Pedro Magalhães

Margens de Erro

O regime de Ronald Reagan

Posted November 13th, 2020 at 9:27 am4 Comments

Expresso, 6/10/2020

No momento em que escrevo, o vencedor das eleições presidenciais americanas e a composição das duas câmaras do Congresso ainda não são conhecidos. Mas esses resultados já não eram muito relevantes para os três artigos anteriores desta série. Ganhe quem ganhar as eleições americanas de 2020, isso não muda a polarização e tribalização do eleitorado americanoo arcaísmo e a disfuncionalidade das instituições eleitorais do país ou as debilidades organizativas do partido Democrata. E acho que também não vai alterar aquilo que se segue.

Nos últimos 40 anos, os Estados Unidos tiveram seis presidentes diferentes, 24 anos de governação republicana, 16 democrata e quase todas as combinações possíveis de controlo das duas câmaras do Congresso. De um certo ponto de vista, no entanto, tiveram um único regime. Chamemos-lhe, para simplificar, o regime de Ronald Reagan. O historiador e cientista político Stephen Skowronek explica que, tal como Lincoln e Roosevelt, Reagan foi um presidente “reconstrutivo”, que foi capaz de inaugurar uma nova agenda política, baseada em novas ideias e numa nova coligação de interesses. O regime assim criado a partir dos destroços do New Deal foi o da diminuição da regulação estatal da economia, da erradicação dos sindicatos como forma de organização da esmagadora maioria dos trabalhadores, do aumento do poder dos grandes acionistas e das administrações das empresas, da manutenção do salário mínimo a níveis baixos, do crescimento exponencial do sector financeiro, da redução da progressividade dos impostos e da contenção dos gastos sociais.

Os presidentes seguintes ou não quiseram (Bush pai e especialmente filho), ou não puderam (Clinton e Obama) mudar este regime. Clinton desistiu: “The era of big government is over”, declarou em 1996, depois de ter falhado a reforma do sistema de saúde, dado prioridade à redução do défice e aprovado uma reforma conservadora da segurança social. Obama, que chegou ao poder no meio da maior crise económica desde a Grande Depressão e com duas guerras em curso no Médio Oriente, baseou a sua reforma do sistema de saúde no plano de um governador republicano (Romney) e enfrentou um Congresso crescentemente hostil, com o qual procurou, durante muito tempo, “negociar”. Por seu lado, Trump disse muitas coisas – umas a favor e outras contra esta ortodoxia – mas era certamente o candidato de quem menos se podia esperar que mudasse algo de fundamental na ordem económica prevalecente.

O regime de Reagan deu aos Estados Unidos a vitória na Guerra Fria, enquanto mantinha enormes níveis de prosperidade. Entre todos os países da OCDE, o rendimento disponível de uma família média americana, ajustado para o poder de compra e depois de impostos, é o mais alto. Contudo, o reaganismo trouxe também outras coisas. Nos últimos 40 anos, o rendimento dos 5% mais ricos aumentou continuamente, no que representa o maior crescimento de qualquer país desenvolvido, ao mesmo tempo que o rendimento dos restantes 95% da população (que antes acompanhava o crescimento do PIB per capita e da produtividade) estagnou. Este aumento da desigualdade não foi compensado por mobilidade social significativa. Pelo contrário: em comparação com a geração dos seus pais, foram menos os americanos nascidos nos anos 70 e 80 do século passado que conseguiram ascender socialmente, e foram mais os que tiveram percursos descendentes. A esperança de vida à nascença de um americano é hoje a mais baixa, e a mortalidade infantil a mais alta, entre as democracias ricas da OCDE; e a disparidade entre americanos ricos e pobres em relação a estes indicadores não para de aumentar. É certo que algumas destas tendências já vinham de trás, fruto de mudanças na estrutura económica tanto nacional como mundial. Mas, quando se comparam os Estados Unidos com os restantes países ricos do Ocidente, é fácil ver que o reaganismo facilitou e reforçou tudo aquilo que não criou ele próprio.

Nos inquéritos à população dos EUA, os níveis de satisfação com “a maneira como as coisas vão hoje no país” ou a perceção de que o país vai “na direção certa” encontram-se estagnados há quase 20 anos a níveis baixos. Os norte-americanos estão menos satisfeitos com a vida e sentem-se menos felizes do que antes – menos do que em grande parte das democracias desenvolvidas, e muito menos do que o nível de prosperidade do país faria esperarQuase dois em cada três dizem que há demasiada desigualdade e que são necessárias grandes mudanças no sistema económico. Quem olhe para isto verá um grande potencial transformador, o ímpeto para “restaurar a saúde cultural e moral da nação” de que fala Robert Putnam no seu livro mais recente, “The Upswing”.

https://lanekenworthy.net/happiness/#whyarentamericanshappierthan

Contudo, mudar de regime é muito difícil. Mesmo que os Democratas ganhem a presidência e o controlo do Congresso, não é claro que haja muito que os una para além do repúdio a Trump. Um novo compromisso entre classes, semelhante ao que deu origem ao New Deal, depara-se hoje com a ausência de um dos interlocutores principais, os sindicatos. As instituições políticas americanas foram concebidas para preservar o status quo; com partidos e bases polarizadas e tribalizadas, este conservadorismo institucional transforma-se em paralisia. E depois temos Trump. Nos últimos anos, o presidente americano chegou a ser entendido como aquele que viria conduzir um regime obsoleto à sua cova. Porém, se há coisa que estas eleições mostram, independentemente do seu desfecho imediato, é que a aliança entre privação económica, nativismo, ressentimento racial e extremismo retórico não constitui um handicap eleitoral. Pelo contrário, pode ser o tónico de que este mesmo regime carecia para permanecer vivo. O trumpismo não acabará com a saída de Trump – e muito menos acabará o regime que o tornou possível. 

Este é o último artigo de uma série sobre as eleições e as instituições políticas dos Estados Unidos. Agradeço a Clara Vilar, Ivan Nunes e Nuno Garoupa os comentários que fizeram a versões iniciais destes artigos.

by Pedro Magalhães

Trump vs. Biden: as variáveis decisivas

Posted November 9th, 2020 at 8:51 am4 Comments

Expresso, 2/11/20

Sobre o futuro, a escola de pensamento mais sensata é a de um antigo lateral-direito do Futebol Clube do Porto: “prognósticos, só no fim do jogo”. Dito isto, o que se sabe sobre as eleições americanas de amanhã? 

1. Popularidade. Trump não é um presidente popular. É certo que a sua impopularidade é diferente da sofrida por presidentes anteriores. O eleitorado está mais tribalizado do que nunca, o que explica que os níveis de aprovação de Trump sejam tão estáveis ao longo do tempo: grande parte das pessoas tem uma opinião inamovível sobre ele, seja ela positiva ou negativa. Mas também é verdade que, desde que existem dados sobre o tema, só Jimmy Carter (1977-81) tinha valores mais baixos quando se apresentou à reeleição. Até Gerald Ford (1974-77) e George H.W. Bush (1989-93) superavam a popularidade de Trump. E o facto é que nem Carter, nem Ford, nem Bush pai foram reeleitos. 

