Pedro Magalhães

“Empates técnicos”

Muita gente a dizer que as sondagens gregas anunciavam um empate técnico e que, afinal, o Syriza ganha com mais de 7 pontos de vantagem. Ui, as horríveis sondagens, e em Portugal vai ser o mesmo, e etc e tal.

Não faço ideia se “vai ser o mesmo”, mas convém notar que, apesar da vantagem média do Syriza nas últimas 16 sondagens pré-eleitorais realizadas na Grécia – aquelas cujo trabalho de campo terminou, o mais tardar, dia 17 – ser de 1.1 pontos percentuais, nada menos que 12 delas estimavam as intenções de voto como sendo superiores para o Syriza, uma um empate, e 3 intenções de voto superiores para a ND. Naquelas cujo trabalho de campo terminou mais tarde (dia 18), a vantagem média foi de 2 pontos percentuais e o Syriza liderava em 6 dessas 7.

A partir do momento em que isto acontece, convém começar a pensar no seguinte: o facto de uma sondagem em particular produzir estimativas de intenções de voto onde, tendo em conta os resultados e a amostra utilizada, a vantagem estimada para um partido não é estatisticamente significativa, não significa que, no conjunto das sondagens, essa vantagem não o seja. Como obviamente não sei grego não consigo analisar os relatórios de cada sondagem e perceber qual a amostra de cada uma e, especialmente, qual a sub-amostra na base da qual se calculam as intenções de voto retirando declarados abstencionistas, indecisos e não respostas. Mas noto que aquelas das quais consigo pelo menos perceber a amostra total usada, as amostras são relativamente grandes (1200, 1083, 1003, etc). Seria preciso fazer cálculos para os quais não tenho elementos suficientes, mas não é de excluir que, agregadas estas sondagens e tomada em conta a base amostral de cada uma e a do conjunto das sondagens, esta sucessão de “empates técnicos” mas quase todos a favor do Syriza não seja “empate técnico” nenhum. Ou seja, que a vantagem do Syriza no conjunto das sondagens fosse estatisticamente significativa.

É fácil de ver que em Portugal não temos isto (ainda?). Das últimas cinco sondagens divulgadas (as mais recentes), 3 colocam a coligação à frente mas 2 colocam o PS à frente. É certo que duas delas dão vantagens à coligação na ordem dos 6-7 pontos (Aximage no início de Setembro e Católica mais recentemente), e isso está a reflectir-se nas estimativas do Popstar (que passaram a colocar, precisamente, a coligação à frente). Mas já vimos que, por enquanto, as amostras usadas em várias destas sondagens são relativamente pequenas, especialmente na comparação com o que vimos na Grécia nas sondagens realizadas na recta final da campanha (e em Portugal veremos certamente algo semelhante). E por tudo isto, as estimativas do Popstar, que calculam o intervalo de confiança das estimativas, mostram que esses intervalos estão (ainda?) sobrepostos.

O Syriza acabou por ter uma vantagem maior do que o conjunto das sondagens realizadas até dia 18 lhe davam? Sim. Porque houve eleitores que se decidiram à última hora no seu sentido? Porque houve eleitores ND que declararam uma intenção mas tenderam a abster-se mais do que os outros? Porque houve eleitores que ocultaram o seu sentido de voto quando inquiridos? Porque houve um enviesamento comum na construção das amostras que levou a subestimar o eleitorado do Syriza e sobrestimar o eleitorado da ND? Tudo isso é possível, mas o que perturba nas eleições gregas não é tanto as sondagens pré-eleitorais: é a sondagem à boca das urnas, a exit poll. Porque aí podemos excluir as explicações ligadas a “intenções” e, mesmo assim, estas subestimação do Syriza e sobrestimação da ND verificaram-se na mesma: a vantagem estimada foi de 4.1 mas acabou por ser maior, e os resultados ficaram fora dos intervalos anunciados para cada um dos partidos.

Em suma: cuidado com o conceito de “empate técnico”.

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