Pedro Magalhães

Margens de Erro

Polls European Elections, Portugal

Posted March 26th, 2014 at 5:32 pm4 Comments

As far as I can tell, there are five published polls on the EP elections in Portugal:

1. Two by Aximage, here and here.

2. Two by Pitagórica, here and here.

3. And one by Eurosondagem, here.

The table shows the voting intentions, in some cases with the simple operation of redistributing the undecided voters proportionally through the valid options. There's also an average, completely run of the mill stuff.

sondagens europeias So, I don't know about you, but:

1. There's a range of about 6 points in the reported results for the PSD+CDS vote, and a spectacular 10 point range for the PS.

2. The coalition is ahead in 3 polls (by non-significant margins) and the PS is ahead in 2 (by a significant margin in one of them), although it may be relevant that these two are the most recent ones.

3. Based on this dispersion and on the previous track record of European election polls in Portugal, I would say we know two things on the basis of these data: the coalition and the PS will both have more votes than the CDU or the BE and the CDU will have more votes than the BE. That's about it. Comments?

by Pedro Magalhães

Financial Crisis, Austerity, and Electoral Politics

Posted March 11th, 2014 at 6:26 pm4 Comments

There's a special issue of the Journal of Elections, Public Opinion & Parties coming out soon, dedicated to the theme Financial Crisis, Austerity, and Electoral Politics. All the articles are already online (although unfortunately gated). Following an Introduction by yours truly, several articles look into the electoral politics of some of the countries most affected by the financial crisis in Europe. Here's the lineup of articles and authors, to whom I am ever so grateful:

The Collapse: Economic Considerations in Vote Choice in Iceland, by Indridi H. Indridason.

A Conservative Revolution: The Electoral Response to Economic Crisis in Ireland, by Michael Marsh and Slava Mikhaylov.

The Elections of the Great Recession in Portugal: Performance Voting under a Blurred Responsibility for the Economy.

Dealignment, De-legitimation and the Implosion of the Two-Party System in Greece: The Earthquake Election of 6 May 2012, by Eftichia Teperoglou and Emmanouil Tsatsanis.

The Political Consequences of Blame Attribution for the Economic Crisis in the 2013 Italian National Election, by Paolo Bellucci.

The Incumbent Electoral Defeat in the 2011 Spanish National Elections: The Effect of the Economic Crisis in an Ideological Polarized Party System, by Mariano Torcal.

As you will see if you take the time to read them, all articles have basic common themes. How the economy affects vote choices and how bad times punish incumbents is certainly one of those themes. But that would not be a major novelty, would it? What is most interesting about this collection, if I may say so myself, is the way it shows how superficially similar manifestations of deep economic crisis may produce very different consequences, depending on the ways political gamesmanship, policy agendas, and the relative timing of economic and political crises conspire together to produce very different patterns of blame attribution and ignite (or not) deeper ideological cleavages. In Iceland, Ireland, and Portugal, large electoral punishments for incumbents were not enough to change the fundamental traits of electoral competition and voting behaviour that have characterised these countries for a long time. In Greece, Italy, and (arguably) Spain, however, larger shocks occurred, with greater transformative consequences. Enjoy.

by Pedro Magalhães

Nova sondagem: Pitagórica, 24 fev-1mar, N=506, Tel.

Posted March 8th, 2014 at 2:23 pm4 Comments

Está aqui. A notícia pode gerar alguma confusão quando confrontada com os dados. Fala-se sempre de "descida da oposição", mas na verdade, quem desce na sondagem é o PCP e o BE. O PS não se move. Consequências no agregador do POPSTAR são poucas, tendo em conta que estamos a agregar muita informação anterior e esta sondagem tem uma amostra pequena. Mas mesmo assim, reflectem-se aqui as tendências gerais: 1. A CDU desce lentamente desde o final de 2013. 2. CDS, depois da queda causada pela crise política de Julho, está relativamente estável desde finais do ano passado. 3. PSD beneficiou após a crise política de Julho com a queda do CDS, voltou a descer ligeiramente no final de 2013 mas está relativamente estável desde então. 4. PS está estável desde início de 2014. A mais longo prazo, pode dizer-se que tem vindo a subir, muito devagar. Tinha 34,8% em Julho e está com 37,1%, o seu máximo desde das eleições. 5. O BE está estável desde finais de 2013 mas, a mais longo prazo, está 3 pontos abaixo do seu máximo na legislatura (foi há mais de 1 ano, em Janeiro de 2013). Actualmente: PS: 37,1% (+0,1) PSD: 26,9% (+0,5) CDU: 10,9% (-0,1) CDS: 7,6% (+0,1) BE: 6,3% (-0,4)

by Pedro Magalhães

Pitagórica, 20-24 janeiro, N=506, Tel.

