Pedro Magalhães

Peritos

Vale a pena ler este post de Pacheco Pereira (PP). A linha é, de facto, muito fina – se é que existe – entre a contribuição do “politólogo” que pode adiantar qualquer coisa ao conhecimento de um determinado fenómeno político e a contribuição que é uma “opinião política como qualquer outra”. E partilho da preocupação com o facto de essas contribuições, sejam elas meras “opiniões” ou não, aparecerem por vezes enquadradas com uma aura especial de “isenção e intangibilidade”. Se um “politólogo” ou qualquer outro “cientista” (atenção às aspas) é criticado (por vezes com inusitada violência) pelos seus erros e omissões no interior da própria academia, como imaginar que pudesse estar isento de críticas quando se desloca à “praça pública”?

Contudo, será que tudo aquilo que os “politólogos” dizem na comunicação social se resume, como defende PP, a “truísmos” ou “opiniões políticas como quaisquer outras”? Será que toda e cada uma (ou até a maior parte) das intervenções públicas de académicos que estudam fenómenos políticos se encaixam nestas duas categorias? Eu gostaria de pensar que não, mas Pacheco Pereira lá terá a sua “opinião” sobre o assunto, se bem que ela própria esteja sujeita – porventura com tanta ou tão pouca justiça – a ser descrita também como meramente “política” (ver aqui).

Mas mesmo que Pacheco Pereira tenha razão em descrever todas as contribuições “não truísticas” dos académicos que estudam os fenómenos políticos como “opiniões políticas “, qual é exactamente o problema? O que o faz pensar que essas opiniões são “como quaisquer outras”? Não poderá o debate político eventualmente beneficiar da contribuição de pessoas cujas “opiniões políticas” são informadas, claro, pela sua ideologia e convicções políticas, mas também, claro, por uma formação académica específica que os faz prestar atenção a determinadas fenómenos e produzir sobre elas um determinado tipo de discurso? Ficamos a perder assim tanto com isso?

O discurso político sobre a economia e a política nos Estados Unidos fica a perder muito com as opiniões dos economistas e dos politólogos que “descem” da academia para dizer o que pensam informados por aquilo que sabem ou julgam saber ao longo de anos de actividade académica? Não será que o que nos falta é, precisamente, um maior número de public intellectuals, pessoas capazes de, sem abdicar de darem as suas opiniões e de explicarem “de onde vêm”, sejam também capazes de as dar fazendo a ponte para aquilo que na academia se julga saber sobre os temas em discussão? (e não será um dos problemas do debate político nos Estados Unidos o declínio desses public intellectuals e sua crescente substituição por um exército de political pundits, pessoas cuja única e exclusiva actividade é a de…dar opiniões?).

Ou será que devemos concluir que o protagonismo no debate político em Portugal deve ser dado exclusivamente a pessoas cuja actividade fundamental é a de fazer política, mas que, apesar de nunca esconderem que estão a dar a sua “opinião”, fazem-no manipulando o abundante capital simbólico que recolhem da sua suposta condição de “académicos”, nunca se rebelando contra esse enquadramento que deles é dado nos media?