Pedro Magalhães

Margens de Erro

Sondagens e democracia

Posted May 8th, 2009 at 12:50 pm4 Comments

Há sempre uma grande discussão sobre o papel das sondagens na democracia. Há quem aponte consequências negativas. Num post que escrevi há uns anos, assinalei - por interposta pessoa - uma delas: um efeito negativo na forma como se cobre noticiosamente a actividade política. Mas também já citei aqui, há menos tempo, uma conferência do Stanley Greenberg onde ele explica como, se bem com dúvidas e hesitações, acabou por concluir por um saldo positivo: conhecer o que os cidadãos preferem pode ajudar a fazer com que os líderes políticos "respeitem as pessoas, respondam aos seus interesses e torná-los, em última análise, susceptíveis de serem politicamente responsabilizados."

Por estes dias, passa-se algo que me faz lembrar estas palavras de Greenberg. Ao abrigo do novo Estatuto dos Açores, a Assembleia Legislativa Regional prepara-se para legalizar a "Sorte de Varas" em toda a região, ou seja, se bem percebo - não sou nada entendido - as corridas de touros com picadores. O tema tem sido controverso nos Açores mas - digo isto à distância, talvez esteja errado - não parece ser suficientemente importante para poder ditar o resultado de futuras eleições. Em circunstâncias destas, os agentes políticos têm incentivos para acederem à vontade de interesses particularistas, que até podem ser partilhados por muito pouca gente mas estão bem organizados e dão grande importância a um determinado tema. Neste caso, os membros da Tertúlia Tauromáquica Terceirense.

Mas o que pensa a generalidade dos açorianos de tudo isto? A verdade é que não se sabe. É até possível que a maioria esteja a favor ou seja indiferente. É certo que, na Assembleia Legislativa dos Açores entraram, se não erro, 406 petições sobre o assunto, 17 a favor da Sorte de Varas e 389 contra. Mas não é absolutamente garantido que isto reflicta a distribuição das preferências dos açorianos. Houve uma sondagem online, com resultados muito desfavoráveis, mas amostras voluntárias em sites de internet não dão garantias se sequer se aproximarem de uma boa imagem das opiniões do universo dos açorianos.

Logo, o ideal seria, claro, um referendo regional. Num artigo já com uns anos, o economista político Bruno Frey explica uma das vantagens dos referendos. Os políticos podem formar coligações contra os eleitores, impedindo a entrada de certos temas na agenda política e impondo outros. Especialmente se houver possibilidade dos cidadãos proporem iniciativas de referendo, os referendos retiram o monopólio no controlo da agenda política aos políticos e revelam as preferências dos eleitores em temas nos quais os políticos prefeririam que elas não fossem conhecidas (presumindo, claro, que não se utilizariam o tipo de regras de quórum de aprovação ou participação que distorcem os resultados). Infelizmente, nos Açores, se não estou em erro, só a Assembleia Legislativa pode apresentar propostas de referendo regional. Logo, o instrumento que poderia quebrar uma coligação da classe política contra os eleitores está nas mãos da...classe política.

O que sobra? Sondagens. É pena que só sobre isto. Mas elas poderiam ajudar a confirmar se, de facto, a maioria dos açorianos apoia ou é indiferente a esta proposta ou se, pelo contrário, é contra. O facto de não se planear um referendo nem haver vislumbre de sondagens sobre o assunto consente supor, infelizmente, que deverá ser a segunda hipótese a verdadeira.

by Pedro Magalhães

Corredor do Poder

Posted May 8th, 2009 at 11:03 am4 Comments

No site da RTP, vale a pena ver a emissão de ontem do programa "Corredor do Poder", onde Marco António, presidente da distrital do Porto do PSD, e Nuno Melo, líder parlamentar do CDS-PP e cabeça de lista às eleições europeias, fazem diversas considerações metodológicas sobre as sondagens do CESOP/Universidade Católica.

by Pedro Magalhães

Legislativas. Eurosondagem, 30 Abril-5 Maio, N=1021, Tel.

