Pedro Magalhães

Margens de Erro

Contribuições para o debate sobre o sistema eleitoral português

Posted July 8th, 2009 at 2:43 pm4 Comments

Na Indonésia, o Presidente Susilo Bambang Yudhoyono parece ter sido reeleito. Numa das notícias, explica-se que, segundo a lei eleitoral indonésia, os candidatos, depois de registarem as suas candidaturas junto da Comissão Nacional de Eleições, são sujeitos a uma bateria de exames físicos e psicológicos no hospital do Exército, incluindo a aplicação do Minnesota Multiphasix Personality Inventory, um teste destinado a detectar sintomas de hipocondria, depressão, histeria, paranóia e esquizofrenia.

by Pedro Magalhães

Atalhos informacionais

Posted July 8th, 2009 at 2:08 pm4 Comments

Pegando nos dados dos inquérito sobre Lisboa feito pelo CESOP, é possível testar os efeitos de alguns atributos dos eleitores nas suas actuais intenções de voto. Foi o que fiz, numa análise muito rough and ready (faltam variáveis de controlo potencialmente importantes, tais como ideologia, id. partidária, etc.). A pergunta é: que aspectos ajudam mais a distinguir aqueles que tencionam votar Santana Lopes dos que tencionam votar António Costa? Usei uma regressão logística, com voto em Costa codificado como 0 e PSL como 1.

Instrução, sexo e idade são irrelevantes. Curioso, mas não surpreende quando a escolha é apenas entre PS e a direita. O coeficiente associado à instrução é positivo (mais instrução, maior propensão para votar PSL em vez de Costa na amostra) mas não é significativo com p
Quando os grupos comparados são aqueles que tencionam votar em Costa (0) vs. os que tencionam votar num qualquer outro partido (1), a questão da criminalidade deixa de ser significativa. É, portanto, um factor que joga mais na escolha entre Costa e a coligação de direita do que na opção genérica "incumbent" vs. oposição. Mas a questão da sujidade das ruas e espaços verdes permanece (e o coeficiente até cresce em dimensão e significância estatística): é esta percepção, positiva para alguns (29% dos votantes prováveis) mas negativa para a maioria (71% dos votantes prováveis), o aspecto que mais ajuda a diferenciar os que tencionam votar em Costa dos que tencionam votar noutra lista e candidato qualquer.

Banal? Talvez. Mas quando olho para a lista dos outros problemas sobre quais pedimos opiniões aos eleitores, julgo compreender. Trânsito, transportes, habitação, degradação de edifícios são problemas "macro", que envolvem factores fora do controlo da CML (o que não quer dizer que a CML faça tudo aquilo que está ao seu alcance nestes domínios). Criminalidade é, em grande medida, um problema de percepção. Na falta de dados que permitam relacionar as pessoas com contextos concretos de insegurança, o que sobra são percepções fundadas em predisposições ideológicas, e por isso se entende que conte apenas numa escolha Costa/PSL, ou seja, esquerda/direita. E a cultura, digamos, não é problema sério para muita gente.

Resta a "sujidade". Uma espécie de "atalho informacional": se uma câmara é vista como conseguindo manter uma cidade limpa e arranjada, também não há-de ser má em tudo o resto. Mas se é vista como não conseguindo cumprir os "serviços mínimos", isso é mau sinal para tudo o resto. Os eleitores até podem ter pouca informação, mas não são parvos a usarem a que têm.

by Pedro Magalhães

Lisboa. CESOP, 28 Junho-4 Julho, N=716, Tel.

Posted July 6th, 2009 at 11:13 am4 Comments

O relatório-síntese pode ser descarregado aqui.

by Pedro Magalhães

Outro planeta

Posted July 3rd, 2009 at 11:55 am4 Comments

Passei esta semana em Braga, na Universidade do Minho, num Curso de Verão organizado pelo Núcleo de Investigação em Politicas Económicas, onde trabalha o meu amigo LA-C. O curso foi leccionado por Joshua Angrist, do MIT, um economista americano muito conhecido que falou sobre um conjunto de técnicas econométricas destinadas a estimar rigorosamente efeitos causais recorrendo a dados observacionais ou a corrigir problemas ocorridos em estudos experimentais onde, apesar da aleatorização dos sujeitos, não se consegue evitar que os grupos de controlo e de tratamento se seleccionem, em parte, a si próprios. Parte significativa da matemática utilizada para provar teoremas, confesso, passou-me por cima. Mas as técnicas e a sua aplicação não são especialmente complicadas e a coisa toda foi muito bem feita, bem organizada e muito estimulante.

