Pedro Magalhães

Margens de Erro

Group Identity, Mobilization and Political Participation

Posted October 16th, 2013 at 10:28 am4 Comments

É o título de uma conferência de Pedro Robalo, do Center for Experimental Economics and Political Decision Making (CREED), que vai ter lugar no ICS, 6ª feira dia 18, às 15.00h. O Pedro tem feito estudos muito interessantes usando experiências aplicadas ao estudo da participação e da decisão políticas e trabalha - não é exagero - com algumas das melhores pessoas do mundo neste área. Para além de nos apresentar um paper, o Pedro vai para além disso descrever um pouco as contribuições que os estudos experimentais têm dado para a compreensão da participação, vantagens e desvantagens, etc. Ponham na vossa agenda e venham ao ICS.

by Pedro Magalhães

Paulo Portas no POPSTAR

Posted October 14th, 2013 at 10:52 am4 Comments

Previsivelmente, entre os líderes político-partidários, Paulo Portas dominou o buzz de ontem, dominância particularmente acentuada no Twitter e nas notícias (mas curiosamente menos nos blogues): buzz 13 outubro

No "sentimento" do Twitter (opiniões positivas, negativas ou neutras), a prova de uma quase invariável regularidade: quantas mais menções no Twitter cuja polaridade se consiga medir como positiva ou negativa, mais acentuada a sua negatividade. Apesar do smoother (por definição e da maneira como está calculado) não mostrar isso ainda, pode ver-se nos pontos do gráfico como o (log do) rácio entre menções positivas e negativas para Portas foi particularmente negativo ontem e como o vice-Primeiro Ministro foi objecto de mais de 70% de todas as menções negativas feitas a todos os líderes partidários. sentimento portas 13 outubro

Contudo, esta linha só começará a inclinar-se decisivamente para baixo (no rácio) ou para cima (no share de menções negativas) se este padrão tiver continuidade nos próximos dias. Como se vê nos gráficos de mais longo prazo, essas mudanças mais permanentes não se manifestam com muita frequência. O sentimento no Twitter em relação a Portas degrada-se em Julho de 2013 (com diminuição do rácio positivas/negativas e aumento do share de menções negativas) mas volta a subir (rácio) e descer (share) a partir de Agosto, de resto, como sucedeu, afinal, na avaliação da sua actuação nas sondagens.

portas sentimento desde 2011

by Pedro Magalhães

Nova sondagem e actualização do POPSTAR

Posted October 12th, 2013 at 8:41 pm4 Comments

Nova sondagem divulgada hoje pelo Expresso: Eurosondagem, 2-8 Outubro, N=1010, Tel. PS: 36,5% PSD: 26.9% CDU: 12.1% CDS: 8.6% BE: 5.9%

Em relação à última sondagem conhecida (a da Aximage), o PSD desce, apesar de subir em relação ao anterior resultado da Eurosondagem. O resultado é que, no fundamental, a nossa estimativa para o PSD permanece praticamente inalterada. O mesmo sucede com o CDS, que também desce em relação à Aximage mas sobe em relação ao último estudo da Eurosondagem. Na popularidade, a única mudança mais expressiva é a descida de Passos Coelho.

Desde a crise política de Julho, o que sucedeu no nosso filtro?

1. PSD subiu 2.1 pontos, de 25.6% para 27.7%.

2. CDS desceu 1.2 pontos, de 9% para 7.8%.

3. PS subiu 1.3 pontos, de 34.9% para 36.2%.

4. CDU manteve-se praticamente inalterado (de 12.2% para 11.9%).

5. BE desceu 1.6 pontos, de 8.4% para 6.8%.

Na popularidade, tudo relativamente estável nos últimos meses, excepto Paulo Portas: queda abrupta após a crise política mas sinais de recuperação desde o início de Setembro.

by Pedro Magalhães

Muitas leituras para fazer

Posted October 11th, 2013 at 10:20 am4 Comments

A lista de leituras de ciência política recomendadas relacionadas com o que estamos a fazer no POPSTAR aumenta drasticamente: New Directions in Analyzing Text as Data, uma conferência recente na LSE (onde a Nina também esteve). Particularmente apelativo (para mim): “Predicting and Interpolating State-level polling using Twitter textual data”, de Nick Beauchamp (uma pessoa diz que não está necessariamente interessada no Twitter como instrumento de previsão mas depois vai-se a ver e não resiste).

by Pedro Magalhães

“O país pergunta”

Posted October 10th, 2013 at 6:35 am4 Comments

Até agora, os três maiores "picos" no buzz do Twitter sobre Passos Coelho em 2013 foram nos dias 2 de Julho (crise política), 7 de Abril (declaração ao país após decisão do Tribunal Constitucional) e, claro, ontem.

