Pedro Magalhães

Margens de Erro

Como apresentar os resultados?

Posted January 30th, 2005 at 5:07 pm4 Comments

Na Praia, o Ivan coloca algumas questões interessantes:

Por que se extrapola das intenções de voto manifestadas agora (23% para o PS, 14% para o PSD) para resultados comparáveis com os de eleições (46% para o PS, 28% para o PSD)? Não faria mais sentido dizermos que, neste momento, há apenas 23% de eleitores que declaram ir votar no PS e 14% no PSD? Ao criar artificialmente percentagens similares a resultados eleitorais, a sondagem não cria uma ilusão sobre o que ao mesmo tempo, no blog, se diz ser impossível prever?

O Ivan não erra ao detectar a existência de um problema. Se quem faz as sondagens sabe que elas são apenas uma "fotografia" de um momento e não podem ser vistas como previsões, então, ao apresentar resultados como se de "resultados eleitorais" se tratassem, induz o público em erro. Eu sei que o problema existe. Mas acho que as alternativas são piores.

Explico-me. Imaginem que, em vez de apresentarem os seus resultados como se de resultados eleitorais se tratassem, todos os jornais apresentassem os resultados das sondagens que encomendam, digamos, em "bruto". Se assim fosse, teríamos, por exemplo, para o PS:

Marktest: 28.7%
Católica: 23%
Aximage: 43,3% (e é assim que de facto destacam o resultado)
Eurosondagem:42% (calculado na base dos 7,8% que reportam de "não sabe/não responde")
Euroteste: 40%

Esta comparação diz-vos alguma coisa? Claro que podíamos ir mais longe. Os "resultados brutos" da Católica e da Marktest calculam o voto do PS incluindo na base as pessoas que declararam abertamente não ir votar (15% na Católica, 6% na Marktest). Mas notem: a Aximage anuncia uma abstenção de 42,2%. Se só comparássemos resultados brutos, a comparação continuaria a não fazer sentido, porque a disparidade na abstenção é enorme (não me perguntem como a Aximage consegue que 42,2% das 600 pessoas inquiridas admitam aos seus inquiridores que não tencionam votar. Não faço ideia como isto se consegue).

Haveria ainda uma outra hipótese: fazer como a Aximage tem feito (e a Eurosondagem costumava fazer), dando destaque aos resultados calculados numa base que inclui os indecisos. Contudo, o problema continua: enquanto a Aximage apanha 9% de indecisos e a Eurosondagem 7,8% nas suas últimas sondagens, a Católica apanha 22% de indecisos e a Marktest 32% de "não sabe"/"não responde", disparidade que resultará, provavelmente e pelo menos em parte, de diferentes opções metodológicas. Logo, esse resultados continuariam a não fazer sentido para o público em geral do ponto de vista comparativo.

Assim, a solução correcta é, a meu ver, a que actualmente existe e é prevista na lei. Por um lado, todas as empresas têm de apresentar os seus "resultados brutos" (o que as pessoas lhes dizem quando lhes é perguntado se vão votar e em quem). É na base destes que o Ivan, e bem, tirou as conclusões que tirou. E podem também apresentar outros resultados, fazendo-o como muito bem entenderem, desde que expliquem claramente o que fizeram. Se a lei é de facto cumprida ou não, em particular no que respeita à publicação dos resultados brutos, é outro assunto, que diz respeito a esta instituição. Eu é que acho - e não obrigo ninguém a concordar comigo - que, para comparar as sondagens, tendo em conta o impacto que as variações metodológicas têm na percentagem de indecisos e de abstencionistas, os resultados brutos não chegam para dar uma ideia clara das diferenças entre as sondagens e da evolução dos seus resultados. E há uma coisa que tenho a certeza que não faz sentido: olhar para resultados eleitorais e compará-los directamente com sondagens que não redistribuem indecisos (ver aqui ou aqui).

Contudo, noto com satisfação que a última sondagem da Aximage teve uma apresentação de resultados distinta das anteriores. Como de costume, são apresentados os resultados com indecisos. Mas ficamos desta vez a saber qual é percentagem de indecisos, e é o próprio jornal que nos diz os resultados expurgados de indecisos, para que os possamos comparar com os resultados de outras sondagens. Isto não impede que o próprio responsável da Aximage exprima discordância com as pressuposições por detrás da redistribuição proporcional de indecisos. Tudo bem. Mas o problema não é saber qual o método de redistribuição de indecisos que melhor permite "prever" o que eles vão fazer. Nesta fase, não vale a pena fazer essas contas. O problema é simplesmente o de apresentar resultados que sejam comparáveis uns com os outros. E aqui, acho que não há alternativa, e que, desta vez, o Correio da Manhã e a Aximage fizeram bem.

