Pedro Magalhães

A negociação e formação de preços no Trocas

Começou a circular há alguns dias um inquérito aos inscritos no Trocas de Opinião. Nas respostas já recebidas chegaram já muitas e boas sugestões, cuja concretização depende apenas de tempo. Somos cinco pessoas, mas todas com day jobs, pelo que a capacidade de implementar alterações é limitada. Agradecemos as vossas ideias e a vossa paciência.

Entretanto, há quem tenha levantado a questão de saber como exactamente se procede à compra e venda de contratos e como se forma o preço. Aqui vai a melhor explicação que consigo dar.

1. Uma das maneiras de perceber como isto funciona é considerar que, neste momento, estão pendentes de concretização várias centenas de ordens de compra e venda de contratos no Trocas de Opinião. Por exemplo, desde o dia 15 de Outubro que está no sistema uma ordem de compra de 400 contratos “Governo cai antes de Setembro de 2010” por 4,99 trocos. A razão pela qual este investidor continua a não conseguir comprar qualquer título com esta ordem é porque nenhuma das ordens de venda actualmente pendentes foi introduzida por pessoas dispostas a receber menos que 16 trocos. Neste momento, há até no sistema quem esteja disposto a pagar 12 trocos por cada um destes contratos. Mas como não há ninguém disposto a receber menos de 16, enquanto não aparecer alguém a querer comprar por mais e/ou alguém a querer vender por menos, este título não é transaccionado, e a sua cotação ficará pelo valor actual, 17,5 trocos, ou seja, o valor ao qual se deu o último negócio. De resto, uma das alterações prioritárias que vamos introduzir – e que vários utilizadores já tinham sugerido – é fazer com que, a qualquer momento, se possa saber para cada contrato aquilo que vos acabo de dizer: quem está disposto a comprar por mais, e quem está disposto a vender por menos.

2. Mas imaginem agora que entrava no sistema uma ordem de compra de 200 contratos “Governo cai antes de Setembro de 2010” por 18 euros. O que sucederia?

– Primeiro, o sistema verifica se o investidor que coloca a ordem tem trocos suficientes para comprar 200 contratos ao preço máximo que se dispõe pagar por cada um (e tendo em conta as ordens que já tem pendentes no sistema). Se não tiver, é avisado de que não tem trocos suficientes e a coisa fica por aí. Se tiver, passamos ao ponto seguinte.

– Segundo, o sistema verifica se o investidor tem ordens pendentes de mais de 200 contratos. Se tiver, não o deixa introduzir a nova ordem, tendo em conta a limitação de 400 contratos que introduzimos após as autárquicas, de forma a evitar o “free for all” que foram as vendas a descoberto. Mas se a ordem agora introduzida, somada às pendentes, for inferior a 400 contratos, passamos ao ponto seguinte.

– Terceiro, o sistema vai emparelhar esta ordem de compra (200 contratos a 18 trocos) com ordens de venda pendentes. Como o faz?
*Procura todas as ordens de venda com valor igual ou inferior a 18 (pessoas que estão dispostas a receber 18 ou menos trocos pelo contrato);
*Destas, escolha a que tem o valor inferior, ou seja, emparelha a ordem de compra com quem esteja disposto a receber menos pelos contratos que quer vender;
*Se houver várias ordens de venda com o mesmo valor, começa pela ordem de venda que foi introduzida no sistema há mais tempo;
* Faz o negócio pela média entre o valor mais alto que quem quer comprar está disposto a oferecer e o valor mais baixo que quem quer vender está disposto a receber. Neste caso concreto, há uma ordem de venda a 16 (a mais baixa de todas para este contrato) e foi introduzida uma ordem de compra a 18. O negócio vai fazer-se a 17 trocos.

3. Imaginem agora que quem estava a vender a 16 estava a vender apenas 100 contratos. Nesse caso, quem introduziu ordem de compra concretiza a aquisição de 100 contratos a 17 trocos mas quer ainda comprar mais 100 a, no máximo, 18 trocos. O que sucede aqui é que o algoritmo recomeça para a quantidade restante. Neste caso, não vai haver negócio, porque a ordem de venda mais alta a seguir à 16 foi uma colocada por alguém que não está disposto a receber menos de 42 trocos (safa!). Como a ordem de 200 foi colocada por alguém que não está disposto a pagar mais de 18, fica uma ordem a 18 para 100 contratos pendente.

