Pedro Magalhães

Margens de Erro

Queda de Sócrates 2

Posted October 27th, 2006 at 12:17 pm4 Comments

Como interpretar?

1. Em primeiro lugar, uma sondagem é uma sondagem. Há mil e uma razões para que esta sondagem em concreto possa não estar a captar mudanças reais.

2. Mesmo que estejamos perante uma mudança real (e saberemos melhor se assim é com futuros resultados), a verdade é que o que era anormal era a elevada popularidade de Sócrates desde as autárquicas. Os ciclos políticos não costumam ser assim.*

3. Dito isto, a confirmar-se, uma descida é uma descida, e parece grande. A que se deverá? Não há nenhuma mudança fundamental no "pano de fundo" de "médio-prazo" que costuma afectar estas coisas, ou seja, a situação económica. De resto, mesmo que houvesse, ela costuma ter um efeito diferido nas atitudes dos eleitores, que demoram algum tempo a interiorizar essas mudanças. E mesmo que tivesse efeito imediato, teria sido para cima, e não para baixo.

4. Pelo que a coisa deve estar ligada a factores de muito curto prazo. Não se pode ter a certeza, claro, mas parece-me que o "fim da crise" decretado pelo Ministro da Economia (e logo retirado) e a questão da electricidade não podem ser irrelevantes. Primeiro, tiveram muito maior amplificação mediática do que anteriores episódios que alguns anunciaram ditar o "fim do estado de graça" (o que nunca aconteceu, até agora). Segundo, porque aquilo que os torna importantes é o facto de eles entrarem em contradição directa com o princípio genérico que visa legitimar a actuação do governo desde o início: a "resolução" da crise pelo ataque aos "privilégios" e aos "privilegiados" e a noção de que os sacrifícios serão distribuídos de forma equitativa ou mesmo progressiva. Sem crise, então para que servem os sacrifícios? E são os consumidores (os eleitores em geral) que têm a culpa dos aumentos da electricidade? Não tenho informação nem competência para avaliar a actuação do Ministério da Economia e da Inovação em todas as suas dimensões. Mas do ponto de vista político e comunicacional, é um tumor maligno.

5. Gostava muito de saber em que estratos sociais é que a descida de Sócrates na sondagem da Markest foi mais acentuada. Era capaz de apostar que foi nos mais baixos.

6. Também me cheira (só isso) que os meios de comunicação social começam a ficar menos dóceis com o governo. Não faço ideia se os noticiários da RTP são "governamentalizados" - há anos não vejo televisão a essas horas - e não me parece sensato, com todo o respeito (a sério), usar o Abrupto como fonte de análise imparcial sobre o tema. Mas o que a multiplicação de críticas à RTP quer provavelmente dizer é que, pelo menos, o contraste entre a cobertura da RTP e dos restantes meios de comunicação começa a tornar-se evidente.

7. E atenção, que vem aí a saúde, tema "popular" por excelência. Se a coisa correr como no caso da electricidade - em que a explicação cabal do "porquê" dos aumentos chegou depois do anúncio dos próprios - é melhor Sócrates apertar o cinto de segurança. Correia de Campos é já, na sondagem da Marktest, o ministro cuja popularidade mais desceu em Outubro.


*A propósito disto, uma nota. Numa conferência recente em que apresentei um estudo sobre o comportamento eleitoral nas presidenciais, um dos membros do público chamou a atenção para um factor muito importante: as eleições locais. O PS foi severamente castigado nas autárquicas, o que pode ter "descomprimido o ambiente" para o período seguinte, levando à recuperação da popularidade de Sócrates (que temos mostrado neste blogue e é visível no post anterior) e, de resto, ao facto de, quando analisamos dados individuais sobre decisão de voto nas presidenciais, a avaliação do governo não ter tido qualquer impacto. A hipótese é muito interessante.