É certo que o problema detectado pelo Ivan persiste. Será que quem olha para os resultados é sensível a todas estas subtilezas? Não creio. Será que, na prática, o público não acaba sempre por ser induzido em erro? Provavelmente. Mas acho que as alternativas são ainda piores.

by Pedro Magalhães

Poll of polls V

Posted January 30th, 2005 at 4:58 pm4 Comments

Quando, num post anterior, dizia que "amanhã há mais uma", estava enganado. Houve mais três: a que eu já esperava (Eurosondagem, para RR, SIC e Expresso), uma da Marktest (para DN e TSF) e outra da Aximage (Correio da Manhã).

Os resultados, tal como destacados pelos órgãos de comunicação que as publicaram, são os seguintes (espero que os problemas de legibilidade apontados por alguns leitores fiquem assim resolvidos):



Tratados os indecisos como abstencionistas, para fins de comparabilidade entre os diferentes resultados e com resultados eleitorais, ficamos com o seguinte quadro, em que a média não ponderada dos últimos resultados é feita em relação às cinco sondagens mais recentes. O trabalho de campo delas esteve muito próximo no tempo e assim englobamos todos os resultados de todos os institutos/empresas que os divulgaram até agora:



Nada do que disse aqui sobre os resultados mudou com a introdução das três novas sondagens. As diferenças mais substanciais entre as sondagens não têm a ver com o PS, mas sim com o PSD: estimativas entre 27,7% e 36%. Sobre a questão PCP/CDS/BE, a Eurosondagem e a Aximage têm sido muito consistentes em colocar o BE depois dos outros, mas oscilam na ordem CDS/CDU. Estamos a falar, claro, de ordenações que não resistem se tomarmos em conta as margens de erro amostrais, mas a recorrência destes resultados reduz a probabilidade de que sejam meramente ocasionais. Quanto à Euroteste, a Católica e a Marktest, teremos de esperar por mais resultados para saber se também elas têm padrões recorrentes.

by Pedro Magalhães

O PSD e as sondagens (continuação)

Posted January 28th, 2005 at 9:59 am4 Comments

Poll of polls IV

Posted January 27th, 2005 at 11:43 pm4 Comments

Com a adição das sondagens da Euroteste e da Católica, o quadro geral é o seguinte:



Como de costume, para tornar os resultados comparáveis entre si e com resultados eleitorais, são redistribuídos os indecisos das sondagens que não o fazem por iniciativa própria (procedimento contestável, eu sei, mas a meu ver necessário). Por razões já explicadas, a última da Aximage não é considerada.



1. Resultados relativamente seguros (na medida em que são comuns a todos os estudos):

*Neste momento, PS como o partido com maiores intenções de voto. Olha a grande novidade.

*Neste momento, PS acima dos 40%. Mais interessante, se bem que desde 1983 que o PS não ganha com menos de 40% (44,6% em 1995; 45% em 1999);

* Impossível saber ordem de CDS-PP, CDU e BE: mudanças de sondagem para sondagem, discrepâncias entre sondagens dos mesmos institutos e diferenças entre os partidos, na maior parte dos casos, abaixo da margem de erro. Isto é muito mais interessante. Desde 1995 que as diferenças reais entre o voto no CDS-PP e no PCP são muito reduzidas, tão reduzidas que não se podia, em bom rigor, pedir às sondagens que respondam à pergunta sobre qual deles teria mais votos. Mas que o BE se junte a este campeonato é uma novidade.

2. Incertezas resultantes do confronto entre as sondagens:
*A margem do PS: entre 19 pontos (Aximage, 10 Janeiro) e 8 pontos (Euroteste, 27 de Janeiro). A diferença é demasiado grande para ser acomodada na margem de erro amostral, nem parece explicada pela passagem do tempo.

*A percentagem de indecisos: para quem os reporta, variou entre 8% e 22%. Creio que isto é fruto da dicotomia telefónica/presencial. Não acredito, pura e simplesmente, em 8%, por razões que já expliquei.