Posted January 31st, 2014 at 12:44 pm4 Comments

Uma nova sondagem, aqui. A evolução das nossas estimativas de intenção de voto:

PS: 37,1% (+0,1)
PSD: 26,8% (-0.2)
CDU: 11,2% (+0,1)
CDS-PP: 7,5% (=)
BE: 6,6% (=)

Como não poderia deixar de ser, para um agregador de sondagens como o nosso e com uma amostra de 500 inquiridos, a nova sondagem não causa grandes mudanças. Mas a vantagem do PS sobre o PSD (10,3 pontos) é a maior desde Junho de 2011. A vantagem do PS sobre a CDU (25,9 pontos) é também a maior desde esse momento. Somados, os partidos de esquerda têm 54,9%. Não é o máximo desde 2011 (isso foi em Novembro passado) mas anda lá perto, e representa um aumento de 13,8 pontos percentuais em relação aos resultados das eleições de 2011. O CDS está muito perto dos mínimos nesta legislatura (que foram de 7,4%). Para o PSD, que já chegou a ter 25,1% (logo antes da crise política de Julho de 2013), estes resultados são menos assustadores, sem chegarem contudo a ser muito encorajadores. Somados, os partidos do governo têm 34,3%, menos 20 pontos que as melhores sondagens que já tiveram neste legislatura e menos 16 pontos que nas eleições de 2011.

Desculpem bater assim na tecla, mas há uma dissonância, que não posso deixar de assinalar, entre o que as sondagens dizem sobre a opinião pública e aquilo que na opinião publicada se vai dizendo sobre o tema. O que não quer dizer que isto não mude num sentido ou noutro no futuro próximo. Mas o presente é isto.

by Pedro Magalhães

Sondagens recentes no POPSTAR

Posted January 21st, 2014 at 9:02 pm4 Comments

Duas sondagens recentes, uma da Eurosondagem e outra da Aximage. Já estão integradas no POPSTAR. Antes e depois?

PS: 37% (+0,7)
PSD: 27% (+0,5)
CDU: 11,1% (-0,8)
CDS-PP: 7,5% (-0,1)
BE: 6,6% (=)

Como novidades, assinalo a descida da CDU: sempre a descer desde Novembro e ao nível mais baixo de Fevereiro de 2013. A acompanhar.

by Pedro Magalhães

Changing patterns of voting behaviour and party competition

Posted January 15th, 2014 at 11:39 pm4 Comments

I would like to share an invitation from Lorenzo de Sio and Romain Lachat, who will be chairing a section on "Changing patterns of voting behaviour and party competition" at the 2014 ECPR General Conference, Glasgow, 3-6 September 2014. This section is supported by the ECPR Standing Group on Public Opinion and Voting Behaviour. The outline of the section can be found here (Section S006).

Interested participants are invited to submit a paper or panel proposal. The official deadline is February 15th. However, in order to better coordinate the proposals and to organize coherent panels, Lorenzo and Romain ask interested participants to contact them or the appropriate panel chairs in advance before the end of January.

The section will include eight panels. For six of these, a provisional topic has already been defined and a panel chair has been designated:

• National electoral consequences of the financial crisis - yours truly (pedro.magalhaes@ics.ul.pt)
• Leaders’ effects and personalization - Marina Costa Lobo (marina.costalobo@ics.ul.pt)
• Political participation - Aina Gallego (aina.gallego@csic.es)
• Campaign and media effects - Susan Banducci (S.A.Banducci@exeter.ac.uk)
• Partisanship - Paolo Bellucci (paolo.bellucci@unisi.it)
• European Elections - Hermann Schmitt (hermann.schmitt@mzes.uni-mannheim.de)
If your paper proposal clearly fits one of these panels, we encourage you to send your paper proposal directly to the appropriate panel chair. Please do so quickly, so as to allow her or him to assemble paper proposals into a full panel proposal by Feb 15th. If your paper proposal does not correspond to one of these topics, or if you want to propose a new panel topic, please contact Lorenzo and Romain directly (ldesio@luiss.it, mail@romain-lachat.ch). They will define the additional panels based on the paper proposals they receive.

