Pedro Magalhães

Margens de Erro

As razões da crise em França, segundo os franceses

Posted November 10th, 2005 at 12:29 pm4 Comments

Ds CSA/TMO (que tem sido responsável por quase todas as sondagens mais interessantes sobre o tema) vem um novo estudo: Les raisons de la crise actuelle des banlieues . Principais resultados:

Quelles sont selon-vous les raisons principales de ce qui se passe actuellement en banlieue? (pergunta de resposta múltipla, soma das percentagens superior a 100%):

Le contrôle insuffisant des parents sur leurs enfants: 69%
Le chômage et la précarité, l'absence de perspective d'avenir: 55%
Les propos tenus par Nicolas Sarkozy (Kärcher, racaille…): 29%
La télévision qui incite les jeunes à aller de plus en plus loin: 24%
L'absence de la police dans certains quartiers: 21%
Les divers trafics des bandes: 21%
L'insuffisance des moyens pour la prévention de la délinquance: 19%
La montée du repli communautaire et de l'intégrisme religieux: 15%
Les discriminations à l'égard des jeunes: 10%
L'attitude trop brutale de la police avec les jeunes: 8%
Aucune de ces raisons: 1%


Temos assim que, para a grande maioria da população, as responsabilidades pela crise são atribuídas, por um lado, à educação e ao contexto familiar e, por outro, à situação social e económica. Uma análise mais detalhada mostra que não há grandes clivagens sociais ou políticas a este nível: dentro de todos os sub-grupos amostrais sobre os quais existe informação (definidos na base do sexo, idade, identificação partidária, instrução, profissão e situação profissional, etc.) estas duas razões são sempre as mais apontadas.

Quanto às restantes razões, aí sim há divisões. Os mais jovens e os que se situam à esquerda tendem a atribuir mais culpas a Sarkozy, enquanto os que se situam à direita ligam mais claramente a crise a problemas ligados à criminalidade e a lei a ordem. Tudo normal e previsível.

by Pedro Magalhães

Mais sondagens francesas

Posted November 9th, 2005 at 10:24 am4 Comments

CSA/TMO, 8 de Novembro, N=805, Quotas, Telefónica, Resultados completos aqui (.pdf).

Apenas 1% dos franceses mostra "simpatia" com o que se tem passado, enquanto apenas 12% declaram "compreensão". Curiosamente, o valor dos que dizem ser "compreensivos" sobe para 26% no escalão de instrução mais elevado, mas isso pode ser efeito da formulação das opções de resposta (lá como cá, "compréhensif" não significa necessariamente empatia, podendo significar apenas que se julga conhecer entender as razões do fenómeno).

Questionados sobre o que pensam acerca das propostas de Villepin, o apoio é largamente maioritário, quer para o recolher obrigatório (73%) quer para o reestabelecimento do financiamento às associações locais (89%) e para a formação profissional dos jovens a partir dos 14 anos (83%). À parte os extremos (PC e extrema-esquerda nuns casos, FN noutros), estas ideias não suscitam clivagens sociais ou ideológicas significativas.

E numa sondagem LH2 do dia 5, o apoio ao Governo aumentou.

by Pedro Magalhães

Sociologia a mais e Sociologia a menos

Posted November 8th, 2005 at 4:22 pm4 Comments

Augusto Santos Silva, sociólogo, militante do PS, ministro:

"'Ninguém sabe qual vai ser o próximo Presidente da República. Até ao passado mês de Julho todos os estudos de opinião davam o não candidato assumido (Cavaco Silva) como o próximo PR. Era um passeio triunfal. Agora não há uma única sondagem que dê por garantida a vitória de Cavaco Silva à primeira volta' disse Santos Silva. 'Foi a entrada em cena de Mário Soares que transformou uma coroação num a verdadeira eleição', argumentou. Considerou ainda a primeira volta das Presidenciais, a 22 de Janeiro, como as 'primárias' do candidato da esquerda. 'A direita ou ganha à primeira volta ou não ganha. É impossível, nos termos da sociologia eleitoral portuguesa, que a direita ganhe à segunda volta', garantiu."


Nuno Melo, líder parlamentar do CDS-PP:

"O líder parlamentar do CDS-PP classificou hoje os distúrbios que se registam em França há doze dias como 'uma pesada factura' de 'políticas de imigração laxistas' nos países da União Europeia que têm sido governados pela esquerda. (...) Nuno Melo sublinhou que 'nada, mas mesmo nada, justifica a violência, nada justifica que se atente contra a vida de cidadãos inocentes, que se destruam bens, muitas vezes adquiridos com muitas dificuldades'. 'Quando se assiste a isto, em primeiro lugar tem de se impor a ordem e depois discutir a sociologia', defendeu.

by Pedro Magalhães

Impeachment

Posted November 8th, 2005 at 1:43 pm4 Comments

A hipótese é, como se costuma dizer (nunca percebi exactamente porquê), "académica". Mas os resultados são significativos na medida em que, pela primeira vez, há uma maioria a favor do "Sim":

Zogby, 29 Out.-2 Nov., N= 1200, Telefónica.