by Pedro Magalhães

Queda de Sócrates

Posted October 27th, 2006 at 10:23 am4 Comments

Tal como medida na última sondagem Marktest/DN/TSF (.pdf). Haveria várias maneiras de a mostrar, mas opto aqui por mostrar a evolução do saldo entre opiniões positivas e negativas. Marques Mendes também paga a factura do que parece ser um aumento geral da insatisfação política, mas menos.

by Pedro Magalhães

Professor Karamba

Posted October 27th, 2006 at 9:47 am4 Comments

Tem alguma graça quando começa a ser possível prever certas coisas. Mais análise dos resultados ainda hoje.

by Pedro Magalhães

Mais uma sondagem sobre o referendo

Posted October 27th, 2006 at 9:36 am4 Comments

Uma sondagem feita pela Intercampus e divulgada ontem pela TVI, a juntar às três mais recentes:


Muito intrigante. É preciso deixar assentar a poeira.

by Pedro Magalhães

Só dá Lula

Posted October 27th, 2006 at 9:12 am4 Comments

by Pedro Magalhães

E para não pensarem que não aceito críticas

Posted October 25th, 2006 at 10:44 am4 Comments

Acho que a Lâmpada Mágica tem razão em relação a uma das perguntas sobre a eutanásia.

by Pedro Magalhães

Já podia ter dito

Posted October 24th, 2006 at 3:41 pm4 Comments

O Renas e Veados faz alguns comentários adicionais:

No entanto continua sem responder àquela que me parece ser a principal, porquê é que a questão do casamento foi a única nesta sondagem a merecer mais hipóteses de resposta que o "sim ou não" de todas as outras?

É simples: se a questão fosse colocada apenas em termos de uma dicotomia "a favor" ou "contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo", todas as pessoas que consideram que pessoas do mesmo sexo devem poder formar uniões com os mesmos ou alguns direitos de um casamento, mas discordam que o instituto legal se chame "casamento", não saberiam como responder. Provavelmente uns responderiam "contra", outros responderiam "a favor" e muitos refugiar-se-iam na não-resposta.

Se estivessemos perante um referendo em que as coisas fossem colocadas nesses termos, ou uma medida política sobre a qual se quisesse conhecer aprovação ou reprovação (como aqui), então era precisamente isso que se quereria saber. Mas como não é o caso, dar várias hipóteses plausíveis de resposta permitiu obter mais nuances de opinião, em vez de se sobrestimar o grau de polarização social sobre o tema. Foi só isto. E é isto, aliás, que se faz na maior parte das sondagens sobre este tema concreto quando não está em causa um referendo ou uma medida política concreta (ver aqui muitos exemplos): fornecer mais hipóteses do que mera dicotomia a favor/contra o casamento, para poder captar variância nos resultados. Procurei apenas seguir o que me pareceu boa prática.

E veja como poder fazer uma enorme diferença fornecer várias alternativas, seja em diferentes perguntas ou como diferentes opções de resposta a uma mesma pergunta: a maioria dos americanos é contra o casamento de pessoas do mesmo sexo; a maioria dos americanos é favor de uniões que dêem muitos dos mesmos direitos. Voilá. Se a coisa ficasse só em "Sim"/Não" ao casamento, ficaríamos a saber menos do que aquilo que sabemos agora.

Quanto aos temas onde a Universidade Católica é suposta fazer ou não estudos, e distorções e assuntos semelhantes, já debati isso aqui e já me chega.

by Pedro Magalhães

O país e o que ele é

Posted October 24th, 2006 at 2:32 pm4 Comments

Só uma última nota, para já, sobre este assunto, em diálogo com o Portugal dos Pequeninos e outros sobre o tema das atitudes dos portugueses em relação a temas como os direitos dos homossexuais. Queria dizer, um pouco em conjunção com o que já disse aqui em relação à despenalização do aborto, que me parece que "aquilo que o país é" consiste não apenas nos valores, crenças e atitudes das "massas", mas também a nível da actuação (e condições dessa actuação) das elites políticas.