Posted May 8th, 2009 at 12:04 am4 Comments

PS: 38,8% (39,6%)
PSD: 30,5% (29,6%)
BE: 9,8% (9,6%)
CDU: 9,2% (9,4%)
CDS-PP: 6,9% (7,0%)
OBN: 4,8% (4,8%)

Aqui.

by Pedro Magalhães

Mais Espanha

Posted May 7th, 2009 at 5:53 pm4 Comments

Barómetro de Abril do Centro de Investigaciones Sociológicas mostra, tal como em Março passado, PSOE e PP praticamente empatados nas estimativas de resultados eleitorais: 40,8% PSOE vs. 40% PP. Zapatero avaliado negativamente mas, mesmo assim, o menos mal avaliado de todos os líderes partidários. Cada vez pior a avaliação da actuação do governo e da oposição. Em suma, as notícias são cada vez melhores para ela, que já é a segunda figura política mais popular em Espanha.Tudo isto e mais aqui.

by Pedro Magalhães

Estímulos

Posted May 7th, 2009 at 4:38 pm4 Comments

Posted May 7th, 2009 at 1:44 pm4 Comments

Nos Açores, passa-se um caso com lições muito interessantes sobre temas como a "democracia", "vontade da maioria", "interesses particularistas" e "sondagens".


by Pedro Magalhães

Espanha

Posted May 6th, 2009 at 4:22 pm4 Comments

A sondagem mais recente sobre as europeias, encomendada pelo próprio PSOE, dá ao PP uma vantagem de 1 a 2 deputados. Curiosamente, o modelo de previsão de Hix e Marsh não anda longe, prevendo a derrota do PSOE. As sondagens para as legislativas estão a dar resultados semelhantes: 2,4 pontos de vantagem para o PP aqui, 1,2 pontos aqui.

by Pedro Magalhães

Factos

Posted May 6th, 2009 at 3:29 pm4 Comments

É o meu último post sobre este assunto.

Num post abaixo, escrevi que o deputado António Carlos Monteiro tinha afirmado na RTP-N que, nas últimas regionais dos Açores, o CDS-PP tinha tido o dobro dos votos que aquilo que uma sondagem da Católica previa. Contestei essa afirmação, mostrando que o CESOP não tinha conduzido nenhuma sondagem pré-eleitoral nessa eleição e mostrando os resultados da única sondagem que a Católica tinha feito para essa eleição, uma sondagem à boca das urnas divulgada pela RTP no fecho das urnas.

Num comentário a esse post, entre outras considerações, António Sousa Monteiro desmente ter dito aquilo que eu afirmei que ele disse. Escreve, nomeadamente, o seguinte:

"Aconselho-o também a ser mais cuidadoso nas afirmações que faz e quando imputa aos outros mentiras ou invenções. Tive o cuidado de ouvir novamente tudo o que disse no programa em causa: desvalorizei todas as sondagens porque subavaliavam em regra o CDS-PP, chamei à atenção para que os resultados nos Açores tinham penalizado o centrão e o CDS tinha tido o dobro do previsto, sem nunca ter mencionado o nome da Católica (aliás a Universidade onde tirei o curso e que lamento ver o nome associado a estas sondagens).Vá verificar tudo o que eu disse e veja se sou eu ou o Pedro Magalhães quem inventou ou mentiu? Terá sido por enfiar a carapuça?"

Segui o conselho do senhor deputado. Passo assim à transcrição das afirmações de António Sousa Monteiro no programa Pontos de Vista, emitido pela RTP-N no dia 2 de Maio:

"Eu só diria o seguinte. Se até já o PCP se queixa das sondagens, então o que é que o CDS pode fazer. Aliás, nos Açores - e as sondagens que foram feitas para o acto eleitoral dos Açores demonstraram que o CDS valia muito mais do que aquilo que aparecia nas sondagens. Aliás, nos Açores, teve o dobro daquilo que a vossa sondagem na RTP previa."