Se falo nisto é apenas para assinalar que muitos dos trabalhos de Angrist têm como objectivo estimar as consequências de variações institucionais e de intervenções concretas nas politicas públicas. Que tipos de escolas produzem melhores resultados nos exames dos alunos? Qual o efeito da dimensão das turmas? Vale a pena avaliar os professores, e como? Que impacto têm as políticas laborais activas? Quais os efeitos do serviço militar obrigatório nos rendimentos futuros dos recrutados? E do prolongamento da escolaridade obrigatória? Etc, etc, etc. Aquilo que mais me impressionou no contacto com esta bibliografia é a compreensão da distância abissal entre a natureza do debate sobre as politicas públicas em Portugal e nos Estados Unidos. Nos EUA, a preocupação com medir os efeitos das politicas vai ao ponto de os organismos públicos organizarem frequentemente experiências. Um dos exemplos dados por Angrist foi uma experiência em Minneapolis, onde, para os casos de violência doméstica, os polícias tinham instruções para lidar com eles de formas diferentes mas aleatorizadas, de forma a que a comparação entre os efeitos das diferentes abordagens (medidos como a necessidade de regressar à mesma casa nos 6 meses seguintes) pudesse ser feita sem necessidade de excessiva preocupação com todos os outros factores que podem afectar esses efeitos. E como estas experiências há centenas.

E Portugal? Posso estar enganado. E se me dessem exemplos de uma (1) medida legislativa que tivesse sido precedida por estudos deste género eu ficava contente por me ter enganado. Mas estamos, creio, noutro planeta.

by Pedro Magalhães

Legislativas. Eurosondagem, 25-30 Junho, N=1024, Tel.

Posted July 3rd, 2009 at 10:27 am4 Comments

PS: 35,1%
PSD: 33,0%
CDU: 9,7%
BE: 9,6%
CDS-PP: 7,4%
OBN: 5,2%

Aqui. Uma frase intrigante na notícia: "Registe-se ainda que neste barómetro os indecisos situam-se nos 19,5% e a taxa dos que não sabem e não respondem atinge os 16,7%."

by Pedro Magalhães

Porto. CESOP, 22-28 Junho, N=684, Tel.

Posted July 1st, 2009 at 5:52 pm4 Comments

Podem descarregar aqui uma síntese dos resultados. É um bocadinho mais pesado que o costume porque tem gráficos.

by Pedro Magalhães

Legislativas. Marktest, 16-20 Junho, N=800, Tel.

Posted June 26th, 2009 at 11:37 pm4 Comments

PSD: 35,8%
PS: 34,5%
BE: 13,1%
CDU: 7,7%
CDS: 4,4%
OBN: 4,5%


Aqui.

Actualização: agora que os resultados estão no site da Marktest, é possível corrigir a própria notícia da TSF linkada acima, que atribui 9,4% à CDU. Na verdade, são 7,7%. Mas ao contrário do que é sugerido num comentário muito infeliz a este post, o CDS-PP tem mesmo 4,4%. Já tinha na notícia da TSF, e continua a ter na ficha técnica da sondagem da Marktest.

by Pedro Magalhães

Outlier: os "politólogos"

Posted June 24th, 2009 at 10:27 am4 Comments

Não creio que faça sentido defender que, numa democracia, o único discurso possível e desejável sobre a política seja feito por indivíduos que "não separam a análise política da sua posição política particular". Desejar isto significa desejar que o único discurso possível sobre a política seja ideológico, partidário e, em si mesmo, "político". Será assim tão desejável que a única coisa que haja para transmitir sobre a política sejam "opiniões" e "posições", em vez de afirmações que, à luz do que sabe e investigou na base de métodos - dentro dos limites possíveis - científicos, se julga serem apoiadas pelos factos? O debate recente sobre as sondagens mostra bem o que sucede quando a "análise dos factos" é completamente dominada por aqueles que "não separam a análise política da sua posição política particular": a degradação total da qualidade do debate.


Dito isto, com respeito pelos meus colegas e uma dose razoável de mea culpa, receio que haja também uma crescente degradação do papel desempenhado pelos "politólogos" no debate político em Portugal. Originalmente, "pundit"

by Pedro Magalhães

Consensos e outros não tanto

Posted June 20th, 2009 at 11:17 am4 Comments

"Estudos sobre o sector", mais "difusão de informação", publicação no site da ERC das fichas técnicas e iniciativa da ERC em reunir as empresas são coisas boas e foram consensuais. Mas a minha posição (e creio não estar sozinho) continua a mesma: há hipóteses em cima da mesa para explicar o que se passou; a abstenção não é a única das possíveis explicações; sem estudos, essas hipóteses nunca passarão disso mesmo.

by Pedro Magalhães

"Freguesias-tipo"?

Posted June 19th, 2009 at 2:03 pm4 Comments

O único conhecimento que tenho deste assunto é pela notícia de jornal. Mas a confirmar-se a argumentação, a única coisa que posso fazer é sugerir a leitura do seguinte excerto:

"Because it is so important that the sample for an opinion poll is a true reflection of the country as a whole, the sample of constituencies for an opinion poll is checked for political balance. This is done in much the same way, by calculating the share of the votes at the last general election just in those constituencies sampled, and comparing it with the national result."

in Nick Moon. 1999. Opinion polls: history, theory and practice. Manchester: Manchester University Press, pp. 51-52 (itálicos meus, a ver se se percebe a utilização do plural).

by Pedro Magalhães