* Maioria absoluta: nem vale a pena falar do tema. Mas ponhamos a coisa assim, cheia de pontos de interrogação, aspas e sinais de luzes: se usarmos a experiência da Eurosondagem, já descrita aqui, e aplicarmos o resultado da poll of polls IV, o PS acaba (sem contar com Europa e Fora da Europa) com...115 deputados.

3. Dúvidas existenciais (ou seja, algumas fontes de erro que podem ser comuns a todas as sondagens):

*Ocultação diferencial da intenção de voto na direita. A do CDS já foi aqui especulada. A outra possível está no PSD. Sabe-se, desde aqui, que percepções vistas como dominantes (neste caso, a da má prestação do governo liderado por Santana Lopes) podem induzir segmentos do eleitorado a sentirem-se inibidos de revelar opções e atitudes vistas como minoritárias;

*"Sinceridade" vs. "Estratégia": o outro lado da ocultação diferencial de voto é dizer que votamos num partido, com o qual até se simpatiza e no qual sinceramente se votaria, mas que acaba por ser abandonado perto das eleições em favor de opções mais estratégicas. Três palavrinhas: Bloco de Esquerda.

*Abstenção diferencial: a grande némesis das sondagens. Nas sondagens, quase toda a gente vota. Chega o dia e, desses, só votam alguns. E esses alguns não são necessariamente iguais àqueles que declaram opções de voto que depois não se realizam. Quem são eles? Por enquanto, nem vale a pena pensar nisso. Mais sobre o assunto mais perto das eleições...

E amanhã há mais uma...

by Pedro Magalhães

Católica, 27 de Janeiro

Posted January 27th, 2005 at 11:09 pm4 Comments

Divulgados hoje na RDP e RTP e amanhã no Público, estes são os resultados que foram mais destacados da sondagem da Católica:

PS: 46%
PSD: 28%
CDU:8%
BE:8%
CDS-PP:6%
OBN: 4%

A forma como estes valores foram obtidos, de forma a serem directamente comparáveis a resultados eleitorais, foi a seguinte. Os resultados "brutos" (a distribuição das respostas directas das pessoas a quem foi perguntado se iriam votar e, se sim, em que partido votariam) foram estes:

PS:23%
PSD: 14%
CDU(PCP/PEV): 4%
BE: 4%
CDS/PP: 3%
Outros partidos: 1%
Brancos/nulos: 4%
Não tenciona votar: 15%
Não sabe/não decidiu: 22%
Recusa responder: 11%

A partir daqui, a pressuposição foi a de que os declarados indecisos se vão abster ou distribuir proporcionalmente pelas opções válidas de voto. Pressuposição razoável? Para já, confesso que não me interessa muito. Esta estimativa não visa prever resultados - proposta absurda a quase um mês das eleições e 20% de indecisos - mas é apenas uma maneira de descrever as intenções de voto tal como foram expressas pela amostra no passado fim de semana de uma forma comparável com resultados eleitorais. Quando estivermos mais perto das eleições, os objectivos serão diferentes, a análise dos resultados brutos terá também de mudar, e o tratamento de indecisos e votantes prováveis carecerá de afinação. Mas para já, ficamos assim. A única operação adicional foi a de tomar apenas como válidas as opções "branco/nulo" que tivessem sido reafirmadas numa questão posterior sobre "inclinação de voto", para evitar óbvias sobrestimações resultantes do recurso ao "branco/nulo" como opção de refúgio de indecisos ou abstencionistas.

Que mais posso dizer sobre a sondagem em si? Como as sondagens feitas até agora foram todas telefónicas, tenho enfatizado até agora os potenciais problemas do uso do telefone como modo de inquirição. Mas agora que sai esta - em que a inquirição foi presencial - importa ver os problemas do outro lado. É certo que dispensar o telefone faz com que o universo representado passe a ser composto por todos os eleitores, quer vivam em domicílios com telefone fixo ou não. Para além disso, a inquirição presencial gera menos recusas, recusas essas que são a primeira séria facada sofrida por qualquer tentativa de geração de uma amostra aleatória (dado que, com as recusas, o universo representado passa a ser não o dos eleitores, mas sim o dos eleitores "que não se importam de responder a sondagens", e que serão provavelmente diferentes dos outros). Creio, aliás, que esta é a chave para a diferença brutal entre a percentagem de "indecisos" captados por esta sondagem (22%) e as restantes (10%). For my money, 10% é uma grande subestimação daqueles que ainda não decidiram, especialmente quando sabemos, através da sondagem da boca das urnas de 2002, que 15% afirmou ter decidido a sua opção de voto na última semana...

