Pedro Magalhães

Margens de Erro

Simplismos e simplismos

Posted November 13th, 2006 at 10:19 am4 Comments

No passado dia 9, João Miranda, no Blasfémias, escreveu um post onde apontava o "simplismo" daqueles que, analisando os resultados das últimas eleições americanas, dão como explicação desses resultados a avaliação que os americanos hoje fazem da invasão do Iraque. Critiquei alguns aspectos desse post aqui.

Agora, JM responde, dizendo que a única coisa que quis fazer foi chamar a atenção para o simplismo desse tipo de análise, e que só procurou "provar" que ela não teve em consideração alguns factos óbvios. E acrescenta que

"não pretende provar nenhuma tese sobre os resultados das eleições americanas, pretende apenas provar que as análises que estão a ser feitas não provam que o Iraque foi o principal factor que levou os eleitores a votar nos democratas."

Eu acho que isto estaria correctíssimo se tivesse sido realmente aquilo que JM fez no post mencionado. Mas não foi. Na verdade, aquilo que JM fez foi não apenas apontar o simplismo das análises que apontam o Iraque como causa da derrota do Partido Republicano, mas também defender a teoria de que o Iraque não foi a principal causa da derrota do Partido Republicano. Dizer que uma hipótese pode não ser confirmada pelos factos e dizer que uma hipótese é infirmada pelos factos são duas coisas muito diferentes.

Os dados avançados por JM que, cito o post, "contrariam a tese de acordo com a qual o Iraque foi o principal factor que levou os eleitores a votar nos democratas" são os seguintes:

1. Os partidos dos presidentes americanos são sempre penalizados nas eleições realizadas no sexto ano do seu mandato, mas isso deve-se, em parte, "ao cansaço do eleitorado em relação a quem está no poder";

2. Nas sondagens à boca das urnas, os próprios eleitores explicaram as suas razões, "e o que os próprios eleitores disseram foi que as suas principais preocupações são a corrupção, o terrorismo, a economia e Iraque. Exactamente por esta ordem."

3. Candidatos republicanos que se opuseram à invasão do Iraque foram derrotados nas urnas. "Se o Iraque foi um factor, porque é que os eleitores decidiram penalizar precisamente aqueles republicanos que votaram contra a invasão?"

Sucede que estes argumentos não servem para "contrariar a tese de acordo com a qual o Iraque foi o principal factor que levou os eleitores a votar nos democratas":

1. O argumento 1 aponta uma regularidade empírica - as eleições realizadas a meio de um segundo mandato são sempre mais penalizadoras para o partido do presidente do que as eleições realizadas a meio de um primeiro mandato - mas essa regularidade em nada impede que, nestas eleições, as atitudes sobre o Iraque tenham sido as que mais influenciaram a decisão do voto directa ou indirectamente (contribuindo para a formação da opinião sobre a actuação do Presidente e do seu partido, que se saber ter sempre enorme peso na decisão de voto e nos resultados deste tipo de eleição).

2. O argumento 2. não serve por razões já explicadas aqui e aqui.

2. O argumento 3. confunde um resultado agregado (vitória ou derrota) com decisões individuais dos eleitores, e em nada refuta a hipótese de que, entre os muitos factores que podem influenciar esses decisões, a opinião sobre o Iraque possa ter sido a que (directa ou indirectamente) tenha tido mais peso.

Gosto de muitos posts de JM no Blasfémias. Têm quase sempre a característica de desafiarem o "senso-comum", apresentando ângulos novos para olharmos para uma questão ou desmontando falsos pressupostos na base dos quais algumas conclusões "óbvias" são tiradas nos meios de comunicação social. Contudo, por vezes - como agora, ou quando escreve sobre o "aquecimento global" - desafiar o senso comum confunde-se com desafiar o bom senso. Neste caso, os argumentos que avança para infirmar a hipótese de que o Iraque terá sido o principal factor nestes eleições são tão débeis como os argumentos que têm sido avançados para confirmar a mesma hipótese, apesar de aparecerem revestidos de uma aparentemente maior "objectividade" e "atenção aos factos". É só este último aspecto que, aliás, fez com que essa sua análise tenha merecido o meu comentário: mais perigoso que o senso comum só o senso comum que ostenta uma pretensa objectividade.