by Pedro Magalhães

“A proposta do Pedro Magalhães”

Posted January 7th, 2014 at 11:34 am4 Comments

Uma pessoa fica sempre surpreendida por ir parar ao título de um artigo de jornal, mesmo que online. Mas não escrevo este post para assinalar isso. O título "proposta de Pedro Magalhães" pode fazer pensar que há uma "proposta" elaborada, que de facto não existe: foram apenas umas declarações feitas a Henrique Monteiro, de resto num processo bastante confuso, e que podem causar equívocos. E para evitar esses equívocos, queria já agora explicar-me um bocadinho, no pouco tempo que tenho disponível hoje.

A primeira coisa que queria assinalar é que, como se pode ler num artigo de Paulo Trigo Pereira e Joao Andrade e Silva, Portugal é uma das democracias consolidadas onde os eleitores têm menor liberdade de escolha enquanto votam, ou seja: é um sistema onde os eleitores têm apenas tantas opções como o nº de partidos (já que não podem exprimir preferências por deputados numa lista fechada) e onde podem exprimir apenas a sua primeira preferência. Trigo Pereira e Andrade e Silva adicionam uma terceira dimensão deste conceito de "liberdade de escolha", a informação sobre os candidatos, que presumem ser uma função da dimensão dos círculos eleitorais (quanto maiores, menos informação). Quando combinamos estes indicadores, só na Holanda e em Israel existe menos liberdade de escolha. E se tomarmos em conta que o menu de partidos disponíveis nesses dois países é muito maior (elemento que Trigo Pereira e Andrade e Silva não consideram, por razões defensáveis para os propósitos do seu estudo, mas não inquestionáveis), então acho que se pode inclusivamente defender que o sistema português, na sua combinação sistema de partidos/sistema eleitoral, é porventura o sistema nas democracias consolidadas que menos liberdade de escolha dá aos eleitores.

A segunda coisa que queria dizer é que esta falta de liberdade de escolha vem sendo discutida há muitos anos em Portugal e é, pelos vistos, vista como um problema. Chamo a atenção, por exemplo, para um livro de Nuno Sampaio (de uma dissertação que orientei) intitulado O sistema eleitoral português: crónica de uma reforma adiada, que aborda muitas das propostas apresentadas até à altura e muitas das soluções avançadas e, como sabemos, nunca concretizadas. Já foram feitas outras propostas depois disto, entre as quais assinalo especialmente as contidas num livro de André Freire, Diogo Moreira e Manuel Meirinho, Para uma melhoria da representação política. Elas incluem sistemas mistos tipo alemão ou variações no mesmo género (em que os eleitores têm dois votos, um em deputados num círculo uninominal e outro em partidos num círculo regional, com o 2º a determinar a alocação de assentos por partido) ou, no caso das propostas de Freire, Moreira e Meirinho, 2 votos, um num círculo nacional (com listas fechadas e bloqueadas) e outro em círculos regionais pequenos (6 a 10 assentos) onde os eleitores exprimiriam preferências pelos deputados.

Então, qual é a (que nem modesta chega a ser) "proposta do Pedro Magalhães", se é que lhe podemos chamar isso? Se a incapacidade de exprimir preferências por deputados é um problema, deveríamos encontrar uma solução que fosse o mais simples e compreensível que nos fosse possível, e que introduzisse o menor número de mudanças possíveis no sistema. A Finlândia é um bom exemplo. Como se vota na Finlândia?

1.Há 14 círculos eleitorais (+ 1 uninominal em Åland). Nós temos 20 círculos, mais os 2 especiais Europa e Fora da Europa.
2. Magnitude dos círculos oscila entre 6 e 33, e resultam, tal como no nosso caso, das províncias administrativas tradicionais. Nós oscilamos entre 2 e 47.
3. Elegem 200 deputados. Nós 230.
4. As listas de candidatos por partidos são apresentadas em posters, nos media, nos locais de voto e até na própria mesa de voto (foto retirada da Wikipedia).
5. Em cada lista partidária, os nomes dos deputados são colocados por ordem alfabética. Cada um só pode concorrer num círculo e é identificado por um número (desculpem a má qualidade da imagem):
finland ballot 6. Os eleitores escolhem um deputado, ou seja, um número. Assim (imagem da Wikipedia):
7. Somam-se os votos obtidos por todos os deputados por partido. Cada partido fica com um x número de votos, que são depois usados para distribuir assentos parlamentares, usando da média mais alta D'Hondt, tal como nós.
8. Contudo, ao contrário do que sucede entre nós, que deputados são eleitos por partido depende não da ordem predeterminada na lista mas sim do número de votos que cada deputado recebe. Fim.