Charles Franklin: https://twitter.com/PollsAndVotes/status/1319482449097797632/photo/1

2. Economia. Os Estados Unidos estão a passar pela sexta recessão dos últimos 40 anos. O valor atual do índice de confiança dos consumidores é o quarto mais baixo verificado às vésperas de uma eleição presidencial desde que existem dados sobre o assunto. Nos outros três casos — 1980, 1992 e 2008 — os candidatos do partido presidencial (Carter, Bush pai e McCain) perderam as eleições. É certo que, para que a economia dê azo a um castigo (ou recompensa), é preciso que os eleitores atribuam a responsabilidade ao presidente, e a excecionalidade das circunstâncias atuais pode, em parte, exonerá-lo. Ainda em Fevereiro passado, a avaliação que os americanos faziam do estado da economia era melhor do que em 2004 e 2012, quando George W. Bush e Obama (respetivamente) conquistaram um segundo mandato. Mas o mínimo que se pode dizer é que, no momento atual, a economia não vai fazer por Trump aquilo que poderia fazer se as circunstâncias fossem outras.

3. Bases de apoio. O que diziam as sondagens nacionais em 2016? No Domingo antes do voto, uma média simples apontava para que Hillary Clinton tivesse cerca de dois pontos percentuais de vantagem sobre Trump. A candidata tinha um desempenho especialmente bom entre as mulheres (superior até ao de Obama em 2012), mas piores resultados do que o presidente cessante entre os chamados “independentes” (eleitores sem simpatia partidária), entre os hispânicos e – muito especialmente – entre os eleitores brancos com baixos níveis de instrução. Essas indicações das sondagens (realizadas antes das eleições) vieram a confirmar-se integralmente nos estudos pós-eleitorais.

Ontem, uma média simples das sondagens nacionais dava sete pontos de diferença a favor de Biden. De onde vem esta vantagem acrescida? Não é claro que Biden esteja a melhorar o desempenho do Partido Democrata entre os eleitores brancos de classe trabalhadora, justamente aqueles que há quatro anos ajudaram a vitória de Trump no Michigan, no Wisconsin e na Pensilvânia. Contudo, entre os “independentes” a vantagem de Biden é desta vez clara, de acordo com quase todos os estudos. Outro aspeto é que, nas sondagens pré-eleitorais, Biden parece ter um desempenho excecional – se comparado com Hillary ou mesmo com Obama – entre os eleitores brancos com ensino superior. Aliás, se há um dado quase certo em relação às eleições da próxima terça-feira, é que a relação entre o grau de instrução e o voto se vai tornar ainda mais forte do que já foi há quatro anos.

4. A mobilização do eleitorado negro. Em 2016, para compensar as perdas sofridas entre o eleitorado branco menos instruído, Hillary precisava de ter conseguido manter uma forte participação dos negros; porém, essa participação baixou, sobretudo em estados como o Michigan e o Wisconsin, onde teria sido crucial. É muito difícil prever se os eleitores vão votar – ainda mais difícil do que prever em quem eles irão votar – e as circunstâncias da pandemia, com o recurso generalizado ao voto antecipado e por correio, só complicam as coisas. Neste aspeto, as indicações de que dispomos são ambivalentes. Se há estudos que mostram que os eleitores que se identificam com o partido Democrata estão mais entusiasmados – seja em comparação com 2016, seja em comparação com os republicanos – há outros que sugerem que as diferenças são pequenas. Os eleitores negros (e hispânicos), especialmente os mais jovens, declaram-se menos motivados para votar do que os eleitores brancos. É quase impossível que Biden consiga gerar junto do eleitorado negro a mesma mobilização que Obama. Mas conseguirá superar Hillary? Essa é uma das grandes dúvidas.

5. Os erros das sondagens. Hillary ganhou o voto popular por dois pontos, muito perto daquilo que as sondagens lhe atribuíam. E no entanto isso não foi suficiente, visto que o vencedor é determinado pelo colégio eleito estado a estado, não pelo voto nacional. Em 2016, nos 13 estados mais competitivos (em que a diferença absoluta entre Trump e Hillary acabou por ser inferior a seis pontos percentuais), a candidata democrata tinha sondagens que lhe davam vantagem em sete. Desses, ganhou apenas quatro, perdendo Pensilvânia, Michigan e Wisconsin. A média das sondagens finais nesses estados dava-lhe vantagem por 1,9, por 3,4 e por 6,5 pontos, respetivamente. Trump acabaria por ganhar por 0,3 pontos no Michigan e 0,7 pontos na Pensilvânia e no Wisconsin. Essas pequenas margens foram cruciais, visto que, tal como sucede em quase todos os casos, basta ganhar por um voto para recolher todos os votos no colégio eleitoral correspondentes a esses estados.

Temos hoje uma ideia clara do que aconteceu com as sondagens. Por um lado, o trabalho de campo terminou demasiado cedo: graças aos estudos pós-eleitorais, sabemos agora que mais de 10% dos eleitores nestes estados cruciais tomaram a sua decisão só na última semana, e que Trump levou clara vantagem entre os decisores tardios. Por outro lado, sabe-se também que em muitas sondagens as amostras não tiveram devidamente em conta a sobrerrepresentação dos inquiridos com níveis de educação mais elevados. Os eleitores mais instruídos estavam não só mais predispostos a votar em Hillary, mas também mais disponíveis para responder aos inquéritos, e o resultado disso foi uma sobrestimação do voto Democrata.

Desde então, várias empresas de sondagens passaram a ponderar as amostras de acordo com o nível de instrução. Além disso, o número de sondagens aumentou: mais empresas de maior qualidade estão a trabalhar até mais tarde nos estados mais disputados. Mas, como diz o responsável de um dos melhores institutos americanos, “é possível que estejamos agora a disputar a batalha passada”. Cada eleição traz os seus problemas, e há sempre o risco de que as soluções encontradas para dificuldades antigas venham a provocar erros novos.

6. Os estados decisivos. De acordo com os resultados médios das últimas sondagens de ontem, Biden estava em vantagem sobre Trump em todos os treze estados que foram mais competitivos em 2016. Em nove casos, a diferença é de mais de três pontos percentuais. Se imaginarmos — com prudência, mas também alguma ingenuidade — que os erros cometidos em 2016 pudessem repetir-se agora, mesmo assim Biden manteria vantagem em onze estados, incluindo os temidos Michigan e Pensilvânia. Contudo, nesse cenário, a sua vantagem seria muito reduzida em vários estados. Ambas as candidaturas já recrutaram centenas de advogados preparados para contestar as eleições, e se há coisa em que Trump tem sido transparente é na sua disponibilidade para perseguir essa estratégia até às suas últimas consequências. À incerteza das sondagens junta-se assim a incerteza sobre as implicações jurídicas de resultados que não sejam inequivocamente claros.

