Pedro Magalhães

Margens de Erro

Ano eleitoral

Posted January 19th, 2009 at 6:08 pm4 Comments

De Março de 2005 até hoje, fui recolhendo as notícias sobre algumas sondagens que iam saindo. Até agora, tenho tratado apenas os dados respeitantes à popularidade dos líderes do PS e do PSD tal como recolhidos pela Marktest e pela Eurosondagem. Mas em ano de eleições, vale a pena voltar um pouco atrás e olhar para as intenções de voto.

Para que nos entendamos, as regras são as seguintes:

1. Os dados dizem respeito às estimativas de resultados eleitorais, ou seja, os resultados das sondagens de intenções de voto comparáveis com resultados de eleições. Em muitos casos, os órgãos de comunicação social apresentam esses resultados, quase sempre redistribuindo os indecisos proporcionalmente pelas restantes opções. No caso da Católica, há uma segunda pergunta colocada aos NS/NR sobre "inclinação de voto". Os que respondem são redistribuidos nessa base, os restantes proporcionalmente. Finalmente, quando nem os institutos nem os media procederam à redistribuição, eu próprio fi-lo, usando a opção de os redistribuir proporcionalmente pelas opções válidas (incluindo, para este efeito, uma categoria de "outros, brancos ou nulos"). Tudo relativamente banal.

2. Ao longo dos últimos três anos, julgo ter informação sobre todas as sondagens realizadas pela Marktest e pela Eurosondagem, para além das do CESOP/Católica, naturalmente. No total, são 44 da Eurosondagem, 39 da Marktest (que não coloca dados no site desde Novembro) e 9 do CESOP. Sabemos, contudo, que a Aximage e a Intercampus também têm conduzido sondagens. Uma pesquisa muito minuciosa na Net, nos sites da TVI e do Correio da Manhã, permitiu detectar 5 sondagens da Aximage e 3 da Intercampus. Há sem dúvida mais sondagens da Aximage, mas as notícias do Correio da Manhã na Net anteriores a Julho de 2008 apresentam apenas intenções de voto brutas no PS e no PSD. No caso da Intercampus, se houve sondagens antes de Junho de 2008, não as consegui encontrar. Se alguém tiver a informação em falta e quiser enviar-me, ficarei grato.

O que se pode fazer com esta informação? Bem, vamos ver aquilo que consigo espremer destes dados. Para começar, o mais simples e mais agnóstico: um plot dos resultados de todas as 100 sondagens de que disponho para cada partido. A cada conjunto de dados para cada partido ajusto uma linha, presumindo que as tendências não são lineares. Trata-se de uma linha de regressão local, dando maior peso às observações imediatamente adjacentes do que às outras. Podia fazer de conta que sei muito bem o que estou a fazer, mas não vale a pena: limito-me a recorrer a umas funções do SPSS que me fornecem estas curvas e a ter uma vaga ideia de como são estimadas: aqui. Mas com as devidas diferenças, estou a fazer o que estes senhores fazem regularmente. E tal como eles, esta abordagem é completamente agnóstica (o que não significa que seja superior a outras) : tomo em conta todas as sondagens de que disponho, ignoro o facto de que há dois institutos de sondagens muito sobrerepresentados e não tomo em conta que as estimativas têm precisões diferentes (baseando-se em dimensões amostrais que vão dos 600 aos 1354). Dito isto, aqui vai:




Este smoother é, digamos, medianamente sensível (Kernel: Epanechnikov, 35% points to fit). Posso torná-lo mais "insensível" (obrigando-o a tomar mais observações em consideração):


Ou, pelo contrário, mais sensível às flutuações de cada momento:

Fiquemos com este último, para já. Adiciono de seguida umas linhas de referência verticais com algumas datas: as autárquicas de 2005; o caso "Universidade Independente"; a eleição de Menezes; e a eleição de Ferreira Leite:
Cliquem para ampliar, e digam lá se isto não tem a sua graça.