Por que razão gosto deste sistema? Se a liberdade de escolha, em particular de exprimir preferências por um deputado é um problema, não consigo imaginar uma modificação mais simples no nosso sistema para lidar com o problema. E por que razão gosto de mudanças minimalistas? Porque importa que os eleitores percebam o novo sistema facilmente, e porque importa retirar aos partidos todas as oportunidades que pudessem ter para manipular o sistema em seu favor, nomeadamente através do redesenho dos círculos. Só isso.

Agora, algumas considerações finais:

1. Notem que venho escrevendo "se a falta de liberdade de escolha é um problema". Eu não sou agnóstico sobre isto e acho que é mesmo um problema e começa a ser algo anómalo em Portugal na comparação com outras democracias. Mas também não descarto que esta mudança pudesse ter algumas consequências que muitos achariam negativas, na coesão dos partidos no parlamento, na relação entre os partidos a nível central e nível local, no financiamento das campanhas, etc. Mas o que vos queria dizer é que as pessoas que juram a pés juntos que as consequências iriam ser assim ou assado não sabem se seria assim, apenas supõem. Apesar de haver milhões de coisas escritas sobre sistemas eleitorais, apesar de se saber bem como funciona a Finlândia (bem), e apesar de haver estudos sobre as consequências de variados aspectos do sistema eleitoral, todos esses estudos são insuficientes para fazer previsões sobre as consequências disto num único caso, Portugal. Aqui só há uma certeza: uma mudança destas aumentaria a liberdade de escolha dos eleitores. Eu acho que essa falta de liberdade é um problema suficientemente grande para que essa certeza me faça gostar da ideia.

2. Não tenho ilusões de que uma mudança destas resolveria "os problemas da democracia portuguesa", seja lá o muito que isso queira dizer

3. Há algo importante a montante deste processo na Finlândia, a forma como os deputados são seleccionados para estar na lista: em primárias partidárias locais.

4. Quem defende que o voto preferencial deveria ter lugar em círculos mais pequenos que os de, digamos, 33 (máximo) na Finlândia ou 47 (máximo) em Portugal acha que "só pode ser aplicado em pequenos círculos: para os eleitores terem capacidade de processar informação sobre os candidatos em disputa e para que a medida seja logisticamente exequível". A parte do "logisticamente exequível", se conseguirmos ficar satisfeitos como a possibilidade de exprimir apenas uma 1ª preferência (e já não é mau), é desmentida pela Finlândia. No resto, o argumento de fundo parece-me um bom argumento, que de resto faz parte do próprio conceito de liberdade de escolha que Trigo Pereira e Andrade e Silva elaboram. Contudo, a meu ver, dar aos partidos a possibilidade de modificar o desenho dos círculos herdados da divisão em distritos seria algo tão nocivo e contencioso que a relação custo-benefício me parece cair em favor de os deixar ficar como estão e aplicar uma reforma o mais minimalista possível.

by Pedro Magalhães

Dados novos, verdades velhas

Posted January 3rd, 2014 at 11:12 am4 Comments

São dados do European Social Survey, estão agregados ao nível do país no POP, e vão até 2012, ou seja, até à vaga 6, a mais recente. Haverá mais países assim que esta vaga terminar e os dados se tornem públicos. Coisas que me chamam mais a atenção:

1. Somos, com os checos, aqueles que manifestam um menor interesse pela política (clicar para ver gráfico animado):

2. Somos, com os búlgaros, os que mostram valores mais baixos de confiança social. Isso inclui confiança interpessoal, percepção de que os outros são prestáveis e percepção de que os outros são honestos (clicar para ver gráficos animados):

3. Nos últimos anos, aumento da propensão para o protesto, aqui em comparação com os outros países "intervencionados" (Grécia ainda não está no round 6):

Sobre o ponto 2, dois artigos relativamente recentes que fazem um ponto de situação sobre as causas e consequências do "capital social": "Civic Capital as the Missing Link" (Guiso, Sapienza e Zingales) e, ainda mais recente, "Culture and Institutions" (Alesina e Giuliano).

by Pedro Magalhães

Consequências sociais da austeridade: respostas e mais dúvidas.

