Pedro Magalhães

Margens de Erro

Os pensionistas nos eleitorados

Posted May 8th, 2013 at 11:24 am4 Comments

A pedido de várias famílias (a pedido de uma, pronto), o peso dos pensionistas nos eleitorados dos 5 maiores partidos:

Talvez o mais fácil será dizer que há um partido que não é o partido dos pensionistas: o BE, naturalmente (se bem que, para 2009 e 2011, a estimativa pontual seja superior à de eleições anteriores). Talvez também valha a pena dizer que, em 2009 e 2011, o peso dos pensionistas no eleitorado da CDU foi claramente superior (mas o natural é que peso dos pensionistas venha aumentando no eleitorado de todos os partidos, seja por razões demográficas seja por diminuição da participação dos mais jovens). Os resultados para o CDS em 2011 tornam-se assim ainda mais intrigantes.

by Pedro Magalhães

O partido dos pensionistas

Posted May 8th, 2013 at 9:58 am4 Comments

Bruno Faria Lopes, jornalista do Diário Económico, telefonou-me com uma pergunta interessante: será o CDS o "partido dos pensionistas"? Mais concretamente: que dados haveria sobre o comportamento de voto dos pensionistas e sobre a composição do eleitorado do CDS que pudessem sustentar essa ideia? Desde 2002, o ICS conduz inquéritos pós-eleitorais nas legislativas, no âmbito do programa Comportamento Eleitoral dos Portugueses. Para este fim, três perguntas desses inquéritos são relevantes:

D6. Qual é a sua situação profissional actual? Uma das opções é "Reformado" e a outra é "Invalidez Permanente". Agregando-as, não devemos ficar muito longe de representar o universo dos "pensionistas".

P46. Em relação às Legislativas de 20XX, qual das seguintes situações é adequada ao seu caso?
P47. Importa-se de me dizer em que partido/coligação votou nessas eleições legislativas de 20XX?
Com estas duas perguntas, ficamos primeiro a saber se o inquirido votou e, para quem responde afirmativamente, em quem votou.

O gráfico seguinte mostra a percentagem dos que dizem ter votado no CDS-PP em 2002, 2005, 2009 e 2011 que afirmaram ser pensionistas. Por outras palavras, mostra o peso dos pensionistas na composição do eleitorado do partido. Para fins de comparação, junto os mesmos dados para o PSD. Em inquéritos que têm amostras que, no máximo (2005), chegaram a 2.300 inquiridos, as sub-amostras daqueles que dizem ter votado no CDS são naturalmente pequenas. Logo, a margem de erro associada a estas percentagens é especialmente grande para o CDS. No gráfico, os intervalos de confiança (Wald ajustados) encontram-se expressos em barras de erro:














A primeira coisa interessante é que parece não haver razão para designarmos o CDS como "o partido dos pensionistas". O CDS não está especialmente dependente dos pensionistas para compôr o seu eleitorado, pelo menos em comparação com o PSD. De 2002 a 2009, apesar de umas barras serem mais altas que as outras,  a sobreposição dos intervalos de confiança mostra que não há diferenças significativas entre os dois partidos deste ponto de vista.

A segunda coisa interessante passa-se em 2011. É a única eleição em que há diferenças significativas entre o peso dos pensionistas nos eleitorados dos dois partidos. Mas essa diferença vai no sentido porventura oposto às expectativas: os pensionistas são uma parte maior do eleitorado do PSD que do CDS.

Não tenho explicação para esta diferença em 2011, e não podemos excluir uma anomalia qualquer nos resultados. Mas a serem verdadeiros, sugerem uma coisa interessante: as posições recentes do CDS sobre temas que interessam aos pensionistas, a servirem para alguma coisa, não servem para manter esse apoio, mas sim para o recuperar.

É certo que o comportamento de voto é determinado por muitas coisas, algumas delas desligadas das circunstâncias concretas da vida das pessoas. Sabemos, por exemplo, que a percepção que as pessoas fazem da economia do país tem um peso muito maior no comportamento de voto que a percepção da sua situação financeira concreta, pelo que não convém exagerar o peso que estes apelos possam ter. De resto, o próprio facto de o CDS não ser nem nunca ter sido "o partido dos pensionistas" é suficientemente indicativo de que a imagem e o discurso dos partidos não tem necessariamente uma tradução directa na composição do seu eleitorado.

