Pedro Magalhães

Inquérito ao Emprego passa a ser telefónico

Acho a notícia de hoje sobre a mudança do modo de aplicação do Inquérito ao Emprego muito interessante, pelo menos de dois pontos de vista. O primeiro é que nos ajuda a perceber que, manifestamente, muitas pessoas não perdem tempo a pensar de onde vem a esmagadora maioria da informação das estatísticas nacionais. Por exemplo, hoje, a TSF anunciava que o BE iria pedir esclarecimentos sobre a mudança, anunciando que “as estatísticas nacionais não podem ser sondagens”. Não podem? Mas é precisamente isso que são. Com excepção da informação que resulta dos recenseamentos da população, a maior parte das estatísticas nacionais, em qualquer país do mundo, resultam, precisamente, de inquéritos amostrais, ou seja, de sondagens (ver aqui a forma como o Inquérito ao Emprego vinha sendo conduzido até agora). Se devem ser presenciais, telefónicas ou online é algo que se pode discutir longamente,  e é óbvio que são feitas com recursos e tempo muitíssimo maiores que qualquer sondagem para a comunicação social. Mas são, no fundamental, sondagens, quer lhes queiramos chamar isso ou outra coisa qualquer.

O segundo ponto interessante é que, por isso mesmo, o INE talvez devesse ter sido capaz de prever que a súbita “recordação” desse simples facto poderia ser acompanhada de suspeitas e acusações várias, mesmo que completamente descabeladas. Uma das coisas que se diz na nota informativa do INE (descarregar aqui) é que a decisão de passagem para inquérito telefónico foi tomada em 2008 e que os trabalhos para a execução do “Projecto para o planeamento, concepção, preparação e implementação da entrevista telefónica no Inquérito ao Emprego (…) “decorreram desde então com grande intensidade”. Houve um “trabalho rigoroso e intenso de planeamento, investigação, concepção e preparação” e foi realizado um “um conjunto vasto de testes estatísticos para medir o impacto das alterações a introduzir”. Óptimo. Mas se é assim, por que razão “a descrição detalhada do processo de transição para o modo de recolha telefónico, bem como dos impactos nas estimativas a publicar no 1º trimestre de 2011 e nos conteúdos informacionais objecto de difusão, constarão de documento metodológico a disponibilizar oportunamente”‘ Haverá momento mais oportuno do que este? Se houve tanta preparação e investigação, não teria sido melhor divulgar os seus resultados agora? Acompanhar este anúncio com documentação metodológica detalhada seria a melhor maneira de fazer que esta mudança no modo de aplicação do inquérito fosse melhor compreendida. Assim, temos confusão desnecessária. Estou a ver mal?

8 Comments

  1. P says:

    Garanto-lhe que o desemprego medido pelo INE vai diminuir de repente. Repare o timing: primeiros dados disponibilizados a 18 de Maio, nessa altura ninguém se lembrará da incomparabilidade e se calhar estamos em período pré-eleitoral.

  2. Mas este inquérito não é aquele que nos dá a taxa de desemprego mensalmente. São coisas diferentes, penso eu. Não há notícias de alteração do cálculo da taxa de desemprego que mensalmente nos é dada e noticiada.

  3. Olá. Há aqui uma explicação genérica para como se chega a dados mensais: http://epp.eurostat.ec.europa.eu/cache/ITY_OFFPUB/KS-SF-09-053/EN/KS-SF-09-053-EN.PDF

    Se bem entendo – e entendo pouco – para dados mensais, o Inquérito ao Emprego é complementado com dados dos centros de emprego. Mas os dados trimestrais são o benchmark que depois servem para estimar (para a frente) e reestimar (para trás) os dados mensais. Estarei a perceber bem?

    Mas tu és a pessoa certa para explicar o que raio será isto: “Portugal: Quarterly LFS data are combined with monthly registered unemployment data using a Chow Lin model for temporal disaggregation and forecasting.” 🙂

  4. Ok, esclarecido(?!?). Então se o raio do inquérito é apenas feito 4 vezes por ano, custava muito durante um ano calcular duas taxas de desemprego? Uma para cada metodologia? Assim, já não havia dificuldades para comparar resultados. Quando se quisesse comparar os deste ano com o anterior, usava-se a metodologia antiga, de 2012 para a frente, usava-se a nova, dado que já havia a nova base de 2011 para comparar
    2011 seria um ano de ligação, sendo muito mais fácil lidar com a quebra de séries.

  5. Dizes fazer dois inquéritos durante um ano, um telefónico e outro presencial? Se calhar é isso que o INE vem andando a fazer. E se é assim, talvez a coisa da não comparabilidade seja exagerada. Mas enfim, sem explicações detalhadas é só especular.

  6. Se já o tem feito durante este ano, é só disponibizar os dados referentes a 2010. Assim é fácil fazer comparações, correcto?

  7. mr. large says:

    bem, aproveito para fazer alguns esclarecimentos. o documento do eurostat reflecte a forma como é estimado o desemprego mensal pelo próprio eurostat (eventualmente esse cálculo será feito no ine, mas creio que não). essa estimativa é uma interpolação dos dados trimestrais oficiais do ine, por métodos econométricos (creio que o método chow lin é uma “simples” regressão linear – com o propósito de mensualização de dados trimestrais).

    para os dados serem comparáveis, ou seja para se poder colar as duas séries, é necessário fazer os inquéritos das duas formas durante pelo menos um período (trimestre), idealmente um ano (por questões de sazonalidade). não sei se isso irá ser feito, mas não me parece.

    no entanto, é preciso lembrar que as quebras de série são um evento normal e que a recolha de dados por duas metodologias é habitual nessas situações para assegurar a tal comparabilidade.

    se tal não acontecer neste caso, há uma explicação muito simples: cortes orçamentais. um inquérito trimestral presencial da dimensão do inquérito ao emprego custa largos milhares de euros. é que não é uma questão ou duas e não são 1000 pessoas. são cerca de 12 mil agregados familiares que são inquiridos (e as perguntas abrangem todos os elementos das famílias).

    conclusão: a crise também afecta a ligação de séries e há que viver com isso.

  8. beijokense says:

    Há uns meses apresentei (aqui) um gráfico comparando duas séries de estimativas para uma mesma variável, uma com dados do INE, outra com dados de uma empresa de estudos de mercado.
    A minha hipótese para a diferença nas estimativas é o método de recolha – enquanto a empresa usa apenas recolha telefónica, o INE utiliza recolha telefónica e recolha presencial. No doc. técnico do inquérito em causa (à utilização de TIC pelas famílias), o INE explica por que usa os dois métodos e “avisa” que está a substituir gradualmente o pessoal pelo telefónico… não estou agora a consultar o dito doc. mas nessa altura fiquei com a ideia de que a base de dados com os n.ºs de telefone é construída a partir de contactos pessoais (!?).

    Eu também acho lamentável que não se use os dois métodos durante um período de “transição”… a não ser que seja precisamente isso que fizeram durante este período de “testes”.

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