Captura de ecrã 2013-10-10, às 06.17.40

by Pedro Magalhães

Ironias

Posted October 9th, 2013 at 7:34 pm4 Comments

Os "pequenos partidos" - vamos deixar aqui de lado o CDS-PP, por fazer parte da coligação de governo - queixam-se com frequência da baixa atenção que recebem da comunicação social, e há toda uma parafernália de decisões de várias entidades (ERC, CNE, etc.) que tratam o assunto e visam, de alguma forma (bem ou mal é outra questão), reequilibrar o campo de jogo comunicacional.

Uma hipótese seria a de pensar que os media sociais, por não estarem sujeitos ao mesmo tipo de lógicas, e por serem utilizados por um segmento não representativo da população - menos "mainstream", mais politizado, mais atreito a ideias "na margem", etc. - poderiam ajudar a compensar o desequilíbrio de visibilidade dos pequenos partidos nos media convencionais. É por isso que estes gráficos que se seguem são tão curiosos:

Screen shot 2013-10-09 at 19.15.23

Screen shot 2013-10-09 at 19.15.30 Screen shot 2013-10-09 at 19.15.37 Screen shot 2013-10-09 at 19.16.03 Screen shot 2013-10-09 at 19.15.55 Screen shot 2013-10-09 at 19.16.08

Catarina Martins e João Semedo são em regra - e em relação aos restantes líderes partidários - mais mencionados nas notícias online dos órgãos de comunicação social do que no Twitter ou nos blogues. O mesmo sucede, com menor disparidade, com Jerónimo de Sousa. Ainda por cima, como veremos nos próximos tempos, ser-se mencionado no Twitter significa na maioria dos casos (e sempre que essas menções têm uma polaridade positiva ou negativa) ser-se negativamente mencionado (apesar de isso ser menos dramaticamente acentuado nestes casos do que nos dos líderes dos maiores partidos).

Em suma, as lideranças do BE e do PCP têm comparativamente mais visibilidade nos órgãos de comunicação convencionais (mesmo que online) do que na twittosfera ou na blogosfera. E ainda por cima, podemos dizer com alguma segurança que, pelo menos no caso da twittosfera, as poucas vezes que lá são mencionados é, na maioria das vezes que se transmite uma opinião, para dizer mal deles. Irónico, não?

by Pedro Magalhães

POPSTAR is born

Posted October 9th, 2013 at 9:49 am4 Comments

Screen shot 2013-10-09 at 09.33.12 POPSTAR significa Public Opinion and Sentiment Tracking, Analysis, and Research. É um projecto de investigação do Instituto de Ciências Sociais da ULisboa, do INESC-ID, da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e do Núcleo de Investigação em Políticas Económicas da Universidade do Minho, financiado pela Fundação para Ciência e Tecnologia. O objectivo do POPSTAR é desenvolver ferramentas de recolha, medição e agregação de opiniões políticas e económicas veiculadas no Twitter, na blogosfera e nas notícias, assim como o de comparar os dados assim gerados com indicadores mais convencionais de opinião pública, nomeadamente os obtidos através de inquéritos por questionário (sondagens). O POPSTAR já tem uma casa: www.popstar.pt.

Aqui podem encontrar:

1. Tendências na opinião pública tal como captadas pelas sondagens, seja em termos de intenções de voto nos principais partidos seja de avaliação da actuação dos principais líderes políticos. A metodologia utilizada já foi abordada aqui neste blogue por mim e pelo Luís Aguiar-Conraria. Os dados serão actualizados sempre que saia uma nova sondagem e os todos os seus resultados sejam conhecidos, na imprensa ou no depósito na ERC.