Nos vários comentários recebidos, seja aqui seja de outras formas, há dois aspectos mais mencionados:

1. O primeiro é o facto de a cotação “passar” pelo valor das ordens de compra ou de venda de alguém sem que haja negócio. Mas se olharem para a explicação anterior, é fácil perceber como isso sucede. Imaginem que há, no exemplo anterior, uma ordem de venda por 17.25, que quem vende por 16 está a vender 100 contratos e quem compra por 18 quer comprar apenas 100. O negócio dá-se entre quem vende por 16 e quem compra por 18, a cotação baixa de 17.5 para 17, e quem vende por 17.25 não consegue vender.

2. O segundo aspecto mais controverso, relacionado com o anterior, mas mais importante, é o mecanismo de fixação do preço. Fazer pela média da melhor (mais alta) oferta de compra e da melhor (mais baixa) oferta de venda é uma hipótese, mas não é a única. Já nos sugeriram outras coisas:
– Imaginem que há duas ofertas de venda pendentes, uma a 5 e outra a 10, e que aparece uma oferta de compra a 20. Nesse caso, o negócio vai-se fazer a 12.5 entre quem oferece 20 e quem aceita 5. Mas há quem nos tenha sugerido que, havendo quem queira vender a 10, quem compra nunca devia pagar mais do que 10.
– Outra sugestão é que, no exemplo anterior, o negócio se dê também entre quem dá 20 e quem vende por 5, mas que o preço seja fixado na cotação actual do título sempre que ela se situe entre 5 e 20.

As sugestões nem são incompatíveis. Podia começar pela:
– cotação actual;
– caso a cotação esteja fora do intervalo oferta de compra mais alta – oferta de venda mais baixa, então o valor da oferta de venda mais próxima (por baixo) da oferta de compra mais alta;
– caso só haja uma oferta de venda abaixo da oferta de compra, então sim a média (o sistema actual).

Estou a perceber bem, Luís, JP e Pedro? Se calhar não. Mas se sim, que vantagem em relação ao sistema actual? Menos volatilidade? Digam coisas.

20 Comments

  1. Por uma questão de simplicidade era preferível não repetir a numeração das questões e colocar uma alínea dentro destas.
    Referindo-me apenas ao segundo 2. a minha proposta inicial baseia-se num conceito económico fundamental, o de custo de oportunidade.
    A opção pelo preço de mercado destroi uma das funções essenciais do sistema de preços: indicar a escassez relativa dos “bens”. Se há uma alteração nas condições de mercado, o preço não deve ser mudo a isso. Curioso ter que escrever isto no dia em que se comemoram 20 anos da queda de um sistema de preços mudos.

    A segunda opção julgo ser o sistema que eu sugeri, mas não fiquei muito esclarecido.

  2. A primeira vantagem é nunca mais suceder que surja um preço de transacção que desrespeite as ordens existentes. Se eu estava disposto a vender a 10, como é que há uma transacção a 20 sem que a minha ordem tenha sido executada? Isto nunca ocorre no mercado accionista.
    A segunda vantagem é a diminuição da volatilidade e da “manipulidade” do actual sistema de preços.
    Muitas vezes me diverti a dar bordoadas em várias cotações com a venda de um único contrato.

  3. Obrigado PBT e demais possíveis leitores. Antes de mais, lamento a minha ignorância em relação a coisas que podem ser completamente evidentes para quem conheça bem mercados de capitais, o que não é de todo o meu caso.

    Ora vamos ver se entendo a sua proposta correctamente. Se alguém está disposto a comprar a 80 e há duas pessoas dispostas a vender, uma a 10 e outra a 20, o sistema está neste momento a emparelhar a ordem de compra a 80 com a ordem de venda a 10, ao preço de 45. Aqui, o que o PBT defende é que o preço não deveria ser 45, mas 20, correcto? “Só faz sentido” – como dizia num comentário anterior – “usar a média das ordens se não existir mais nenhuma ordem alternativa.”

