Pedro Magalhães

Margens de Erro

Questões e opções de resposta em sondagens

Posted June 27th, 2005 at 10:36 am4 Comments

Sucede por vezes que sondagens publicadas na mesma altura apresentam resultados diferentes. Há, à partida, várias razões possíveis para que isso suceda: a própria margem de erro amostral, diferentes opções na selecção das amostras, trabalhos de campo realizados em dias diferentes (podendo, logo, captar mudanças de curto-prazo nas preferências dos eleitores), etc.

Uma fonte adicional de discrepâncias é a formulação das perguntas. Há muito tempo, citei aqui um autor que me parece muito importante nestas matérias (John Zaller). Zaller tem sugerido a ideia de que as pessoas não têm, na verdade, opiniões. O que elas têm é uma série de "considerações" dentro da cabeça, a favor ou contra (ou simplesmente a propósito) das matérias sobre as quais são questionados em inquéritos. Quando são inquiridos, seleccionam uma dessas considerações de forma mais ou menos aleatória e despacham a resposta, coisa que, aliás, permite que respondam uma coisa e o seu contrário com 10 minutos de diferença (esta experiência foi feita...). Isto não significa que, em agregado, não haja estabilidade nas opiniões de um indivíduo ou de uma população. As "considerações" que cada um tem na cabeça não estão lá por acaso, e mesmo que estivesse, a lei das médias gera estabilidade geral. Mas sugere que a captação de opiniões através de inquéritos é uma coisa muito frágil, muito e especialmente dependente do estímulo concreto que é fornecido pela formulação da pergunta...

Toda esta conversa a propósito das sondagens de hoje no Público e no DN. Fichas técnicas e alguns resultados:

DN: Marktest, 14-17 Junho, N=813, Quotas, Telefónica.
Público: Católica, 18-20 Junho, N=1354, Estratificada Aleatória, Presencial.

1. DN. "Concorda com as medidas do Governo para combater o défice?"
Sim: 40%
Não: 44%
Ns/Nr: 16%

Público: "Recentemente, o governo aprovou uma série de medidas para reduzir o défice do Orçamento de Estado. Em geral, diria que concorda com estas medidas, que discorda delas ou que ainda não sabe o suficiente para se pronunciar?"
Concorda: 27%
Discorda: 39%
Não sabe o suficiente para se pronunciar: 32%
Não responde: 2%

2. DN: "Concorda com a subida da idade de reforma para 65 anos?"
Sim: 30%
Não: 63%
Ns/Nr: 4%

Público: "Queria pedir a sua opinião sobre algumas dessas medidas concretas. (...) Concorda com ou discorda da aproximação da idade legal de reforma na função pública à idade legal de reforma no sector privado?"
Concorda: 58%
Discorda:32%
Ns/Nr:10%

Quais as "melhores" estimativas das opiniões da população? À falta de erros graves na formulação das perguntas, não me parece que haja resposta óbvia. Por exemplo, a pergunta DN sobre as medidas do défice impede que os eleitores de "refugiem" na opção "não sei", obtendo uma divisão mais clara das opiniões dos eleitores. Mas não será que, por isso mesmo, acaba por captar uma série de "não opiniões", facilmente modificáveis a curto-prazo?

E o que dizer da idade de reforma, em que os dois inquéritos produzem resultados aparentemente contraditórios? Mas serão eles verdadeiramente contraditórios? A pergunta DN usa a linguagem mais coloquialmente aceite para descrever a medida. Mas captará ela a substância dessa medida? A pergunta do Público usa a linguagem que o Primeiro Ministro usou no parlamento para apresentar a medida. Mas não condicionará as opiniões ao estímulo que o governo quis dar e à forma como ele quis apresentar a medida?

Dúvidas para as quais não tenho resposta inequívoca. A não ser para comentar o poder e a importância da linguagem e do discurso, não apenas nos inquéritos, mas também na política em geral. Uma mesma medida pode ser enquadrada pelo discurso político de formas diferentes, e a forma que acaba por prevalecer na consciência dos eleitores pode condicionar o seu apoio ou a sua oposição a essa medida...

by Pedro Magalhães

Autárquicas, Lisboa

Posted June 27th, 2005 at 10:26 am4 Comments

Eurosondagem, 20-22 Junho, N=1525, Aleatória, Telefónica.