Contudo, a inquirição presencial usada nesta sondagem da Católica também tem desvantagens muito importantes. Por um lado, ela impede o grau de monitorização do trabalho de campo que a telefónica permite. Numa sondagem telefónica, os inquiridores estão sentados em frente a um computador e usam um software que os "guia" de forma rigorosa na condução das entrevistas e no preenchimentos das respostas. Quando se envia inquiridores para o "campo", tudo se torna muito mais incerto, por muita que seja a formação que se dê. O cumprimento das regras de amostragem e a sujeição de todos os inquiridos a estímulos semelhantes está muito menos garantida numa sondagem presencial.

Para além disso, olhem bem, amanhã no Público, para a ficha técnica: os inquiridores da Católica foram a 19 freguesias do país. 19, em 4621. O objectivo de qualquer procedimento de amostragem descreve-se numa frase: não perder variância potencialmente relevante. Ora, com um telefone, a dispersão dos inquiridos pelo território é fácil, dentro dos limites da ligação dos domicílios a telefones fixos. Contudo, quando se levam inquiridores a localidades espalhadas pelo país, há um dilema: "dispersão" vs. "tempo/dinheiro". O dinheiro tem limites, e o tempo, nestas coisas, é sempre reduzido: ao contrário do que sucede num inquérito "académico", onde geralmente o que conta é medir dimensões mais ou menos estáveis dos valores e atitudes dos indivíduos, não faz sentido demorar duas semanas a fazer um inquérito cujo objectivo é descrever mutáveis intenções de voto. Mas há um preço a pagar por isto, que pode ser muito elevado: só se pode ir a poucos sítios, e em pouco tempo. Claro que se tenta mitigar o problema garantindo, através da estratificação, que localidades e inquiridos se encontram proporcionalmente dispersos por habitat e regiões da mesma forma que a população. Outra coisa que se faz, neste caso, é assegurar que, preservando a aleatoriedade, as freguesias escolhidas tendem a exibir, no seu conjunto, um comportamento eleitoral semelhante ao do país. Mas 19 em 4621? Vale a pena meditar no assunto.

Por estas e outras razões, esta sondagem não vos deve merecer, em abstracto ou à partida, nem maior nem menor credibilidade que qualquer outra. Deve merecer a credibilidade que resulta da relação entre os procedimentos que usa e a realidade que está a tentar captar. Se a segunda fosse estável, seria fácil descobrir quais os procedimentos "óptimos". Mas como não é, a incerteza permanece.

by Pedro Magalhães

Euroteste, 27 de Janeiro

Posted January 27th, 2005 at 3:18 pm4 Comments

Uma nova sondagem, desta vez da Euroteste e publicada pela Visão. Os resultados destacados pela revista são os seguintes:

PS:40%
PSD:32%
CDS-PP:6%
BE:5%
CDU:4%
Outros, brancos, nulos:3%
Indecisos:10%

Tudo explicadinho e completo, sem casas decimais. A sondagem foi feita pelo telefone, no Continente, com 800 entrevistas estratificada por idade, sexo, habitat, região, ocupação e voto em 2002 (ou seja, combinando estratificação com quotas).

A notícia, para além de fornecer outras informações interessantes sobre questões adicionais às da intenção de voto, insiste na ideia de que o PS está longe da maioria absoluta. Mas não me parece que seja bem assim. Ou melhor, se é assim ou não é coisa que a que a sondagem não responde cabalmente.

Porquê? Porque se fizermos com que estes resultados se tornem comparáveis a resultados eleitorais, ou seja, eliminando os indecisos da base de cálculo percentual, os resultados ficam assim:

PS:44%
PSD:36%
CDS-PP:7%
BE:6%
CDU:4%
OBN:3%

E se pegarmos nestes números e fizermos a brincadeira da Eurosondagem descrita aqui anteriormente (com todas as limitações que o exercício tem), o PS fica com...113 deputados. Não me parece muito longe. Ou seja:

- os 40% do PS na sondagem só seriam 40% de votos se todos os indecisos votassem em partidos que não o PS;

- logo, se eles exprimissem de facto intenções de voto firmes até ao dia das eleições, é provável que o PS tivesse algo mais do que 40%.

Assim, a ideia de que este resultado significa ver a maioria absoluta por um canudo é contestável, da mesma forma que a ideia contrária também o seria. Eu sei que as pessoas querem certezas e coisas definitivas, mas o método não as dá.