by Pedro Magalhães

Detalhes

Posted January 15th, 2009 at 6:09 pm4 Comments

A sondagem da Aximage para o Correio da Manhã gerou alguma agitação adicional por um dos seus resultados ter sido divulgado antecipadamente na blogosfera: os 23% de intenções de voto para o PSD. Dito isto, perdoem-me que repita uma banalidade, mas há um pequeno detalhe. Um leitor menos habituado a estas coisas olha para estes 23%, pensa nos 29% que o PSD teve nas eleições de 2005, pensa eventualmente nos 27% que o PSD tinha na última sondagem da Intercampus, ou nos 30% que tinha na última sondagem da Católica, ou até nos 30% que tinha na última sondagem da Eurosondagem, e fica surpreendido com a dimensão da discrepância: 4 pontos menos que a outra sondagem com valores mais baixos.

Mas atenção: os 23% da Aximage para o PSD são calculados em relação a um total onde estão incluídas intenções de voto ou de votação em branco ou nulo (o que é contabilizado nas legislativas) assim como "indecisos" (7,1%). Pelo que estes 23% não podem ser comparados nem com resultados eleitorais nem com os resultados das outras sondagens acima descritos. Se fizermos para estes resultados o mesmo que a Intercampus, a Eurosondagem e a Católica* fazem com as suas intenções de voto brutas, ou seja, redistribuir os indecisos proporcionalmente pelas restantes opções de voto, os resultados são os seguintes (arredondados à unidade):

PS: 40%
PSD: 25%
BE:12%
CDU: 9%
CDS:8%
OBN:5%

É só um detalhe. Sobre se a "boa" estimativa para o PSD é 25 ou 30%, não creio que se possa saber e isso é, de resto, o que menos interessa. O que interessa é que o resultado da Aximage está perfeitamente alinhado na tendência (que é o mais importante): o PSD desce na Aximage (de Dezembro para Janeiro), como já descia na Intercampus (de Outubro para Dezembro), como já descia na Católica (de Outubro para Dezembro) e como já descia na Eurosondagem (de Novembro para Dezembro). Não creio que haja dúvida razoável sobre a noção de que o PSD está a perder apoio eleitoral nos últimos meses.

*O asterisco é só porque a Católica faz uma coisa ligeiramente mais complicada, que é usar as respostas dos indecisos a uma segunda pergunta sobre "inclinação de voto" para os distribuir. Mas os que não respondem a essa pergunta são tratados da mesma forma, ou seja, como abstencionistas.

by Pedro Magalhães

Imperdível, 2

Posted January 14th, 2009 at 12:10 am4 Comments

No Monkey Cage, post a post, a discussão de alguns dos artigos mencionados no post abaixo

by Pedro Magalhães

Imperdível

Posted January 13th, 2009 at 12:34 pm4 Comments

O primeiro conjunto de artigos académicos sobre as eleições americanas já está disponível. Na internet, claro: The Forum, publicado pela Berkeley Electronic Press, volume 6, número 4. Dez artigos, quase todos por gente muito conhecida da área, sobre temas que vão desde a participação eleitoral até ao papel dos grupos de interesse na eleição. Imperdível.

by Pedro Magalhães

Das duas, três

Posted January 10th, 2009 at 3:35 pm4 Comments

 Uma nota rapidíssima sobre este post de Eduardo Pitta (que é também um dos poucos bloggers que ainda leio regularmente) onde, a propósito da notícia do Sol sobre o Orçamento, dos comentários de Mário Crespo sobre "fontes anónimas" e a reacção da Casa Civil, se cita Crespo com aprovação: "Uma coisa é certa: ou as notícias saem lá de dentro [da Presidência da República] ou são inventadas pelos jornais." 


