Pedro Magalhães

A "classe média" e as "mulheres a dias"

Anda para aí uma controvérsia sobre a “classe média”: o que significa, quem a compõe e que padrões de rendimento e de consumo a caracterizam. As minhas aulas de “Sociologia das Classes Sociais e da Estratificação” na licenciatura em Sociologia no ISCTE são já uma memória algo distante e receio que o tema não me tenha ocupado nos últimos anos. Imagino também que as definições económicas de “classe média” não coincidam necessariamente com as definições sociológicas, e talvez por aí se explique parte (mas na verdade só uma pequena parte) da controvérsia. Se bem entendo, os economistas tendem a favorecer definições de classe média na base dos rendimentos dos indivíduos e dos agregados familiares a que pertencem. Já os sociólogos tendem a olhar para uma combinação de características, incluindo a profissão, a situação na profissão, as qualificações académicas, a posição na hierarquia profissional, a propriedade dos “meios de produção” e outras.

Mais concretamente, os economistas usam, parece-me, dois tipos de abordagem. A primeira consiste em olhar para a distribuição de rendimentos num determinado país e dizer que a “classe média” desse país é composta pelos indivíduos ou famílias cujos rendimentos se situam algures no meio dessa distribuição: o terceiro quintil (20% da população); os segundo, terceiro ou quarto quintis (60% da população); ou um intervalo qualquer em torno da mediana. Já dá para perceber que a simplicidade e aparente exactidão da abordagem coexiste com um grau considerável de arbitrariedade na definição das fronteiras entre a “classe média” e as outras classes (os 20% do meio, os 60% do meio, ou outra proporção qualquer? E porquê?). A segunda abordagem, seguida aqui, por exemplo, consiste em dizer que a classe média é composta por aqueles que estão ao mesmo tempo acima do limiar da pobreza mas que não podem mantêr-se acima desse limiar sem trabalhar (ao contrário dos “ricos”, que poderiam viver de juros, rendimentos e lucros). Pelas contas de Einsenhauer, nos Estados Unidos, a “classe média” é composta por nada mais nada menos que 82% da população. Aqui haverá porventura menos arbitrariedade na estipulação do que significa “classe média”, mas uma “classe social” a que pertencem 4 em cada 5 indivíduos certamente não terá, a não ser num muito alto grau de abstracção e generalidade, padrões de consumo homogéneos, para já não falar nas coisas que costumam interessar aos sociólogos (atitudes, comportamentos, identidades, valores, crenças, etc).

Os sociólogos olham para isto de outra forma, mas sem que isso signifique que o conceito “classe média” ganhe grande tracção. É certo que, em geral, para os sociólogos, “classes médias” englobam muito genericamente todos aqueles que não pertencem nem à “burguesia” (patrões, empresários, dirigentes de empresas, quadros superiores da administração pública, profissionais liberais de altos rendimentos) nem ao “proletariado” (assalariados de profissões manuais, agrícolas ou industriais). Mas esses membros da – para usar uma terminologia marxiana – “pequena burguesia” ou dos chamados “lugares contraditórios de classe” ocultam uma diversidade enorme de situações e uma proporção enorme da população ou dos agregados familiares de Portugal (nos cálculos de um trabalho recente de Cristina Roldão utilizando o European Social Survey, qualquer coisa entre 34 e 59 por cento da população, dependendo das tipologias utilizadas). Logo, não surpreende que qualquer afirmação genérica sobre a “classe média” seja sempre controversa e, em princípio, quase por definição, errada ou irrelevante. Também não surpreende que, num estudo recente sobre classes sociais na Europa escrito pelos três portugueses que mais têm estudado e escrito sobre o assunto há mais de 30 anos, o termo “classe média” não mereça sequer uma única menção: é demasiado vago, impreciso e denotativo de realidades completamente heterogéneas para dispor de utilidade descritiva ou explicativa.

Dito isto, haverá alguma coisa a dizer sobre a questão em apreço: se a maioria da classe média portuguesa emprega “mulheres a dias”, a tempo parcial ou completo? Já perceberam que acho que a pergunta não faz sentido e a resposta também não fará. Mas vamos lá ver uma coisa:

