Pedro Magalhães

Consequências sociais da austeridade: respostas e mais dúvidas.

Uma síntese muito breve, que espero que não faça demasiada injustiça a todas as respostas que fui lendo.

1. Primeiro, sobre “risco de pobreza”. Se é definido com a percentagem da população que vive com um rendimento inferior a 60% da mediana, a diminuição dessa mediana tem efeito directo nessa percentagem. Hugo Mendes mostra que, se calcularmos essa percentagem para 2011 com base na mediana de 2009, teremos 21.3% em vez de 17.9%.

Podemos alargar o exercício com recurso a dados do Eurostat, com a linha de pobreza ancorada em 2008:

figure 4

O panorama aqui já parece algo diferente (também porque aqui uso o risco de pobreza e não aquele indicador compósito de “risco de pobreza e exclusão social”). Aumento catastrófico na Grécia, rápido na Irlanda, aceleração em Espanha, mas aumento a ritmo semelhante em Portugal e Itália a partir de 2011 (mais depois sobre este “2011”).

2. Foi um pouco a pensar nos problemas destas medidas relativas que decidi também mostrar os dados sobre “severa privação material”, porque é, à primeira vista, uma medida absoluta e não relativa. Contudo, aqui, várias objecções. Henrique Lopes, em comentário no Facebook, e Rui Cerdeira Branco, em comentário ao post, falam de outros dados (consumo de proteínas, por exemplo) e das dificuldade de comparabilidade tendo em conta hábitos de consumo e necessidades diferentes. “Falta aqui uma genuina medida de pobreza absoluta, algo como uma cesta básica”, diz um; “Seria por exemplo interessante fazer um estudo não com base no equipamento mas na vivência comparativa real das famílias: comparar cabazes de compra”, diz outro, em consonância. Não haverá nada assim? Não sei. Pedro Romano, também no Facebook, fala de forma mais geral nos problemas quando se criam índices compósitos deste género.

3. Hugo Mendes, em comentário, chama a atenção para um problema crucial que eu desconhecia: dois dos indicadores usados para o “risco de pobreza e exclusão social” (risco de pobreza e “baixa intensidade de trabalho”) e o rácio 80/20 referem-se de facto a 2011, não a 2012. Ora isto pode fazer toda a diferença. Se voltarmos aos dados sobre “discretionary fiscal effort”, por exemplo, verifica-se que 2012, o esforço português foi de 5.9%, superior ao da Grécia. Chama também a atenção para o facto de que os efeitos do desemprego de longa-duração e da perda de benefício demoram a sentir-se em termos de pobreza e privação. Ora se isso seria verdade para o “futuro” (2013), é ainda mais se, na verdade, algumas destas séries terminam realmente em 2011 e não em 2012 (confesso que me faz muita espécie que o Eurostat atribua um indicador a um ano quando na verdade ele mede o ano anterior, mas devo ser eu que não estou habituado a lidar com este tipo de dados).

4. Depois há possíveis explicações. É complicado passar às explicações quando acabamos de constatar que, no que toca ao que queremos explicar, não sabemos exactamente se estamos a ver realmente aquilo que pensamos que estamos a ver. Mas dito isto, aqui vão, sem que eu próprio tenha meios para avaliar da sua validade:

– muitos mencionam o facto das quedas de rendimento (cortes/aumentos de impostos) terem sido desenhadas para afectar os escalões mais altos enquanto que as pensões foram menos afectadas (e, para as mais baixas, aumentadas).
– emigração, apoios sociais do poder local, economia informal, reservas de poupança (João Boavida, em comentário ao post).
– esforço de consolidação mais baseado em aumento de receita (impostos e progressividade) do que em corte da despesa (Miguel Madeira, no Vento Sueste).
– cortes na FP mais pelo lado dos salários do que dos empregos (outra vez Miguel Madeira, no Vento Sueste).

Continuo a pensar que há aqui alguns elementos de surpresa, especialmente na comparação com Espanha, Itália nuns casos, e Grécia e Irlanda, noutros, mas é evidente que um diagnóstico correcto de tudo isto vai precisar de mais dados e, especialmente, mais tempo. Obrigado a todos os que decidiram escrever sobre isto.

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