Eu acho que é possível, mas acho também que falta uma óbvia terceira possibilidade. Exemplifico: há dias, um jornalista ligava-me para confirmar a existência de um alegado estudo da Católica que teria sido feito a pedido de Belém, que o Presidente já teria citado várias vezes em reuniões de trabalho, e que supostamente mostraria que os portugueses "sabiam distinguir bem entre eleições" e apoiaria a convocação de eleições legislativas para a mesma data que as europeias. Pergunto ao Eduardo: de onde é que ele acha que terá vindo este conto de ficção científica? Das duas, três.

by Pedro Magalhães

Sondagens em Israel, 2

Posted January 8th, 2009 at 11:16 am4 Comments

Benjamin Netanyahu’s Likud party has lost momentum as a general ballot in Israel draws near, according to a poll by Teleseker published in Maariv. A prospective tally of seats shows the rightist party would get 28 seats in the Knesset in next month’s election, down seven since December. The ruling Kadima party would also get 28 seats—up seven in three weeks. Labour is third with 16 mandates, followed by Israel Our Home with 12 seats, and the International Organization of Torah-observant Sephardic Jews (Shas) with 11 mandates.

Ler mais aqui.

by Pedro Magalhães

Sondagens em Israel, 1

Posted January 8th, 2009 at 11:13 am4 Comments

Maagar Mochot/Israel Radio, 28.12.08, N= 502, Telefone

Do you support the current military operation in Gaza?
Support: 81%
Oppose: 12%
Not sure: 7%

Will the current operation stop the Qassam rockets against Israel?
Forever: 6%
For a long period: 11%
For a short period: 24%
No: 39%
Not sure: 20%

by Pedro Magalhães

Outlier: sobre o Estatuto dos Açores

Posted December 30th, 2008 at 6:01 pm4 Comments

Em parte em comentário ao que Luís Campos e Cunha escreve no Blog da Sedes, tenho alguma dificuldade em compreender por que razão o Presidente não optou, em qualquer momento deste processo, por enviar o Estatuto dos Açores para fiscalização preventiva pelo Tribunal Constitucional. Há muito tempo que não me debruço sobre estes temas, o assunto é muitíssimo complicado, não sou jurista e podia escrever mais alguns "disclaimers". Mas para abreviar, acho que fez mal, por várias razões:

1. A apreciação que o Presidente fez do Estatuto na sua comunicação ao país de ontem (assim como na do Verão passado) não deixa margem para dúvidas: sem nunca usar o termo, não há dúvida que o Presidente entende que o Estatuto é inconstitucional. Se assim entende, então não pode argumentar que fez "tudo o que estava ao [seu] alcance para defender os superiores interesses do Estado". Não fez uma coisa: solicitar ao supremo intérprete da constitucionalidade das leis que faça o seu trabalho em relação uma lei que o PR entende ser inconstitucional.

2. Ao não o fazer, abre caminho a uma série de interpretações - todas provavelmente ilegítimas, mas não por isso menos possíveis de tentar fazer vingar na opinião pública - sobre a sua actuação, nomeadamente a de que suspeita que o Tribunal não apoiaria a sua interpretação ou até de que suspeita que o Tribunal seria influenciado pelos interesses partidários que criticou na sua comunicação. Ao não pedir a fiscalização, o Presidente, mesmo que involuntariamente, desvaloriza o TC.

3. Faz ainda uma outra coisa. O TC, na fiscalização preventiva, serve para precisamente para confirmar ou infirmar dúvidas que o Presidente tenha sobre a constitucionalidade das leis. E serve especialmente para evitar que leis inconstitucionais entrem em vigor. O que vai suceder, contudo, é que uma lei que o Presidente entende ser inconstitucional vai acabar por entrar em vigor. E vai entrar em vigor sem que o intérprete supremo se tenha pronunciado sobre o que retém (ou não) da interpretação do Presidente. Cria-se assim na opinião pública uma sensação perturbante: a de que, no nosso sistema, é possível que entrem em vigor leis inconstitucionais, ou que o Presidente entende serem inconstitucionais, sem que haja uma última palavra sobre se são inconstitucionais ou não.