É também isto que, diga-se, abre o flanco a uma crítica adicional que outros - que não eu - lhe possam querer fazer, a mesma que, sem qualquer fundamentação a não ser a do palpite, JM faz àqueles que defendem que o Iraque foi o principal factor nestas eleições: a de ter formado "opinião muito antes de saírem os primeiros resultados com base em preconceitos e não com base em factos."

by Pedro Magalhães

Peço desculpa…

Posted November 10th, 2006 at 3:41 am4 Comments

...e não é para ser chato ou para me armar em esperto, mas esta discussão, no que diz respeito às causas dos resultados das eleições americanas, é um bocado absurda. Dizer que factores específicos explicam ou deixam de explicar as decisões dos eleitores em eleições como as de anteontem - para além do sobejamente demostrado efeito da avaliação da actuação do Presidente, o que aliás revela que há muito de "não local" nestes resultados - olhando para resultados agregados de sondagens à boca da urnas é a mesma coisa que escrever uma tese sobre física sub-atómica olhando muito perto e durante muito tempo para um bloco de cimento. Uma perda de tempo.

Primeiro, porque as sondagens à boca das urnas olham apenas para votantes e não para eleitores, impedindo a explicação de um elemento central nos resultados eleitorais e na punição aos governos: quem decide não votar. Segundo, porque a análise dos factores explicativos do comportamento eleitoral tem de ser multivariada e utilizando controlo estatístico - noções com que julgo o João Miranda deverá estar mais do que vagamente familiarizado - e não se faz comparando resultados agregados de uma suposta causa com resultados agregados de uma suposta consequência. Terceiro, ao contrário do que sugere o João Miranda, explicar os comportamentos dos eleitores na base daquilo que eles dizem sobre as motivações do seu comportamento é o pior caminho possível: fica-se apenas com racionalizações. Finalmente, é preciso olhar ou para dados individuais ou, pelo menos, para bons e completos dados ecológicos. E se não se queria responder a simplismos com outros simplismos, o melhor era nem ter começado. Desculpem, mas é assim. O resto é conversa e retórica política. Tenham lá calma que não há de tardar muito até que as análises sérias comecem a aparecer.

P.S.- E explicar o habitual castigo ao "incumbent" na base de "cansaço" é pura preguiça. As explicações sérias são fáceis de encontrar. Basta ler blogues.

by Pedro Magalhães

Depois (e antes) da tempestade, a bonança

Posted November 8th, 2006 at 10:48 pm4 Comments

Outra impressão que fica depois de ser ver, ouvir e ler o comentário político nos Estados Unidos no dia de hoje é a de que as eleições trouxeram uma enorme mudança qualitativa na forma como o tema do Iraque é tratado.

Já escrevi aqui hoje como me surpreendeu que vários comentadores e políticos tenham vindo assumir uma "derrota" no Iraque. Mas não é só isso: hoje, vendo a Fox - queria tomar o pulso à maneira como os Republicanos se sentem - a demissão de Rumsfeld foi, para todos os efeitos, celebrada. Cheney foi descrito como o "remaining hardliner", depois da substituição de Rummy por Robert Gates. Gates foi descrito como alinhado com Brent Scowcroft e um conservador "à moda antiga", pragmático e realista, "what we need right now". Dizia-se um pouco mais à frente como foram os "hardliners como Rumsfeld" que "nos colocaram nesta situação". E toda a gente, de repente, Republicanos incluídos, concorda com a necessidade de uma "mudança de direcção". Na semana passada a conversa era outra: "stay the course". Logo, independentemente daquilo que se venha a saber sobre o impacto da opinião dos eleitores sobre o Iraque nos resultados, é inequívoco que eles foram interpretados pela administração como sendo um julgamento (negativo) sobre a sua actuação no tema.