2. Tendências no Buzz sobre os principais líderes político-partidários, ou seja, na frequência (absoluta e relativa) com que são mencionados no Twitter, nas notícias online ou na blogosfera. Os dados vêm de uma plataforma denominada POPmine, desenvolvida pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e os Labs Sapo UP. Com estes dados, podemos acompanhar dia a dia a "notoriedade" dos líderes políticos, determinar que dias foram "picos" de cobertura para cada um deles e perceber em que medida vão sendo mais ou menos mencionados em comparação uns com os outros e em três suportes distintos. Esta informação é actualizada diariamente.

3. Tendências no Sentimento em relação aos principais líderes político-partidários no Twitter. Analisando a polaridade de cada tweet, ou seja, determinando se este expressa um sentimento positivo, negativo ou neutro em relação a cada um dos alvos, é possível construir indicadores globais que indicam tendências. Nesta fase, utilizamos dois indicadores possíveis: um rácio (transformado) de menções positivas sobre negativas e o cálculo do share de menções negativas. Para determinar a polaridade de cada tweet, utiliza-se o Opinionizer, uma ferramenta de análise de sentimento em mensagens do Twitter, fruto de trabalho de Investigação e Desenvolvimento do grupo DMIR do INESC- ID Lisboa. Esta informação é actualizada diariamente.

É natural que surjam muitas questões. Procuramos antecipar algumas aqui neste Q&A e estamos ao dispor de todos para tentar esclarecer as restantes. Este é apenas o primeiro protótipo deste sistema, e muitas evoluções estão previstas: determinar a polaridade de outro tipo de textos para além de tweets; alargar o nosso objecto de estudo da política para a economia; fornecer ferramentas adicionais de análise aos utilizadores; e, mais importante, utilizar e disseminar os dados daqui decorrentes para a investigação.

Como muitos saberão, há quem deposite grandes esperanças na capacidade destas ferramentas para complementarem ou mesmos substituirem indicadores mais convencionais de opinião pública. Um artigo de opinião recente do Washington Post tinha como título "How Twitter can help predict an election", baseado neste paper. É natural este entusiasmo, ditado quer pela novidade do meio quer pela crescente frustração com os problemas metodológicos dos inquéritos por questionário (baixas taxas de resposta, "cell-only" voters, etc.). É também natural (e parcialmente justificado) o cepticismo em relação a este tipo de alegações bombásticas, e muitas as falácias em que se pode cair ao fazê-las.

A nossa posição aqui, contudo, tende a ser um pouco diferente. Primeiro, antes de qualquer alegação de capacidades preditivas, os media sociais são interessantes em si mesmos como veículos e fontes de informação política. Que informação é veiculada neles? Conseguimos construir instrumentos de medida válidos e fiáveis e ferramentas que sejam capazes de lidar com a quantidade enorme de dados que se podem recolher nestes suportes?  "Move away from trying to predict votes and move toward trying to understand tweets" é um bom conselho, da mesma maneira que os estudos sobre a comunicação social não precisam de alegar que o conteúdo dos media são "preditores" de eleições para serem relevantes.

Segundo, a mera comparação dos conteúdos dos media sociais e dos media convencionais é também interessante em si mesma. Que relações entre esses conteúdos? Quem influencia (ou pelo menos antecipa) quem, quando e como? Serão os media sociais capazes de compensar a assimetria de atenção e cobertura com que que diferentes ideias, pessoas, e partidos são tratados na comunicação social "convencional"? Ou reproduzem eles as mesmas assimetrias?

Finalmente, é perfeitamente possível imaginar relações entre os conteúdos dos media sociais e opiniões e comportamentos políticos de diferentes populações que não passam pelo relativo simplismo de "prever" eleições. E se, por exemplo, as opiniões veiculados na twittosfera ou na blogosfera forem "indicadores avançados" de mudanças nas atitudes políticas ou nas opiniões sobre a economia, fenómeno fácil de conceber tendo em conta o perfil sociográfico e político daqueles que usam essas plataformas para comunicar? Há todo um mundo a explorar para além da "previsão de eleições com o Twitter". Essa exploração é o objectivo do POPSTAR. Ao longo dos próximos meses, o blogue do POPSTAR vai ser o local onde deixaremos as nossas ideias e análises.