If it is found that George W. Bush did not tell the truth about his reasons for going to war with Iraq, do you think Congress should hold him accountable through impeachment?
Yes:53% (em Junho, 42%)
No: 42% (em Junho, 50%)
DK/NA: 5% (em Junho, 8%)

Entretanto, discute-se nos Estados Unidos "quão baixas" poderão vir a ser as taxas de aprovação de Bush. O mais recente recorde negativo é 35%, e há sinais que possa vir a baixar ainda mais. Por um lado, porque o apoio entre os eleitores que se identificam como "Republicanos" está a diminuir. Por outro lado, porque o número de eleitores que se identificam como "Republicanos" parece estar, ele próprio, a diminuir.

by Pedro Magalhães

Haja esperança

Posted November 8th, 2005 at 12:46 pm4 Comments

Escreve-se na Lâmpada Mágica:

Espero que alguém (alô Pedro) esteja a contar o tempo de antena que têm tido os vários candidatos à presidência, contando, como é óbvio, com o tempo de antena que é dado aos seus apoiantes quando eles falam dos candidatos. Tenho a certeza de que os resultados seriam extremamente interessantes e mostrariam com clareza cristalina quem é filho e quem é enteado nesta "democracia" mediática que temos.

Há razões para ter esperança. A imprensa tem divulgado (pelo menos o Público), salvo erro desde 2002, o resultado de análises feitas por uma empresa chamada Memorandum do conteúdo dos noticiários televisivos, incluindo nº de notícias por figuras políticas e seu tempo de exposição. Por outro lado, a Cyberlex, já aqui mencionada (e pouco depois, por coincidência, mencionada também pelo Abrupto), fez para as eleições de 2005 uma análise da imprensa onde, entre outras coisas, se analisa também a visibilidade dada a figuras políticas.

Sei isto melhor porque - perdoem a publicidade - ambas as empresas foram contratadas por um projecto de que sou um dos coordenadores no ICS para nos fornecerem análises detalhadas dos conteúdos da televisão e da imprensa durante a campanha das legislativas de 2005. Os resultados dessas análises - muito interessantes, creio - foram divulgados numa sessão que ocorreu aqui no ICS no dia 17 de Junho e relatados, nas suas linhas gerais, na imprensa.

Convém só dizer, contudo, o óbvio: nem toda a exposição mediática é boa. O candidato com maior exposição e tempo de antena nos jornais e na televisão durante a campanha para as legislativas de 2005 foi, de longe, Pedro Santana Lopes...

by Pedro Magalhães

Premonições

Posted November 7th, 2005 at 6:57 pm4 Comments

TNS/Sofres, 26-27 Outubro*, N=1000, Quotas, Telefónica

A votre avis, est-ce que dans les deux ou trois mois à venir, les principaux problèmes qui vont se poser en France...


*A morte dos dois jovens em Clichy-sous-Bois ocorreu na noite do dia 27.

by Pedro Magalhães

Le malaise français, em números (3)

Posted November 7th, 2005 at 3:21 pm4 Comments

Sondagem CSA/TMO, 2-3 Novembro 2005, N=1002, Quotas, Telefónica.

Avez-vous une très bonne image, une assez bonne image, une assez mauvaise image ou une très mauvaise image de Nicolas Sarkozy comme Ministre de l'intérieur ?



Apesar (ou por causa) da "racaille"...

Uma análise mais detalhada mostra que as opiniões maioritariamente negativas sobre Sarkozy estão concentradas entre os desempregados, trabalhadores por conta própria e indivíduos com elevada instrução (singular combinação).

by Pedro Magalhães

Le malaise français, em números (2)

Posted November 7th, 2005 at 1:36 pm4 Comments

Um estudo do IFOP com uma amostra de 38000 inquiridos (!!) revela alguns dados interessantes sobre as orientações políticas dos estrangeiros residentes em França.

1) Orientações de esquerda, particularmente PS, são hegemónicas entre os estrangeiros, particularmente os de religião muçulmana.


2) Relação entre religião muçulmana e identificação partidária ainda mais intensa entre os cidadãos de nacionalidade francesa do que entre os estrangeiros residentes. O fenómeno é explicado pela correlação entre idade e nacionalidade entre os muçulmanos: os estrangeiros são principalmente os mais velhos (1ª geração) e, logo, mais conservadores e tradicionalistas.


3) Um fenómeno fascinante, o da pertença de muçulmanos à FN em números consideráveis e comparáveis ao da população em geral, especialmente entre os estrangeiros. A explicação, bem plausível, do IFOP:

On constate que la proximité au FN (...) est comparable parmi les Français et les étrangers (un peu moins élevé parmi les musulmans), signe que le discours sécuritaire, la référence aux traditions, la dénonciation de l’establishment mais aussi le refus de toute (nouvelle) immigration peut séduire d’autres personnes que les seuls Français de souche.

by Pedro Magalhães

Le malaise français, em números

Posted November 4th, 2005 at 6:49 pm4 Comments

Confiança no Presidente da República:



Confiança no Primeiro-Ministro:


Expectativas sobre conflitos sociais no futuro próximo:


Tudo aqui.

P.S.- E este anglófilo impenitente foi avisado por francófila amiga que, ao contrário do que já aqui esteve escrito, "malaise" é substantivo masculino. Pensando bem, só podia.

by Pedro Magalhães

Sobre o Supreme Court, por quem sabe

Posted November 2nd, 2005 at 5:22 pm4 Comments

De como a nomeação de um juiz conservador para substituir outro conservador não terá grande impacto na jurisprudência do Tribunal (mas de como a próxima nomeação pode ter um impacto dramático). Ver aqui, no Political Arithmetik.

by Pedro Magalhães