Mas a bonança pode durar pouco tempo. Este novo consenso impressiona também por ser absolutamente vazio de conteúdo. Mudar de direcção, mas como, e para onde? Ninguém sabe muito bem, e quem sabe não diz. Para os Republicanos, o melhor é transformar Rummy no bode expoiatório e co-responsabilizar agora os Democratas pela procura de uma solução, a ver se os custos desta coisa se diluem até 2008. E para os Democratas, o melhor prestar o necessário "lip service" à ideia que estão dispostos a "colaborar" com o Presidente, ao mesmo tempo que lhe deixam a tarefa de encontrar uma solução para o que não tem remédio evidente e vão propondo uma série de coisas (aumento do salário mínimo, reforma do sistema de saúde) que o Presidente não poderá senão vetar. A bonança não pode durar.

Até porque Robert Gates parece partilhar algumas das características políticas, pessoais e ideológicas do seu encantador antecessor:

He served Bush's father as deputy national security adviser and later as CIA director. He was a rare hardliner in the Bush 41 White House, famously suspicious of Mikhail Gorbachev and closer ideologically to then-Defense boss Dick Cheney than to Colin Powell and James Baker.

He was marked for higher office by Reagan CIA Director William Casey but was slowed in his rise by minor involvement in the Iran-Contra scandal in the late 1980s, when Gates was Casey's Deputy director at the agency.

During Gates' second CIA confirmation hearings he was charged with cooking intelligence by CIA insiders and making it more favorable to White House policy makers; Gates rebutted the charges sufficiently to get confirmed. Many Democrats voted against him nonetheless.

Gates is an affable, soft-spoken man who can tell a good story and has a generous sense of humor.

Um gajo porreiro.

by Pedro Magalhães

Eleições americanas 4 (aditado)

Posted November 8th, 2006 at 7:44 pm4 Comments

Estou em Notre Dame, Indiana, por razões que nada têm que ver com as eleições americanas. Mas sempre se pode aproveitar para ir tomando o pulso ao que se passa aqui de uma maneira diferente daquilo que se pode fazer à distância.

Primeiro, circulam nos media e entre as pessoas com quem falei muitas teorias explicativas dos resultados, mas a ideia de que a eleição foi um referendo à governação de Bush predomina e é relativamente pacífica. De resto, é tudo menos nova. Sabe-se há muito tempo que, se é verdade que o partido que governa tende sempre a ser punido nas eleições midterm, a dimensão dessa punição é explicada, em grande medida, pela avaliação que os eleitores fazem da actuação do Presidente. E essa é a segunda mais negativa no pós-guerra em eleições a meio do mandato. Que a punição não tenha sido maior talvez se explique pelo facto de que a maioria dos lugares do Senado em disputa desta vez eram lugares seguros para os Democratas.

Mais difícil é dizer que tema concreto mais terá pesado nessa avaliação negativa e, por sua vez, na punição do partido Republicano. O Iraque é um bom candidato, tendo em conta que é o problema que a maioria dos eleitores mais destacaram como sendo importante, seguido do terrorismo e, só depois, a economia.* Mas a corrupção é outro tema importante. Saber se a forma como os eleitores se comportaram coincide com aquilo que disserem ser importante é matéria para análise futura.

Segundo, só uma grande distância dos Estados Unidos e algum desconhecimento sobre o funcionamento do seu sistema político permite dizer que estes resultados não têm grande importância para o futuro. Um Congresso Democrata é um Congresso cujas poderosíssimas comissões e subcomissões vão ser lideradas por Democratas, onde o Presidente vai ter muito mais dificuldades em fazer passar leis, onde o preenchimento dos lugares judiciais e de nomeação política conjunta vai ser feito por figuras mais moderadas (devido à necessidade de compromisso), onde a distribuição de benefícios particularistas a grupos de interesse vai mudar de destinatários (ou, provavelmente, devido à divisão de poderes, ser mitigada) e onde a actuação da administração vai ser muito mais vigiada. A cara de enterro dos pivots da Fox News não consente duas interpretações: a mudança de controlo partidário do Congresso é importantíssima. Ontem, James Carville lembrava a manhã seguinte, em 1994, na Casa Branca, quando a administração Clinton se deu conta que teria de lidar com uma maioria Republicana no Congresso: "um pesadelo. O nosso mundo tinha mudado".