    Eu percebo como isto resolve um dos seus problemas. Imaginemos que a cotação estava a 10 e que a ordem de venda do PBT era a de 20. Usando apenas a média das ordens tal como temos actualmente no Trocas, a transacção é feita a 45 e a cotação passa de 10 a 45 sem a sua ordem de venda se realize. Mas com o seu sistema, a transacção é feita de facto a 20. Note-se que, com o sistema que propõe, nada garante que a sua ordem se realize: se quem quer comprar a 80 queria comprar 100 contratos e quem aceita vender a 10 estava a vender 100 contratos, o negócio é feito pela totalidade a 20 e o PBT não vendeu um único contrato (se dermos prioridade a quem vendia por menos). Mas se quem quer comprar queria 200, então o PBT já vende os seus. Estou a ver bem? E seja como for, evita-se que uma cotação passe de 10 a 45. Passa apenas de 10 a 20.

  4. Contudo, isto não resolve completamente a questão da volatilidade das cotações e da possibilidade de “dar bordoada em várias cotações com a venda de um único título.” Se o seu sistema estiver em funcionamento, a única coisa de que precisa para dar essa bordoada é, depois da transacção anterior, pôr um título à venda a 1troco e ser o único a vender num determinado momento. Se aparecer alguém a comprar a 20, a cotação do título passa de 20 para 10,5 com uma única transacção de um único título. Em geral, se é verdade que, como diz, “só faz sentido usar a média das ordens se não existir mais nenhuma ordem alternativa”, o seu sistema não resolve o problema da volatilidade num mercado com pouca liquidez.

    Como se evita isto? Um primeiro passo é olhar para a solução do LA-C: a transacção faz-se sempre pela cotação actual desde que esse valor seja aceitável para comprador e vendedor. Neste caso, mesmo com o PBT a vender a 1, a transacção fazia-se a 20 e a cotação não mexia. De resto, com o sistema do LA-C, as cotações só sobem ou descem quando compradores e vendedores “emparelharem” dentro de intervalos cujos extremos sejam ambos superiores ou inferiores à cotação actual.

    Contudo, esta não é a história completa da volatilidade. Aliás, consigo facilmente imaginar cenários em que a solução LA-C não se aplica e que a sua – se a entendo bem – produz mais volatilidade e não menos. Imagine que o título está cotado a 80 e que há duas ordens de venda pendentes, uma a 10 e outra a 20. Surge uma ordem de compra a 60. Com o seu sistema, a cotação passa de 80 para 20. Com o nosso sistema actual, a cotação passa de 80 para 45. Ou que um título está cotado a 5 e há duas ordens de compra pendentes, uma a 50 e outra a 60. Surge uma ordem de venda a 10. Com o seu sistema, se bem entendo, a cotação passa de 5 a 50. Com o nosso, passa apenas a 35. E nestes casos, o sistema LA-C não se aplica, porque a cotação actual está acima (abaixo) da ordem de compra (venda) mais alta (baixa).

    Depois há a proposta do JPSantos: “executar ao melhor preço”, que num certo sentido é oposta à sua, se a entendo correctamente. Se há duas ordens de venda pendentes, uma a 10 e outra a 20, e surge uma ordem de compra a 60, o negócio dá-se a 10. E se há duas ordens de compra pendentes, uma a 50 e outra a 60, e surge uma ordem de venda a 10, o negócio dá-se a 60. Claro que, nos cenários do parágrafo anterior, a volatilidade é ainda maior, pelo que esse problema não fica resolvido, mas não excluo que isto faça mais sentido.

    Enfim, tenho a certeza absoluta que há soluções para isto, eu é que não sei quais são. E não tenho a certeza absoluta de ter entendido completamente a vossas propostas ou sequer de estar a perceber tudo isto bem. Mas estas são de facto as minhas dúvidas de momento.

  5. 1- Vamos supor que há uma ordem de compra de 50 títulos a 80€ e outra ordem de compra de 50 títulos a 30€.
    2 – Simultaneamente, há uma ordem de venda de 25 títulos a 20€ e outra de 25 títulos a 10€.

    Se bem entendo, com o que PBTeixeira propõe, serão transaccionados 50 títulos a 20€. Mas, neste caso, a segunda ordem de compra é desrespeitada, ou neste caso propõe que se troque 50 títulos a 20€?
    Ou seja a solução seria a cada momento do tempo olhar conjuntamente para todas as ofertas de compra e venda que existem. E encontrar o preço de forma a que ninguém veja as suas expectativas defraudadas. Mesmo neste caso, é provável que não se encontre um preço, mas sim um intervalo de preços. No exemplo de cima, tal preço seria qualquer valor entre 30€ e 80€. Neste caso, faria sentido usar o preço médio do intervalo.

