Pedro Magalhães

“Indecisos” (1)

Numa entrevista concedida ao último Expresso, Luís Montenegro, líder parlamentar do PSD, explicava que, apesar de PS e coligação estarem “mais ou menos empatados” nas sondagens, a coligação tinha mais potencial de crescimento entre aqueles que ainda não decidiram em quem votar. Quer o PSD quer o CDS teriam perdido eleitores ao longo dos últimos anos que seriam da “área política” dos dois partidos, “que dificilmente votariam noutra opção” e seriam por isso recuperáveis para a coligação. Já o PS, na opinião de Montenegro, daria sinais de não ter margem de crescimento eleitoral.

Tenho imensa curiosidade de saber se isto é verdade. De resto, imagina-se facilmente o que se poderia fazer num inquérito:

a. Questionar os eleitores sobre se tencionam votar na próxima eleição e acerca de outros “marcadores” habituais de propensão para votar, detectando os abstencionistas quase certos ou convictos.

b. Entre os restantes, indagar sobre o partido em que tencionam votar. Em princípio, entre os que já têm uma preferência e a revelam, deveríamos ter o tal “empate” entre coligação ou PS, ou algo próximo disso.

c. Mas depois há aqueles que deverão ou poderão votar mas não sabem ainda em quem. A esses, perguntaria:

– Se tendem a simpatizar com algum partido.

– Onde se posicionam ideologicamente.

– Pedir-lhes que digam, para cada partido, por exemplo numa escala de 0 a 10, se alguma vez contemplariam votar nele.

Se Montenegro tiver razão, entre esses ditos “indecisos”, deveríamos encontrar desproporcionalmente simpatizantes dos partidos da coligação, pessoas que se situam no centro-direita e pessoas que contemplariam mais facilmente votar num dos partidos da coligação do que nos outros. Isso seria indicação de um potencial eleitoral ainda por realizar. Infelizmente, não tenho esses dados, mas imagino que os partidos e as empresas de sondagens os tenham.

Mas por outro lado, pensando melhor, a tarefa pode não ser tão simples. O gráfico abaixo mostra a evolução da percentagem dos ditos “indecisos” (em relação ao total daqueles que tencionam votar e excluindo as não respostas) nos inquéritos do CESOP da Católica ao longo das sondagens realizados nos 180 dias antes das eleições de 2009 e 2011, assim como os das sondagens realizadas até agora nos 180 dias antes de 4 de Outubro de 2015 (os dados são retirados dos depósitos na ERC).

CESOP indecisos

A primeira coisa que se vê é que são muitos. Estes “indecisos” chegaram a ser mais de 40% dos eleitores que afirmavam tencionar votar, a menos de dois meses da eleição de 2011. A segunda coisa que se vê é que há diferenças de eleição para eleição. Foram sempre mais nos seis meses antes da eleição em 2011 do que no mesmo período antes da eleição de 2009. Não surpreende, tendo em conta que foram eleições antecipadas e realizadas num contexto de maior incerteza, ligada ao resgate e ao apuramento de responsabilidades pela situação económica. Até agora, 2015 tem estado a meio caminho deste ponto de vista. E a terceira coisa que se nota é que o seu número só começou a diminuir a cerca um mês (ou menos) antes do dia da eleição em 2009 e 2011.

Mas vejamos agora o que se passa com a Eurosondagem. A Eurosondagem reporta percentagens para o agregado “Não sabe/Não responde”, o que faz supor que teríamos números maiores que na Católica. Mas não é isso que sucede, pelo contrário: os valores quase são sempre parecidos com os valores de 2009 para a Católica. Mais: não há diferenças entre eleições. E a única semelhança com a Católica é uma diminuição da percentagem de “Ns/Nr” no final, mas neste caso apenas nas últimas duas semanas.

Eurosondagem indecisos

E vejamos agora a Aximage:

Aximage indecisos

Os valores da Aximage são muito menores que os das outras duas empresas, 8% dos que tencionam votar, no máximo. Mais: os indecisos, em vez de diminuírem ao longo da campanha ou no seu final, pelo contrário, aumentam ligeiramente. E se há algo que distingue 2015 das restantes é que, na Aximage, os valores dos “Indecisos” têm sido ligeiramente inferiores aos das outras duas eleições.

Em suma, o único ponto de contacto é a diminuição destes indecisos nas derradeiras sondagens no CESOP e na Eurosondagem. No resto, os dados das diferentes empresas não têm quase nada a ver uns com os outros. O que poderá estar por detrás destas discrepâncias? O facto da Aximage recorrer a uma “pool”de 22.000 pessoas da qual extrai a sua amostra para cada estudo? A diferença entre inquirição telefónica e presencial? Diferentes definições e maneiras de medir o conceito de “indecisos” e de filtrar votantes prováveis? Sinceramente, não consigo responder. Mas parece evidente que a detecção destes eleitores indecisos é muito mais complicada do que parece à primeira vista. No post seguinte vou abordar esta questão de uma maneira completamente diferente, recorrendo a estudos pós-eleitorais em vez de recorrer a sondagens pré-eleitorais.

One Commment

  1. […] post anterior, falei um pouco dos ditos “indecisos” tal como captados pelas sondagens pré-eleitorais e das […]

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