Há muita gente que se pergunta por que razão em Portugal as respostas a estes inquéritos são as que são e as que se encontram em Espanha são muito diferentes. Um mero exemplo: em Março, 61% dos espanhóis declararam-se a favor da proposta do PSOE de legalização de casamentos entre pessoas do mesmo sexo. Em Portugal, como vimos, o apoio resume-se a 29%, se adicionarmos aqueles que não se importam que seja "casamento" àqueles que se incomodam apenas com a designação da coisa.

A explicação a que se recorre mais frequentemente é "sociológica": a sociedade espanhola e os espanhóis são mais "progressistas", "modernos", "secularizados", etc. Talvez, talvez. Mas importa não esquecer uma coisa importante: em Espanha, há uma clivagem religiosa que se encontra claramente politizada e é politizável. O PSOE tem um eleitorado secularizado, em contraposição ao eleitorado do PP. Um partido nestas condições não tem de ter medo de "activar" esta clivagem quando acha que não divide o seu eleitorado natural e pode até, entre os "não alinhados", captar apoio adicional e apresentar o PP como um partido do "passado".

Em Portugal, como saberão, a coisa é muito diferente. O PS nasceu alinhado com o PSD e o CDS na luta contra o PCP pela "democracia liberal", e isso marcou a sua ancoragem social: deste ponto de vista, o PS é em vários aspectos mais parecido com o PSD do que com o PCP. Ora isto levanta, para qualquer líder do PS, um problema muito sério: até que ponto avançar com uma agenda dita "progressista" ou "libertária" sem correr o risco de alienar uma parte importante do seu eleitorado? É por estas e por outras que, como já escreveu Wolfgang Merkel, o PS português é "o mais conservador partido social-democrata da Europa". E é por isso também que uma agenda política baseada neste tipo de temas tem dificuldades acrescidas em Portugal, porque não tem vozes político-partidárias que lhes dêem apoio inequívoco.

Aliás, até o BE tem tentado mitigar a sua associação com temas como os direitos dos homossexuais, a legalização das drogas e outros. Têm de lhes dar alguma atenção, para ir buscar um eleitorado mais jovem que acha que o PS é "mais do mesmo". Mas estes temas não podem presidir à agenda do partido: como atraír o eleitorado comunista - também ele moralmente conservador em muitos domínios - se se fica preso a estes temas?

O que acabo de escrever é um bocado simplista, admito, e gostava de um dia de tratar isto com mais calma e seriedade. Mas para concluir como comecei, só queria dizer que o país também é isto, ou seja, o nosso sistema de partidos, a maneira como ele se encaixa (ou não) em clivagens sociais, a maneira como isso condiciona a capacidade dos partidos articularem determinadas propostas e a maneira como, por sua vez, isso impede que se verifiquem mudanças nas opiniões e atitudes dos eleitores.

by Pedro Magalhães

Brasil, 2º turno

Posted October 24th, 2006 at 2:15 pm4 Comments

É já no dia 29. A indicação de "descolagem" de Lula, que vinha da última sondagem Datafolha, vê-se confirmada por dois outros estudos:

by Pedro Magalhães

A sondagem da Católica

Posted October 23rd, 2006 at 11:15 am4 Comments

Tenho lido na blogosfera alguns comentários aos resultados da sondagem da Católica. Antes de mais, acedo à sugestão do João Gonçalves, mas por intermédio de outrem: se quiserem ver a melhor apresentação dos resultados desta sondagem, farão melhor em ir aqui, onde o Jorge Camões arranjou uma maneira de os transformar em "beautiful evidence". Os dados estão apresentados de forma a facilitar muitíssimo a sua compreensão. Este link vai já para os meus favoritos.