Em suma, muitas coisas nesta eleição jogam a favor de Joe Biden, muito mais do que jogavam a favor de Hillary Clinton há quatro anos. Nestes assuntos, porém, quem tem sempre razão é o João Pinto.

by Pedro Magalhães

O futuro é dos Democratas?

Posted November 7th, 2020 at 11:19 am4 Comments

Expresso, 30/10/2020

Em 2002, um politólogo americano de origem portuguesa chamado Ruy Teixeira escreveu, em colaboração com John Judis, um livro intitulado "The Emerging Democratic Majority". A sua ideia central era que, do ponto de vista demográfico, a América estava a mudar numa direção favorável ao partido Democrata. O eleitorado estava a tornar-se mais diverso do ponto de vista étnico e cultural, e a economia gerava uma nova e vasta classe de profissionais muito qualificados. Cada geração americana tenderia a ser mais progressista que a anterior. O partido Democrata seria o beneficiário desta “maioria emergente”.

De 2002 até hoje, no entanto, o número de estados onde os republicanos controlam não só o cargo de governador mas ambas as câmaras legislativas passou de 13 para 21. Dos 3756 lugares em disputa em oito eleições para o Congresso, os republicanos ganharam cerca de metade. Em quatro eleições presidenciais, ganharam duas. É verdade que Teixeira e Judis sempre disseram que “a demografia não é o destino”, que ela não é uma inevitabilidade. Caberia aos políticos do partido Democrata transformar a “maioria emergente” numa realidade efetiva. Mas o mínimo que se pode dizer é que, até agora, não se têm saído bem. Porquê?

Em primeiro lugar, uma parte fundamental dessa “maioria emergente” não tem um peso eleitoral proporcional ao seu peso demográfico. Quase um terço dos hispânicos e dos asiáticos com mais de 18 anos não têm direito de voto, e os que têm exercem-no menos que o resto da população. A afluência dos eleitores negros às urnas bateu recordes em 2008 e 2012 (quando Obama foi candidato), mas de resto tem sido quase sempre inferior à dos brancos. Em consequência, as várias minorias de não-brancos representavam em 2016 quase 40% da população dos EUA, mas apenas 27% dos votantes. E se é verdade que a maioria deles se identifica com o partido Democrata (dois terços no caso dos hispânicos e asiáticos, mais de 80% entre os negros), a conversão dessa hegemonia em votos é muito imperfeita. Se a participação eleitoral destas minorias tivesse sido igual à dos brancos, estima-se que em 2016 os democratas teriam ganho a presidência e o Senado. Mas esse é um universo paralelo que nós não habitamos.

O segundo obstáculo à consolidação da maioria Democrata é o facto de o partido ter entretanto perdido a preferência da classe trabalhadora branca. Até à era Reagan, 60% dos brancos sem curso superior identificavam-se com o partido Democrata, ao passo que hoje são 31%. Neste segmento, que representa 44% do eleitorado, Trump teve quase 40 pontos de vantagem sobre Hillary, uma enormidade até há pouco tempo inimaginável.

O que lançou tantos operários brancos nos braços da direita? Há quem fale na economia, porque foi este grupo social quem mais foi prejudicado pela globalização, e há quem fale em “identidade”, porque é entre este grupo que há mais pessoas indignadas com os privilégios de que negros e hispânicos supostamente beneficiam (e houve uma correlação estreita entre esta ideia e o voto em Trump). Mas o afastamento dos trabalhadores brancos do partido Democrata está também ligado ao declínio dos sindicatos, que historicamente cumpriam a função de socializar, informar e mobilizar os seus membros. Em articulação com as lideranças Democratas, os sindicatos combinavam a defesa dos interesses materiais dos seus membros com posições progressistas sobre temas culturais e raciais. Como já dizia o grande Seymour Martin Lipset há mais de 60 anos, a classe operária tinha uma forte propensão para a intolerância e o autoritarismo, mas ambas as tendências eram facilmente contrariadas pela inserção no sindicalismo democrático. Ora, esse mundo acabou: em 1964, 30% dos trabalhadores brancos americanos pertenciam a um sindicato; hoje, são 10%.

Fonte: Macdonald, D., Labor Unions and White Democratic Partisanship. Polit Behav (2020). https://doi.org/10.1007/s11109-020-09624-3

Com o declínio dos sindicatos veio também um défice organizativo. Não falo da máquina eleitoral que conquistou a presidência para Obama em 2008 e 2012, mas sim da capacidade de manter uma presença organizada no terreno e na vida das pessoas entre eleições. Como assinala a politóloga Theda Skocpol, hoje em dia a maioria das organizações ligadas aos democratas são think tanks com sede em Nova Iorque e Washington, que negligenciam completamente a política local e estadual. Em contrapartida, os Republicanos constituíram uma forte base de influência local, primeiro sustentada no Tea Party (apoiado pelos biliões dos irmãos Koch) e depois aproveitando as redes da National Rifle Association, das associações de polícias e das igrejas evangélicas. Assim, em 2016, enquanto o New York Times e o Washington Post se espantavam com a desorganização da campanha de Trump, estas redes iam fazendo o seu trabalho subterrâneo, com o resultado que se viu.

Para concluir, estes fenómenos reforçam-se mutuamente. Sem uma estrutura que enquadre e mobilize as bases, perdem-se eleições locais e estaduais; perdendo-as, paga-se o preço em gerrymanderinge leis que suprimem o voto das minorias e limitam ainda mais a relevância dos sindicatos. Se Biden ganhar na próxima 3ª feira – como tudo indica – é provável que a tese da maioria democrata emergente ressuscite, como já tinha ressuscitado em 2008 e 2012. Mas a seguir a 2012 veio 2016.

by Pedro Magalhães

Salamandras

Posted October 31st, 2020 at 10:22 am4 Comments

Expresso, 23/10/2020

Numa sondagem da Gallup do ano passado nos países da OCDE, 59% dos americanos não tinham confiança na honestidade das eleições. Na Finlândia eram apenas 10%. Na Turquia, 52%. Muitos estarão a pensar que isto se deve à interferência russa nas eleições de 2016. Contudo, uma maioria consistente dos americanos já tem esta opinião pelo menos desde 2012. A América não é propriamente a Bielorrússia. O que explica, numa das democracias mais antigas do mundo, o ceticismo da maioria dos cidadãos em relação à integridade das suas eleições? Para sabermos a resposta temos de esquecer Trump e Biden por uns momentos e olhar para outro nível da política americana: os estados.