A não ser que o deputado Sousa Monteiro - mesmo após ter ido comentar uma sondagem da Católica para a RTP e depois de ter tido "o cuidado de ouvir novamente tudo o que disse" - ainda não tenha descortinado que é a Universidade Católica que faz as sondagens para a RTP, teremos então de concluir que os factos contrariam não apenas a sua primeira afirmação - a da existência da tal sondagem - mas também a segunda - a de que não afirmou aquilo que eu disse que ele afirmou. O vídeo está disponível aqui, no site da RTP. A transcrição refere-se a um trecho que ocorre quando o relógio no canto superior direito marca 1:44.

by Pedro Magalhães

Late deciders

Posted May 6th, 2009 at 10:05 am4 Comments

Independentemente da controvérsia sobre as sondagens, suas alegadas manipulações e coisas do género, há uma questão substantiva de interesse por detrás de tudo disto. Será que os eleitores que tomam as suas decisões mais tarde fazem opções diferentes daqueles que decidem mais cedo?


Felizmente, não é completamente impossível responder a essa questão. No inquérito pós-eleitoral de 2005 realizado no âmbito do programa de investigação do ICS "Comportamento Eleitoral dos Portugueses", coordenado por António Barreto, três questões são relevantes para este efeito. Uma consistiu em perguntar aos eleitores recenseados do Continente se votaram. A outra, e aos que disseram que sim, como votaram. E a terceira, quando decidiram como iriam votar. A última pergunta apresentou os eleitores que afirmaram ter votado perante várias opções: decidiram no próprio dia; na véspera; na semana antes das eleições; no mês antes das eleições; ou antes disso.

Se agregarmos as respostas a esta terceira pergunta em dois grupos - mais de um mês antes das eleições e durante o mês que precedeu as eleições, os inquiridos que afirmam ter votado na eleição repartem-se da seguinte forma: 63,9% afirma ter decido como votar a mais de um mês antes; 33,6% que terá decidido no mês que precedeu a eleição; e 2,5% que afirmaram não saber ou optaram por não responder. Sabemos se foi realmente assim? Não sabemos. Sabemos apenas aquilo que nos dizem. É o que há.

Mas o que acontece quando comparamos a recordação de voto dos dois maiores grupos anteriores? Isto:


De acordo com as suas próprias declarações num inquérito eleitoral, aqueles que decidiram a mais de um mês não se distribuíram da mesma forma que aqueles que dizem ter decidido mais tarde. Neste segundo grupo, o CDS-PP e o BE recolheram mais opções que entre o primeiro grupo. Pelo contrário, PS, PSD e CDU perdem peso entre os late deciders.

O mais curioso é que as sondagens feitas a mais de um mês e a menos de um mês das eleições reflectem, no seu conjunto (o que tenderia a eliminar erros aleatórios causados pelo facto de se estarem a usar amostras) esta tendência (fonte: aqui e aqui). Começo no dia 2 de Dezembro, data da primeira sondagem de que disponho. São 8 entre o dia 2 e o dia 20, e 17 sondagens depois do dia 20.



A segunda coluna deste segundo quadro não pode ser comparada com a segunda coluna do quadro anterior, dado que, nele, nos concentramos apenas nos que decidiram a menos de um mês. Mas notem-se as tendências: no PS e no PSD, que recolheram menos opções entre os eleitores que decidiram mais tarde, as sondagens, em média, indicam descida. No CDS-PP e no BE, pelo contrário, as sondagens captaram subida. A única anomalia é a CDU, que subiu, em média, nas sondagens, quando os eleitores que dizem ter decidido no último mês se afastam, proporcionalmente, mais da CDU do que os que decidiram antes. Mas em geral, isto mostra que a distância a que se faz uma sondagem de uma eleição pode contar, porque os eleitores que decidem mais cedo não se repartem necessariamente da mesma forma que os que decidem mais tarde, que representam, como vimos, uma parcela muito considerável dos votantes. Mesmo numa eleição que, em geral, mostrou excepcionalmente baixos efeitos de campanha. Até neste caso, 20,8% dos eleitores afirmaram ter decido na última semana. Imaginem noutros actos eleitorais onde esse efeitos foram muito maiores e não lineares, como este ou este.

by Pedro Magalhães

CDS-PP queixa-se de sondagem à ERC

Posted May 4th, 2009 at 11:29 pm4 Comments