Posted December 31st, 2013 at 5:54 pm4 Comments

Uma síntese muito breve, que espero que não faça demasiada injustiça a todas as respostas que fui lendo.

1. Primeiro, sobre "risco de pobreza". Se é definido com a percentagem da população que vive com um rendimento inferior a 60% da mediana, a diminuição dessa mediana tem efeito directo nessa percentagem. Hugo Mendes mostra que, se calcularmos essa percentagem para 2011 com base na mediana de 2009, teremos 21.3% em vez de 17.9%.

Podemos alargar o exercício com recurso a dados do Eurostat, com a linha de pobreza ancorada em 2008: figure 4 O panorama aqui já parece algo diferente (também porque aqui uso o risco de pobreza e não aquele indicador compósito de "risco de pobreza e exclusão social"). Aumento catastrófico na Grécia, rápido na Irlanda, aceleração em Espanha, mas aumento a ritmo semelhante em Portugal e Itália a partir de 2011 (mais depois sobre este "2011").

2. Foi um pouco a pensar nos problemas destas medidas relativas que decidi também mostrar os dados sobre "severa privação material", porque é, à primeira vista, uma medida absoluta e não relativa. Contudo, aqui, várias objecções. Henrique Lopes, em comentário no Facebook, e Rui Cerdeira Branco, em comentário ao post, falam de outros dados (consumo de proteínas, por exemplo) e das dificuldade de comparabilidade tendo em conta hábitos de consumo e necessidades diferentes. "Falta aqui uma genuina medida de pobreza absoluta, algo como uma cesta básica", diz um; "Seria por exemplo interessante fazer um estudo não com base no equipamento mas na vivência comparativa real das famílias: comparar cabazes de compra", diz outro, em consonância. Não haverá nada assim? Não sei. Pedro Romano, também no Facebook, fala de forma mais geral nos problemas quando se criam índices compósitos deste género.

3. Hugo Mendes, em comentário, chama a atenção para um problema crucial que eu desconhecia: dois dos indicadores usados para o "risco de pobreza e exclusão social" (risco de pobreza e “baixa intensidade de trabalho”) e o rácio 80/20 referem-se de facto a 2011, não a 2012. Ora isto pode fazer toda a diferença. Se voltarmos aos dados sobre "discretionary fiscal effort", por exemplo, verifica-se que 2012, o esforço português foi de 5.9%, superior ao da Grécia. Chama também a atenção para o facto de que os efeitos do desemprego de longa-duração e da perda de benefício demoram a sentir-se em termos de pobreza e privação. Ora se isso seria verdade para o "futuro" (2013), é ainda mais se, na verdade, algumas destas séries terminam realmente em 2011 e não em 2012 (confesso que me faz muita espécie que o Eurostat atribua um indicador a um ano quando na verdade ele mede o ano anterior, mas devo ser eu que não estou habituado a lidar com este tipo de dados).

4. Depois há possíveis explicações. É complicado passar às explicações quando acabamos de constatar que, no que toca ao que queremos explicar, não sabemos exactamente se estamos a ver realmente aquilo que pensamos que estamos a ver. Mas dito isto, aqui vão, sem que eu próprio tenha meios para avaliar da sua validade:

- muitos mencionam o facto das quedas de rendimento (cortes/aumentos de impostos) terem sido desenhadas para afectar os escalões mais altos enquanto que as pensões foram menos afectadas (e, para as mais baixas, aumentadas).
- emigração, apoios sociais do poder local, economia informal, reservas de poupança (João Boavida, em comentário ao post).
- esforço de consolidação mais baseado em aumento de receita (impostos e progressividade) do que em corte da despesa (Miguel Madeira, no Vento Sueste).
- cortes na FP mais pelo lado dos salários do que dos empregos (outra vez Miguel Madeira, no Vento Sueste).
Continuo a pensar que há aqui alguns elementos de surpresa, especialmente na comparação com Espanha, Itália nuns casos, e Grécia e Irlanda, noutros, mas é evidente que um diagnóstico correcto de tudo isto vai precisar de mais dados e, especialmente, mais tempo. Obrigado a todos os que decidiram escrever sobre isto.

by Pedro Magalhães

As consequências sociais da austeridade. Algumas dúvidas.

