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Pedro Magalhães

Contaminações

Antes de mais, para não fazermos de conta que há discussões bacteriologicamente puras:

1. Pessoalmente, gostaria que o tratado ontem acordado fosse referendado, como penso que já se depreendia do último parágrafo disto;
2. Se houver referendo, a minha inclinação (não definitiva) seria a de votar a favor da sua ratificação.

Agora a discussão: Pacheco Pereira (JPP) preferia que as sondagens sobre se o tratado ontem acordado deveria ou não ser submetido a referendo tivessem tido lugar antes do acordo de ontem. Segundo JPP – espero estar a interpretar correctamente – o facto do acordo ter sido obtido (e todo o folclore patrioteiro que temos visto) “inquina” os resultados, impedindo que possamos obter uma medida mais “limpa” das atitudes dos eleitores. Também segundo JPP, dizer-se que é preferível fazer a sondagem depois do tratado “existir” é um argumento falacioso, porque o tratado já “existe” há muito tempo nos seus aspectos fundamentais.

Ora bem:

1. Não duvido que o “facto consumado” venha a afectar os resultados. Mas o que queremos realmente saber da opinião pública portuguesa: aquilo que os portugueses desejavam antes do acordo ter sido conseguido, ou aquilo que desejam depois do acordo? Em rigor, quereríamos saber ambas as coisas, até para podermos medir o efeito da obtenção do acordo (e de todo o folclore, etc.). Mas não tendo sido possível mobilizar recursos financeiros para fazer duas vagas da sondagem (ou mesmo um painel, que teria sido o ideal), então acho que, se tivesse de escolher (e tive), é preferível depois. “Depois” é, afinal, a “realidade”. É aquilo que se passou. É aquilo com que todos, oponentes e apoiantes do referendo, oponentes e apoiantes do tratado, temos de lidar daqui para frente.

2. Faço assim notar que a minha preferência pelo “depois” nada tem a ver com o conteúdo do tratado, desconhecido, antes e depois (pelo menos a curto prazo, e provavelmente a longo), da esmagadora maioria dos europeus. Defender o contrário seria, concordo, uma falácia, mas não é o conteúdo do tratado que interessa a este nível: é o seu significado político, do qual, para o bem e para o mal, faz parte o acordo obtido ontem em Lisboa.

3. Dito isto, estaremos cá para ver, mas não creio que vá fazer grande diferença fazer a sondagem antes ou imediatamente depois. Como quis fazer notar na primeira parte deste post, o apoio aos referendos é generalizado, certamente antes e provavelmente nos próximos dias. Mais interessante será saber como irão os eleitores reagir à discussão que se seguirá, e em particular às mensagens que vão receber dos líderes partidários sobre a conveniência ou inconveniência do referendo. Vai ser, aliás, um teste interessante à capacidade dos partidos para persuadirem os eleitores, caso se verifique que, na comparação entre as opiniões dos próximos dias e as opiniões das próximas semanas, existem diferenças significativas, e que esses diferenças estejam correlacionadas com coisas como a identificação partidária, por exemplo.

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