  6. Caro PM, os exemplos numéricos que deu não fazem muito sentido.
    Se a cotação está a 80, as ordens de venda não satisfeitas devem ser acima de 80 e nunca muitíssimo abaixo.
    Se a cotação está a 5, as ordens de compra não satisfeitas têm que ser inferiores a 5 e nunca muito superiores.
    Quanto á ideia do “melhor preço” falta esclarecer é o melhor para quem? Nos exemplos o preço não é o melhor para uma das partes.

  7. Caro LAC:
    Neste caso quem tem precedência é a compra de 50 a 80T e as vendas a 10T e 20T. Se houvesse estas ordens a transacção far-se-ia a 20T. Mas como existe uma outra ordem de compra a 30T, quem vende tinha a alternativa de vender a 30T (custo de oportunidade) e por isso não pode ser obrigado a vender a 20T. O resultado final é que são transaccionados os 50 contratos do 80T ao preço de 30T.

  8. Caro PBT: não fazem sentido num mercado com mais liquidez e incentivos mais fortes à “racionalidade”(i.e, $). Os cenários que descrevi já ocorreram no Trocas, especialmente no início de alguns contratos ainda com poucas ordens. Mas concordo que poderão ser exemplos extremos. Olhando, por exemplo, para a lista de actuais ordens pendentes, os exemplos que dei nunca poderiam ocorrer.

  9. PM, fiquei convencido com a resposta que o PBT me deu. Quanto ao problema de baixa liquidez que apontas ha uma forma de resolver.
    PBX o link que deixaste nao tem informacao relevante. a bolsa nao e’ um leilao em que e’ pago o segundo preco. Nem tal faria sentido num mercado como o trocas.

    PM, se a cotacao e’ 50 e existe uma ordem de venda de 40 e uma de compra de 20, a cotacao podera’ passar para 40. Assim, a cotacao reflecte reage, reflectindo o mercado que existe e nenhuma transaccao tem de ser feita.

  10. João Vasco says:

    Olá,

    Tanto quanto eu percebo um sistema funcional seria este.

    Vamos supor que existem 3 ordens de venda:

    100 acções a 15T (v1)
    200 acções a 25T (v2)
    100 acções a 55T (v3)
    100 acções a 90T (v4)

    Agora imaginemos que eu quero comprar 500 acções, e ofereço 80T.
    As transacções seriam:
    100 acções comparadas a v1 por um preço de 25T
    200 acções compradas a v2 por um preço de 55T.
    100 acções compradas a v3 por um preço de 80T

    Apenas neste caso o valor não foi o da oferta de venda seguinte, mas o da própria ordem de compra, apenas porque é mais baixo que o da oferta de venda seguinte.

    A cotação estaciona nos 80T, e existe uma ordem de compra a 80T em suspenso, mas não existe nenhuma ordem de compra de um valor inferior à cotação em suspenso.
    Existe uma ordem de venda a 90T em suspenso, mas está certo, porque a cotação tem um valor inferior.

    Desta forma a cotação transmite os sinais certos: quem estiver disposto a pagar mais pode sempre comprar; e quem estiver disposto a vender por menos pode vender (e iria ter acesso à ordem de compra suspensa nos 80T)

    Creio que este é o melhor sistema, um que as ordens são quase todas resolvidas imediatamente, e não ficam em suspenso valores do “outro lado” da cotação.