Ao contrário do que sucede em muitas democracias, onde a administração eleitoral é feita por organismos independentes ou com composições politicamente equilibradas, a Federal Election Commission americana tem poderes limitados. São os “Secretários de Estado”, escolhidos em eleições partidárias ou designados pelo governador, que controlam o recenseamento e organizam as eleições, aplicando regras aprovadas pelas câmaras dos representantes e senados estaduais. Nalguns casos, o governador, também eleito diretamente, pode vetar essas regras. Mas hoje em dia, em 36 dos 50 estados norte-americanos, o governador e as maiorias nas câmaras baixa e alta são todos do mesmo partido: Republicano em 21 casos e Democrata em 15. 

A consequência é que os partidos dominantes em cada estado aprovam e aplicam regras eleitorais de acordo com a sua conveniência. As filas intermináveis de pessoas que procuram votar antecipadamente ou no próprio dia que vemos nas notícias não acontecem só porque os eleitores estão muito entusiasmados. Acontecem também porque o número de horas e locais disponíveis para votar são estrategicamente reduzidos nas zonas onde há eleitores que tenderão a votar contra quem está no poder. E na ausência de recenseamento automático e de cartões de identificação emitidos gratuitamente, as exigências colocadas para que se possam recensear e votar acabam por depender também daquilo que mais convém a quem manda. Quanto maiores os requisitos de identificação dos eleitores, menor a participação dos mais pobres e das minorias étnicas. A tendência para o reforço dessas exigências acentuou-se nos últimos anos em estados dominados pelo partido Republicano, com o previsível impacto negativo nos resultados dos democratas.

Patricia McKnight/Milwaukee Journal Sentinel

Depois temos o desenho dos círculos eleitorais. Após cada recenseamento da população, é preciso determinar quantos representantes são eleitos em cada estado e as novas fronteiras dos círculos eleitorais que vigorarão durante a década seguinte. Na maior parte dos casos, essa tarefa cabe aos órgãos legislativos estaduais. O resultado previsível é conhecido pelo nome de gerrymanderingCom a ajuda de dados políticos e demográficos e sistemas de informação geográfica, os partidos no poder conseguem fazer com que os eleitores do partido da oposição sejam concentrados no menor número possível de círculos, ao passo que quem governa tenha maiorias, mesmo que apertadas, no maior número possível de círculos. O efeito pode ser estrondoso. Nas últimas eleições para a Câmara dos Representantes em Maryland, o partido Republicano teve 32% dos votos mas elegeu apenas 13% dos representantes. E no Wisconsin, os democratas tiveram 53% dos votos mas apenas 38% dos representantes. Para combater o fenómeno, uma minoria de estados criou comissões independentes encarregadas de redesenhar os círculos, mas nem todas elas têm uma composição politicamente paritária ou genuinamente independente. O resultado é que, de dez em dez anos, em vez de serem os eleitores a escolherem os eleitos, “são os que governam e os seus agentes políticos que escolhem os seus eleitores”.

Newspaper with illustration, "The Gerry-Mander," Salem Gazette, 2 Apr 1813. PL*305360.101.

É certo que o termo gerrymandering foi criado em 1812, em honra do governador Elbridge Gerry, que desenhou um círculo eleitoral com a forma de uma salamandra (na verdade, mais parecido com um dragão). Apesar de estarem mais limitados tecnologicamente, os políticos americanos dos séculos XIX e XX já praticavam a coisa com alguma eficácia. É também verdade que o consenso académico, até há pouco tempo, era o de que estas maquinações de uns e de outros acabavam, globalmente, por se cancelar umas às outras. Contudo, em contraste com o papel decisivo que desempenhou nos anos 60 para travar as maiores distorções, o Supremo Tribunal Federal americano tem, desde o início deste século, devolvido estas questões aos estados. O resultado, a partir do ciclo de 2010, foi a aceleração dramática das distorções na relação entre votos e mandatos, em claro desfavor dos democratas, dado disporem de controlo unificado dos órgãos de governo em menos estados. E as consequências não foram apenas para a distribuição de poder entre partidos, mas também para o processo político como um todo: nos estados onde os enviesamentos criados pelo gerrymandering são maiores, as políticas públicas acabaram também elas por se desviar de forma mais acentuada das preferências dos eleitores e a competitividade eleitoral e a qualidade dos candidatos diminuíram.

A América não é a Bielorrússia. Mas importa não sobrestimar a “normalidade” da política americana. 

by Pedro Magalhães

Duas tribos

Posted October 24th, 2020 at 4:20 pm4 Comments

Expresso, 16/10/2020

Jackson é a maior cidade e capital do estado do Mississípi. Deve o seu nome ao sétimo Presidente dos Estados Unidos e foi quase completamente destruída durante a Guerra Civil. Em 1963, Medgar Evers, ativista pelos direitos cívicos dos negros, foi lá assassinado por um membro da Ku Klux Klan, que só viria a ser condenado três décadas mais tarde.

É bordejada pelo rio Pearl. A oeste do rio, no condado de Hinds, os brancos não hispânicos constituem apenas 25% da população. O rendimento mediano dos residentes equivale a pouco mais de metade do nacional. Hillary Clinton teve aqui mais de 70% dos votos em 2016. A leste do rio ficam cidades como Pearl ou Florence, a menos de 20 minutos de carro do centro de Jackson. Cerca de 80% dos habitantes destas cidades são brancos não hispânicos. O seu rendimento mediano é aproximadamente o dobro do dos habitantes de Jackson. No condado de Renkin, onde estão Pearl e Florence, Trump teve 75% dos votos em 2016.


Jackson é um caso extremo: a área urbana mais politicamente segregada dos Estados Unidos. Mas está longe de ser caso único. Nova Orleães, Baltimore, Milwaukee, Houston ou Cleveland exibem padrões semelhantes. Estamos habituados a pensar em Estados “republicanos” ou “democratas”. Mas, como mostra um estudo recente — “Partisan Spatial Sorting in the United States”, dos economistas Ethan Kaplan, Jörg Spenkuch e Rebecca Sullivan —, passa-se algo novo desde os anos 70. A segregação política no interior dos estados está em crescimento acelerado, com áreas rurais e suburbanas povoadas por eleitores republicanos e os centros urbanos povoados por democratas. Esta segregação política está fortemente correlacionada com outros tipos de segregação: por níveis de rendimento e instrução e, especialmente, racial.