Posted December 29th, 2013 at 10:30 pm4 Comments

Há dias recolhia alguns dados "macro" para cruzar com dados "micro" de inquéritos, nomeadamente num projecto sobre os determinantes das atitudes dos Europeus sobre a democracia, medidas na vaga 6 do European Social Survey. A ideia, muito simples, seria a de que em países em que as condições de vida fossem piores e mais desiguais (mais pobreza, maior desigualdade de rendimento, etc), as visões da democracia tenderiam, controlando outras coisas, a ser menos "procedimentais" (direitos, eleições) e mais substantivas (rendimento, crescimento, desempenho económico, etc). Depois darei notícias do que isto dá.

Mas entretanto, fiquei intrigado com os dados em si. Não percebo muito destes temas, mas os dados não reflectem bem o que esperava encontrar, e pode haver alguém que leia isto e possa explicar. Os países incluídos são Portugal, Espanha, Grécia, Itália, Chipre, e Irlanda (até 2011), tudo países em ajustamento orçamental, nalguns casos extremamente elevado, nomeadamente entre 2011 e 2013. Junto também a média dos 27 países da UE. O gráfico 1 compara países e anos em termos da percentagem da população que está em risco de pobreza ou exclusão social, ou seja, que:
1. Vivem com um rendimento (depois de transferências sociais) inferior a 60% da mediana.
OU
2. Vivem numa situação de grave privação material (não conseguem pagar pelo menos 4 de 9 itens essenciais de consumo).
OU
3. Vivem num lar com muito baixa intensidade de trabalho.

Eis os resultados: Figure 1 Em todos estes países, a percentagem de pessoas nestas condições começa a aumentar em 2009 (Irlanda), 2010 (Espanha, Chipre) ou 2011 (Grécia, Itália), não voltando a descer até ao ano mais recente (2012). Ou melhor: todos, não. Em Portugal não foi assim. Desde 2006, a evolução não tem tendência clara, e o valor de 2012 (cerca de 25%) é próximo do que se verificava em 2006 e está pouco acima da média dos 27 países da UE.

A figura 2 concentra-se num dos indicadores usados para estimar a percentagem de pessoas em risco de pobreza ou exclusão social, o da "severa privação material". Figure 2 A história aqui é mais ou menos a mesma. Espanha distingue-se aqui por ter valores inferiores aos dos restantes países, mas mesmo assim passou de 4.1% em 2006 para 5.8% em 2012. Já Portugal chega a 2012 com uma percentagem inferior à de 2006, de 9.1% para 8.6% (ou seja, com o erro associado, não há certamente diferença significativa de 2006 para 2012).

Finalmente, desigualdade. A figura 3 mede o rácio entre entre os rendimentos obtidos pelos 20% de população mais rica e os 20% de população mais pobre. Figure 3 Portugal parte de uma situação tremenda, o mais desigual destes seis (e na verdade o mais desigual dos EU27 a seguir à Letónia). Contudo, Portugal chega a 2012 claramente menos desigual que Espanha e Grécia, e menos longe da Itália, de Chipre ou da Irlanda do que estava no início do período. Muito disso deve-se à diminuição das desigualdades de rendimento até 2010. Mas o novo aumento em 2011 e 2012, sendo real, foi menos acentuado do que em Espanha ou na Grécia.

Eu gostava muito de perceber o que estará por detrás disto. O que explica que Portugal tenha, pelo menos à luz estes indicadores, escapado ao mesmo grau de aumento da pobreza e da privação material que se verificou nos restantes países, ou que as consequências em termos de desigualdade de rendimentos tenham sido mais graves em Espanha, Grécia ou até Itália? Uma resposta óbvia seria que o esforço de consolidação orçamental em Portugal teria sido menor do que nos restantes países. Na comparação com a Grécia isso é uma resposta plausível, tendo em conta que, em média anual, entre 2011 e 2013, o "discretionary fiscal effort" grego foi de 6.1% do PIB, contra 3.3% em Portugal. Mas em Espanha foi de 3.6%, na Irlanda de 2.7% e em Itália de 1.9% (ver aqui, Tabela III.2.1).

Serão estes indicadores insuficientes ou demasiado imperfeitos? Será 2013, sobre o qual não ainda temos dados, o ano em que veremos os efeitos sociais mais graves da austeridade em Portugal? Será a emigração que está a mitigar isto na comparação com outros países? Estarei a ver algo mal? E se não estou a ver mal, qual será a explicação?

by Pedro Magalhães