    Experimentem 🙂

  11. JP Santos says:

    A questão da volatilidade resulta do sistema de formação de preços mas também pode resultar de problemas de liquidez. Assim, alterar o sistema de formação de preços irá certamente reduzir a voltailidade mas não significa que seja possível eliminar completamente a volatilidade “excessiva”. Mas, diga-se que para mim o problema do actual sistema não é apenas a volatilidade mas, sobretudo, o facto de produzir preços incompatíveis com as ofertas de compra e/ou venda existentes.
    Passando aos modelos em confronto, chamaria a atenção que o sistema do Vickrey proposto pelo PBT é excelente em leilões fechados mas não funciona no quadro de um mercado aberto. O objectivo do sistema de Vickrey é que cada participante no leilão revele o preço máximo que está disposto a pagar (o chamado preço de reserva) e não faça ofertas estratégicas (em que oferece o preço mais baixo porque “pensa” que pode obter o activo). Mas apenas funicona porque todas as ordens continuam secretas até à “abertura de todas as propostas”, o que não sucede no caso presente em que se pretende um mercado contínuo. Veja-se o que sucederia no caso do exemplo do post do Joao Vasco. Quem quisesse comprar podia tornear o sistema do seguinte modo: – fazia uma oferta de compra de uma unidade a 80; – ao conhecer o preço de 25 faria uma nova oferta de 1 a 24,9 e obteria o preço de 15; – podia ainda fazer 1 nova oferta de 1 ao preço de 14,9 que não seria concretizada ficando a saber que a oferta de venda mais baixa era 15; – dava uma ordem de compra de 498acções a 15 comprando 98 acções; -dava uma ordem de compra de 398 a 25 (nesta altura já sabia que esta era a segunda mais baixa) comprando 200 a 25; – repetia o processo até adquirir as acções desejadas. Quem seguisse este método obteria um preço médio muito mais vantajoso do que se desse uma única ordem a 80. E o único sistema que evita este tipo de estratégias é a execução das ordens ao melhor preço.

  12. João Vasco says:

    JP Santos:

    Tem muita razão na chamada de atenção que faz. Para o exemplo que eu dei, temos que um comprador que usa essa estratégia tem um trabalho adiconal X, mas que compensa pois consegue comprar a muito melhores preços.

    Devo no entanto recordar que os ganhos obtidos por seguir essa estratégia diminuiem à medida que aumentamos o número de ordens de compra e venda (assumindo que as mesmas se distribuiem por um intervalo de preços, é de esperar que um número superior de ordens corresponda a menores intervalos entre os peços das diferentes ordens, e portanto menores ganhos para essa estratégia).

    Em última análise, com suficientes ordens, essa estratégia seria tão pouco compensadora que simplesmente não compensaria o trabalho.

    Mas é uma boa razão para procurar alternativas melhores.

  13. João Vasco says:

    Ocorre-me a seguinte:

    Quando crio uma ordem de compra ou venda, ela poderá ficar em suspenso, ou ser resolvida no imediato.

    Assumo que vender ou comprar pelo preço proposto já me daria lucro suficiente, mas que eu posso ter um lucro adicional se alguém já tiver uma ordem em suspenso compatível com a minha.

    Assim, se eu vendo 100 acções a 10T e não consigo vender, a ordem está em suspenso. Mas se surge alguém que compra 100 acções a 20T, o sistema processa os dados, e eu recebo aquilo que pedi (10T por acção), enquanto que o comparador paga menos do que aquilo que estaria disposto (20T).
    Isto faz sentido, pois eu publicitei a minha oferta primeiro, e assim ele iria sempre ter comigo para comprar a 10T, caso estivesse disposto a pagar até 20T.

    De forma análoga, se eu digo que compro a 20T, e a ordem ficou suspensa, quem seguidamente está disposto a vender a 10T, vai vender a 20T. Porque eu anunciei primeiro a minha ordem, e ele vai tirar partido disso.

    Assim, para o exemplo que tinha dado em que existem 3 ordens de venda em suspenso:

    100 acções a 15T (v1)
    200 acções a 25T (v2)
    100 acções a 55T (v3)
    100 acções a 90T (v4)

    Agora imaginemos que eu quero comprar 400 acções, e ofereço 80T.
    As transacções seriam:
    100 acções comparadas a v1 por um preço de 15T
    200 acções compradas a v2 por um preço de 52T.
    100 acções compradas a v3 por um preço de 55T

    Neste caso, a cotação fica nos 55.

    Mas se eu tivesse dado uma ordem de compra de 500 acções a 80T, sobrar-me-ia uma ordem de compra de 100 acções a 80T.

    Isso levaria à última correcção: quando existe uma ordem de compra mais cara que a cotação, ou uma ordem de venda mais barata do que a cotação (nunca poderão existir as duas em simultâneo, porque senão teriam sido resolvidas por este processo); a cotação assume esse valor.
    Doutra forma, assume o valor da última transacção.
    Assim, a cotação dá os sinais certos aos agentes de mercado, eles sabem que ela nunca estará abaixo de ordens de compra em suspenso; nem acima de ordens de venda em suspenso.

    Se a cotação está alta, isso vai encorajar os agentes a venderem; e isso vai originar transacções.
    E vice-versa.
    No sistema actual nada disto acontece, o que diminui o número de transacções, pois as cotações enviam um sinal que tem pouco a ver com a realidade do mercado: as ofertas de compra e venda.