4. Num plano ainda mais "político" da questão, ter enviado a lei pra o TC teria evitado ainda outras interpretações, nomeadamente a de que o tema com que Presidente se preocupou mais até agora no seu mandato foi um tema ligado aos seus próprios poderes. A comunicação ao país procurou infirmar esta ideia. Mas ela teria sido infirmada mais eficazmente se a questão tivesse sido deslocada da discordância política do Presidente com o estatuto e com o comportamento dos agentes políticos para o plano mais "abstracto" da adequação da lei à nossa ordem constitucional.

5. Mais geral ainda: na afirmação de que "não se trata apenas de uma questão jurídico-constitucional" há uma desvalorização implícita do que é "jurídico-constitucional". O que a Constituição - e a sua interpretação - fazem é, precisamente, lidar com "os fundamentos essenciais que alicerçam o nosso sistema político" ou "o relacionamento entre órgãos de soberania". De resto, a Constituição e o seu intérprete até fazem muito mais do que isso. Logo, dever-se-ia olhar para isto ao contrário daquilo que fez o Presidente: não se trata apenas de uma questão política, é também uma questão jurídico-constitucional, ou seja, é a questão mais importante de todas na nossa vida colectiva.

6. Agora, mesmo que seja pedida fiscalização sucessiva, quem conhece e estudou o Tribunal sabe o que vai suceder: a decisão só será conhecida daqui a muito tempo, e quase ninguém vai dar por isso, mesmo que a decisão seja desfavorável. Todos os efeitos negativos anteriores já terão ocorrido e sem correcção possível.

7. O plano mais "político" de todos é o menos interessante: se o Presidente sai fortalecido, ou enfraquecido ou nem uma coisa nem outra no fim disto tudo em relação ao governo do PS. Não sei. Mas no nosso sistema, em face de uma maioria absoluta, o veto e a fiscalização preventiva são as "armas dos fracos". A sua eficácia é limitada ou incerta para colocar obstáculos directos às maiorias. Mas o seu uso é indispensável para legitimar outras formas de actuação junto da opinião pública. Caso contrário, com o devido respeito, "ladra-se", mas não se "morde". A "autoridade moral" precisa de vir com alguma artilharia por detrás.

Postado também aqui.

by Pedro Magalhães

Rescaldo das previsões eleitorais U.S.

Posted December 30th, 2008 at 3:22 pm4 Comments

O rescaldo "oficial" das sondagens pré-eleitorais nos Estados Unidos pode ser encontrado aqui. O National Council on Public Polls conclui que "the 19 national presidential polls conducted in 2008 and published at the end of the campaign came very close to the election outcome" e que "despite widely discussed concerns such as the growing size of the cell-phone-only population (and this year the possibility of a repeat of Bradley/Wilder effect), there was no change in poll average error [em relação a 2004]."

O resultado de 46,6% dos votos para McCain (em relação à soma McCain + Obama) pode também ser comparado com os modelos quantitativos de forecasting que foram apresentados nos meses anteriores. É curioso verificar que os três modelos que mais sobrestimaram o voto em McCain foram os de Norpoth (que tomava em conta os resultados das primárias), os de Lewis-Beck e Tien (que introduziam uma "correcção" para o "Bradley effect") e os de Campbell (que utilizava dados de intenção de voto).

Os Iowa Political Markets estimavam, em 2 de Novembro, 46,7% para McCain...

by Pedro Magalhães

Barómetro CESOP/Católica

Posted December 19th, 2008 at 9:00 am4 Comments

O relatório-síntese da última sondagem do CESOP para a RTP, Antena 1 e JN pode ser descarregado aqui. Para além das perguntas habituais, dois temas: perspectivas para 2009 e as relações entre o governo e o Presidente da República.

by Pedro Magalhães