PSD- Carmona Rodrigues: 41%
PS- Manuel Maria Carrilho: 33%
CDU-Ruben de Carvalho: 9%
BE-José Sá Fernandes: 8%
CDS/PP- Maria José Nogueira Pinto: 4%

A soma dá 95%. Pela notícia online, a única a que tive acesso, não se percebe se estamos perante indecisos, outros, brancos/nulo, ou uma qualquer combinação dos anteriores, mas é provável que os 5% que faltam correspondam a OBN (outros, brancos e nulos).

by Pedro Magalhães

Peritos

Posted June 20th, 2005 at 1:01 pm4 Comments

Vale a pena ler este post de Pacheco Pereira (PP). A linha é, de facto, muito fina - se é que existe - entre a contribuição do "politólogo" que pode adiantar qualquer coisa ao conhecimento de um determinado fenómeno político e a contribuição que é uma "opinião política como qualquer outra". E partilho da preocupação com o facto de essas contribuições, sejam elas meras "opiniões" ou não, aparecerem por vezes enquadradas com uma aura especial de "isenção e intangibilidade". Se um "politólogo" ou qualquer outro "cientista" (atenção às aspas) é criticado (por vezes com inusitada violência) pelos seus erros e omissões no interior da própria academia, como imaginar que pudesse estar isento de críticas quando se desloca à "praça pública"?

Contudo, será que tudo aquilo que os "politólogos" dizem na comunicação social se resume, como defende PP, a "truísmos" ou "opiniões políticas como quaisquer outras"? Será que toda e cada uma (ou até a maior parte) das intervenções públicas de académicos que estudam fenómenos políticos se encaixam nestas duas categorias? Eu gostaria de pensar que não, mas Pacheco Pereira lá terá a sua "opinião" sobre o assunto, se bem que ela própria esteja sujeita - porventura com tanta ou tão pouca justiça - a ser descrita também como meramente "política" (ver aqui).

Mas mesmo que Pacheco Pereira tenha razão em descrever todas as contribuições "não truísticas" dos académicos que estudam os fenómenos políticos como "opiniões políticas ", qual é exactamente o problema? O que o faz pensar que essas opiniões são "como quaisquer outras"? Não poderá o debate político eventualmente beneficiar da contribuição de pessoas cujas "opiniões políticas" são informadas, claro, pela sua ideologia e convicções políticas, mas também, claro, por uma formação académica específica que os faz prestar atenção a determinadas fenómenos e produzir sobre elas um determinado tipo de discurso? Ficamos a perder assim tanto com isso?

O discurso político sobre a economia e a política nos Estados Unidos fica a perder muito com as opiniões dos economistas e dos politólogos que "descem" da academia para dizer o que pensam informados por aquilo que sabem ou julgam saber ao longo de anos de actividade académica? Não será que o que nos falta é, precisamente, um maior número de public intellectuals, pessoas capazes de, sem abdicar de darem as suas opiniões e de explicarem "de onde vêm", sejam também capazes de as dar fazendo a ponte para aquilo que na academia se julga saber sobre os temas em discussão? (e não será um dos problemas do debate político nos Estados Unidos o declínio desses public intellectuals e sua crescente substituição por um exército de political pundits, pessoas cuja única e exclusiva actividade é a de...dar opiniões?).

Ou será que devemos concluir que o protagonismo no debate político em Portugal deve ser dado exclusivamente a pessoas cuja actividade fundamental é a de fazer política, mas que, apesar de nunca esconderem que estão a dar a sua "opinião", fazem-no manipulando o abundante capital simbólico que recolhem da sua suposta condição de "académicos", nunca se rebelando contra esse enquadramento que deles é dado nos media?

by Pedro Magalhães

13 dias e a "vontade do povo"

Posted June 20th, 2005 at 11:22 am4 Comments

1. Dinamarca, Vilstrup/Politiken, 3 de Junho, 1037 entrevistas, telefónica

Should the scheduled referendum on the European Constitution take place, or be called off?
Denmark should still hold the referendum as scheduled: 53%
The referendum should be called off in light of the recent rejections: 31%
Undecided: 16%

2. Dinamarca, Catinét Research, 16 Junho, 1020 entrevistas.

Should the government stand by its plan to hold a referendum to ratify the European Constitution?
Yes: 33%
No:50%
Unsure: 17%

by Pedro Magalhães

Contas galegas

Posted June 20th, 2005 at 10:18 am4 Comments

PP: 44,9% (37)
PSdeG: 32,5% (25)
BNG: 19,6% (13)

Mas...falta contar os votos da emigração galega. O que pode acontecer?

Ver aqui:
"a emigración galega responde de xeito case sistemático a un mesmo patrón de voto. Nas eleccións autonómicas como nas xerais, a diáspora galega tradicionalmente sempre lle daba o trunfo ao partido que goberna no Estado, quer o PP quer o PSOE, sen importar cal dos dous está a gobernar en Galiza (excepto nunha ocasión, nas autonómicas de 1993, onde o PP gañou ao PSOE por pouco), mentres que o BNG sempre obtivo porcentaxes moi reducidas de voto (non atinxiu nunca unha porcentaxe superior ao 7%)."