    Lembremo-nos que as ofertas são públicas. O sistema que agora proponho trata-as como tal: permite o agente agir racionalmente como agiria se pudesse ir ter com cada outro agente que tivesse feito ofertas públicas.

    No sistema actual o agente está “às cegas”.

    Que vos parece esta proposta?

  14. Creio que já percebi as propostas todas e vou tentar resumi-las em breve. Mas fiquei com uma dúvida sobre a proposta JPSantos num comentário a este post (http://margensdeerro.blogspot.com/2009/09/trocas-112.html#comments)

    1. Num dos cenários, a transacção dá-se entre quem faz a oferta de compra mais alta (15) e quem faz a oferta de venda mais baixa (1) ao valor da oferta de compra mais alta (15).
    2. No outro cenário, a transacção dá-se entre quem faz a oferta de compra mais alta (100) e a oferta de venda mais baixa (16) ao valor da oferta de venda mais baixa (16).

    Mas isto permite um algoritmo estável para as transacções? Nuns casos, é o melhor preço para o vendedor. Noutros, o melhor preço para o comprador. Ou estou a ver isto tudo mal? Desculpem se estou a ser muito obtuso.

  15. João Vasco says:

    Pedro:

    A minha proposta não é uma nem outra.

    A minha proposta é quem faz a oferta (compra ou venda) transaccione ao preço estipulado, e quem responde à oferta transacione ao preço da oferta à qual responde.

    Por exemplo, imaginemos que não existe nenhuma oferta pendente. O Marcelo faz uma oferta de venda de 100 acções a 15T.

    O Duarte, a seguir, faz uma oferta de compra de 200 acções a 80T.

    O programa então reage da seguinte forma: para as primeiras 100 acções, Duarte paga 15T a Marcelo (responde à oferta). Depois, fica em suspenso uma oferta de compra de 100 acções a 80T.

    Mais tarde, a Maria decide vender 300 acções a 20T. Recebe 80T do Duarte por 100 acções (resposta à oferta em suspenso), e deixa em suspenso uma oferta venda por 20T.

    Se outro agente fizer uma oferta de venda de 100 acções por 10T, esta oferta fica em suspenso.

    Se outro agente fizer uma oferta de compra de 100 acções por 5T, a oferta também fica em suspenso.

    Este sistema tem duas vantagens:

    a) funciona como na realidade: se eu sei que ele vende a 20T, vou ter com ele e compro a esse preço. O programa simula portanto a atitude “inteligente” daquele que compra a 80T: em primeiro lugar vai às ofertas de venda mais baratas. E vice versa.

    b) As cotações vão sempre dar aos agentes os sinais certos, e torna-se muito mais fácil fazer transacções imediatas, comprando por um valor acima da cotação, ou vendendo por um valor abaixo, coisa que agora não acontece.

    E parece-me simples de explicar e implementar.

  16. OK, há aqui uma ideia de sequenciação que eu não estava a ver e que deve ser tb. o que está por detrás do que propõe o Jomps.

  17. Bem, o sistema proposto pelo João, se entendo correctamente, é o mesmo dos Iowa Markets. Quando é introduzida uma nova oferta de venda (compra), o sistema procura ofertas de compra (venda) com valor maior ou igual (menor ou igual). Se encontrar várias, escolhe a mais alta (baixa). E a transacção dá-se – regra muito simples – pelo valor da oferta que tiver entrado primeiro no sistema. É isto não é?

    Eis como se explica no Iowa Markets.

    “If the highest bid price on a contract equals or exceeds the lowest ask price, then the system executes a trade between the bidder and asker. If the bid price and asking price are not identical, then the price used is the one from the older of the two orders.”

    Isto não impede que se introduza uma modalidade nova de compra ou venda ao preço de mercado. Ou seja: Eu digo que quero comprar (vender) 100 do contrato x. O sistema procura a ordem de venda (compra) mais baixa (alta) pendente e executa. Mas para isso, temos de implementar o sistema em que a ordem de venda mais baixa e de compra mais alta para cada contrato são visíveis. Estamos a trabalhar nisso.

    Não falei com os meus comparsas sobre isto, mas parece-me que “we got a winner”. Ou não?

  18. João Vasco says:

    Pedro,

    é isso precisamente.

    E fico satisfeito se foi uma boa contribuição 🙂

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