1. Neste post, Paulo Pedroso sugere que um “inquérito às classes médias” mostraria que a resposta a essa questão é afirmativa. Bem, em 2002 o International Social Survey Program realizou um inquérito a amostras nacionais em vários países e estimou em 8,4% a proporção das famílias portuguesas onde a limpeza da casa é feita com a participação de “uma terceira pessoa” que não um membro do agregado familiar (incluindo, note-se, ajuda paga ou não paga, o que sobrestima em muito, como veremos, a percentagem de famílias que contratam serviços de “mulheres a dias”) . Mas o mais curioso é que, quando cruzamos rendimento do agregado familiar (por escalões) com o recurso a “terceiras pessoas” para a limpeza, verificamos que a relação é curvilinear: percentagens maiores nos extremos da distribuição de rendimentos (muito maior, claro, nos rendimentos mais elevados). Por outras palavras, quem recorre menos a terceiras pessoas para a limpeza da casa são os indivíduos em agregados familiares com rendimentos…intermédios. Claro que isto não significa que os mais pobres recorram mais a “mulheres a dias” que os escalões intermédios, mas sim que, nos escalões inferiores, estamos certamente a falar em ajuda não paga. Mas lá que é irónico, é. E tudo isto, claro, completamente incompatível com a ideia de que a “maioria” das famílias de “classe média” em Portugal recorrem a este tipo de serviço, a não ser que a definição de classe média seja não só extremamente restritiva mas também diferente de qualquer noção familiar à Sociologia ou à Economia.

2. Os valores baixos – 8,4% para o total, 37% para as famílias de mais altos rendimentos (acima dos 2500 euros, dados de 2002) – podem surpreender. Mas notem: não conheço dados para Portugal, mas em Espanha – na base de inquéritos, não de estatísticas oficiais, mais falíveis nestes domínios onde está envolvido muito trabalho informal – as pessoas empregadas no trabalho doméstico representam 3,9% do total da força de trabalho, segundo um relatório da Organização Mundial do Trabalho preparado para a International Labor Conference do próximo ano. Das duas uma: ou os números para Portugal são muito maiores do que em Espanha, ou volta-se a não vislumbrar qualquer possibilidade de que uma força de trabalho com estes números tão escassos forneça serviços à maior parte de 20, 24, 59, 60 ou 82% dos lares portugueses, seja qual for a definição de “classe média” que utilizemos. Para que a resposta à pergunta inicial seja afirmativa, a definição de “classe média” teria de ser, novamente, extremamente restritiva.

Isto não retira interesse a outras questões genéricas, especialmente às diferenças entre Portugal e outros países. O valor de 8,4% (11,5% para as famílias com mulheres empregadas) é, na base do inquérito do ISSP, comparativamente alto, e é possível que nisto jogue algo do que Fernanda Câncio ou Paulo Pedroso defendem como explicações. Mas o ponto mais importante é prévio: ao contrário do que defende Paulo Pedroso, é nos factos, e não nas explicações, que começa o problema. E sem nos entendermos no explanandum, nem vale a pena perder muito tempo com o explanans.

P.S. – Sobre o assunto, ler um post de Paulo Pedroso, ao qual respondi, e outro de Elísio Estanque. Sem querer negligenciar o resto, o último parágrafo do post de EE interessou-me particularmente: ele explica de onde veio toda esta discussão e é, em si mesmo, todo um projecto de investigação.

13 Comments

  1. red snapper says:

    Erik Olin Wright propõe uma tipologia de lugares de classe assente nas relações de exploração tendo em consideração, todavia, três dimensões distintas a saber: a propriedade dos meios de produção; a autoridade, isto é, os recursos organizacionais; e os recursos em qualificações ou credenciais. E, é o cruzamento destas duas ultimas dimensões (autoridade e qualificações) que nos informa sobre as localizações de classe dos assalariados.

    Analisando a matriz das localizações de classe de Wright, conclui-se que em termos de recursos de tipo organizacional (autoridade), os técnicos não gestores encontram-se no patamar daqueles que menos recursos organizacionais têm. Já quanto às credenciais/qualificações os técnicos não gestores localizam-se precisamente no grupo daqueles que mais credencias possuem.

  2. red snapper says:

    Wright estabelece o conceito “lugares contraditórios de classe” exemplificando com o caso dos quadros médios, em particular os gestores e supervisores. Pois se eles são capazes de influenciar alguns aspectos da produção também lhes é negado o controlo de outros. Eles recebem ordens de cima, o que os leva, por sua vez, a exercer autoridade sobre os que estão por baixo hierarquicamente. São por isso, grupos cuja posição é ambígua e contraditória, na medida em que não são capitalistas nem trabalhadores manuais, embora tenham características em comum com cada um deles.

    Os casos de lugares que não se traduzem em lugares contraditórios de classe são aqueles indivíduos que pertencem à classe da burguesia capitalista e também os membros que pertencem à classe trabalhadora, isto é, os proletários.

