidade ainda estará muito, muito longe daquilo que poderia ser. Uma lástima.


*Na verdade, isto podia ter sido mais bem feitinho. Por um lado, a dimensão das sub-amostras em relação às quais se calculam intenções de voto válidas é sempre menor que a dimensão total da amostra. Por outro lado, devíamos talvez ter calculado um erro amostral médio associado à estimação de cada um dos partidos cujos resultados estão a ser comparados com as sondagens (o que provavelmente teria diminuído a importância da variável anterior). Mas sempre foi melhor do que procurar uma relação negativa entre a dimensão da amostra e o desvio, dado que essa relação não deverá ser linear.

by Pedro Magalhães

Faro. Intercampus, 3-6 Out., N=600, Presencial

Posted October 9th, 2009 at 2:32 pm4 Comments

PS: 38,5%
PSD/CDS-PP/PPM/MPT: 36,2%
CDU: 8%
José Vitorino: 6,7%
BE: 6,7%

A soma dá 96,1%.

by Pedro Magalhães