Num famoso conjunto de artigos de 2004 e num livro subsequente, o jornalista Bill Bishop e o sociólogo Robert Cushing chamaram a isto “The Big Sort”: os americanos cada vez mais escolheriam viver junto de pessoas que pensam como eles, balcanizando o país e criando comunidades que não passariam de câmaras de eco das suas próprias ideias. Um problema óbvio deste argumento é que a capacidade para escolher onde se vive é constrangida por inúmeros fatores, a começar pelo custo de vida e do imobiliário. Contudo, na medida em que esses fatores estejam correlacionados com as características sociais e políticas de diferentes áreas geográficas — como efetivamente estão —, o desfecho acaba por ser parecido. É extremamente improvável que um habitante de Pearl tenha um vizinho que vote num partido diferente do seu ou que encontre semelhante criatura no supermercado, na igreja ao domingo ou nas reuniões de pais da escola dos filhos. Passeando pelo bairro, dificilmente encontrará cartazes de candidatos de outro partido que não o seu espetados nos relvados das casas dos vizinhos. E o mesmo sucede com um habitante de Jackson. Na verdade, mesmo que não possam escolher onde vivem apenas na base de preferências políticas, mais de 40% dos americanos afirmam que seria mais difícil entenderem-se com um novo vizinho se ele fosse de um partido diferente. Contudo, não é coisa que os deva preocupar excessivamente: a possibilidade de isso suceder é cada vez menor.


A crescente segregação política dos americanos manifesta-se de outras formas. A Fox News é a fonte que mais americanos usam para obter notícias sobre política. Entre os que a mencionam como fonte principal, nove em cada dez são brancos e simpatizantes do Partido Republicano. A CNN aparece em segundo lugar. Oito em cada dez dos que a mencionam são simpatizantes do Partido Democrata. Quase 80% dos americanos afirmam que o cônjuge ou parceiro é do mesmo partido e é mais provável que digam que têm “muitos amigos” desse partido. E mesmo que não se escolham amigos, colegas de trabalho ou familiares como se escolhem canais de televisão, é sempre possível escolher aquilo de que se fala com eles: quanto mais antecipam que as pessoas que conhecem irão discordar deles politicamente, menos provável é que os americanos conversem com elas sobre política.


Mas o que significa exatamente “discordar”? À primeira vista, o que distingue democratas e republicanos são as suas opiniões muito diferentes sobre temas como a imigração, o aborto, o controlo de armas, o comércio livre, a política externa ou o papel do Estado na economia. Contudo, outra coisa que os caracteriza é simplesmente o conjunto de sentimentos negativos que nutrem uns pelos outros:“tacanhos”, “imorais” e “antipatrióticos”. De resto, no que toca às opiniões sobre os temas, a maleabilidade é muito grande. Em 2015, 55% quer de democratas quer de republicanos achavam que os acordos de comércio livre eram uma coisa boa. Depois da eleição de Trump, as percentagens passaram para, respetivamente, 67% e 36%. Em abril de 2016 havia mais republicanos do que democratas a acharem que a Rússia era uma ameaça aos Estados Unidos. Em janeiro de 2017 tudo já se tinha invertido. E o meu exemplo preferido é o da opinião dos cristãos evangélicos sobre o perfil moral dos políticos. Em 2011, apenas 30% deles concordavam com a ideia de que “um político que comete um ato imoral na vida privada pode na mesma comportar-se eticamente e cumprir os seus deveres públicos e profissionais”. Em outubro de 2016, com Trump como candidato republicano, esse valor tinha subido para uns espetaculares 72%.


Nos Estados Unidos, a simpatia partidária não é uma coleção de posições ideológicas sólidas e elaboradas. É antes uma identidade social, reforçada por sentimentos de afinidade com determinados grupos sociais, étnicos, religiosos ou de classe. É um reflexo do tipo de pessoa que julgamos ser, dos grupos a que julgamos pertencer e do antagonismo em relação àqueles a que julgamos não pertencer. Não é completamente impermeável aos factos e às experiências. Mas quando esses factos e experiências nos chegam através do circuito fechado formado pelos membros da nossa tribo, tudo fica exatamente na mesma. Sem começarmos por perceber isto, muito do que se passa na política americana — e talvez não só a americana — permanecerá um mistério inexplicável.

by Pedro Magalhães

Eleitores “brancos” e “negros”: muitas semelhanças, algumas diferenças*

Posted March 6th, 2020 at 9:11 am4 Comments

Quando se discutiu a inclusão de perguntas no Censos 2021 sobre “origem e/ou pertença étnico-racial” (terminologia “oficial” do grupo de trabalho designado para o assunto, mas não adoptada na pergunta que o GT acabou por propor), chegou-se a esta formulação:

“Portugal é hoje uma sociedade com pessoas de diversas origens. Queremos melhorar a informação sobre essa diversidade para melhor conhecer a discriminação e desigualdades na sociedade portuguesa. Qual ou quais das seguintes opções considera que melhor descreve(m) a sua pertença e/ou origem?” 

Apesar desta proposta, a decisão final do INE sobre a sua inclusão no Censos foi negativa, por se entender que se trata de “um recenseamento da população e não uma ferramenta para a sua classificação”, mas apontando para a necessidade de realização de um inquérito sobre o tema.

Estudo Eleitoral Português 2019, realizado junto de uma amostra representativa dos eleitores do Continente, não é, nem pouco mais ou menos, esse inquérito. Contudo, decidiu-se colocar a questão proposta pelo GT, numa versão simplificada (eliminando a frase “queremos melhorar a informação sobre essa diversidade para melhor conhecer a discriminação e desigualdades na sociedade portuguesa”) e agregando as opções de resposta. Eram elas  “Branca/Branco”, “Negra/Negro”, “Cigana/Cigano”, “Asiática/Asiático”, “Outra/Outro” e “Não me revejo em nenhuma destas opções”. 

A resposta a esta pergunta, como a todas as outras — dado não se tratar de uma operação oficial — era facultativa. Dos 1500 inquiridos, 1429 escolheram “Branca”, 51 “Negra”, 4 “Cigana” e 10 “Não me revejo nestas opções”. Quatro disseram não saber e outros quatro optaram por não responder. É desde logo interessante que, mesmo nesta versão altamente simplificada, sejam tão poucos os inquiridos que não se reviam nas opções de resposta ou que optaram por não responder. Mas é também fundamental notar que todos os inquiridos, tendo em conta os objetivos do estudo, têm capacidade eleitoral ativa. Ou seja, não estamos a falar de uma amostra representativa de toda a população residente em Portugal, nem sequer de toda a população adulta, mas apenas de cidadãos portugueses com 18 ou mais anos.

Dito isto, em que medida se distinguem, do ponto de vista das suas atitudes e comportamentos políticos, os eleitores que definem a sua origem ou pertença como “negra” daqueles a definem como “branca”? Há opiniões ou comportamentos mais prevalecentes junto de uns que de outros? Responder a estas questões exige cuidados especiais, dado que os primeiros — os que se definiram, em termos de pertença ou origem, como “negros” — formam uma sub-amostra de dimensões reduzidas. Assim, em todas as análises que se seguem, testou-se se a diferença de proporções ou médias, ou se a relação entre variáveis, eram estatisticamente significativas. Em todos os gráficos, quando virem um *  (asterisco) isso significa que a diferença é estatisticamente significativa a 95%. O que encontramos, então?