Três observações mais impressionistas:

1. Pela primeira vez, vejo muitos comentadores e políticos articularem a frase "a guerra do Iraque está perdida", assim, sem tirar nem pôr. Ontem, William Kristol, um dos maiores defensores e ideológos da invasão, disse isto na Fox, assim mesmo. Ele, claro, põe as culpas em Rumsfeld. Zangam-se as comadres...

2. O tema da investigação em células estaminais parece ter tido grande importância. Ou pelo menos, assim o pensam os candidatos democratas: não ouvi um único discurso de vitória onde este tema não tenha sido mencionado até à exaustão. A razão está muito bem explicada aqui.

3. A outra impressão com que fico é que algo estranho parece ter acontecido ao Partido Democrata. Todos os candidatos que ouvi, nos seus discursos de vitória, martelaram exactamente os mesmos assuntos: Iraque e células estaminais, já mencionados, assim como ordenado mínimo e saúde. E vejo figuras como McAuliffe, Obama e Pelosi dizer que têm de "trabalhar com o Presidente". Até parece, por momentos, que o Partido Democrata se transformou num partido a sério: disciplinado, com um discurso coerente,e pragmático. Será? Os próximos dois anos vão dizer.

* Nas sondagens à boca das urnas, o tema mais mencionado não foi o Iraque, mas sim a corrupção. Mas estas sondagens, claro, têm como universo apenas os votantes, e não os eleitores, impedindo assim a análise das motivações de um acto altamente susceptível de ser usado para punição dos governantes e de produzir enormes efeitos a nível agregado: a abstenção.

by Pedro Magalhães

Eleições americanas 3

Posted November 8th, 2006 at 7:39 pm4 Comments

Confirma-se eleição de senador Democrata no Montana. Só falta confirmar Virginia.

Donald Rumsfeld sai. Lá se vai a teoria de que as eleições não têm impacto na administração.

by Pedro Magalhães

Eleições americanas 2

Posted November 8th, 2006 at 4:47 pm4 Comments

A Câmara dos Representantes, como previsto, passou para os Democratas. No Senado, tudo depende dos resultados em dois estados já mencionados aqui: Montana (1.700 votos de vantagem para o candidato democrata) e Virginia (8.ooo votos de vantagem para o candidato democrata).

by Pedro Magalhães

Eleições americanas

Posted November 6th, 2006 at 10:58 am4 Comments

O melhor sítio para ficar com uma ideia do que pode suceder amanhã é o indispensável pollster.com, dos nossos conhecidos Mark Blumenthal e Charles Franklin. Na base de centenas de sondagens divulgadas, tudo aponta para que os Democratas ganhem uma maioria da Câmara dos Representantes, mas no Senado as dúvidas são maiores. Tudo depende do que acontecer em quatro estados: Montana, Missouri, Viriginia e Maryland. Em todos eles, há um Democrata à frente nas sondagens, mas em todos eles a margem é muito curta. E vai ser preciso que os Democratas ganhem todos os quatro estados para de facto "controlarem" o Senado: se houver um empate 50/50, quem fica com poder de desempate é esta gentil criatura.

Se acontecer o que realmente se espera - Democratas com a Câmara, Republicanos com o Senado - isso significaria que os modelos de previsão dos resultados estão correctos. Podem encontrar três aqui, cada um dando importância a variáveis diferentes, mas todos eles convergindo na mesma previsão genérica.

by Pedro Magalhães

Correlação não é causalidade

Posted October 31st, 2006 at 1:00 pm4 Comments

Em resposta a este post. Para comentário mais desenvolvido, ver, por exemplo, isto.

by Pedro Magalhães

Referendo despenalização aborto. Sondagem Marktest.

Posted October 31st, 2006 at 11:14 am4 Comments

Mais uma sondagem divulgada hoje, mas realizada antes da sondagem Intercampus/TVI.

by Pedro Magalhães

Brasil. Tudo normal

Posted October 30th, 2006 at 11:41 am4 Comments

by Pedro Magalhães