Dito isto, o facto do PSD ter acordado com o CDS que o segundo se poderia posicionar desta forma à sua custa parece, mesmo assim, algo arriscado do ponto de vista eleitoral. Apesar de haver dúvidas sobre o número de eleitores recenseados com real capacidade para votar, é provável que os 3 milhões de pensionistas correspondam a cerca de um terço da totalidade do eleitorado. E outra coisa que os dados dos inquéritos mostram é que a percentagem de abstenção entre os pensionistas é sempre inferior à média, fruto da bem conhecida correlação entre a idade e a participação eleitoral.

by Pedro Magalhães

Os exames do 4º ano

Posted May 4th, 2013 at 10:48 am4 Comments

Fiz a 15 de Abril passado uma queixa ao Provedor de Justiça sobre a realização de exames do 4º ano fora das escolas dos alunos. Já tive resposta do Provedor-Adjunto. Não a transcrevo aqui inteiramente, porque acho que não o devo fazer numa carta que me é dirigida. Mas queria notar algumas coisas:

1. A Norma 2/JNE/2013, cuja versão definitiva é de 24 de Abril, prevê o acompanhamento dos alunos por “professores e assistentes operacionais das escolas de origem”, quer nos procedimentos de entrada e orientação para as salas, quer durante o intervalo.

2. O Provedor-Adjunto adianta também que, apesar de não estar na Norma, foi-lhe comunicado que "as turmas de origem não serão, por regra, desfeitas para a realização das provas de exame, estando assim garantido que os alunos não se verão rodeados por caras desconhecidas, mas sim pelas dos respetivos colegas do ano que ora finda (e, presumivelmente, dos 4 anos de escolaridade já frequentados), bem como do seu professor, nos termos acima descritos." Importa confirmar se isso será mesmo assim, dado que as informações originais não apontavam para nada disto. Espero mesmo que se confirme.

3. Enviou também uma carta ao Júri Nacional de Exames com várias recomendações.

Continuo a não ser contra a existência de exames, continuo a achar que há um inimaginável excesso de zelo e regras irracionais na gestão deste processo (pelo menos no que toca às crianças do 4º ano) e pondero fazer nova queixa ao Provedor se o meu filho for obrigado a este completo absurdo. Mas registo algum esforço - a confirmar pela prática - do Júri Nacional de Exames para mitigar algumas das consequências mais negativas deste processo em comparação com o que estava previsto inicialmente. E é bom ver como o Provedor de Justiça, dentro das suas competências limitadas e circunscritas, é uma instituição que funciona bem e responde em tempo útil. Assim fossem todas.

by Pedro Magalhães

Pitagórica, 17-20 abril, N=503, Tel.

Posted April 26th, 2013 at 10:36 am4 Comments

PS: 28.6% (-8.1)
PSD: 26.9% (+1.2)
CDU: 12.8% (+1.6)
CDS-PP: 12% (+1.4)
BE: 8.7% (+0.8)

Entre parêntesis, comparação com sondagem de Março. Aqui.

P.S.- Há quem tenha reparado que a notícia contém a seguinte frase: "Com este resultado, o CDS é o segundo partido da oposição que mais reforça a sua posição eleitoral, a seguir à CDU."

by Pedro Magalhães

(Semi-)open primaries

Posted April 22nd, 2013 at 3:33 pm4 Comments

There's an "open letter" to the secretary-general of the Portuguese Socialist Party, signed by party members, proposing semi-open primaries for leader election, i.e., allowing voters in general to participate in the election of the party leader (provided they sign a declaration as party sympathizers, hence the "semi-"). The French example is explicitly evoked.

by Pedro Magalhães

Mais sobre os exames do 1º ciclo

Posted April 17th, 2013 at 10:09 am4 Comments

Este post de Paulo Guinote no A educação do meu umbigo e os comentários ao próprio post.

by Pedro Magalhães

Catch-22

Posted April 16th, 2013 at 9:35 am4 Comments

O famoso livro Catch-22, de Joseph Heller, passado na II Guerra Mundial na base aérea de Pianosa, Itália, tornou-se especialmente conhecido por descrever uma situação paradoxal. Há um aviador que quer ser isentado de fazer missões de combate. Para tal, tem de requerer um exame médico que o diagnostique como não estando na posse das suas capacidades mentais. Contudo, se o aviador requerer exame médico para esse fim, então é evidente que está na posse das suas capacidades mentais. Logo, tem de continuar a fazer missões de combate.

O post anterior, sobre os exames do 4º ano, teve uma evolução. Na escola do meu filho mais velho, como só tem o 1º ciclo, e como as provas têm de ser vigiadas por professores de outros ciclos, para poupar os miúdos a fazerem o exame numa escola que nunca viram e também evitar muitas manhãs de trabalho perdidas aos pais, estes e a escola decidiram juntar-se para pagar a dois professores de 2º e 3º ciclo, externos, para fazerem a vigilância em regime de prestação de serviço.

A escola fez esta proposta às autoridades competentes (por enquanto, ainda sem nomes). Eis a resposta do servidor público em causa:

"Em referência ao vosso pedido de esclarecimento informa-se V. Exas. que, tendo em consideração que os referidos professores a contratar (2º e 3 ciclos) não exercem a sua função educativa no vosso estabelecimento de ensino, não poderão assegurar a vigilância das provas."