  1. Atitudes políticas: muitas semelhanças

Numa escala de 0 a 10, em que 0 significa a posição mais à esquerda e 10 a posição mais à direita, a posição média dos eleitores “brancos” é 4,7. Entre os eleitores “negros” é 4,8. A diferença não é estatisticamente significativa.

A média pode ocultar alguns aspetos da distribuição, pelo que vale a pena observar o gráfico abaixo, que mostra como estes dois grupos se distribuem nas respostas a esta questão. Entre os “negros”, há menos posições extremas e mais posições no centro-esquerda que entre os brancos, mas as diferenças são pouco expressivas.

Passando para temas substantivos, a auto-definição dos eleitores como “brancos” ou “negros” também não ajuda a distingui-los do ponto de vista da sua posição sobre a desigualdade e a redistribuição de rendimentos: quase nove em cada dez “brancos” ou “negros” concordam com a ideia de que “o Governo devia tomar medidas para reduzir diferenças nos níveis de rendimento”.

E o mesmo sucede com o interesse pela política: aproximadamente um em cada três “brancos” ou “negros” dizem-se “muito” ou “razoavelmente” interessados na política. Também é semelhante a prevalência da percepção de que “compreendem os assuntos políticos mais importantes do país” (42% dos ”brancos” concordam, 47% dos “negros”). Da mesma forma, as ideias de que “certas práticas de corrupção se encontram difundidas entre os políticos portugueses”, de que “a maioria dos políticos não se interessa pelo povo”, de que “os políticos são o principal problema de Portugal” ou de que “a maioria dos políticos só se preocupa com os interesses dos ricos e dos poderosos” recebem a concordância de proporções elevadas dos membros dos dois grupos, sem que, uma vez mais, as diferenças tenham significância estatística.

2. Comportamento eleitoral

Questionados sobre se votaram e, em caso afirmativo, em que partido, há uma proporção muito semelhante de “brancos” e “negros” que dizem ter votado em partidos aqui definidos como de "esquerda" (PS, BE, CDU, PAN ou Livre). Mas algo diferente se passa no que toca à opção por um partido de "direita" (PSD, CDS, Chega, IL ou  Aliança). Entre os eleitores “negros”, a opção de voto por um partido de direita é residual, muito inferior ao que se encontra entre os “brancos”. Como podem as proporções de “brancos” e “negros” que votam à esquerda serem tão semelhantes e as proporções de “brancos” e “negros” que votam à direita tão diferentes? Isso sucede porque uma terceira opção, a abstenção, se manifesta também de forma diferente:

Um teste de χ2 revela que a relação entre a pertença ou origem e o comportamento de voto é estatisticamente significativa: eleitores “negros” e “brancos” não votam da mesma forma.

É intrigante a diferença no que toca à abstenção. Como vimos antes, eleitores “negros” e “brancos” exibem níveis semelhantes de interesse pela política e de concordância com a ideia de que “compreendem os assuntos políticos”. Se uns votam mais do que os outros, a explicação não deverá estar no nível de envolvimento político “subjetivo”. Será preciso analisar estes dados com outras ferramentas para determinar se as diferenças de participação eleitoral que aqui aparecem ligadas a “pertença ou origem” não se deverão a níveis diferentes de recursos educacionais ou outros, a diferentes incentivos para o voto ligados ao círculo eleitoral onde votam ou a outro factor qualquer. Nos Estados Unidos, por exemplo, sabe-se que, para além de problemas relacionados com os obstáculos ao recenseamento, os eleitores “negros”, especialmente os menos interessados pela política, tendem a votar mais quando lhes são dirigidos maiores esforços de mobilização eleitoral ou quanto maior for o número de candidatos que identifiquem como tendo a mesma pertença ou origem. Outra hipótese é que talvez os temas que mais interessam a “brancos” e “negros” não sejam iguais e que a menor relevância dos segundos no discurso partidário e no debate político torne a oferta política menos atraente para os eleitores “negros”. Mas tudo isto está por estudar em Portugal. 

3. "Minorias" e imigração

Uma possível surpresa: questionados sobre se a vontade da maioria deve prevalecer sobre os direitos das minorias, ou se as minorias se devem “adaptar aos costumes e tradições de Portugal”, não há diferenças significativas na prevalência destas opiniões entre “brancos” e “negros”: 

Por outras palavras, a utilização de termos como “minorias” ou “direitos das minorias,” pelo menos nestas formulações, não suscita reacções significativamente diferentes entre “brancos” e “negros”.

Onde as diferenças já aparecem de forma mais marcada é nas atitudes em relação à imigração. É certo que são poucos os “brancos” ou os “negros” que acham que “a cultura portuguesa é prejudicada pelos imigrantes”:

Mas a minoria daqueles que relacionam a imigração com a criminalidade é ainda mais minoritária entre os “negros” que entre os “brancos”:

E ao passo que a concordância com a ideia de que “os imigrantes são bons para a economia portuguesa” é quase unânime entre os “negros”, o mesmo não sucede entre os “brancos”:

Finalmente, os eleitores portugueses “brancos” e “negros” tendem a partilhar ideias diferentes sobre o que é “importante para ser verdadeiramente português”. “Ter nascido em Portugal”, “ter antepassados portugueses” ou mesmo “seguir os costumes e as tradições portuguesas” são significativamente mais mencionados como “muito importantes” por “brancos” do que por “negros”. Onde a diferença entre uns e outros desaparece é na importância atribuída ao domínio da língua.

Falta saber muita coisa, não apenas sobre estes grupos — os eleitores que definem a sua pertença ou origem desta forma — mas também sobre o resto da população residente em Portugal, “branca” ou “negra”, que não tem direito de voto, e que pode ser muito diferente de muitos pontos de vista da população que é representada aqui.

Contudo, o retrato que fica desta breve análise resume-se rapidamente: irrelevância desta categorização para explicar um grande número de atitudes em relação à política, incluindo posicionamento ideológico, interesse e eficácia políticas e atitudes em relação à classe política; mas alguma relevância para explicar seja o comportamento eleitoral sejam atitudes em relação à imigração e à concepção do que é “ser-se português”. Tudo isto, claro, está pendente de análises mais aprofundadas, que a partir de agora serão possíveis com os dados ao nosso dispor.

*Agradeço os comentários de Ana Filipa Madeira, Jorge Vala, Mariana Miranda e Rui Costa Lopes. Análises, interpretações e possíveis erros são da minha inteira responsabilidade.

by Pedro Magalhães

O que pensam os que votaram no Chega?