Quanto à poll of polls, esperem até mais logo. Porque logo sai outra sondagem, e assim vemos tudo de uma vez.

by Pedro Magalhães

Delgado e as sondagens

Posted January 26th, 2005 at 6:45 pm4 Comments

Descontando o facto de Campo de Ourique não ser uma freguesia ou de as últimas sondagens nas eleições americanas terem, em média, falhado as previsões da margem de vitória de Bush por apenas 0,7% (aquilo que de mais próximo temos de um "milagre" para quem faz sondagens eleitorais) o artigo levanta questões interessantes.

by Pedro Magalhães

Vamos lá ao assunto do CDS…

Posted January 25th, 2005 at 3:34 pm4 Comments

Por que razão tendem as estimativas de resultados publicadas antes das eleições pelas diferentes empresas de sondagens a subestimar aquela que acaba por ser a votação do CDS-PP? A primeira e única resposta categórica a esta pergunta é simples: não sei. Mas tenho alguns palpites.

1. Manipulação propositada? Não me parece. Tudo é possível, claro. Mas reparem no seguinte: 1999 foi o ano a partir do qual o CDS começou a ser sistematicamente subestimado nas sondagens. Teve 8,2% dos votos na Europeias, mas todas as sondagens lhe deram menos. A sondagem que lhe deu menos foi feita pelo IPAM (Instituto Português de Administração de Marketing, creio), que lhe deu 3,9%, numa sondagem publicada pelo Diário Económico. A que lhe deu mais foi a Eurosondagem (7,3%), numa sondagem publicada pelo Semanário. Nas legislativas de 1999, o CDS-PP voltou a ser subestimado por todos. Quem lhe deu mais foi (outra vez) a Eurosondagem (muito próximo da realidade, com 8,2%), outra vez para o Semanário. Mas quem mais "prejudicou" o CDS-PP nas legislativas de 1999 foi, desta vez, a Aximage, numa sondagem para a SIC/Visão. Nas legislativas de 2002, a Eurequipa, trabalhando para o Independente, deu-lhe 9,1%. Todos os outros subestimaram os votos do CDS-PP, especialmente a Intercampus, numa sondagem para o Jornal de Notícias.

Detectam algum padrão que sugira manipulação? A acreditar nisso - e eu, friso, não acredito - pode haver quem queira sugerir que ela está presente nos resultados menos desfavoráveis dados por jornais "de direita" (Semanário; Independente). Mas notem que, nas legislativas de 1999, o Independente publicou uma sondagem da Metris que também "prejudicava" o CDS-PP (7%, contra os 8,2% que realmente teve). Em resumo, não me parece que a teoria da manipulação tenha pernas para andar.

2. Amostragem. Como descrito em post anterior, há quem use amostragens aleatórias, há quem use quotas e há quem use combinações das duas. E o próprio modo de inquirição pode ter consequências indirectas na amostragem: sondagens telefónicas tendem a gerar amostras, obviamente, representativas da população residente em domicílios com telefone fixo, o que por sua vez tende a sub-representar populações rurais e mais isoladas (sendo por isso mesmo mais frequente encontrar a utilização de quotas nas telefónicas...).

E aqui as coisas começam a fazer algum sentido. (Quem não tiver paciência para a estatística pode agora saltar três linhas): corri uma regressão linear muito simples com a inquirição (telefónica vs. presencial) e a amostragem (aleatória vs. quotas) como variáveis independentes, e os desvios cometido pelas 34 sondagens pré-eleitorais feitas desde 1991 que apresentaram estimativas para o CDS (últimas sondagens publicadas antes das eleições) como variável dependente. Resultado: se é verdade que a amostragem não faz diferença, as telefónicas tendem a apresentar um desvio sistemático e estatisticamente significativo contra o CDS (nada disto sucede com as estimativas dos restantes partidos).

3. Mas porquê? A razão pode não ter a ver apenas com a redução da população representada àquela que reside em domicílios com telefone fixo. Uma das coisas que uma sondagem face-a-face permite fazer é uma simulação de voto em urna, através da qual o inquirido não tem de revelar a sua opção de voto ao inquiridor. Infelizmente, não é possível estimar por que razão as sondagens face-a-face são menos desfavoráveis ao CDS. E isto sucede porque quase todas as últimas sondagens publicadas antes das eleições e realizadas face-a-face são, também elas, simulações. Por outras palavras: não sabemos se as sondagens presenciais subestimam menos o CDS por não serem telefónicas ou por serem simulações.

