Pedro Magalhães

As sondagens pré-eleitorais

1. Quadro com médias aritméticas e intervalos, últimas sondagens de cada empresa, no final da penúltima e da última semanas antes das eleições.

sondagens final

2. Era bom que nos convencêssemos do seguinte: o default em eleições legislativas é que, em Portugal, e em geral, as intenções de voto tal como captadas nas sondagens, pelo menos a duas semanas das eleições, já traçam relativamente bem o quadro geral daqueles que acabam por ser os comportamentos dos eleitores, e muito mais nas últimas sondagens antes da eleição. A maior parte dos desvios parece decorrer do prolongamento de tendências já detectadas. Não tinha de ser assim, mas é. Telefones fixos? Baixas taxas de resposta? “Direita tímida”? Late swings? Abstenção diferencial? Amostras pequenas? Tudo isso é potencialmente importante e importa considerar, mas a verdade é que os resultados resistem. Contudo, importa ter em mente que isto pode ser tanto fruto do bom trabalho das sondagens como de características do eleitorado português e das eleições aqui que facilitam a vida a quem as faz. Provavelmente de ambos. E não é assim em todos os tipos de eleições. Logo, convém não cair em excessos de auto-congratulação.

3. Isto também não impede outro género de considerações mais críticas. Houve muita confusão este ano sobre as sondagens, como sempre, de resto. Comentários e notícias que não distinguem os conceitos de “universo” dos conceitos de “amostra”, que não percebem que tracking polls são sondagens como outras quaisquer, que sobrestimam os problemas resultados da utilização de telefones fixos sem perceber que enviesamentos sociológicos não têm de ser enviesamentos políticos, que valorizam excessivamente mudanças e diferenças que não têm significado estatístico, que se concentram sobre a dimensão das amostras sem perceber que o tamanho não é tudo, etc, etc, etc. Mas talvez com um bocado de wishful-thinking, tenho a sensação que, pouco a pouco, a leitura destas coisas vai, muito lentamente, ficando mais ponderada.

4. E também não impede que se critique a pobreza das sondagens do ponto de vista do seu conteúdo substantivo. Acho que era possível fazer melhor e mais interessante, sem grande acréscimo de custos. Para isso, será preciso que os clientes saiam da mentalidade de obsessão exclusiva com a corrida de cavalos. Não vai ser fácil.

5. Vai haver comentários sobre os efeitos das sondagens. Há duas teorias: uma é que as sondagens mediram correctamente as intenções de voto e que os resultados o reflectem; outra é que as mediram incorrectamente e que foram os resultados que as sondagens deram que “manufacturaram” os resultados. A pergunta que se segue é: que evidência empírica existe para cada teoria? A resposta é que, para a segunda, essa evidência é, lamento, nula. Dito isto, não quer dizer que não tenham existido efeitos. Uma coisa quase certa é que, até meados de Setembro, a maioria dos portugueses pensava que o PS ia ganhar, e que a partir daí passou a haver uma maioria dos portugueses a pensar que a coligação ia ganhar. Parece impossível que essa mudança de percepção tivesse ocorrido sem as sondagens. Logo, a possibilidade de que essa percepção tenha mudado intenções e comportamentos, que tenha afectado a capacidade de mobilização e a coesão dos partidos e/ou que tenha modificado a cobertura da campanha não pode de todo ser descartada. Mas é preciso investigar em que direcções esses efeitos terão ocorrido, e se houve uma direcção predominante. Vai ser difícil. Mas palpites não chegam.

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