Posted February 22nd, 2020 at 6:54 pm4 Comments

Num artigo publicado no Observador, na sequência de algumas entrevistas com fundadores e quadros e monitorização de redes sociais frequentadas por simpatizantes do partido, Riccardo Marchi lançou um olhar exploratório sobre o Chega. Definindo o partido como trazendo uma "proposta populista de nova direita radical", Marchi detectou alguns elementos distintivos no discurso ideológico do partido e da cultura política dos seus líderes:

  • "Populismo" ("a voz do povo atraiçoado pela elite política do sistema capturada pelo politicamente correcto"), mas sem clara predileção pela democracia directa em detrimento da democracia representativa;
  • "Autoritarismo" ("Lei e Ordem" e agenda legalista e securitária), mas sem ataque directo à democracia liberal;
  • "Nacionalismo cívico", mas com conotações jacobinas ("assimilação das minorias no corpo social homogéneo") e defesa de "políticas mais restritivas de controle e selecção dos migrantes em função das necessidades económicas do País".

Marchi assinala também que "não há sinais consistentes de rejeição da qualificação de português para as minorias étnicas, nomeadamente as afrodescendentes" — apesar de declarações recentes de André Ventura, posteriores ao artigo de Marchi, lançarem dúvidas sobre esse diagnóstico — e que, noutros temas, o programa do Chega "não reflecte uma homogeneidade ideológica dos quadros, entre os quais, pelo contrário, existem sensibilidades diferentes, algumas mais outras menos flexíveis quanto ao liberalismo económico radical".

O Estudo Eleitoral Português de 2019, coordenado por Marina Costa Lobo e agora disponível, permite, no mesmo estilo exploratório, perceber em que medida aqueles que votaram no Chega se aproximam, nas suas opiniões e atitudes, destes elementos que Marchi aponta como sendo distintivos do discurso do partido. "Exploratório" por duas razões. Primeiro, os instrumentos dos inquéritos — perguntas e respectivas opções de resposta — são sempre rudimentares e simplificadores como formas de medir de atitudes e opiniões. Segundo, apenas 0,7% dos eleitores votaram no Chega nas eleições de 2019. O grau de incerteza em torno de qualquer estimativa que se possa fazer sobre esta parcela da população na base de uma amostra de um inquérito é enorme (pouco mais de 1% dos inquiridos afirmaram ter votado no Chega). Em vários momentos, assinalarei quando essa incerteza impede completamente que se identifique qualquer particularidade do votante no Chega.

Populismo

Uma definição possível de "populismo" é a de que consiste numa ideologia que "concebe a sociedade como estando dividida em dois grupos homogéneos e antagónicos: 'o povo puro' e 'a elite corrupta', e defende que a política deve ser uma expressão da vontade geral do povo" (Mudde 2004; Mudde and Rovira Kaltwasser 2017). No gráfico abaixo, agrupamos os eleitores em três grupos: votantes no Chega; votantes noutros partidos; e abstencionistas. Mostra-se a percentagem de eleitores, dentro de cada um destes grupos, que consideram que práticas de corrupção se encontram "muito difundidas" entre os políticos portugueses. Quando olhamos para os resultados, ficam poucas dúvidas de que, entre os que dizem ter votado no Chega em Outubro, a percepção de que "elite política" é na sua generalidade "corrupta" é claramente prevalecente, e parece seguro que, mesmo com os cuidados que se impõem na análise de uma subamostra tão pequena, é-o de forma mais acentuada do que entre qualquer outro grupo de eleitores.

Outras questões do inquérito geram distribuições semelhantes: a percepção de que "os políticos são o principal problema de Portugal", de que "a maioria dos políticos só se preocupa com os interesses dos ricos e dos poderosos" ou de que "a maioria dos políticos não se interessa pelo povo". Note-se que, em duas das questões — as relacionadas com a percepção de desinteresse dos políticos em relação ao "cidadão comum" — a concordância da população em geral com estas ideias é ela própria tão difundida que o eleitorado do Chega em 2019 mal se distingue de forma significativa, pelo menos em comparação com os abstencionistas.

Noutras questões relacionadas com o ideário populista, a distintividade do eleitorado do Chega não aparece. Por exemplo, não há uma concordância especialmente forte com a ideia de que "a vontade da maioria deve prevalecer sobre os direitos das minorias". É curiosamente entre os abstencionistas que esta ideia mais prevalece. Talvez a questão seja demasiado abstracta; talvez esta ideia não tenha sido articulada no discurso do partido, como o próprio Marchi assinalava; e talvez o eleitor do Chega se sinta, ele próprio, pelo menos para já, parte de uma "minoria", pelo menos política.

Autoritarismo

Questionados sobre com que frase mais tendem a concordar — "Devemos manter a lei e a ordem" ou "devemos defender as liberdades cívicas" — os portugueses inclinam-se um pouco mais para a primeira. E isso é assim para os eleitores do Chega mais do que para quaisquer outros.

Marchi defende também que, nas entrevistas com quadros do partido, não emerge um ataque em relação à democracia liberal. Não temos, neste inquérito, os instrumentos necessários para medir a adesão dos eleitores à democracia liberal enquanto regime ou conjunto de princípios. Contudo, uma das questões colocadas no inquérito foi a de saber até que ponto se concordava com a ideia de que "Ter um líder forte no governo é bom para Portugal mesmo que esse líder contorne as regras para fazer as coisas avançarem". Esse "contornar as regras" para permitir o exercício da autoridade de um líder que "faz avançar as coisas" sugere uma secundarização da componente "liberal" do regime. Como vemos abaixo, essa ideia parece prevalecer mais entre os que dizem ter votado no Chega do que entre os restantes grupos (apesar de, como já sucede noutros indicadores, a concordância com esta ideia entre os restantes eleitores ser ela própria — perturbadoramente — alta).

Nacionalismo

Algumas das opiniões dos eleitores do Chega sobre o tema "imigração" poderão, à primeira vista, surpreender. Aqui vão elas:

Prevalece a concordância com a ideia de que os "imigrantes são bons para a economia", ao passo que a ideia de que a "cultura portuguesa" é "prejudicada" por eles é partilhada por uma pequena minoria. Os eleitores do Chega não desalinham dos restantes. Mesmo quando se invoca uma combinação particularmente incendiária noutras paragens — "imigração" + "crime" — os eleitores do Chega não reagem de forma diferente dos restantes eleitores.

Os eleitores do Chega são, contudo, assimilacionistas, não pluralistas: as minorias devem "adaptar-se aos costumes e tradições de Portugal". Dito isto, o assimilacionismo também tende a ser dominante entre os eleitores portugueses...

E em contraste com aquilo que Marchi encontra nos quadros do partido, não é evidente que o nacionalismo dos eleitores do Chega seja "cívico". Questionados sobre aquilo que é importante para se ser "verdadeiramente português", apesar de o domínio da língua ser "muito importante" — como é para todos os restantes grupos — a componente "étnica" — ter "antepassados portugueses" — é mais destacada do que entre os restantes grupos. Por outras palavras, isto é o contrário do "nacionalismo cívico".