4. Mas ambas as coisas podem contar. O meu palpite é que o eleitorado do CDS tende a ocultar o seu sentido de voto, mais do que o eleitorado dos restantes partidos. Reparem: nas eleições de 2002, o CDS foi subestimado pelas sondagens pré-eleitorais, em média, em 2,4%. Curiosamente, no inquérito pós-eleitoral realizado pelo ICS em 2002, a recordação de voto no CDS (2 semanas depois das eleições) foi subestimada em..2,1%. Eu sei que são muito poucas observações para podermos tirar grandes conclusões, e é por isso que comecei o post dizendo que, em rigor, "não sei" por que razão o CDS é subestimado. Mas um palpite plausível é que, antes ou depois das eleições, há uma parte do eleitorado do CDS-PP "que nem às paredes confessa"...

Pode haver renitência em assumir que se é "de direita" num contexto ideológico e cultural no qual, devido ao passado autoritário, a direita saiu deslegitimada. E alguma razão haverá para que, antes dos anos 90 (antes de Manuel Monteiro e Paulo Portas), nunca tenha havido qualquer problema de "subestimação" do CDS . Se havia partido que era subestimado nos anos 80 e até meados dos dos anos 90, esse partido era o PCP (a "cultura da clandestinidade").

5. Há outra hipótese interessante, mencionada (indirectamente) aqui. Segundo este estudo, os eleitores do CDS são aqueles que mais afirmam "mudar de partido conforme a sua opinião em cada acto eleitoral". A Marktest sugere que "o CDS vai voltar a surpreender nas próximas eleições e, seguramente, pelas mesmas razões". Mas a minha sugestão é que, se é verdade que o CDS-PP pode surpreender, também é verdade que o pode fazer num ou noutro sentido. Sabe-se que a distância ideológica entre os eleitores do PSD e do CDS é reduzida, e que a sua decisão de voto tem muito a ver com a imagem dos líderes e outros factores conjunturais (em vários capítulos, aqui). Mas isso indica, então, que o destino do CDS como partido "subestimado" nas sondagens não está fechado. O CDS pode ter um late surge. Mas também pode ser especialmente vulnerável ao voto útil, ou seja, tendo um late decline. Tudo depende de como as coisas correrem no desfecho da campanha.

6. Não acredito muito que esta "volatilidade" de curto prazo no voto CDS seja a principal razão da sua subestimação nas sondagens. O ponto 4. anterior, se verdadeiro, ajuda a apoiar esta ideia. Não nego a hipótese de que, em 2002, tenha havido um late surge a favor do CDS-PP. Mas se ele fosse muito significativo para este efeito, não se perceberia por que razão uma sondagem pós-eleitoral tenderia a subestimar o CDS tanto como as sondagens pré-eleitorais. E certamente verificaríamos uma tendência para que sondagens feitas mais perto das eleições subestimassem menos o CDS, ou fossem, em absoluto, mais precisas na estimação do voto no partido. Essas tendências não existem.

E pronto, é tudo o que me ocorre. Em resumo, o meu palpite é que a subestimação do CDS se deve a:

- subrepresentação (ou deficiente representação) do eleitorado rural nas sondagens telefónicas;

- ocultação diferencial por parte dos inquiridos da sua intenção de voto no CDS-PP.

Agora façam o favor de não presumir que o voto no CDS-PP em 2005 será aquilo que as sondagens dizem "mais uns dois e tal por cento". Há duas razões para não cometer esse erro, entre muitas: os institutos de sondagens sabem onde erram, têm palpites sobre as fontes desses erros e tomam medidas correctivas; e se o ponto 5. servir para alguma coisa, ele sugere que o CDS pode rapidamente passar de "subestimado" a "sobrestimado". Estou só a avisar...

by Pedro Magalhães

O centro

Posted January 25th, 2005 at 8:49 am4 Comments

Isto parece muito interessante. Haverá algum jornal a pegar nisto?

by Pedro Magalhães

Uma boa/má notícia

Posted January 24th, 2005 at 7:05 pm4 Comments

Num post anterior, fiz referência a uma análise dos resultados das sondagens pré-eleitorais feitas em Portugal, disponível aqui. Contudo, acabo agora de saber que essa análise foi aceite para publicação aqui, e sou obrigado, por razões de copyright, a retirá-lo do site do ICS. Lamento, e peço muita desculpa a quem fez links para o estudo. Mas enfim, já tive notícias piores...

by Pedro Magalhães