  3. red snapper says:

    A estrutura de classes portuguesa demarca-se de outros países, desde logo pelo peso significativo da pequena burguesia. Da analise do quadro comparativo apresentado por Elísio Estanque verifica-se que em Portugal a pequena burguesia representa 22,6% da força de trabalho, enquanto na Suécia apenas 5,4%, nos EUA 6,9% e só a Espanha, aproximadamente tem o mesmo peso de Portugal. A razão para tal, prende-se com o facto de o sector agrícola tradicional ainda estar muito enraizado, mas também pelo significativo peso do pequeno comércio e das actividades artesanais/ familiares, e ainda devido ao crescimento das profissões liberais.

  4. “[Em Espanha] as pessoas empregadas no trabalho doméstico representam 3,9% do total da força de trabalho, (…) volta-se a não vislumbrar qualquer possibilidade de que uma força de trabalho com estes números tão escassos forneça serviços à maior parte de 20, 24, 59, 60 ou 82% dos lares portugueses, seja qual for a definição de “classe média” que utilizemos.”

    Até não seria muito dificil – trabalhando 40 horas semanais, 2 horas em cada casa (e tendo cada casa 2 pessoas na população activa), uma mulher-a-dias poderia ter 40 clientes, e 3,9% trabalharem para 150% da população activa.

  5. Miguel, se o objectivo é fazer exercícios de aritmética, mais vale por cada mulher-a-dias a trabalhar uns minutos em cada casa. Aí o número de empregadas domésticas em Portugal é suficiente para abastecer toda a União Europeia.

  6. A ironia é sempre difícil de detectar, mas vou presumir que a possibilidade de uma mulher-a-dias trabalhar em 20 casas diferentes é avançada estritamente com esse objectivo. Teve graça.

  7. Estou ao lado da Fernanda Câncio nesta questão das empregadas domésticas e da classe média. Os censos do INE em 2001 mostravam que existiam cerca de 250 mil empregadas domésticas no país e cerca de 3,5 milhões de famílias. Se considerarmos que a Marktest diz que a classe média e média alta abrange mais ou menos 4 milhão de pessoas e extrapolarmos essa percentagem em relação ao número de famílias dá-nos mais ou menos 1 milhão de famílias na classe média. Em termos globais teremos 30-40% das famílias com empregada doméstica.

    Tendo em atenção que as empregadas domésticas são um fenómeno eminentemente dos grandes centros urbanos a percepção empírica da Fernanda Câncio parece-me correcta dado que ela apenas falou da sua experiência pessoal.

    Estas são contas de “cabeça” sem o rigor científico de um grande centro universitário mas é só para mostrar porque acho que o post da Fernanda Câncio faz sentido.

  8. tomelo says:

    O Miguel Madeira exagerou um pouco nas contas…mas o ponto é válido.

    Uma “mulher-a-dias” não trabalhará em 20 casas…mas em 4 ou 5 deve ser vulgar.
    Neste caso para providenciar “mulheres-a-dias” para 30% da população (1/3 de 3 milhao de lares…, necessitariamos, aproximadamente, de 200k-250k “mulheres-a-dias” em actividade. Ou seja, cerca de 4%-5% da população activa (aprox. 5 milhoes).
    Ou seja, nesta guesstimate, ficamos bastante próximos dos numeros indicados pelo Pedro Magalhaes.

    Para concluir, se estas estativas estiverem (aproximadamente) correctas e cerca de 30% dos lares forem “servidos” por este tipo de serviços domésticos, seriamos forçados a admitir que uma boa parte da classe média os utiliza.

    miguel

  9. Obrigado pelos comentários. Deixem-me responder-lhes retomando aquilo que disse no post:

    1. O ponto mais importante: o conceito de “classe média” é compreensivelmente usado na linguagem corrente, mas não tem boas conceptualizações teóricas nem boas operacionalizações empíricas. Quando se fazem afirmações sobre a “classe média”, essas afirmações, para poderem ser verdadeiras ou falsas, exigem que possamos saber do que se está a falar. Até agora, quem defende a ideia de que a maioria das famílias de classe média recorre aos serviços de mulheres a dias ainda não partilhou connosco de que está a falar quando fala de “classe média”.