Tudo isto é, volto a assinalar, meramente exploratório. Este inquérito não foi concebido propositadamente para estudar este perfil de eleitor. E o peso eleitoral do Chega em 2019 foi, apesar da atenção desproporcional que suscita — e de que este post é só mais um exemplo — muito reduzido, o que aumenta muito a incerteza das comparações: nalguns casos, a sub-amostra de eleitores do Chega não é suficientemente grande para que a relação encontrada entre votos e atitudes se possa dizer existir com segurança entre a população. Mas o perfil — ainda hipotético — de quem votou no Chega em Outubro pode ser traçado brevemente: fortemente "anti-políticos", mas (ainda) sem um projecto de imposição da "vontade da maioria"; tendencialmente autoritários, mas possivelmente pouco mais autoritários do que o eleitor português médio já é; os efeitos alegadamente negativos da imigração não são tema (ainda?), mas o modelo de integração é assimilacionista e mais baseado do que entre outros eleitores numa concepção étnica de nação.

by Pedro Magalhães

O eleitorado do Bloco e a Europa

Posted March 27th, 2017 at 11:05 am4 Comments

O inquérito pós-eleitoral de 2015 permite dizer alguma coisa sobre como os eleitorados dos diferentes partidos olham (ou olhavam nessa altura) para a Europa. De um dos lados da questão, é simples: sabemos quem disse ter votado neste ou naquele partido. Do outro lado é um pouco mais complicado: não tivemos no inquérito uma pergunta sobre se Portugal deveria ou não sair do Euro. Mas temos duas questões relacionadas com o tema:

  • P2 – Até que ponto acha que as seguintes instituições e situações são responsáveis pela situação da economia nos últimos anos? (numa escala que ia de "nada responsáveis" a "extremamente responsáveis", e incluindo "A União Europeia" e "A pertença ao Euro".
  • P3 - A propósito da União Europeia, algumas pessoas acham que a unificação da Europa devia ir mais longe. Outras pessoas acham que já foi longe de mais. Qual a sua posição relativamente a este assunto, numa escala de 0 a 10 em que 0 significa que já foi longe de mais e 10 que devia ir mais longe?
Os gráficos abaixo mostram como se posicionaram os diferentes eleitorados perante estas questões (as linhas de erro representam o intervalo de confiança a 95% para cada estimativa): responsabilidade Unificação No toca à atribuição de responsabilidades pela situação da economia, é fácil ver que a principal diferença — e mesmo assim não muito expressiva — é entre os eleitores da PaF e os eleitores dos partidos de esquerda: os primeiros estiveram menos inclinados a "culpar" o Euro ou (especialmente) a União Europeia pela situação da economia do que os segundos. Também é fácil ver que a "União Europeia" como instituição foi mais responsabilizada do que a pertença ao Euro propriamente dita. Já na atitude "genérica" em relação ao aprofundamento da União, as diferenças entre os eleitorados são reduzidas. O eleitorado da CDU algo mais inclinado para o "já foi longe demais" do que os restantes, mas a diferença não é estatisticamente significativa, dado que todos mostram semelhante ligeira inclinação (abaixo do ponto intermédio da escala). Em suma: o eleitorado do BE teve muita gente que "culpou" o Euro pela economia? Sim. Mas sem que isso o diferencie de forma nítida do eleitorado, por exemplo, do PS; vendo-o como "menos culpado" do que União Europeia como um todo; e sem distinção clara em relação aos restantes eleitorados no que toca à questão geral sobre se a "unificação" já foi longe demais ou deveria ir mais longe.

by Pedro Magalhães

A excepção portuguesa

Posted March 3rd, 2017 at 12:01 pm4 Comments

Entre os dias 20 e 22 de Setembro, vai decorrer o XIII Congresso da Asociación Española de Ciencia Política y de la Administración (AECPA), em Santiago de Compostela. Um dos grupos de trabalho/panéis intitula-se "La excepción portuguesa". Resumo: Los países del sur de Europa cruzaron profundas crisis económicas en los últimos años. En todos ellos, el sistema político – partidista sufrió transformaciones: alta volatilidad electoral, debilitamiento de los partidos convencionales, emergencia de partidos “anti – establishment”, y aumento de la fragmentación del sistema de partidos. ¿En todos? No: Portugal parece haber pasado por alto esas transformaciones. El número efectivo de partidos parlamentarios en Portugal es inferior hoy de lo que era en el 2009. Más del 95% de los votos en 2015 fueron para partidos que ya existían en 2009 o, estrictamente hablando, en 1999. ¿Qué es lo que explica esta “excepción portuguesa”? Esperamos contar con trabajos que bien, sean desde una perspectiva de la demanda (actitudes y comportamientos políticos de los ciudadanos), sean desde el lado de la oferta (discursos y estrategias partidistas) ayuden a explicar este fenómeno, especialmente desde un punto de vista comparado. A convocatória para "ponencias"/papers decorre até 22 de Março. Interessados? Esperamos as vossas propostas.

by Pedro Magalhães

Elections and accountability: is retrospective voting blind or myopic?

Posted January 17th, 2017 at 8:54 am4 Comments

This is the title of a panel I will be proposing for the ECPR General Conference in Oslo, 6-9 September 2017. It's part of a Section entitled "Democracy for Realists" in a Comparative Perspective, chaired by Hanna Wass and Kees Aarts, which seeks to assess the generalizability of the main findings of Achen and Bartels's Democracy for Realists: Why Elections Do Not Produce Responsive Government. The abstract of the panel is below. Looking forward to presenting a paper that fits this research agenda? I'll be happy to consider it for the panel proposal (deadline: February 15th). Get in touch: pedro.magalhaes@ics.ul.pt.  

Abstract: Representative democracies involve delegation from citizens to political actors. In highly complex contexts, where a lot of knowledge is required to evaluate issues and correctly assign responsibility for outcomes, such delegation is potentially fraught with problems. It may become difficult to select qualified and properly motivated agents, or to avoid that those who are selected pursue their own agenda or private gain rather than the welfare of citizens. But in systems with free and fair elections, retrospective voting provides a solution to properly motivate agents, rewarding incumbents for favorable outcomes and punishing them for bad ones. All this requires is that voters behave in elections as competent evaluators of the past performance of incumbents.

But do they, and can they? An increasing amount of research has suggested that voters tend to give disproportionate importance to very recent, rather than cumulative, performance. Furthermore, their evaluations of incumbents seem to be powerfully affected by facts and events unrelated to the performance of incumbents and over which they exert no control. Finally, they seem to be vulnerable to manipulation and appeals to partisan or other group identities, deviating their attention from objective outcomes. This panel invites papers addressing these topics. How prevalent are these deviations from optimal retrospective voting? Were they more prevalent in the past than they are now? What contexts — social, economic, political, institutional — magnify these deviations? To what extent do they force us to rethink what a “well-functioning democracy” should — and can —look like?  

by Pedro Magalhães