A apresentação mais imaginativa dos dados permite inclusivamente de deles possam emergir mais facilmente explicações para os padrões encontrados. Para o Jorge Camões, eles mostram:

"Que temas associados a minorias visíveis são aqueles que têm maior percentagem de rejeição. Que a eutanásia a pedido da família e a pena de morte estão estranhamente próximas. Que há um grupo de temas (quotas na política, células estaminais, sacerdócio, prostituição), todos curiosamente mais próximas do universo feminino, com níveis elevados de desconhecimento ou indiferença que se traduzem na incapacidade de opinar. Que a educação sexual nas escolas é o único tema consensual."

O que, aliás, não será muito diferente disto, se bem entendo:

"Tudo visto e ponderado, constituímos uma sociedade "aética" em que a "norma" vale muito dentro de casa e para os outros, e começa a valer menos assim que se desce as escadas ou se apanha o elevador para a rua."

Li também, no blogue de Miguel Vale de Almeida, meu antigo professor no ISCTE - de resto, um dos melhores - alguns comentários à sondagem. MVA critica o facto de nela se incluirem, ao mesmo tempo, perguntas sobre os direitos dos homossexuais e sobre outros temas:

"Colocar a igualdade de direitos no mesmo plano que o consumo das drogas ou o sacerdócio feminino numa confissão religiosa é mais do que enviesamento: é partilhar da premissa (e oferecê-la aos inquiridos) de que há um problema moral (para não dizer pior) com a homossexualidade. E se a pergunta tivesse sido a única da sondagem? Ou junto com outras perguntas relacionadas com a igualdade perante a lei?"

Eu percebo o argumento. Não excluo que a convivência destas várias perguntas num mesmo inquérito influencie as respostas e também preferia fazer uma sondagem para cada tema.

Mas dito isto, acho que Miguel Vale de Almeida está a ser "disingenous". Primeiro, ele sabe perfeitamente que há um traço comum a todas estas perguntas: o modo, limites e natureza da regulação dos comportamentos individuais por parte do Estado. Têm a ver com políticas de regulação, e não políticas extractivas e redistributivas, onde o que está em jogo são interesses específicos e recursos materiais. E no caso do sacerdócio feminino, tem a ver com a regulação dos comportamentos imposta pelo agente social que, antes do Estado ter assumido o monopólio legal, exercia essa função: a Igreja. É isso que une todas estas perguntas, e não outra coisa qualquer.

Para além disso, se se levasse a de MVA avante, então tínhamos de deitar fora o General Social Survey, o British Social Attitudes Survey, o European Values Study ou o World Values Survey, todos eles estudos onde, num mesmo questionário, são colocadas estas e outros perguntas sobre estes e outros temas. Foi destes questionários, aliás, que muitas das perguntas colocadas na sondagem da Católica foram textualmente retiradas. E já agora: donde vem a insólita ideia de MVA - insólita especialmente para um cientista social e, muito especialmente, um antropólogo - de que a questão da igualdade de direitos cívicos e políticos não tem a ver com valores?

Depois há a sugestão - "São Dagem" - retomada aqui, de que os resultados foram o que foram porque a sondagem foi feita pela Universidade Católica. Será isso? Mas então por que razão a sondagem haveria de dar resultados claramente desfavoráveis, nuns casos, em relação às posições defendidas na doutrina oficial da igreja, e favoráveis noutros? Embirração especial com os homossexuais?

A verdade é outra. Releio agora os resultados de um inquérito realizado em 1998 em parceria pelo ICS e pelo ISCTE, a instituição onde MVA trabalha, no âmbito do International Social Survey Programme. Questionados sobre as relações sexuais entre adultos do mesmo sexo (e, note-se, nem sequer se está a falar em "direitos"), 73% dizem que a sua mera existência "é sempre errada". MVA pode não gostar de viver num país onde as pessoas respondem desta maneira a estas perguntas. Agora, se o quiser mudar, fazer de conta que o país não é o que é, ou que tudo não passa de uma mera construção da Universidade Católica, não me parece bom ponto de partida.

by Pedro Magalhães