Pedro Magalhães

Acabou a recessão!, que bom, que bom

Saíram os números para o 2º trimestre de 2009. O primeiro-ministro agarra-se aos 0.3% de crescimento do PIB e a oposição agarra-se ao aumento da taxa de desemprego em 0,2 pontos percentuais. Cada um encontrou a sua bóia de salvação. Aconselha-se cautela: ambas as bóias estão furadas.
Comecemos pela taxa de desemprego. Dizem os números que subiu de 8,9% para 9,1%. Logo a oposição culpa o primeiro-ministro por estes números maléficos. O relatório sobre as estatísticas do des(emprego) está disponível online. Lendo o documento, descobrimos que estes números são calculados com base numa amostra. Depois, com base nessa amostra, extrapola-se para a população total. Claro que, mesmo que o procedimento seja feito na perfeição, existe sempre uma margem de erro associada a estas estatísticas. O documento, detalhado como é, dá-nos informação suficiente para calcularmos um intervalo de confiança para a estatística que nos interessa.
Se calcularmos um intervalo de confiança de 95% para a taxa de desemprego, descobrimos que esse intervalo nos diz que a taxa de desemprego se situará entre os 8,6 e os 9,6%. Ou seja, estes números dizem-nos que é perfeitamente possível que a taxa de desemprego tenha diminuído, em vez de ter aumentado. Não é intelectualmente honesto usar este número como arma de arremesso contra o governo.
E a taxa de crescimento do PIB? Passa-se o mesmo, só que aqui é o primeiro-ministro a embandeirar em arco. 0,3% de crescimento face ao trimestre anterior é, com toda a certeza, um valor estatisticamente não significativo. Infelizmente, no INE, não consigo encontrar informação que me permita calcular intervalos de confiança, mas é fácil argumentar por que motivo é perfeitamente possível que o crescimento real tenha sido negativo.
Em primeiro lugar, é prática corrente rever estas estimativas. Por exemplo, a estimativa que saiu sobre a taxa de crescimento no primeiro trimestre deste ano, já foi revista em baixa em 0,2 pontos percentuais. Se uma revisão semelhante for aplica ao segundo semestre, já teremos uma estimativa para a taxa de crescimento de apenas 0,1%. Em segundo lugar, os dados são sazonalmente ajustados (para corrigir o fortíssimo efeito sazonal do Natal). Tal procedimento é puramente estatístico/econométrico e, como tal, tem a ele associado uma margem de erro. Acresce que este é um ano excepcional devido à crise internacional, fazendo com que a queda brutal na produção no 1º trimestre deste ano se confunda com as fortes quedas sazonais associadas ao trimestre que vem depois do Natal. Sendo mais difícil separar os efeitos, a probabilidade de erro é maior. Finalmente, o cálculo do PIB é também uma estimativa com base numa amostra, pelo que os argumentos apresentados relativamente à taxa de desemprego se aplicam, ipsis verbis, à taxa de crescimento do PIB.
É assim perfeitamente possível que a taxa de crescimento do PIB neste trimestre tenha sido negativa, sendo cedo para decretar o fim da recessão. O ministro da finanças, Teixeira dos Santos, como economista sério que é, sabe disto perfeitamente e, provavelmente por isso mesmo, já disse que com base nestes números não podíamos dizer que a crise acabou. Temos de esperar para ver.

Post Scriptum: Entrada publicada em estéreo na Destreza das Dúvidas.

3 Comments

  1. P says:

    Desculpe dizer isto mas existe um erro no seu intervalo de confiança.
    O publicado pelo INE diz que o IC para a pop. desempegada é entre 476700 e 538700. Você dividiu este dois números pelo total da população activa: 5583900.
    Assim: 476700/5583900=8.6% e 538700/5583900=9.6%.
    Contudo o total da população activa é tb uma estimativa com IC 5536200 e 5631600, logo o IC da taxa de desemprego (desemp/pa) é de um estimador que é o rácio de dois estimadores, logo o IC é diferente do que você reportou. Como é um estimador não linear poderá utilizar o delta method (ver Davidson e Mackinnon – ETM; basicamente uma linariazação de taylor de 1ª ordem em torno de um valor central para os dois estimadores).

    No caso do PIB tb existe um IC mas como ele é estimado a partir de modelos não lineares a partir de vários indicadores (estimadores) o seu IC tb não será fácil calcular.

    Contudo tudo o mais que disse está mais ou menos certo.

    PS:Provocação para economistas empíricos: E, finalmente, se todas os dados utilizados são estimadores então quando os usamos em modelos econométricos, então nos estimadores dos coeficientes dos nossos modelos reportamos ICs demasiado reduzidos (pois consideramos que os dados recolhidos apesar de poderem vir de uma experiência aleatória são os que realmente exitem e não estimadores dos resultados reais)? Logo o que se aceita como diferente de zero e portanto significativo poderá não ser… (sobretudo se o IC do dado utilizado varia cerca de 20% do valor central).

  2. P says:

    Existe um segundo erro no comentário, tem a ver com a dificuldade em medir o efeito sazonal do Natal, mas enfim…

  3. NG says:

    Isto é muito interessante! Andamos todos a perder horas a falar de dados um bocado virtuais. Mas é isso ou nada… e os políticos têm de falar de alguma coisa.

    Só por curiosidade: não consegui encontrar o número de inquiridos nos dados do INE. Falha minha? Serão estes inquéritos tão ou menos fiáveis do que as (criticadas) sondagens?

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