Temos então que:

1. As provas têm de ser vigiadas por professores da escola que não sejam do mesmo ciclo.
2. Nas escolas que só tenham um ciclo, não há professores de outro ciclo.
3. Logo, para serem vigiados por professores de outro ciclo, teriam de vir professores de outras escolas.
4. Mas como os exames têm de ser vigiados por "professores da escola que não sejam do mesmo ciclo", professores de outras escolas não podem vigiar o exame (mesmo que pagos pelos pais e pela escola).

Joseph Heller voou 60 missões de combate num bombardeiro na frente italiana. Mas se tivesse lidado com o Ministério da Educação de Portugal teria podido escrever Catch-22 na mesma.

by Pedro Magalhães

Como tratar malfeitores de 10 anos

Posted April 14th, 2013 at 8:24 am4 Comments

Ao que parece, para os exames de Matemática e Língua Portuguesa do 1º ciclo (1ª fase a 7 e 10 de maio, 2ª fase a 9 e 12 de julho), as regras aprovadas pelo Ministério da Educação para o funcionamento das provas a prestar por estes terríveis malfeitores de 10 anos de idade incluem:

1. A presença obrigatória de dois professores, que;

2. Não podem ser do mesmo "grupo de docência" (ou seja, se bem entendo, não podem ser nem de português nem de matemática). Isto é bom, porque como sabemos professores de Estudo do Meio e de Educação Física não sabem o que é o pretérito perfeito nem que 2/4 é igual a 0,5 e assim não podem ajudar os miúdos no exame.

 3. Também não podem ser do mesmo ciclo, o que certamente aumenta a integridade do processo, porque como sabemos os professores de Geografia do 11º ano ou de História do 7º não fazem a mais pequena ideia sobre como se calculam áreas nem sobre quantos lados tem um triângulo, e assim não podem ajudar os miúdos a fazer batota neste momento absolutamente crucial de avaliação do seu percurso escolar.

A consequência deste rigoroso dispositivo de segurança é simples: em escolas onde só haja o 1º ciclo, os tais miúdos (já vos tinha dito que têm 10 anos?) têm de se deslocar a outra escola onde haja professores de outros grupos de docência e de outros ciclos para lhes vigiarem os exames, onde serão sentados por ordem, presumo, alfabética, em salas onde nunca estiveram e sob a feroz vigilância de professores que nunca viram mais gordos, uma coisa mais ou menos parecida com a minha inspecção militar no Quartel de Santa Clara em Coimbra, com a diferença de que aí os tropas nos berraram as respostas aos testes psicotécnicos para haver a certeza absoluta de que ninguém ficava inapto.

Mesmo assumindo que este dispositivo de segurança faria alguma espécie de sentido para miúdos desta idade - uma assunção heróica - sempre haveria a hipótese de fazer com que os professores externos se deslocassem às escolas em vez de serem os miúdos a fazê-lo. Mas reconheçamos que isso privaria o país de milhares de pais a perderem manhãs de trabalho nos dias desses exames, evitaria que houvesse desigualdades entre crianças que frequentam escolas só com 1º ciclo e as outras (que podem fazer o exame na própria escola), e daria até a imagem de que no Ministério da Educação alguém teria pensado sobre as consequências destas regras, e é evidente que não queremos nada disto.

by Pedro Magalhães

Eurosondagem, 5-10 Abril, N=1025, Tel.

Posted April 12th, 2013 at 12:38 pm4 Comments

PS: 35% (-0.2)
PSD: 26.5% (-0.5)
CDU: 12.5% (+0.4)
CDS-PP: 8.5% (-0.5)
BE: 8.5% (+0.5)

Aqui.


by Pedro Magalhães

Confiança pública no Tribunal Constitucional

Posted April 10th, 2013 at 4:37 pm4 Comments

No actual contexto, apeteceu-me procurar dados sobre atitudes dos cidadãos em relação ao Tribunal Constitucional. Que eu saiba, há pouca coisa. O primeiros dados são antigos, mais concretamente dos anos 90, mas têm a vantagem de ser comparativos. Mostram que o nível de "lealdade institucional" da população em relação ao Tribunal Constitucional era dos mais altos entre os 19 países comparados, logo abaixo dos Estados Unidos.























Na edição de Maio de 2000 do Barómetro de Opinião Pública do CESOP (Católica), perguntava-se o grau de confiança numa série de instituições. Eis a percentagem de inquiridos que dizia ter "pouca" ou "nenhuma" confiança em cada instituição:















Mais recentemente, num inquérito para um estudo sobre a "qualidade da democracia" tal como apercebida pelos cidadãos feito em 2009 sob o patrocínio da SEDES, uma das baterias de perguntas era sobre a capacidade de diferentes instituições para travarem eventuais abusos de poder por parte dos governos:















Em geral, portanto, a imagem que fica é a de uma instituição que tem uma imagem tendencialmente favorável junto dos cidadãos, seja em comparação com instituições estrangeiras congéneres seja em comparação com instituições políticas e judiciais nacionais. Isto, claro, pode ter mudado entretanto...

by Pedro Magalhães