E aqui:
"Tal e como están as cousas, o PP necesitaría conseguir arredor de 10.000 votos dos emigrantes máis co PSOE en Pontevedra para poder conseguir o escano 38 que lle devolvería a maioría absoluta. Nas eleccións de 2001, o PP logrou en Pontevedra 13.292 votos procedentes do CERA; o PSOE, 4.559 e o BNG 1.186. Con estes resultados, o PP non renovaría a maioría absoluta, pero polo pelo dun carneiro. Haberá por tanto que agardar 8 días para coñecer o desenlace".

Quanto às sondagens, a mais recentes estiveram todas muito próximas- como podem confirmar aqui - à excepção da Opina de 12 de Junho (curiosamente, a que foi realizada mais perto das eleições. Já no referendo francês tivemos um fenómeno semelhante...).

by Pedro Magalhães

Autárquicas, Sintra

Posted June 18th, 2005 at 7:49 pm4 Comments

Eurosondagem, 13-15 Junho, N=1011, Telefónica.

PSD/CDS (?) - Fernando Seara: 33%
PS - João Soares: 33%
CDU: Batista Alves: 8,5%
BE - João Silva: 7%
Outros: 4,5%
Indecisos: 15%

by Pedro Magalhães

Autárquicas, Porto

Posted June 18th, 2005 at 7:45 pm4 Comments

Eurosondagem, 7-9 Junho, N=1025, Telefónica
PSD/CDS (Rui Rio): 39%
PS (Francisco Assis): 33%
CDU (Rui Sá): 9%
BE (Teixeira Lopes):3%
Outros:5%
Indecisos: 11%

by Pedro Magalhães

A opinião pública

Posted June 17th, 2005 at 3:59 pm4 Comments

Há dias, acabei de ler o Saturday do Ian McEwan. Não estou particularmente impressionado. Gosto muito de alguns livros anteriores. Atonement mais que todos, talvez, se bem que The Innocent menos que todos os outros, de certeza. Ponho este algures no meio.

Mas há no livro uma passagem daquelas que se pode pedir para "comentar" num teste de uma qualquer cadeira de "Estudos de Opinião Pública". A personagem principal é Henry Perowne, um neurocirurgião, meia-idade, vagamente progressista, se bem que no alto de uma apoteótica trajectória de ascenção social até à upper middle class, já pouco recordado dos tempos em que era estudante e vivia com a mulher e a filha num apartamento minúsculo e já nada envergonhado do seu Mercedes S500.

O Saturday do título é um dia concreto, o da manifestação em Londres contra a guerra no Iraque. A certa altura, Perowne comenta algo indignado que estranha que na manifestação não haja cartazes contra a tortura e a opressão no Iraque. E diz que nunca poderia juntar-se a esta manifestação. Apesar de não estar certo das razões da guerra, teve um paciente exilado iraquiano que lhe contou como foi torturado (e por isso, só as razões "humanitárias" da guerra o poderiam persuadir, the only case for the war worth making).

Mas num dispositivo típico do livro - que nunca nos deixa interpretá-lo como um panfleto sobre a guerra nem nos alivia incertezas sobre a posição de McEwan ou Perowne - logo após contar isto, Perowne distancia-se imediatamente da sua indignação inicial, e reflecte: se não lhe tivesse calhado aquele paciente iraquiano, se não tivesse conhecido em primeira mão as histórias de tortura, poderia perfeitamente estar ali com eles na manifestação. Da mesma maneira que, alguns deles, estão ali por outras e tão boas razões - "reais", vividas, outros "iraquianos". A vida é feita de acidentes de percurso. A opinião pública é uma coisa completamente aleatória.

by Pedro Magalhães

A teoria dos dominós

Posted June 16th, 2005 at 2:25 pm4 Comments

Irlanda, TNS, 8 Junho, N=1000, Telefónica:

Should the Irish government go ahead with a referendum on the European Constitution?
Should go ahead: 45%
Should not go ahead: 34%
Don’t know: 21%

How would you vote if a referendum takes place?
In favour :30%
Against: 35%
Not sure: 35%

by Pedro Magalhães

Mais "Minho Norte"

Posted June 16th, 2005 at 2:22 pm4 Comments

Com muito maior conhecimento de causa sobre as sondagens para as eleições de 19 na Galiza, ver aqui os artigos de Carlos Neira.

by Pedro Magalhães