Termino com uma nota pessoal para dizer que, apesar de eu já ter uma boa noção do tipo de coisas de que o meu amigo Luís Aguiar-Conraria é capaz quando lhe põem uma série temporal à frente, estou absolutamente siderado com o trabalho que toda a equipa - incluindo vários investigadores do INESC-ID, da Faculdade de Engenharia do Porto e do ICS-UL - foi capaz de fazer para algo que ainda não passa de um primeiro protótipo. Os seus nomes: Carlos Soares, Eduarda Mendes Rodrigues, Mário J. Silva, Nina Wiesehomeier, Paula Carvalho, Silvio Amir, Pedro Saleiro, Miguel Maria Pereira e João Filgueiras, sem esquecer o trabalho do designer Manuel Távora.

by Pedro Magalhães

Contabilidades definitivas

Posted October 1st, 2013 at 2:58 pm4 Comments

Arriscando ser redundante em relação ao que todos já sabem, um apanhado rápido para ficar registado:

1. Somando as percentagens de votos de todas as listas para as câmaras municipais em que o PSD e o CDS concorreram isolados ou em conjunto, temos 34.8%. Isto é uma diferença de 15.5 pontos em relação aos resultados das legislativas dos dois partidos. É uma perda quase ao nível das maiores de sempre, as sofridas pelo PSD em 1989 e 1993.

2. PS com 150 câmaras, 49% do total, melhor resultado de sempre para o partido deste ponto de vista. Mas ainda longe dos resultados estrondosos para o PSD em 1979 (174 câmaras, 57% do total), e até dos números para o PSD em 2001 e 2005. 106 câmaras para o PSD em 2013, pior resultado de sempre deste ponto de vista. 34 câmaras para a CDU, o melhor resultado desde 1997. 5 câmaras para o CDS, o "penta", melhor resultado desde 1997. O CDS já teve 36 câmaras. Eram os tempos do tricontahexa, ou do triplo dodeca, que já lá vão.

3. Concorrendo sozinho, o PS até teve uma menor percentagem de votos desta vez em comparação com 2009: 36,3%, contra 37,7%. Não interessa como contabilizamos a sua parcela nas coligações: o PS teve uma menor percentagem de votos em 2013 do que em 2009. Teve também menos votos em valor absoluto (de 2 milhões para 1,8 milhões). De resto, todos tiveram, exceptuando três componentes muito especiais: a CDU (que sobe de 9,8% para 11,7% e de 540 mil votos para 552 mil); os "grupos de cidadãos" (de 4,1% para 6,9% e de 226 mil votos para 345 mil); e os votos brancos e nulos (que somados desta vez foram 6,8% - 340 mil - contra 3% - 164 mil - em 2009).

4. A abstenção sobe, ao contrário do que diziam as projecções às 19h de Domingo. Umas contas de merceeiro (regra três simples) na base da afluência às 16h nas eleições de 2009 e 2013 e da participação eleitoral final de 2009 fariam supor uma abstenção de 44% em 2013, já de si superior à de 2009. Mas acabou por ser de 47,4%. Logo, a afluência nas últimas horas foi desproporcionalmente inferior à de 2009. A que se deve o resto ao aumento não sei. Mas pergunto-me se grande parte dele não será devido a um desfazamento ainda maior entre os cadernos eleitorais e o número real de eleitores com capacidade eleitoral no território. Custa um bocadinho comentar a abstenção e suas evoluções com distorções desta ordem, é verdade.

5. Os "pequenos partidos" (vamos excluir para já o BE deste grupo) somaram 1.2% dos votos, contra 0,7% em 2009, isto não contabilizando a sua possível contribuição para algumas coligações pré-eleitorais em que estiveram envolvidos. Mas em Lisboa, por exemplo, somaram 5,4% dos votos. O PAN teve 2,3% em Lisboa, 5ª lista depois do Bloco (4,6%), e 3% na assembleia municipal, para onde elegeram um membro, isto com infinitamente menos recursos. Nas legislativas, no concelho de Lisboa, o PAN teve 1,5% dos votos. Nas legislativas de 1999, o BE só precisou de 4,9% dos votos para eleger 2 deputados. Um fenómeno a acompanhar.

by Pedro Magalhães

Contabilidades provisórias

Posted September 30th, 2013 at 11:13 am4 Comments

1. Segundo o site do MJ, estão 3021 freguesias contabilizadas de 3092. PSD e CDS, os partidos de governo, somam, para todas as listas em que entraram isolados ou em conjunto, 34,9%. Isto representa uma perda de 15,4 pontos em relação aos resultados das legislativas de 2011. São perdas na ordem das sofridas pelo PSD nas autárquicas de 1989 e 1993, as maiores de sempre sofridas por partidos do governo em autárquicas.