    2. Isso obriga-nos a fazer o trabalho por elas. Aquilo que quis transmitir no post não foi a impossibilidade matémática de que, seja qual for a definição utilizada, a afirmação seja alguma vez verdadeira. Foi sim a enorme improbabilidade real, à luz dos dados disponíveis, de que a afirmação seja verdadeira quando se utiliza uma definição razoável do que possa significar “classe média”. Tomemos como exemplo as mulheres a dias que teriam de trabalhar em “4 ou 5 casas”. Não tenho dados sobre em quantas casa trabalham as mulheres a dias em Portugal. Mas basta pensar um pouco para perceber como é brutalmente improvável esse cenário. A esmagadora maioria das mulheres a dias, sempre que puder, recusará uma situação desse género. Há muita coisa que se pode fazer na lide doméstica, mas algumas coisas são fixas e têm de ser feitas “regardless”. Uma mulher a dias que trabalhe em quatro ou cinco casas diferentes as mesmas horas que uma mulher a dias trabalhe numa única casa terá muito mais tarefas para cumprir que a segunda, nas mesmas horas de trabalho e por pouco mais dinheiro que a segunda(partindo do princípio de que o que recebe à hora em tempo parcial será um pouco mais do que aquilo que receberia à hora em tempo integral). Mais uma vez, não tenho dados. Mas creio que podemos daqui fazer a pressuposição razoável de que nem todas as mulheres as dias trabalham em 4 ou 5 casas diferentes. Arrisco-me mesmo a dizer que as que trabalhem em mais de 2 casas serão uma minoria. Aquilo que era uma possibilidade matemática torna-se uma enorme improbabilidade real.

    3. Não sabia que o INE tinha dados sobre o nº de empregadas domésticas e escrevi o post também na esperança de que mais dados sobre o assunto pudessem aparecer. Fico à espera de mais, caso haja. Mas verifico que os dados que apresentei são os que mais se aproximam à questão em apreço, sem precisarmos de construir cenários ou fazer grandes especulações. E esses dados infirmam claramente a afirmação.

    4. Já agora, dados adicionais. A definição de classe média mais restritiva de todas as que descobri (facilitando por isso a possibilidade de que a afirmação seja verdadeira) é a de que é composta apenas por 20% da população, o terceiro quintil da distribuição de rendimentos. Em 2001, as familías nesse 3º quintil tinham uma dimensão média de 3,6 pessoas e auferiam, como rendimento total mensal do agregado, 1200 euros (dados de 2001; sei que há dados de 2006 mas não os consegui descobrir). A partir daqui entramos, claro, nos cenários. Mas eu gostava que me explicassem como é possível que a maioria destas famílias possa dispensar, dos 1200 euros que ganhavam em 2001 (digamos, se quiserem, 1700 euros a preços de hoje), dinheiro para pagar a empregadas domésticas, depois de pagarem rendas/prestações, despesas de alimentação , água, electricidade gás e outros combustíveis, transportes, vestuário, despesas escolares, saúde e comunicações. Em Portugal, as despesas que acabo de mencionar representam 83% das despesas de uma família média portuguesa (dados de 2006). A maioria das pessoas neste escalão de rendimentos tem empregadas domésticas? Sinceramente, acho que é não saber bem em que país se vive.

  10. Independentemente da questão da classe média ter ou não mulher a dias (suponho que seja uma minoria, mas uma minoria não muito pequena – talvez 1/3), penso que quem tem mulher-a-dias, por norma, tem uma mulher-a-dias que vai a casa um dia fixo por semana.

    Assim, imagino que a mulher-a-dias tipica terá mesmo os tais 4 ou 5 clientes (a menos que tenha outro emprego ao mesmo tempo, o que também não deve ser raro)

    [quando falo em “mulher-a-dias”, estou-me ao referir ao que normalmente se chama “mulher que faz limpezas”; é possivel que os dois conceitos não sejam exactamente iguais e que parte da polémica tenha a ver com isso]

  11. Caro Pedro Magalhães

    Discordo do que escreveu no seu comentário na medida em que usa o mesmo critério do Luís Aguiar-Conraria, ao associar o conceito de classe média a uma medida estatística. O meu conceito de classe média parte da definição de um perfil sócio-económico tal como aprendi há muito tempo.

    Parece-me estranho que em Portugal ninguém se interesse por definir “classe média” até porque os nossos políticos muitas vezes dizem que querem governar/legislar para a classe média e depois os cidadãos não sentem impactos nenhuns nas suas vidas ou são tão negativos que até parece pertencerem à classe alta…

  12. Caro António, o post discute esse assunto, e remete para textos que o discutem. Daí não ter retomado a questão.

  13. Paulo says:

    “Nós cá” vivemos com 1500 euros mensais e também temos uma senhora da Ucrânia que vem passar a ferro 2 vezes por semana algumas horas. Pagamos 500 euros da prestação da casa. Compramos gasolina quase exclusivamente em Espanha, nunca (ou muito raramente)viajamos para mais de 300km de distância (LX), e quando o fazemos vamos para casa de familiares. Só vamos ao cinema com o miúdo e o único restaurante que frequentamos é o MacDonald`s, uma vez por mês. Pouco compramos livros e não frequentamos concertos
    nem outros eventos pagos, para mim é fácil porque a idéia de estar com outros portugueses de QUALQUER classe é-me pouco atraente. Então a maltinha dos universitários e médicos é-me particularmente repulsiva.

Leave a Comment

You must be logged in to post a comment.