2. Neste momento, de 282 câmaras já decididas, 136 para o PS, 100 para o PSD, 30 para a CDU, 5 para o CDS e 11 para independentes. O PS tem 48% das câmaras atribuidas, superando o seu máximo desde 1976. O PSD tem 35%, pior que em 1989, ou seja, o pior resultado de sempre. CDU e CDS têm os melhores resultados, deste ponto de vista, desde 1997.

3. Dos 20 municípios mais populosos do país, representando 38.5% da população, o PSD tinha 8 câmaras e passou para 5; o PS tinha 8 e passou para 9; CDU tinha 2 e passou para 3; havia 2 independentes, agora há 3.

by Pedro Magalhães

Sobre o novo Conselho de Ciências Sociais e Humanidades e um post

Posted September 27th, 2013 at 10:43 am4 Comments

Chamam-me a atenção para o facto de alguns tweets meus serem citados num post do Câmara Corporativa a propósito da composição do Conselho Científico de Ciências Sociais e Humanidades da FCT.

As citações estão absolutamente correctas, e têm a ver com a minha surpresa pelo facto de este Conselho ser agora presidido por alguém que trabalha na área das Ciências da Vida: em antropologia forense, um ramo da antropologia física ou biológica (o meu amigo Luís Aguiar-Conraria discorda aqui desta minha leitura e dá provas do elevado mérito científico da presidente, coisa de que não discordo mas não é o meu ponto). Não tenho nada contra  o cruzamento entre diferentes ciências e áreas científicas (pelo contrário, afinal, tenho um projecto onde trabalho com economistas, linguistas e engenheiros), mas surpreende-me e incomoda-me um pouco que esta introdução no CCCSH de pessoas (e há mais do que uma) de áreas que não são das ciências sociais e humanidades não tenha, que eu saiba, contrapartida na introdução nos outros três conselhos (de Ciências da Vida e da Saúde, Ciências Exactas e da Engenharia e Ciências Naturais e do Ambiente) de, por exemplo, sociólogos, linguistas, historiadores, psicólogos, etc. Fracassada assim a prova de que estes mudanças visam promover globalmente cruzamento de saberes e interdisciplinaridade, é difícil não interpretar isto - desculpem o "corporativismo" - como uma menorização daquilo que fazemos.

Contudo, incomoda-me também ser citado num post - e no mesmo ponto - em que se atacam pessoas como João Carlos Espada e Rui Ramos. Chamo "ataques" e não "críticas" porque, na verdade, não consigo discernir argumentos. O IEP liderado por João Carlos Espada teve uma vez uma avaliação menos boa da FCT? Eu, que cheguei a colaborar no IEP, tenho de facto alguma pena que não tenha apostado mais na investigação e que dele saia um pensamento que me parece excessivamente carregado e homogéneo do ponto de vista político e ideológico. Mas isso é uma opção como outra qualquer e, mais importante, nada disto impede que João Carlos Espada seja uma pessoa reputada na área onde trabalha (a teoria política) e com publicações nacionais e internacionais em boas revistas e editoras. Não percebo onde é que está desqualificado para servir num conselho deste género.

E depois há Rui Ramos. Não sou historiador nem especialista em nada que o meu colega no ICS tenha estudado. Mas qualquer pessoa de bom senso e boas intenções pode constatar que Rui Ramos tem uma obra vastíssima, muitíssimo citada pelos seus pares, nalgumas das publicações mais marcantes da historiografia portuguesa recente. Rui Ramos é polémico, seja como historiador seja como colunista? Qual é o problema? Colaborou com o Expresso na popularização do seu trabalho? Qual é o problema? São coisas que só sucedem a quem é importante na sua área, e é isso mesmo que Rui Ramos é: um dos mais importantes historiadores portugueses. Desqualificado exactamente em quê para servir no Conselho?

Em suma, o que me parece é que atribuir a estes ataques motivações estritamente políticas e ideológicas é usar terminologia demasiado elegante.  

by Pedro Magalhães